Eu Sou o Mensageiro

MARKUS ZUSAK



Orelha do livro:

Ed Kennedy. Dezenove anos. Um perdedor.
    Seu emprego: taxista. Sua filiao: um pai morto pela birita e uma me amarga, ranzinza. Sua companhia constante: um cachorro fedorento e um punhado de amigos 
fracassados.
    Sua misso; algo de muito importante, com o potencial de mudar algumas vidas. Por qu? Determinado por quem? Isso nem ele sabe.
    Markus Zusak, autor do best-seller A Menina que Roubava Livros, nos fornece essas respostas bem aos poucos neste incomum romance de suspense, escrito antes do 
seu maior sucesso. O que se sabe  que Ed, um dia, teve a coragem de impedir um assalto a banco. E que, um pouco depois disso, comeou a receber cartas annimas. 
O contedo: invariavelmente, uma carta de baralho, um ou mais endereos e... s. Fazer o que nesses lugares? Procurar quem? Isso ele s saber se for. Se tentar 
descobrir, E, com o misto de destemor e resignao dos mais clssicos anti-heris, daqueles que sabem no ter mesmo nada a perder nesse mundo, e o que ele faz.
    Ed conhecer novas pessoas nessa jornada. Conhecer melhor algumas pessoas nem to novas assim. Mas, acima de tudo, a sua misso  de autoconhecimento. Ao final 
dela, ele entender melhor seu potencial no mundo e em que consiste ser um mensageiro.


eu sou
   o mensageiro




Copyright  2002 Markus Zusak

TTULO ORIGINAL
The Messenger

EDIO
Jaime Biaggio

REVISO
Jos Figueiredo
Isabel Newlands

DIAGRAMAO
Ilustrarte Design e Produo Editorial

CAPA E PROJETO GRFICO
Mariana Newlands

IMAGEM DA CAPA
Bettmann/Corbis/LatinStock

IMAGEM DA FOLHA DE ROSTO
Herbert Spichtinger/zefa/Corbis/LatinStock



CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

Z93e             Zusak, Markus, 1975-
   Eu sou o mensageiro / Markus Zusak ; traduo de Antnio E. de Moura Filho. - Rio de Janeiro : Intrnseca, 2007.
    il.

   Traduo de: The Messenger
   ISBN 978-85-98078-29-8

   1. Motoristas de taxi - Fico. 2. Assaltos a banco - Fico. 3. Mensageiros - Fico. 4. Romance australiano. I. Moura Filho, Antnio E. de. II. Ttulo.

07-3191.                                                                                                                    CDD 828.99343
CDU 821.111(94)-3

[2007]

Todos os direitos desta edio reservados 

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22451-050 - Gvea
Rio de Janeiro - RJ
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Fax: (21) 3874-0578
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    Para Scout





   AGRADECIMENTOS



Agradecimentos especiais  Baycrew, ao NSW Taxi Council e  Anna McFarlane por seus conhecimentos e comprometimento.

   PARTE        UM



A PRIMEIRA MENSAGEM





  A        O ASSALTO
  ?

  O assaltante  um man.
    Eu sei disso.
    Ele sabe disso.
    O banco inteiro sabe disso.
    At meu parceiro Marvin, que  mais man do que o assaltante, sabe disso.
    O pior de tudo  que o carro do Marv est estacionado l fora, e o parqumetro, correndo. Estamos todos deitados aqui no cho de cara pra baixo, e os 15 minutos 
de estacionamento esto quase acabando.
 Por que esse cara no anda logo com isso?  falo bem baixinho.
 Pois   Marvin responde.  Que absurdo  o som da voz dele bate no cho e faz aquela vibrao seca.  Vou levar uma multa por causa desse otrio. Outra multa 
no d, Ed. No t podendo.
     E esse carro a nem vale a dor de cabea.
     Como  que ?
    Marv olha pra mim. D pra sacar que ele est ficando puto. Ofendido. Se tem um lance que o Marv no admite,  que algum fale mal de seu carro. Ele pergunta 
de novo.
     O que voc disse mesmo, Ed? Respondo baixinho:
     Eu disse que esse carro no vale a dor de cabea, Marvin,
     Olha s, eu engulo qualquer desaforo, Ed, mas...
    Eu me desligo do que ele est dizendo, porque com toda sinceridade, quando o Marv comea a falar do carro, ningum agenta a chatice. Ele no consegue parar 
de falar, parece at criana; s que d um tempo! O cara acabou de fazer 20 anos!
    A falao continua por mais um minuto at que eu tenho que dar um corte.
 Marv, esse carro  uma vergonha, t ligado? O troo no tem nem freio de mo, p! T ali parado por causa dos dois tijolos que voc colocou nas rodas de trs, 
cara  tento falar o mais baixo possvel.  Na maioria das vezes voc nem se d ao trabalho de trancar. Acho at que voc quer mais  que algum faa um estrago 
nele pra voc poder receber o seguro.
     No tem seguro nenhum.
     T vendo s?
     O pessoal do Automvel Clube disse que no valia a pena.
     D pra entender.
    Nesse momento, o bandido se vira e grita:
     Quem  que t de papo a atrs?!
    Marv no d a mnima. Est nervosinho por causa do carro.
 Quando eu te dou uma carona pro trabalho, voc no reclama, n, seu presunoso?
     Presunoso? Que diabo quer dizer isso?
 Ae, j mandei calar o bico a atrs  o bandido grita de novo.
 ENTO ANDA LOGO COM ISSO!  Marv responde todo puto. Agora j era, o cara est com a macaca. Ferrou.
    Ele est com a cara virada pro cho do banco.
    Est acontecendo um assalto.
    Est quente demais para a primavera.
    O ar-condicionado est pifado.
    Acabaram de avacalhar com o carro dele.
    O velho Marv j est a ponto de explodir, ou de enlouquecer, sei l; a coisa vai ficar feia.
    Continuamos esticados no cho, de cara para o carpete azul-claro, velho, sujo, e ns dois estamos ali, um comendo o outro com os olhos, Ritchie, um camarada 
nosso, est com a metade do corpo embaixo da mesa do Lego, deitado entre todas as peas que se esparramaram quando o bandido entrou gritando e sacudindo tudo. Audrey 
est bem atrs de mim, e minha perna est ficando dormente porque o p dela est bem em cima.
    A arma do assaltante est apontada para o nariz de uma infeliz atrs do balco. O nome no crach  "Misha". Coitada da Misha. A garota treme tanto quanto o assaltante 
enquanto ela espera um z-man colocar o dinheiro na sacola  uma figura de 29 anos, com a cara cheia de espinha, usando uma gravata e com o sovaco todo ensopado 
de suor.
     P, por que esse cara no anda logo?  Marv reclama.
     Eu j disse isso  lembro.
     E da? No posso fazer um comentrio, no?
     Tira o p de cima de mim  digo pra Audrey.
     O qu?  ela pergunta.
 Eu disse pra tirar o p de cima de mim... Minha perna t ficando dormente.
    Ela tira, meio que de m vontade.
     Valeu.
    O bandido se vira e grita pela ltima vez:
     Quem  o filho-da-puta que t falando?
    O negcio com o Marv  o seguinte: mesmo quando tudo est na boa, o cara j  problemtico. Gosta de criar uma encrenca.  quase antiptico. E aquele tipo de 
amigo com quem a gente est sempre discutindo  ainda mais quando o assunto  a merda do Falcon, a lata-velha. E quando ele no est com a macaca,  um babaca imaturo.
    Ele grita de sacanagem:
     E o Ed Kennedy, moo.  ele que t de papo.
     Muito obrigado!  eu digo.
    (Meu nome completo  Ed Kennedy. Sou taxista, tenho 19 anos. No sou nada diferente dos outros jovens daqui destes subrbios  no tenho l muitos planos pro 
futuro, e as possibilidades so poucas. Tirando isso, leio mais livros do que deveria, sou um zero  esquerda na cama e no entendo nada de imposto de renda. Prazer.)
 Cala essa boca, Ed!  o bandido grita.  Seno vou at a e mando chumbo nesse traseiro.
    Marv d uma risadinha.
    Parece at que estou na escola de novo, com o professor de matemtica  aquele sdico  na frente da sala s dando ordens, quando no duro mesmo ele est cagando 
e andando, no v a hora da sirene tocar e poder voltar pra casa, encher o bucho de cerveja e engordar feito um porco de cara pra TV.
    Olho pro Marv. D vontade de esganar o moleque.
 Qual , meu irmo? T querendo morrer? Voc j tem 20 anos na cara.
 Cala essa boca, Ed!  o bandido grita mais alto desta vez. Falo mais baixinho ainda:
     Se eu levar um tiro, a culpa  sua. Voc sabe disso, n?
     Eu mandei calar a boca, Ed!
     Voc est achando isso muito engraado, no t, Marv?
 Agora chega  o assaltante deixa de lado a mulher do balco e se aproxima da gente, puto da vida. Quando ele chega, ns todos olhamos pra ele.
    Marv.
    Audrey.
    Eu.
    E todos os outros infelizes espalhados pelo cho.
    A ponta da arma encosta bem na minha cara, no meio dos olhos. D vontade de coar, mas eu me seguro.
    O bandido olha pra frente e pra trs, pra mim e pro Marv. Atravs da meia fina que ele colocou na cara, d pra eu ver o bigode ruivo e as marcas de espinha. 
O sujeito tem os olhos pequenos e  orelhudo.  bem provvel que esteja roubando o banco pra se vingar do mundo por ele ter vencido o concurso de feira trs anos 
seguidos.
     E ento, quem a  o Ed?
      ele  respondo, apontando pro Marv.
 Ih, sai fora, velho  Marv protesta, e sua cara me diz que ele est muito calmo pro meu gosto. Ele sabe que esse bandido no  de nada, pois, se fosse, a gente 
j estaria morto. Ele olha pro cara-de-meia e diz:
 Opa, pera...  ele passa a mo no queixo.  Voc no me  estranho.
     T bom, t bom  resolvo confessar.  Eu sou o Ed.
    S que o bandido est prestando ateno no que o Marv tem a dizer.
     Marv  sussurro alto  cala a boca, man.
     Cala a boca, Marv  Audrey manda.
     Cala a boca, Marv!  grita Ritchie do outro lado.
 Quem  voc, diabo?  o bandido grita pro Ritchie, se virando pra descobrir de onde veio a voz.
     Ritchie.
     Ento nem comea, Ritchie. Cala essa matraca!
     Tudo bem  a voz responde.  Valeu!
    Todos os meus amigos parecem um bando de idiotas metidos a valentes. No me pergunte por qu. Como muitas coisas, s sei que  assim.
    O bandido ento comea a ficar com o sangue fervendo. O suor comea a ultrapassar a meia que esconde o rosto.
 J t de saco cheio disso  ele resmunga. Quando ele fala, parece que solta fogo.
    S que nem assim o Marv cala a droga da boca.
 Cara, acho que estudamos na mesma escola, sei l, um troo desse, sacou?  ele continua.
 Tu t querendo morrer, no t?  o bandido est uma pilha, ainda fervendo.
 Olha s  Marv explica , na verdade s t querendo que voc pague a multa de estacionamento pra mim. No posso passar dos 15 minutos estacionado ali e voc t 
me prendendo aqui.
     T mesmo, e da?  ele aponta a arma.
     Pra que essa agressividade toda, cara?
    A, meu Deus, eu penso. O Marv j era. Ele vai levar um teco na garganta. O bandido olha l pra fora atravs da porta de vidro, tentando sacar qual  o carro 
do Marv.
 Qual  o seu carro?  ele pergunta, reconheo at que com educao.
      aquele Falcon azul-claro ali.
 Aquela porcaria ali? Essa porra no serve nem pra mijar em cima;  ruim de eu pagar multa por ela, hein.
 Opa, alto l  o Marv fica todo ofendido de novo.  J que voc t roubando o banco, o mnimo que pode fazer  pagar minha multa, no acha, no?
    Enquanto isso.
    O dinheiro est pronto pra viagem, e Misha, a garota do balco, chama o bandido. O bandido se vira e volta pra l.
 Anda logo, vadia  ele grita, e ela passa a sacola. Imagino que seja preciso falar assim quando se est assaltando. Ele viu tudo quanto foi filme e prestou bem 
ateno. No demora muito e ele volta pro nosso lado, com o dinheiro na mo.
 Voc!  o ladrozinho grita pra mim. Agora que ele est com a grana, parece que se reanimou. O cara est prestes a me porrar com a arma quando de repente alguma 
coisa chama sua ateno l fora.
    Ele olha.
    Bem pra fora do vidro.
    Uma gota de suor pinga de seu pescoo.
    Ele respira fundo.
    Ele fica todo bolado.
    Ele diz:
     Essa no!
    A polcia est l fora, mas no faz idia do que est rolando dentro do banco. A notcia ainda no vazou. Os guardas esto expulsando algum que estacionou um 
Torana dourado em fila dupla na porta da padaria do outro lado da rua. O carro rala dali, os guardas tambm, e o bandido man fica na mo, sem a carona, s com a 
grana.
    Da ele tem uma idia.
    Ele se vira de novo.
    Pra gente.
     Voc  ele se dirige ao Marv.  Passa as chaves.
     O qu?
      isso mesmo que voc ouviu.
     Esse carro  pea rara, meu irmo!
  uma merda rara, isso sim, Marv  sacaneio.  Agora passa logo as chaves pra ele ou quem vai acabar com sua raa sou eu!
    Fazendo uma cara de poucos amigos, Marv enfia a mo no bolso e tira as chaves do carro.
     Toma cuidado  ele pede.
     Chupa meu pau  o bandido responde.
 Oh, no tem necessidade disso!  Ritchie grita embaixo da mesa do Lego.
 E voc cala essa boca!  o bandido responde aos berros e sai batido.
    O problema  que as chances do carro do Marv pegar logo de primeira so de cinco por cento.
    O bandido sai varado pela porta do banco e ruma em direo  rua. Ele tropea e derruba a arma perto da entrada, mas resolve continuar sem ela. De repente, vejo 
que o cara fica bolado, na dvida entre voltar e pegar a arma ou seguir em frente. O tempo  curto e ele continua correndo, deixando a arma pra l.
    Quando ficamos de joelhos pra ver o que o safado est fazendo, vemos ele se aproximando do carro.
 Fica olhando...  Marv comea a rir. Eu, Marv e Audrey estamos s de olho, e o Ritchie se aproxima da gente.
    L fora, o bandido d uma parada e tenta descobrir com que chave abre o carro. Nesse instante, todo mundo comea a rir da incompetncia do cara.
    Finalmente ele consegue entrar e tenta ligar o carro vrias vezes, mas a lata-velha se recusa a dar partida.
    Ento.
    Por algum motivo que nunca vou entender.
    Saio correndo, pego a arma no caminho. Quando atravesso a rua, olho bem nos olhos do bandido. Ele tenta sair do carro, mas agora  tarde.
    Fico parado na frente da janela do Ford.
    Estou com a arma apontada nos olhos dele.
    Ele pra.
    Ns dois paramos.
    Ele tenta sair e correr, e eu juro por Deus como nem me dou conta de que estou mandando chumbo at que avano na direo do cara e ouo o vidro se estilhaando.
 O que  que voc t fazendo?  Marv grita desesperado do outro lado da rua. Caiu o mundo dele.  Voc est atirando no meu carro!
    Surgem ento as sirenes. O bandido se ajoelha. Ele diz:
     Que idiota que eu sou!
    Eu s concordo.
    Por um momento eu olho pra baixo e sinto pena do cara, pois me dou conta de que posso estar olhando para o homem mais azarado e infeliz do planeta. Primeiro, 
ele rouba um banco onde encontra uma cambada de imbecis como eu e o Marv. Da o carro que era pra ser usado na fuga some. A, quando ele acha que resolveu a situao 
pegando outro carro, encontra a lata-velha mais escrota do hemisfrio sul. De certa forma, tenho pena dele. Imagina s que humilhao.
    Depois que os guardas tiram o bandido algemado dali, viro pro Marv e digo:
 T vendo a?  continuo e me empolgo, falando mais alto, apontando pro carro.  T vendo a? Isso  pra voc ver que esse carro  pra l de escroto!  dou uma 
parada pra deixar o cara pensar um pouco.  Se essa droga valesse alguma coisa, o malandro teria ralado daqui, concorda?
    Marv d o brao a torcer.
     Acho que sim.
    Na verdade,  at difcil saber se pra ele no teria sido melhor se o bandido tivesse fugido, pois assim ele poderia mostrar que a carroa no era to escrota 
assim.
 caco de vidro pra tudo quanto  lado: na rua, nos bancos do carro. Tento decidir quem ficou mais no cho: se foram os cacos de vidro da janela ou se foi a cara 
do Marv.
     Ae  digo  desculpa a pela janela. Foi mal.
     Deixa pra l  Marv responde.
    A arma, que ainda estou segurando, est quente e grudenta, parecendo chocolate derretido.
    Chegam mais outros guardas pra fazer perguntas.
    Vamos at a delegacia e eles perguntam sobre o assalto, o que rolou e como que a arma foi parar na minha mo.
     Ele deixou cair?
     Foi isso que eu disse, no foi?
 Olhe aqui, meu filho  diz o policial. Ele tira os olhos dos papis.  No precisa dar uma de nervosinho pra cima de mim.
    O policial tem uma pana de cerveja e um bigode j ficando branco. Por que ser que uma porrada de policiais acha que precisa deixar o bigode crescer?
     Nervosinho?  pergunto.
     Isso mesmo, nervosinho.
    Nervosinho.
    At que eu gosto dessa palavra.
 Desculpa a, seu guarda. Ele deixou a arma cair quando estava saindo do banco, e eu peguei quando fui atrs dele. Foi isso. Ele era do mal, t ligado?
     A-h.
    Passamos bastante tempo l dentro. A nica hora em que o policial perde a pacincia  quando no agenta mais ouvir o Marv exigindo indenizao pelo carro.
     O Falcon azul?  o policial pergunta.
     Esse mesmo.
 Filho, vou ser curto e grosso: esse carro  simplesmente um ultraje. E uma desgraa.
     Eu te disse  lembrei.
     Pelo amor de Deus, o carro no tem nem freio de mo!
     E da?
 E da que voc tem sorte de no sair daqui multado. O veculo no tem a menor condio de estar rodando.
     Muito obrigado.
    O policial sorri.
     No tem de qu.
     E v se segue meu conselho.
    Estamos quase saindo quando percebemos que o policial ainda no acabou. Ele manda a gente voltar, ou pelo menos manda o Marv voltar.
     Que conselho?  Marv pergunta.
     Por que no arranja um carro novo, filho?
    Marv olha pro cara todo srio.
     Por questes pessoais.
     Tipo o qu? Falta de grana?
 Ah, dinheiro no  problema. Fique o senhor sabendo que eu trabalho  ele consegue at parecer o dono da verdade.  S que tenho outras prioridades.
    Ele agora d um sorriso como s mesmo algum que tenha tanto orgulho de um carro assim consegue dar.  Alm disso, eu adoro meu carro.
 Ento tudo bem  o guarda encerra o papo.  Tchau pra voc.

 Quer fazer o favor de me dizer que prioridades so essas que voc tem? Logo voc?  pergunto pro Marv depois que a gente sai da sala. Marv olha pra frente, todo 
esquisito.
 V se cala a boca, Ed  ele diz.  Uma porrada de gente pode at ter te achado um heri hoje, mas, pra mim, voc no passa de um babaca que meteu bala na janela 
do meu carro.
 Se voc quiser, eu pago pelo estrago. Ele d mais um sorriso.
     No precisa.
    Pra ser sincero,  um alvio. Prefiro a morte do que ter que colocar um centavo furado naquele Falcon.

Quando samos da delegacia, Audrey e Ritchie esto l fora esperando, mas no esto sozinhos. Tem uns jornalistas por perto e tiram uma porrada de fotos.
  aquele ali!  algum grita; quando vejo, a galera toda est em cima de mim, fazendo perguntas. Tento responder tudo rapidinho, explicando mais uma vez o que 
aconteceu. No moro numa cidade pequena e aqui tem gente do rdio, da televiso e dos jornais, todos eles vo escrever matrias e mostrar os acontecimentos no dia 
seguinte.
    Imagino as manchetes.
    At que seria bem maneiro alguma coisa do tipo: "TAXISTA VIRA HERI", mas  bem provvel que eles publiquem algo assim: "MALANDRO TOMA VERGONHA E FAZ ALGUMA 
COISA QUE PRESTE". Marv vai morrer de rir dessa.
    Depois de mais ou menos uns dez minutos de perguntas, o povo vai embora e a gente volta pro ponto onde o carro est estacionado. Encontramos uma bela de uma 
multa presa entre o limpador e o pra-brisa do Falcon.
 Filhos-da-puta  protesta Audrey, enquanto Marv pega o papel pra ler. A gente estava no banco porque o Marv ia depositar o salrio dele. Ele agora vai usar a grana 
pra pagar a multa.
    Tentamos retirar os vidros dos bancos pra podermos entrar. Marv tenta fazer o carro pegar umas oito vezes, s que nada.
     Que timo  ele diz.
 Grande novidade  responde Ritchie. Eu e Audrey ficamos na nossa.
    Audrey assume o volante enquanto a gente empurra. Levamos a lata velha pra minha casa, que fica mais perto do centro.
    Alguns dias depois, recebo a primeira mensagem. Isso muda a coisa toda.


  2        SEXO DEVE SER COMO
?                MATEMTICA: UMA INTRODUO A MINHA VIDA



  Vou te contar um pouco sobre minha vida.
    Toda semana, pelo menos em algumas noites, eu jogo cartas.
    E o que fazemos.
    Jogamos um lance chamado Porre, que no tem nada de difcil e  o nico jogo que a gente curte sem cair no bate-boca toda hora.
    Tem o Marv, que nunca fecha a matraca, que fica l sentado, tentando fumar charutos e curtir ao mesmo tempo.
    Tem o Ritchie, que fica sempre na dele, exibindo uma tatuagem supertosca no brao direito. Ele tira um gole de sua VB long-neck do incio ao fim e toca no bigodinho, 
que parece at que foi colado fio por fio naquela cara de moleque.
    Tem a Audrey. Audrey sempre se senta de cara pra mim, bem na minha frente, no interessa o jogo. Ela tem cabelo amarelo, pernas finas, o sorrisinho torto mais 
lindo do mundo, quadris enlouquecedores e se amarra em ver filmes. Ela tambm trabalha como taxista.
    Da vem eu.

Antes at de comear a entrar em detalhes sobre mim, acho melhor ir contando alguns outros fatos:
    1.  Quando tinha 19 anos, Bob Dylan j era veterano da noite do Greenwich Village, em Nova York.
    2.  Salvador Dal j tinha pintado uma porrada de quadros sensacionais e se rebelado quando fez 19 anos.
    3. Joana D'Arc era a mulher mais procurada e caada no mundo quando tinha 19 anos, tendo criado uma revoluo.

    Da vem Ed Kennedy, tambm com 19 anos de idade...
    Um pouco antes do assalto l no banco, eu j estava fazendo um balano geral de minha vida.
    Taxista  pra conseguir este emprego, tive que mentir na idade. ( preciso ter no mnimo 20 anos.)
    No segue carreira nenhuma.
    No tem o menor respeito na comunidade.
    Porra nenhuma.
    Percebi que tinha uma porrada de gente em tudo quanto  canto realizando coisas bacanas enquanto eu recebia ordens dos Dereks da vida, uns executivos praticamente 
carecas, sem contar que ainda tinha que ficar de olho prs ps-de-cana que eu pegava s sextas-feiras  noite no vomitarem no meu txi ou no me darem o cano, saindo 
sem pagar a corrida. Na verdade foi a Audrey quem teve essa idia de tentar dirigir txi. No precisou muito pra me convencer, ainda mais porque eu estava de quatro 
por ela fazia um tempo. Eu nunca sa desse subrbio. Faculdade nunca foi minha praia. Minha praia era Audrey.
    Eu estou sempre me perguntando; "E a, Ed, o que voc fez de til nesses 19 anos de vida?" A resposta  simples:
    Porra nenhuma.
    J comentei sobre isso com algumas pessoas, mas tudo que elas fizeram foi mandar eu colocar a cabea no lugar. O Marv me chamou de reclamo de primeira. Audrey 
disse que ainda faltavam 20 anos pra eu ter uma crise de meia-idade. Ritchie s olhou pra mim, como se eu estivesse falando grego. E quando eu toquei no assunto 
com a minha me, ela disse: "Ohhhh, por que voc no chora um pouquinho, Ed?", Voc vai adorar minha velha. Podes crer.

Moro numa casinha onde pago um aluguel bem barato. Logo depois que eu me mudei pra c, o corretor me disse que meu chefe  o proprietrio. Meu chefe  o orgulhoso 
fundador e diretor da cooperativa em que eu trabalho: TAXI LIVRE. Pra no entrar em detalhes, s sei dizer que  uma empresa sinistra. Foi molinho, molinho convencer 
o pessoal de que eu e a Audrey tnhamos idade suficiente pra trabalhar com txi e que a gente tinha carteira. O negcio  simples; misture uns nmeros na sua certido 
de nascimento, aparea com uma carteira fria, mas que seja convincente, e voc est dentro. Uma semana depois, a gente j estava rodando, pois os caras estavam com 
poucos motoristas. Ningum ligou pra confirmar as referncias. Foi superfcil. E surpreendente o que a gente consegue com enrolao e ca. Como disse Raskolnikov, 
"Quando a razo falha, o diabo ajuda!" Ao menos posso exigir o direito ao ttulo de Taxista Mais Jovem da rea  um taxista prodgio. E minha vida est toda estruturada 
neste beco sem sada e sem futuro. Audrey  mais velha do que eu alguns meses.
    A casa onde moro  bem perto do centro e, j que sou obrigado a devolver o txi pra cooperativa todo dia,  uma boa caminhada entre o trabalho e minha casa. 
A no ser quando o Marv me d uma carona. Eu no tenho meu prprio carro porque j passo o dia inteiro, s vezes noites, levando gente de um lado pro outro. Quando 
tenho uma folga, a ltima coisa que me d vontade de fazer  dirigir.
    A cidade onde a gente mora  bem ruinzinha. Fica pra l da periferia e tem umas partes boas e outras podres. Tenho certeza de que voc nem vai ficar espantado 
se eu disser que venho de uma das partes podres. Minha famlia toda cresceu no extremo norte da cidade, um lance que todo mundo meio que esconde dos outros.  por 
l que se encontra uma porrada de adolescentes grvidas, uma porrada de pais escrotos desempregados, e mes como a minha, que fumam, enchem a cara e saem pelas ruas 
usando botas de pele de carneiro. Fui criado numa espelunca, mas fiquei l at o Tommy, meu irmo, terminar o ensino mdio e se mandar pra faculdade. s vezes tenho 
conscincia de que eu poderia ter feito a mesma coisa, mas esse lance de escola nunca foi muito a minha praia. No lugar de estudar matemtica e as outras matrias, 
eu passava o tempo com a cara nos livros de fico. Talvez eu devesse ter me formado em alguma coisa pra ter uma profisso, mas tambm eles no do oportunidades 
de estgio por essas bandas, ainda mais pra algum como eu. Por causa da preguia, sempre fui um aluno muito do ruim, menos em ingls, graas aos livros que eu lia. 
E quando terminei o ensino mdio, tratei logo de arranjar um emprego, j que meu pai torrava a grana toda enchendo a cara. Comecei numa rede de lanchonetes que nem 
vale a pena lembrar e que nem menciono de tanta vergonha. Depois fui parar num escritrio de contabilidade, onde eu organizava os arquivos, s que a firma fechou 
algumas semanas depois que comecei a trabalhar. E, por fim, o ponto alto, o auge de minha histria profissional at agora.
    Motorista de txi.
    Moro com um camarada. O nome dele  Porteiro. Tem 17 anos. Ele se senta na porta coberta por tela pra proteger contra os insetos, com o sol batendo no seu plo 
preto. Seus olhos velhos brilham. Ele sorri. Seu nome  Porteiro porque desde muito cedo ele j curtia ficar sentado na porta da frente. Ele fazia isso l na casa 
dos meus pais e continua fazendo a mesma coisa aqui em casa. Curte ficar sentado no quentinho e no deixa ningum entrar. Isso porque de to velho o bicho mal consegue 
se mexer. E uma mistura de rottweiler com pastor alemo e tem um futum que banho nenhum d jeito. Na verdade, acho at que  por isso que os nicos que conseguem 
entrar aqui em casa so os camaradas que vm pra jogar cartas. A primeira coisa que as pessoas sentem quando chegam aqui  o fedor do cachorro, que se estende pela 
casa toda. Ningum tem coragem de ficar muito tempo por perto, muito menos de entrar. Eu j at tentei incentivar o bicho a usar um desodorantezinho. Esfreguei uma 
boa quantidade no sovaco dele. Cheguei at a meter aromatizador de ambiente por todo seu corpo, s que o bicho acabou fedendo mais do que j fede. Ficou com cheiro 
de banheiro de boteco mal lavado, saca?
    Ele era do meu pai, mas, quando o coroa morreu seis meses atrs, minha me empurrou o bicho pra mim. Ela se encheu porque o bicho se amarrava em passar um tempo 
paradinho embaixo do varal.
    ("Com tanto lugar no quintal pra esse bicho ficar, onde ele resolve parar?"  ela perguntava e ela mesma respondia  "Bem embaixo da porra do varal.")
    Da, quando sa de l, eu o trouxe comigo.
    Aqui pra minha casa.
    Pra porta dela.
    E ele est feliz.
    E eu tambm.
    Ele fica feliz quando sente os raios do sol entrando pela tela na porta e esquentando seu plo. Ele fica feliz de dormir ali, e d uma olhadinha preguiosa pra 
cima quando eu tento fechar a porta de madeira  noite. Nesses momentos, eu adoro esse cachorro. Gosto dele de monto. Mas, pelo amor de Deus, como o bicho fede!
    Acho que logo, logo ele vai morrer. J estou at esperando, o que  normal quando se tem um cachorro com 17 anos. S Deus sabe como vou encarar isso. Quando 
eu me der conta, ele j vai estar longe, depois de ter morrido quietinho, calmo e tranqilo. Fico imaginando que eu vou me abaixar ali na porta, cair em cima dele 
e desabar no choro com a cara enfiada naquele plo fedido. Vou ficar na expectativa de que ele acorde, s que ele no vai acordar. Vou ento enterrar o corpo. Vou 
carreg-lo l pra fora, sentindo seu corpo esfriar enquanto o horizonte vai escurecendo at desaparecer no meu quintal. Mas por enquanto ele est bem. D pra ver 
ele respirar. S que, pelo fedor, parece at que o bicho est morto.

Tenho uma televiso que precisa de um tempinho pra aquecer, um telefone que quase nunca toca e uma geladeira que fica fazendo um chiado que parece rdio fora da 
estao.
    Em cima da televiso, coloquei uma foto que tirei com o pessoal l de casa uns anos atrs.
    J que quase nunca assisto  TV, de vez em quando paro e fico olhando pra foto. At que  um programa bem bacana, falando srio, mas a imagem est piorando cada 
vez mais com a poeira. Um pai, uma me, duas irms, eu e um irmo mais novo. Trs ali esto sorrindo. Os outros trs, no. Eu gosto.
    Em termos de famlia, minha me  uma daquelas mulheres duronas, que ningum conseguiria matar com um machado. Chegou uma poca em que deu pra xingar feito louca; 
depois falo mais sobre esse lance.
    Como eu disse, meu pai morreu seis meses atrs. Ele era um malandro solitrio, calado, educado, e se amarrava numa birita. Eu poderia at dizer que ele passou 
a encher a cara pra conseguir agentar minha me, s que no tem desculpa. Agente pode at inventar desculpas pras coisas, mas acreditar nelas, no. Bem, meu coroa 
trabalhava entregando mveis. Quando ele morreu, foi encontrado sentado numa velha espreguiadeira l dentro do caminho. E l estava ele, esticado, no maior relax 
e morto. Logo de incio, os caras ficaram putos, pois pensaram que ele estivesse ali de boa vida, fazendo corpo mole, e ainda tinha uma porrada de coisas pra descarregar. 
O fgado dele no agentou e entregou os pontos.
    Meu irmo Tommy  todo certinho. E um ano mais novo do que eu e est na faculdade.
    Minhas irms se chamam Leigh e Katherine.
    Quando Katherine tinha 17 anos e ficou grvida, eu chorei. Na poca eu tinha 12. Ela saiu de casa logo em seguida. Ningum expulsou ningum. Ela saiu e se casou. 
Foi um evento do caramba.
    Um ano depois, quando Leigh saiu, no teve nenhum problema.
    Ela no estava grvida.
    Atualmente sou o nico que sobrou aqui por essas bandas. Os outros todos foram morar na cidade. Tommy  quem est se dando bem mesmo. Est quase se formando 
advogado. Desejo tudo de bom pra ele. Srio mesmo.
    Ao lado da foto de famlia em cima da TV, tem ainda uma outra, s que  comigo, Audrey, Marv e Ritchie. No Natal do ano passado, Audrey trouxe a cmera, a gente 
programou o automtico e pronto: l estamos ns. Marv com um charuto. Ritchie com um sorriso amarelo. Audrey rindo. E eu segurando as cartas de baralho, impressionado 
com a pior mo que eu j tirei em toda a histria do Natal no mundo.

Eu cozinho.
    Eu como.
    Lavo roupa, mas raramente passo.
    Vivo no passado e acredito que a Cindy Crawford  de longe a melhor modelo do mundo.
    Essa  a minha vida.

Tenho cabelo escuro, sou moreno claro, olhos castanho-escuros. Sou um cara bem normal, nada sarado. Eu devia endireitar a postura e parar de me curvar, mas no consigo. 
Quando estou de p, coloco as mos nos bolsos. Minhas botas j esto se desmantelando, mas mesmo assim no as tiro dos ps, porque gosto delas pra caramba.
    Quase sempre enfio as botas e vou bater perna. s vezes vou at o rio que corta a cidade, ou dou uma volta no cemitrio, pra visitar meu pai. O Porteiro vem 
comigo,  claro, se estiver acordado.
    O que eu mais gosto  de andar com as mos nos bolsos, com o Porteiro de um lado e fazendo de conta que a Audrey est do outro.
    A imagem que tenho da gente na cabea  sempre de costas.
    Tem sempre um brilho escurecendo.
    Tem sempre a Audrey.
    Tem sempre o Porteiro.
    Tem sempre eu.

    E eu estou sempre segurando os dedos da Audrey com os meus.
    Ainda no escrevi uma msica do nvel do Dylan, nem arrisquei dar minhas primeiras pinceladas surrealistas, e duvido muito que fosse capaz de causar uma revoluo, 
porque, pra completar, no estou em forma, apesar de ser magro feito um varapau. Sou um fracote mesmo.
    Basicamente, acho que nada me diverte tanto quanto jogar cartas, ou dirigir de volta pro subrbio depois de deixar algum em algum lugar na cidade ou talvez 
mais pro norte. Abaixo os vidros das janelas, deixo o vento acariciar meu cabelo e fico sorrindo pro horizonte.
    Ento chego no subrbio e paro o carro na TAXI LIVRE.
    s vezes odeio ouvir o som de porta de carro batendo.

Como eu j disse, sou gamado na Audrey.
    Audrey, que j deu pra uma porrada de gente, menos pra mim. Ela vive dizendo que gosta tanto de mim que no consegue me dar, e eu, por minha vez, nunca tentei 
v-la peladona e toda trmula na minha frente. Eu me cago de medo. Eu j te disse que, em matria de sexo, sou um ridculo. J namorei uma ou duas garotas, e elas 
nunca se empolgaram muito comigo no departamento da trepada. Uma disse que eu era o cara mais atrapalhado que ela j tinha namorado. A outra sempre ria quando eu 
tentava dar alguma investida. A risadinha me deixava meio bolado, e ela acabou me dando um p na bunda.
    Pra mim, sexo devia ser como matemtica. Tipo assim:
    Na escola.
    Ningum liga de ser um zero  esquerda em matemtica. Chegam at a espalhar isso pra todo mundo. Saem dizendo: "Pois , eu no esquento com cincias nem com 
ingls, mas sou um merda em matemtica." E os outros riem e dizem: "Pois , eu tambm. No fao a menor idia do que seja esse lance de logaritmo."
    Seria bom se a gente pudesse dizer a mesma coisa sobre sexo.
    Seria bacana se pudssemos dizer com orgulho: "Pois , no fao a menor idia do que seja esse lance de orgasmo. Sou bom em quase tudo, mas, quando chega nessa 
parte, eu bio completamente."
    S que ningum abre a boca pra dizer isso.
    No d.
    Ainda mais homem.
    Ns, cuecas, achamos que  uma obrigao ser bom no negcio. Pois estou aqui pra dizer que no sou. Ah, e tenho que dizer tambm que meu beijo deixa muito a 
desejar. Uma daquelas namoradas tentou me ensinar uma vez, mas acho que ela acabou desistindo. Sinto que no sei muito o que fazer com a lngua l dentro, mas pacincia.
    E s sexo.
    Pelo menos  isso que fico dizendo pra mim mesmo.
    Eu minto pra caramba.
    Mas, voltando  Audrey, acho que eu devia encarar como um elogio isso de ela no querer transar comigo por gostar de mim mais do que de qualquer outra pessoa. 
Srio, faz todo o sentido, no faz?
    Quando ela fica pra baixo ou deprimida, olho pra janela da frente e vejo seu vulto se aproximando aqui de casa. Ela entra e a gente toma umas cervejas ou um 
vinho de quinta, ou v um filme, ou as trs coisas juntas. Geralmente  um filme bem velho e demorado, tipo Ben-Hur, que vara a noite. Ela se senta do meu lado no 
sof, usando aquela blusa flanelada e um short jeans que era uma cala, e, quando ela cai no sono, eu a cubro com um cobertor.
    Dou um beijinho em seu rosto.
    Acaricio sua cabea.
    Fico pensando que ela mora sozinha como eu, e que nunca teve uma famlia de verdade, e que transa sem se envolver. Audrey nunca deixa essa histria de amor atrapalhar. 
Acho que ela j teve uma famlia, mas o povo devia viver quebrando o pau. O que no falta por aqui  famlia assim. Acho que ela amava os pais, mas eles s lhe meteram 
a porrada.
     por isso que ela se recusa a amar.
    Seja l quem for.
    Acho que ela se sente melhor assim, e quem pode condenar a coitada?
    Quando ela dorme no meu sof, fico pensando nisso tudo.  sempre assim. Eu coloco o cobertor em cima dela, da vou pra cama e sonho.
    De olhos abertos.

  3        S DE OUROS
  ?

  Os jornais aqui da cidade publicaram algumas matrias sobre o assalto que rolou no banco. Esto dizendo que eu tirei a arma do bandido depois de o seguir e sair 
no brao com ele.  bem coisa de jornal mesmo. Eu sabia que eles iam inventar histria.
    Eu sento na mesa da cozinha e dou uma passada rpida em algumas dessas matrias; Porteiro s fica ali de butuca, como sempre. Ele t cagando e andando se eu 
sou heri. A nica coisa que interessa pra ele  encontrar a comidinha ali na hora certa.
    Abro uma cerveja pra minha me, que resolve dar uma passada aqui. Diz que est toda orgulhosa. Segundo ela, todos os filhos se deram bem, menos eu, mas agora 
pelo menos eu dei um motivo de orgulho, ainda que s por uns dois dias.
    "Esse a  meu filho", d pra imaginar a coroa dizendo pra todo mundo com quem ela esbarra pelas ruas. "Eu no disse que um dia ele ia fazer alguma coisa que 
prestasse?"
    Marv e Ritchie,  claro, do as caras por aqui.
    At a Audrey vem me visitar com o jornal embaixo do brao.
    Todos os artigos me citam como um taxista de 20 anos, Ed Kennedy, j que menti pra todos os reprteres sobre minha idade. Quando se mente uma vez,  preciso 
manter a mesma histria do comeo ao fim. Isso no  novidade pra ningum.
    Minha cara confusa aparece estampada em todas as manchetes; o negcio fica to bom que um belo dia, quando estou saindo pra comprar leite, recebo a visita inesperada 
de um radialista que aparece pra gravar uma entrevista comigo. Ofereo um cafezinho pro cara, mas tenho que servir preto mesmo, j que no tem leite na casa.
    Noite de tera-feira. Chego do trabalho e pego as correspondncias na caixa de correio. No meio das contas pra pagar  luz e gs  e de umas propagandas, tem 
um envelope pequeno. Jogo tudo na mesa e deixo pra l. Meu nome est escrito com uns garranchos e fico curioso pra saber do que se trata. Vou pra cozinha e, enquanto 
preparo um sanduba, fico pensando em ir logo l abrir o troo pra saber o que . S que acabo esquecendo.
    J  bem tarde quando resolvo abrir o envelope.
    Passo a mo.
    Sinto alguma coisa.
    Sinto um negcio solto dentro do envelope quando rasgo pra ver o que . A noite est fria, como em toda primavera.
    Eu tremo.
    Vejo meu reflexo na tela da TV e na foto de minha famlia.
    Porteiro ronca.
    O vento sopra l fora.
    A geladeira chia.
    Por um instante, parece que tudo pra pra me ver tirar uma carta velha de baralho l de dentro do envelope.
    E um s de ouros.

Na luz fraca de minha sala, seguro a carta com cuidado, como se ela fosse quebrar ou amassar na minha mo. Tem trs endereos escritos nela com a mesma letra do 
envelope. Leio devagar, com todo o cuidado. Tem uma vibe sinistra passando pelas minhas mos. A vibe penetra no meu corpo e corre tudo, corroendo silenciosamente 
meus pensamentos. Leio:

Rua Edgar, n 45, meia-noite.
Avenida Harrison, n 13, 18:00.
Rua Macedoni, n 6, 5:30 da manh.

    Abro a cortina e olho l pra fora.
    Nada.
    Passo por cima do Porteiro e paro na varanda.
     Oi! Tem algum a?  grito.
    S que, mais uma vez, nada.
    A brisa se afasta  quase que envergonhada por ter presenciado aquele mico  e fico l, parado. Sozinho. A carta ainda est na minha mo. No conheo esses endereos, 
ou, melhor dizendo, no conheo muito bem. Conheo as ruas, mas no tenho idia de onde ficam as casas.
    Com certeza  a coisa mais estranha que j me aconteceu.
    Quem iria me enviar um lance desse?, pergunto pra mim mesmo. O que foi que eu fiz pra receber uma carta velha de baralho na minha caixa de correio, com uns endereos 
esquisitos rabiscados nela? Volto l pra dentro e me sento na cozinha. Tento entender o que est acontecendo e quem me enviou esse negcio que pode at ser alguma 
coisa do destino. Uma porrada de caras me vem  cabea.
    Ser que foi a Audrey?, pergunto. O Marv? Ritchie? Mame? No fao a menor idia.
    Alguma coisa me diz que  melhor jogar a carta fora  melhor jogar na lata de lixo e esquecer. Mas sinto uma dor na conscincia s de pensar em fazer isso.
    Talvez seja o destino mesmo, penso.
    Porteiro se aproxima e d uma fungada na carta.
    Que merda, d pra ver ele pensando. Pensei que fosse alguma coisa de comer. Depois de cheirar pela ltima vez, ele d uma parada e tenta decidir o que vai fazer 
em seguida. Como sempre, ele volta se arrastando pra porta, d meia-volta e se deita. Ele se acomoda no conforto do plo preto e dourado. Seus olhes brilham, mas 
tambm caem na escurido profunda. Estica as patas no carpete velho e spero.
    Ele olha pra mim.
    Eu olho pra ele.
    E a?, vejo ele pensar. Que diabos voc quer?
    Nada.
    Bom.
    Legal.
    E fica tudo por isso mesmo.
    S que ainda estou segurando o s de ouros, s pensando.

    Liga pra algum, digo a mim mesmo.
    O telefone se apressa e toca. Talvez seja a resposta que estou esperando.
    Tiro o fone do gancho e enfio na orelha. Chega a machucar, mas escuto com toda a ateno. Infelizmente,  minha me.
     Ed?
    Conheo essa voz em qualquer lugar. Sei tambm que  certo desta mulher gritar, pois  o que ela faz sempre que fala ao telefone.
     Oi, me, tudo bem?
 Tudo bem  o caramba! No se faa de desentendido, mocinho. Ningum merece... E ela continua:
     Voc no esqueceu de nada hoje, no?
    Penso um pouco, tentando me lembrar. No me vem nada  cabea. A nica coisa que consigo ver  a carta que estou virando na mo.
     Me, no fao a menor idia.
 Voc no muda mesmo!  e ela vai ficando puta.  Voc ficou de pegar a mesinha de centro pra mim l na KC, Ed!  ela se esgoela tanto que d pra sentir o cuspe 
bater no meu ouvido.  Seu filho-da-puta!
    Ela  um doce de criatura, n, no?
    Como j mencionei antes, minha me tem uma boca pra l de suja. Ela xinga o dia inteiro, todos os dias, no importa se est feliz, triste, indiferente, qualquer 
coisa. E claro que ela pe a culpa em mim e no Tommy. Diz que, quando a gente era pequeno e jogava bola no quintal, ficava xingando feito louca.
    "Eu desisti de tentar dar um pra em vocs", ela sempre me diz. "Da pensei: se no posso com eles, vou me juntar a eles."
 um milagre quando consigo levar um papo com ela sem ser pelo menos uma vez chamado de veado ou filho-da-puta. O pior dessa histria  que ela xinga com toda a 
fora. Sempre que me chama de alguma coisa desse nvel, o palavro sai cuspido de sua boca, parecendo at que ela est vomitando o negcio em cima de mim.
    A velha continua reclamando, mas minha cabea est longe. Da volto a prestar ateno.
  ... e o que vou fazer quando dona Faulkner aparecer aqui pra tomar ch de manh, Ed? Vou servir no cho?
     Diga que a culpa  minha, me.
 Ah, mas voc no tenha dvida de que vou dizer isso mesmo. Vou dizer que o merda do Ed esqueceu de pegar minha mesa.
    O merda do Ed.
    Odeio quando ela me chama assim.
     No se preocupa, me.
    Ela continua a encher o saco mais um tempo, s que eu volto a me concentrar no s de ouros. A carta brilha em minha mo.
    Eu toco nela.
    Seguro.
    Sorrio.
    Olhando pra ela.
    Esta carta tem um certo tipo de vibe e foi enviada pra mim. No pro filho-da-puta do Ed. Pra mim  o verdadeiro Ed Kennedy. O futuro Ed Kennedy. No mais o cara 
que vai morrer como taxista.
    O que fao com esta carta?
    Quem vou ser?
     Ed?
    No respondo.
     Ed?!  a velha grita.
    Volto pra conversa.
     Voc t prestando ateno?
     T... claro que t.
    Rua Edgar, n 45... Avenida Harrison, n 13... Rua Macedoni, n 6...
 Foi mal, me  repito.  Eu me esqueci. Peguei uma porrada de passageiros hoje. Muito trabalho na cidade. Amanh eu pego, falou?
     Tem certeza?
     Tenho, sim.
     Voc no vai esquecer?
     No.
     Ento t. Tchau.
     Pera!  falo correndo.
    Ela volta.
     O que ?
    Luto pra conseguir abrir a boca, mas preciso perguntar pra ela. Sobre a carta. Decidi que devo perguntar pra todo mundo de que eu desconfio que tenha mandado 
o treco. Melhor comear pela minha me.
 O que ?  ela pergunta de novo, dessa vez um pouco mais alto. Consigo abrir a boca, e cada palavra parece brigar feio, tentando no sair.
     A senhora mandou alguma coisa pra mim pelo correio hoje?
     Tipo o qu?
    Dou uma parada.
     Tipo um negcio pequeno...
     Tipo o que, Ed? Eu no t com tempo pra isso.
    Est bem. Tenho que dizer.
      uma carta de baralho, um s de ouros.
    Ela no fala nada. Est pensando.
     E a?  pergunto.
     E a o qu?
     Foi a senhora que mandou a carta?
    Percebo que ela j est de saco cheio. Uma sensao esquisita cruza a linha, enfia a mo pelo fone e me d um sacode.
 Claro que no fui eu!   como se ela estivesse retaliando algum.  Por que diabos eu me daria ao trabalho de te mandar uma carta de baralho pelo correio? Eu 
deveria ter mandado um lembrete pra pegar  e ela volta a se esgoelar  A PORRA DA MINHA MESINHA!
     Tudo bem, tudo bem...
    Por que ainda estou to calmo?
    Ser a carta?
    No sei.
    Mas da, sim, eu sei.  porque eu sou sempre assim. To calmo que chega a ser pattico. Eu deveria mandar a vacona calar a matraca, mas nunca fiz isso e nunca 
vou fazer. Afinal, ela no consegue ter uma relao assim com nenhum dos meus irmos. S comigo. Quando eles aparecem pra visitar (uma raridade), ela s falta beijar 
os ps deles, e eles se mandam de novo. Comigo pelo menos ela tem consistncia.
    Eu digo:
 T bem, me, s tava querendo saber se foi voc. S isso.  que achei estranho receber uma carta de baralho pelo...
 Ed?  ela me corta, com a voz de quem est de saco chessimo.
     O que foi?
     Vai tomar no cu, t?
     Tudo bem, at amanh.
     T, t.
    Desligamos.
    Aquela porra de mesinha de centro.
    Eu sabia que estava esquecendo alguma coisa quando estava voltando pra casa. Amanh dona Faulkner vai aparecer por l querendo conversar sobre meu herosmo no 
banco. Tudo que ela vai ouvir  minha me dizendo que eu esqueci de pegar a mesinha de centro. Nem sei ainda como vou enfiar aquele trambolho no meu txi.
    Fao de tudo pra parar de pensar no assunto. No tem a menor importncia. Preciso, isso sim, descobrir por que esta carta veio parar aqui e de onde ela veio.
     algum que conheo.
    Isso  certo.
 algum que sabe que eu estou sempre jogando cartas. Ou seja, s pode ser o Marv ou a Audrey ou o Ritchie.
    Marv no , com certeza. Jamais poderia ser ele. Ele no seria to criativo assim.
    Da vem o Ritchie. Duvido muito que tenha sido ele. No parece ser o tipo de pessoa que faz um negcio desse.
    Audrey.
    Digo a mim mesmo que  muito provvel que tenha sido a Audrey, mas no sei, no.
    Alguma coisa me diz que no foi nenhum deles.
s vezes a gente joga cartas na varanda aqui de casa, ou na varanda de outra pessoa. Centenas de pessoas podem ter passado e visto a gente jogando. De vez em quando, 
quando rola um bate-boca, o pessoal que est passando ri e grita perguntando quem est roubando, quem est ganhando e quem est reclamando.
    Logo, pode ter sido qualquer pessoa.

No consigo dormir.
    S fico pensando.
    De manh, acordo mais cedo do que de costume e saio andando pela cidade com Porteiro e um guia de ruas, procurando cada casa. A da Rua Edgar  uma espelunca 
caindo aos pedaos, bem no fundo da rua. A da Harrison  meio velha, mas decente. Tem um canteiro de rosas na varanda, mas a grama est amarela e maltratada. A da 
Macedoni fica nas colinas. Parte gr-fina da cidade.  um casaro de dois andares com uma entrada bem inclinada para a garagem.
    Saio pra trabalhar e penso.
    Naquela noite, depois de levar a mesinha de centro pra minha me, dou uma passada no Ritchie e a gente joga cartas. Eu conto pra galera. Conto pra todos eles 
de uma vez s.
     Voc t com ela a?
    Balano a cabea dizendo que no.
    Antes de ir dormir ontem, eu guardei a carta na primeira gaveta do armrio do meu quarto. Nada vai tocar nela. Nem um ventinho sequer. Ela  a nica coisa dentro 
da gaveta.
 No foi nenhum de vocs, foi?  pergunto. Resolvi que no posso ficar fazendo muitos rodeios.
 Eu?  pergunta o Marv.  Acho que todo mundo aqui sabe que eu no sou inteligente assim pra inventar um lance desse nvel  ele encolhe os ombros.  Alem disso, 
eu no perderia meu tempo criando uma parada pra pegar algum como voc, Ed.
    Como sempre, baixou o senhor Encrenqueiro.
  isso mesmo  Ritchie concorda.  Marv  casca-grossa demais pra um negcio desse.
    Agora que se manifestou, o Ritchie fica calado. Todos ns olhamos pra ele.
     O que foi, pessoal?
     Foi voc, Ritchie?  Audrey pergunta.
    Com o polegar, ele faz sinal na direo do Marv e diz:
 Se ele  burro, eu sou preguioso  ele estica os braos.  Olha s pra mim: eu sou o maior vagabundo que existe. Passo metade dos dias na casa de apostas. Ainda 
moro com meus pais...
    Deixa eu contar um lance que voc ainda no sabe: o Ritchie nem se chama Ritchie de verdade. O nome dele  David Sanchez. Ns o chamamos de Ritchie porque ele 
tem uma tatuagem do Jimi Hendrix no brao direito, mas todo mundo acha que o desenho parece mais com o Richard Pryor. Da  que vem Ritchie. Todo mundo sacaneia 
e diz que ele deveria tatuar o Gene Wilder no outro brao pra ter a combinao perfeita. Se houve de fato uma dupla dinmica, foi aquela. Vai discutir com filmes 
como Loucos de Dar N e Cegos, Surdos e Loucos?
    Isso a.
    No d.
    Mas, se um dia voc se encontrar com ele, no mencione esse lance do Gene Wilder. V por mim. Ta uma coisa que deixa o cara furioso. Ele odeia essa histria. 
Ainda mais quando est bbado.
    Ele  moreno e est sempre com aqueles pelinhos na cara. Tem cabelo encaracolado, cor de lama, e os olhos so pretos, mas simpticos. Ele no diz a ningum o 
que fazer e espera das pessoas que tambm no venham lhe cobrar nada. E no tira a cala jeans surrada do corpo, entra dia, sai dia  a menos que tenha vrias calas 
idnticas. Nunca pensei em perguntar.
    Sempre que ele est chegando, d pra escutar, porque ele anda de moto. O cara tem uma Kawasaki, ou coisa assim. Vermelha e preta. Ele raramente pe uma jaqueta 
no vero, pois anda de moto desde quando era pequeno. Est sempre com uma camiseta lisa ou com alguma camisa cafona que pega emprestado com o pai.
    Continuamos todos a olhar pra ele.
    O cara fica nervoso e vira a cabea, junto com todos ns, pra Audrey.
 T bem  ela comea a se defender.  Eu diria que, se tem algum que poderia criar um negcio ridculo assim, esse algum sou eu...
 No  ridculo  eu digo. Estou quase defendendo a carta, como se ela fizesse parte de mim.
     Posso continuar?
    Fao que sim com a cabea.
 Ok. Bom, como eu ia dizendo, no fui eu mesmo. S que eu tenho uma teoria de como e por que ela foi parar em sua caixa de correio.
    Ficamos todos aguardando enquanto ela organiza os pensamentos. Ela continua.
 Tudo comea no assalto l do banco. Algum leu a histria no jornal e deve ter pensado: "Ta um cara que promete. Ed Kennedy. Essa cidade t precisando exatamente 
de um tipo como ele."
    Ela sorri, mas quase que imediatamente fica sria. E diz:
 Vai acontecer alguma coisa em cada um desses endereos na carta, Ed, e voc vai ter que reagir.
    Penso no que ela disse e decido. Eu falo.
     Isso no parece nada bom, no , no?
     Por que no?
 Por que no? E se tiver pessoas se porrando e eu precisar apartar a briga? No  nada raro isso acontecer por aqui, certo?
 Acho que vai ser na sorte mesmo. Vai depender da carta que sair. Penso na primeira casa.
    Rua Edgar, n 45.
    Num lugarzinho sinistro como aquele, no consigo imaginar nada de bacana acontecendo.
    Passo o resto da noite tentando tirar o lance da carta da cabea, e o Marv ganha trs partidas, uma atrs da outra. Como sempre, ele faz. questo de ficar sacaneando 
a gente.
    Pra ser sincero, odeio quando o Marv ganha. Ele se amarra em tirar uma onda. O filho-da-puta fica s cantando vitria e fumando o charuto.
    Como o Ritchie, ele ainda mora com os pais. Ele ajuda o pai nos servios de marcenaria. Na verdade, trabalha pra cacete, embora no gaste um centavo do que ganha. 
No compra nem os charutos. Ele rouba do coroa. Marv  o rei da po-durice. O prncipe dos mos-de-vaca.
    O cara tem um cabelo louro, grosso, que fica pra cima quase dando n, veste umas calas velhas dizendo que so confortveis e passa o tempo todo com as mos 
dentro dos bolsos, mexendo nas chaves. Est sempre com um sorrisinho sacana no rosto, debochando de alguma coisa que s ele sabe. Ns crescemos juntos, e s por 
isso que somos amigos. Na verdade, ele tem uma porrada de conhecidos tambm, por poucas razes. A primeira  que ele joga bola no vero e tem uns camaradas da pelada. 
A segunda e mais importante  que ele perde as estribeiras com a maior facilidade, feito um idiota. Voc j percebeu que os idiotas tm uma poro de amigos?
    E s uma observao.

S que nada disso me ajuda. Escrachar o Marv no resolve a questo do s de ouros.
    No tem como fugir, por mais que eu tente.
    O negcio no larga do meu p, est sempre ali martelando.
    Chego a uma concluso.
    Digo a mim mesmo:
    Ed, voc tem que comear logo. Rua Edgar, n 45. Meia-noite.
    E noite de quarta-feira. Est bem tarde.
    Sento na minha varanda com Porteiro, sob a claridade do luar.
    Audrey d uma passada aqui, e eu digo que vou comear amanh  noite.  mentira. Olho pra ela e fico pensando que seria muito bacana se a gente entrasse e fizesse 
um amorzinho gostoso no sof.
    Se um mergulhasse no outro.
    Se os dois se agarrassem.
    Se um comesse o outro.
    Mas no rola nada.
    Ficamos l sentados tomando uma merdinha de bebida suburbana metida a alcolica que ela trouxe, e eu esfrego meus ps no Porteiro. Adoro as pernas finas da Audrey. 
Fico olhando pra elas por um momento.
    Ela olha pra lua que agora est mais alta l no cu. A danada subiu pra bem longe.
    E eu pego a carta de novo e fico com ela na mo. Eu leio e me preparo.
    Nunca se sabe, digo a mim mesmo. Pode ser que um dia algum diga: "Sim, o Dylan estava prestes a virar um astro quando tinha 19 anos. Dal estava bem no caminho 
de se tomar um gnio e Joana D'Arc foi queimada na fogueira por ser a mulher mais importante da Histria... E, aos 19 anos, Ed Kennedy encontrou aquela primeira 
carta entre as correspondncias."
    Quando o pensamento passa, olho pra Audrey, pra lua pegando fogo l em cima e pro Porteiro, e digo pra parar de me enganar.

  4        O JUZ E O ESPELHO
  ?

  Minha prxima surpresa adorvel  uma bela de uma intimao. Vou ter que ir ao tribunal mais prximo e contar minha verso do que rolou no banco. Aconteceu mais 
cedo do que eu tinha pensado.
    Est marcado pras duas e meia da tarde. Vou dar um tempinho durante o trabalho e voltar pra cidade, direto pro tribunal.

Quando chega o dia, apareo usando meu uniforme, e eles me deixam esperando do lado de fora do tribunal. Quando entro pra dar meu testemunho, dou de cara com uma 
porrada de cmaras, todas espalhadas. A primeira pessoa que vejo  o bandido. Ele  mais feio ainda sem mscara. A nica diferena  que agora ele parece mais puto 
da vida. Acho que uma semana no xadrez deixa qualquer um assim mesmo. Ele j no tem mais aquele ar de idiota e azarado.
    O malandro est de terno.
    Um terno de quinta. Combina bem com a cara dele.
    Quando ele me v, vou logo olhando pro outro lado, pois o cara tenta me fuzilar com os olhos.
    Que se dane, agora  tarde, eu penso, mas s porque ele est l embaixo e eu, aqui em cima, na segurana do banco de testemunhas.
    O juiz me cumprimenta.
 Bem, vejo que voc se vestiu muito bem para a ocasio, seu Kennedy.
    Eu dou uma checada no visu.
     Obrigado.
     Eu no estava falando srio. Foi ironia.
     Eu sei.
     Bem, no v bancando o esperto.
     No, senhor.
    A sensao que tenho  de que o juiz est com vontade de me colocar no banco dos rus tambm.

Os advogados me fazem perguntas, e eu respondo com toda a sinceridade.
     Senhor Kennedy, este  o homem que assaltou o banco?
     Sim.
     Est certo disso?
     Totalmente certo.
     Mas, diga-me, senhor Kennedy: como pode ter tanta certeza disso?
 Porque eu reconheceria esta feira desgraada em qualquer lugar. Alm disso, foi exatamente ele que a polcia algemou naquele dia.
    O advogado olha, fazendo pouco de mim, e se explica.
 Queira me desculpar, senhor Kennedy, mas precisamos fazer estas perguntas para que possamos analisar o caso com todos os detalhes e dados possveis, seguindo todos 
os regulamentos.
    Eu concordo:
     Por mim, tudo bem.
    O juiz agora se mete na parada:
 E quanto s feiras desgraadas, senhor Kennedy, ser que voc poderia evitar a utilizao desses termos ofensivos? At mesmo porque, caso ainda no tenha percebido, 
voc tambm no  nenhuma obra de arte.
     Muito obrigado.
 No h de que  ele sorri.  Agora responda s perguntas.
     Sim, meritssimo.
     Obrigado.

Quando termino, passo pelo bandido e ele me diz:
     Fala ae, Kennedy.
    No d ouvidos, digo a mim mesmo, mas no consigo segurar a onda.
    Dou uma parada e olho pra ele. O advogado lhe pede pra calar a boca, mas ele no cala.
    Ele diz baixinho:
 Tu  um homem morto, velho. Espera s pra ver...  as palavras dele no chegam a me deixar realmente abalado.  Se liga no que t te dizendo. Lembre disso todo 
dia quando se olhar no espelho, malandro  ele quase sorri.  Tu  um homem morto.
    Eu finjo que estou calmo.
    Fao que sim com a cabea e digo:
     Valeu  e continuo meu caminho.
    E Deus, eu rezo, permita que ele pegue priso perptua.

Quando deixo o tribunal, as portas se fecham e vou dar no saguo. O sol ilumina tudo ao redor.
    Uma policial me chama de volta e diz:
     Se eu fosse voc, no me preocuparia com aquilo, Ed.
    Pra ela  fcil falar.
     T com vontade de sair da cidade  digo pra ela.
 Oua  ela continua. Eu gosto dela. E uma mulher baixa, troncuda e simptica.  Quando esse casca-grossa terminar de cumprir a pena, a ltima coisa que ele vai 
querer  voltar  ela pensa no que disse e parece firme.  Algumas pessoas endurecem na priso  ela joga a cabea na direo do bandido.  Esse a no  esse tipo 
de pessoa. Ele passou a manh toda chorando. Duvido muito que ele venha a te perseguir.
 Valeu  respondo. Sinto um alvio correndo pelo corpo todo, mas no acredito que dure muito tempo.

"Tu  um homem morto," ouo aquela voz de novo, e vejo as palavras na minha cara quando entro no txi e olho no espelho retrovisor.
    Isso me faz pensar sobre minha vida, minhas realizaes inexistentes e minhas habilidades gerais de incompetncia.
    Quando estou tirando o carro do estacionamento, penso: Um homem morto. Ele tem razo.

  5             INVESTIGAO,
  ?        ESPERA, ESTUPRO


  Seis meses.        

O cara pegou seis meses.  bem tpico da impunidade nos dias de hoje.
    No contei a ningum sobre a ameaa; preferi seguir o conselho da policial e tirar o cara da cabea. De certa forma, me arrependi de ter lido no jornal a notcia 
da pena que ele pegou. (A sorte  que recusaram o pedido de condicional logo de cara.) Eu me sento na cozinha tipo assim, bem normal, com Porteiro e o s de ouros. 
O jornal est na mesa, dobrado. Tem uma foto do bandido quando era pequeno: coisa meiga. S consigo ver os olhos dele.
    Os dias vo passando e pouco a pouco consigo tirar o cara da cabea.
    Fico imaginando:
    Pensa bem: o que um cara como esse vai fazer?
    Faz mais sentido continuar tocando a vida e tentar chegar aos endereos escritos na carta.
    O primeiro  a Rua Edgar, n 45.

Tento ir numa segunda-feira, mas dou uma amarelada.
    Tento de novo na tera, mas no consigo sair de casa; a desculpa esfarrapada  que estou lendo um livro  muito do tosco, por sinal.
    S que, na quarta-feira, resolvo fazer alguma coisa e saio cruzando a cidade.
    J  quase meia-noite quando chego na Rua Edgar. Est tudo escuro: tacaram pedra nas luzes dos postes. S sobrou uma e, mesmo assim, a danada fica piscando pra 
mim, toda fraca.
    Conheo muito bem esta rea porque o Marv vinha aqui direto.
    Ele namorava uma garota daqui, em uma das ruas deste buraco. A menina se chamava Suzanne Boyd, e Marv ficou com ela quando estava na escola. Quando a famlia 
dela se mudou, praticamente na surdina, ele ficou arrasado. Foi por isso que ele comprou aquela merda de lata-velha, pra poder ir procurar pela gata, s que mal 
conseguiu sair do subrbio. Acho que o mundo era grande demais, e o Marv desistiu. Foi a partir da que ele ficou mais esquisito e encrenqueiro. Acho que ele decidiu 
s se preocupar consigo mesmo daquele dia em diante. Talvez. No sei. Nunca paro pra pensar muito no Marv.  uma poltica que criei e sigo.
    Lembro disso tudo enquanto vou andando, mas tambm logo esqueo.
    Chego ao fim da rua onde fica o nmero 45. Do outro lado da rua, passo pela casa e vou em direo s arvores, todas inclinadas, umas sobre as outras. Eu me agacho 
ali e fico esperando. As luzes da casa esto apagadas e a rua, silenciosa. A tinta da parede est descascando e uma das calhas, comida de ferrugem. A tela de proteo 
contra insetos est toda furada de picadas. Os mosquitos fazem a festa em cima de mim.
    Tomara que no demore muito, penso.
    Passam uns 30 minutos e eu quase caio no sono, mas, quando chega a hora, as batidas do meu corao tomam conta da rua.
    Chega um cara tropeando pelo caminho.
    E um sujeito grande.
    Mamado.
    Ele sobe a escada da varanda e nem me v, faz um esforo desgraado pra conseguir enfiar a chave na porta e entrar.
    Acende a luz do corredor.
    E bate a porta.
 C t acordada?  ele grita com raiva.  Venha aqui agora!
    Sinto um aperto no peito, quase perco o ar. O corao praticamente vem  boca e chego a sentir o gosto. D at pra sentir o danado batendo na minha lngua. Baixa 
uma tremedeira, eu me controlo, mas ela volta.
    As nuvens descobrem a lua e eu fico me sentindo pelado. Como se o mundo pudesse me ver. A rua est toda parada e silenciosa; o nico som que se ouve  do grandalho 
que chegou bbado em casa e que est fazendo fora pra falar com a mulher.
    Agora  a luz do quarto que se acende.
    Pelas frestas das rvores, d pra ver as sombras.
    A mulher est se levantando de camisola, mas  agarrada pelas mos do cara, que arranca a camisola com toda a fora.
 Pensei que voc estivesse acordada me esperando  ele diz. Ele segura a mulher nos braos. Me d um n na garganta. Em seguida, ele joga a criatura na cama e vai 
arriando as calas.
    Ele trepa nela.
    Ele enfia nela.
    Ele transa com ela, e a cama grita de dor. A cama range, lamenta, e eu sou o nico que est ouvindo tudo. Meu Deus do cu, o barulho  ensurdecedor. Por que 
o mundo no t ouvindo isso?, eu me pergunto. Repito a pergunta vrias vezes. Porque o mundo no t nem a, respondo finalmente, e sei que estou certo. E como se 
eu tivesse sido escolhido. Mas escolhido pra que?, pergunto.
    A resposta  bem simples:
    Pra se importar e cuidar.

Aparece uma garotinha na varanda.
    Ela chora.
    Eu observo.
    S ficou a luz agora, o barulho acabou.
    Fica tudo no maior silncio por alguns minutos, mas o barulho comea de novo  e eu no sei quantas que este cara consegue dar numa noite, mas com certeza  
um feito e tanto. A parada continua l no quarto, e a menina fica ali sentada, chorando.
    Ela deve ter uns oito anos, mais ou menos.

Quando o lance termina finalmente, a garota se levanta e entra. Ser que isso acontece toda noite? Eu digo a mim mesmo que  impossvel, e a mulher agora  quem 
sai pra varanda.
    Ela tambm se senta, como a menininha. Ela botou a camisola de novo, toda rasgada, e est segurando a cabea com as mos. Um dos seios  iluminado pela lua. 
Consigo ver o biquinho do peito apontando pra baixo, desanimado e ferido. Chega uma hora em que ela estica os braos e junta as mos, como se estivesse segurando 
o corao. O sangue escorre pelos seus braos.
    Eu quase vou l, mas o instinto me segura.
    Voc sabe o que fazer.
    Ouo uma voz dentro de mim sussurrar. E o que me segura de ir at a mulher. No  isso que eu tenho que fazer. No estou aqui pra confortar essa mulher. Posso 
confort-la pelo resto da vida. S que no vai adiantar nada: a parada vai continuar rolando amanh, e depois, e depois.
    Eu tenho  que dar um jeito nele.
     ele que eu tenho que encarar.
    Mas no faz diferena: ela est chorando na varanda, e fico com uma baita vontade de ir l e dar um abrao nela. Pena que no d pra salv-la e segur-la nos 
braos.
    Como as pessoas conseguem viver assim?
    Como sobrevivem?
    Acho que  por isso que estou aqui, talvez.
    E se no estiver mais dando pra eles viverem assim?

  6        EM FRANGALHOS
  ?

  Estou dirigindo o txi, pensando: As coisas tm que melhorar. No  possvel! Ningum merece  p, minha primeira mensagem tinha que ser logo uma porcaria de um 
estupro. E, pra completar, ainda tenho que dar conta de um camarada que  um monstro de to grande. Grande  at apelido.
    No conto pra ningum. Pra nenhum amigo. Pra nenhuma autoridade. Tem coisa muito mais importante que precisa ser feita. Infelizmente, quem tem que fazer sou 
eu, que fui escolhido.
    Audrey me pergunta sobre a parada quando estamos almoando no centro, mas eu digo que ela no quer saber.
    Ela me olha com aquela cara de preocupao que eu adoro e diz:
     Ed, toma cuidado, t bem?
    Digo que vou tomar cuidado e voltamos para nossos txis.
    Passo o dia inteiro pensando no negcio. Tenho at medo dos outros dois endereos, embora uma parte de mim fique dizendo que no podem ser piores do que o primeiro.
    Toda noite dou uma passada l, e, aos poucos, a lua vai completando seus ciclos. s vezes no acontece nada. s vezes ele chega em casa e no rola nenhuma baixaria. 
Nessas noites, o silncio da rua aumenta.  muito sinistro ficar ali fora esperando alguma coisa acontecer.
    Passo por um momento de grande tenso quando vou fazer compras numa tarde. Estou andando pelo setor de rao pra cachorro quando uma mulher passa por mim com 
uma menininha sentada no carrinho.
     Angelina  ela diz.  No mexa nisso.
    Ela fala baixo, mas a voz  inconfundvel. E a mesma voz que pede socorro  noite quando ela est na cama sendo estuprada por um bbado com um teso do tamanho 
de um trem.  a voz da mulher que chora baixinho na varanda na noite silenciosa e cruel.
    Por um segundo, olho pra menininha exatamente quando ela est olhando pra mim.
    Ela  lourinha, olhos verdes, bem bonitinha. A me, a mesma coisa, s que com o rosto abatido pelo cansao.
    Sigo as duas por um tempo, e uma hora, quando a me se abaixa pra olhar as sopas de saquinho, vejo ela desabar discretamente. Ali agachada, ela fica louca de 
vontade de se ajoelhar, mas se controla.
    Quando se levanta, eu estou l.
    Estou l olhando com ateno e pergunto:
     T tudo bem?
    Ela faz que sim com a cabea, mentindo.
     T tudo bem.
    Tenho que fazer alguma coisa logo.


  7        AVENIDA HARRISON
  ?

  Neste ponto, acho que j d pra voc ter uma idia do que eu fiz com relao  parada da Rua Edgar. Ou pelo menos, se voc for um pouco parecido comigo, j at 
sabe.
    Um grande.
    Cago.
    Definitivamente covarde.
 claro que, com a minha infinita sabedoria, estou preferindo dar um tempo. Nunca se sabe, Ed. Vai que as coisas at melhoram sozinhas.
    Cara, sei que  uma grande idiotice, mas acho que no tem como eu lidar com esse tipo de coisa assim desse jeito. Preciso de experincia no ramo. Preciso vencer 
numas lutas antes de ver como eu me saio contra um estuprador do tamanho do Tyson.
    Numa noite, pego a carta de novo enquanto tomo caf com Porteiro. Ontem eu dei Nescaf Tradio pra ele beber, e o bicho ficou amarrado. No incio, ele nem 
queria tocar.
    Olhou pra mim. Olhou pra tigela.
    Pra frente e pra trs.
    Demorei quase cinco minutos pra me dar conta de que ele me viu colocar acar na minha caneca onde est escrito "OS TAXISTAS NO SO OS MAIORES MANS DA RUA". 
Depois que coloquei acar na tigela, ele ficou mais animado. Bebeu de lamber a tigela, todo alegrinho, e depois ficou olhando com cara de quem queria mais.
    Ns dois, eu e Porteiro, estamos ali sozinhos na sala. Ele manda ver no caf enquanto eu olho pra carta, para os outros endereos. Avenida Harrison, n 13  
o prximo da lista, e decido ir l na noite seguinte, s seis em ponto.
 O que voc acha, Porteiro?  pergunto.  Essa vai ser melhor, concorda? Ele me d um sorriso, pois ficou todo ligado com o caf.
 Eu j disse  Marv aponta o dedo para o Ritchie.  Eu bati, sim. No t nem a pro que voc diz.
     Ele bateu?  Ritchie me pergunta.
     Cara, no lembro.
     Audrey?
    Ela pensa por um instante e faz que no com a cabea. Marv joga as mos pro ar. Ele agora tem que pegar quatro cartas.  assim que se joga Porre. O cara vai 
jogando fora at ficar com duas cartas na mo e bate. Se esquece de bater antes de baixar a penltima carta, tem que pegar quatro. Marv sempre esquece de bater.
    Ele franze a testa quando pega as cartas, mas, em segredo, tenta se segurar pra no rir. Ele sabe que no bateu, mas sempre tenta se safar. Faz parte do jogo.
    Estamos na sacada da Audrey. Est escuro, mas os holofotes esto acesos e as pessoas olham pra cima quando passam pela vila. Audrey mora perto de mim;  s virar 
a esquina que estou na casa dela. O lugar  meio baixo nvel, mas  legal.
    Na primeira hora de jogatina, olho pra Audrey e sei que estou de quatro por ela, e estou nervosao. O nervoso  porque s vezes no sei o que fazer. No sei 
o que dizer. O que posso dizer pra ela quando sinto a fome crescer aqui dentro? Como ela ia reagir? Acho que ela est decepcionada comigo porque eu caguei pra faculdade 
e agora s dirijo um txi. Pelo amor de Deus, eu li Ulisses e metade das obras do Shakespeare. Mas ainda sou um caso perdido, um intil, um z-man. O que eu percebo 
 que ela nunca se imagina comigo. S que ela j deu pra outros caras que no so diferentes de mim. s vezes nem consigo pensar nisso. Sabe? Pensar no que eles 
fizeram, como foi a parada e como ela gosta de mim e me considera.
    Mas eu sei muito bem.
    Eu no quero s sexo com ela.
    Eu queria sentir nossos corpos se apertarem, s por um instante.
    Ela sorri pra mim quando ganha uma partida, e eu sorrio pra ela.
    Me deseje, eu imploro, mas nada acontece.

 E ae, que fim levou aquela carta esquisita?  Marv pergunta mais tarde.
     O qu?
 Voc sabe muito bem o qu  ele aponta pra mim com o charuto. Bem podia raspar aquela barba.
    Mando a maior mentira e todo mundo escuta:
     Eu joguei fora. Marv aprova:
     Boa idia. Aquilo tava me cheirando a maior merda.
 Podes crer  concordo. Fim de papo. Acho. Audrey me olha achando aquilo engraado.

Durante as partidas seguintes, fico pensando no que rolou mais cedo, quando fui  Avenida Harrison, n 13.
    Pra falar a verdade, foi at um alvio, porque no chegou a acontecer nada. A nica pessoa l era uma velhinha que no tem cortinas nas janelas. Ela estava l 
dentro sozinha, preparando o jantar, depois se sentou, comeu e tomou um ch. Acho que ela comeu uma salada e tomou uma sopa.
    E a solido.
    A solido como sobremesa.
    Gostei dela.

Fiquei dentro do txi o tempo todo, s de butuca. Estava quente e da bebi uma gua que estava l havia um bom tempo. Fiquei rezando pra que estivesse tudo bem com 
a mulher. Parecia que ela era bem maneira, gentil, e lembro de como a chaleira cafona que ela tem na cozinha comeou a apitar at que ela se aproximou pra diminuir 
o fogo. Tenho quase certeza de que ela falou alguma coisa com a chaleira, como se estivesse falando com uma criana. Como se chaleira fosse um beb chorando.
    Fiquei meio depr ao pensar que um ser humano pudesse ser to solitrio a ponto de se consolar com a companhia de utenslios domsticos que apitam e de se sentar 
sozinho pra comer.
    No que a minha situao seja melhor que a dela.
    Vamos falar srio:
    Quem me acompanha nas refeies  um cachorro de 17 anos. Ele bebe caf comigo. Do jeito que a gente vive, parece at que somos casados. Mas mesmo assim...
    A velhinha mexeu com meu corao.
    Quando esticou o brao e colocou o ch, foi como se ela tivesse colocado alguma coisa dentro de mim, enquanto eu estava sentado no txi. Foi como se ela tivesse 
puxado uma cordinha e me aberto. Ela entrou e colocou um pedacinho de si dentro de mim e saiu de novo.
    Ainda sinto o negcio em algum lugar aqui dentro.
    Estou sentado aqui jogando cartas, e a imagem dela est espalhada na mesa. Eu sou o nico que consegue ver. Vejo a mo dela tremendo ao levar a colher at a 
boca. Fico com vontade de v-la rir ou expressar algum tipo de felicidade ou alegria, pra que eu saiba que est bem. S que logo percebo que tenho que ter certeza 
mesmo.
    Chega a minha vez.
     E voc agora, Ed.
    E minha vez e eu no vou.
    Cheguei a duas cartas e tenho que bater.
    Um trs de paus e um nove de espadas.
    O nico problema  que eu quero mais cartas hoje. No estou interessado em ganhar. Acho que sei o que tenho que fazer pela velhinha e fao uma aposta comigo 
mesmo.
    Se eu pegar o s de ouros,  sinal de que estou certo.
    Se no, estou errado.
    Esqueo de bater e a galera ri da minha cara quando vou cavar.
    Primeira carta: dama de paus.
    Segunda carta: quatro de copas.
    Terceira carta: yesss!
    Todo mundo fica sem entender por que diabos estou sorrindo, menos a Audrey. Audrey d uma piscadinha pra mim. Ela no precisa nem perguntar pra saber que eu 
fiz de propsito. O s de ouros est na minha mo.
    Isso  muito melhor do que a Rua Edgar.
    Estou me sentindo bem.

E tera-feira e estou colocando minha cala branca de brim e as botas maneiras cor de areia. Pego uma camisa responsa. J dei uma passada na Cheesecake Shop e fui 
atendido muito bem por uma garota chamada Misha.
     Eu no conheo voc?  ela perguntou.
     Talvez. No sei bem...
     Mas  claro! Voc  o cara do banco. O heri.
    O otrio, isso sim, penso, mas digo;
 Ah, . Voc  a garota do balco. T trabalhando aqui agora? Ela balana a cabea, fazendo que sim.
 T  ficou meio envergonhada.  No agentei o estresse no banco.
     O assalto?
     No. Meu chefe era um escroto.
     O da cara cheia de espinhas e sovaco suado?
     Esse mesmo... Tentou enfiar a lngua na minha boca outro dia.
     Pois ... Coisa de homem, sabe? Somos todos um pouco assim.
     , eu sei disso!
    Misha foi superbacana do comeo ao fim. Quando eu j tinha sado da loja, ela me chamou e disse:
     Espero que goste do bolo, Ed!
 Valeu, Misha!  respondo, mas acho que ela no ouviu. No gosto de fazer barulho em pblico.
    E vazei dali.
    Por um instante, penso nisso enquanto abro a caixa e olho pra metade do bolo de chocolate. Fico com pena da garota, porque deve ter sido uma droga sentir o cara 
em cima dela daquele jeito e foi ela que pediu as contas. Que filho-da-puta. Eu, que no tenho espinha na cara nem suo feito um porco, sinto a maior tremedeira nas 
pernas antes de enfiar a lngua na boca de uma garota. E muito besta mesmo, esse cara. Excesso de confiana. S isso.
    Deixa pra l.
    Dou uma ltima checada no bolo. Estou todo cheiroso. Botei as melhores roupas que tenho e j estou pronto pra ir.
    Pulo Porteiro e fecho a porta quando saio. Vou andando pra Avenida Harrison e sinto o dia meio nublado e fresco. Chego l por volta das seis e a velhinha j 
est de novo conversando com a chaleira.
    A grama na frente da casa est superamarela.
    Quando piso, faz um som que parece algum mordendo uma torrada. Vou deixando pegadas de botas e tenho mesmo a sensao de estar pisando num po torrado do tamanho 
do mundo. As rosas so as nicas coisas vivas, contornando a entrada da garagem, na maior firmeza.
    A varanda  de cimento. A porra  velha e rachada, igualzinha  de l de casa.
    A tela contra insetos est rasgada nas beiradas. Bem gasta. Abro a tela e bato na porta de madeira. O som rima com as batidas do meu corao.
    Ouo os passos se aproximando. Os ps dela lembram o tique-taque de um relgio. Contando o tempo para este momento.
    Ela pra.
    Olha pra mim, e por um instante os dois ficam meio perdidos um no outro. Ela se pergunta quem eu sou, mas s por um segundo. Ento, com cara de quem se deu conta 
de alguma coisa depois de muito esforo, ela sorri pra mim. Ela d um sorriso muito sincero e diz:
 Eu sabia que voc viria, Jimmy  ela se aproxima e me d um abrao apertado, me envolvendo nos braos macios e enrugados.  Eu sabia que voc viria.
    Quando o abrao termina, ela olha pra mim novamente, at que uma lgrima aparece nos seus olhos. A lgrima sai e escorre acompanhando o trao de uma das rugas.
 Ohh  ela balana a cabea prum lado e pro outro, olhando pro bolo.  Obrigada, Jimmy. Eu sabia, eu sabia  ela me pega pela mo e me leva pra dentro da casa. 
 Venha, vamos entrando  ela me diz. Eu a acompanho.

 Voc vai ficar para jantar, Jimmy?
     S se no for dar trabalho  respondo.
    Ela ri.
 Imagina, trabalho nenhum...  ela balana a mo pra cima e pra baixo, como se dissesse: "Pra com isso!"  Voc  um menino de ouro!
    Com certeza! Sou o menino do trs de ouros.
 E claro que no ser trabalho algum  ela continua.  Ser timo relembrarmos o passado, no acha?
     Claro.
    Ela pega o bolo e leva pra cozinha. Escuto o barulho que faz l dentro, meio atolada com as coisas, e pergunto se ela precisa de uma ajudinha. Ela manda eu relaxar 
e me sentir  vontade.
    Tanto a sala de jantar quanto a cozinha do pra rua, e quando me sento  mesa de jantar, vejo as pessoas passando, algumas andando normalmente, outras, s pressas, 
algumas esperando os cachorros antes de seguir caminho. O carto de pensionista dela est em cima da mesa. Ela se chama Milla. Milla Johnson. Tem 82 anos.
    Quando ela sai da cozinha, traz a mesma coisa que ela comeu no jantar ontem. Salada, sopa e ch.
    A gente come, e ela me conta todas as coisas que faz no dia:
    Passa cinco minutos conversando com Sid do aougue, mas no compra carne nenhuma. O barato  o bate-papo e as risadas quando ele conta as piadas que no so 
l muito engraadas.
    Ela almoa s cinco pro meio-dia.
    Senta no parque, olha a crianada brincando e os skatistas fazendo manobras e voltas na rampa.
    Toma um cafezinho  tarde.
    Assiste ao Roletrando s cinco e meia.
    Janta s seis.
    Vai dormir s nove.
    Mais tarde ela me faz uma pergunta. Ns j lavamos a loua e estou de volta  mesa de jantar. Milla volta e se senta nervosa na cadeira.
    Ela estica os braos e pega nas minhas mos. As mos dela esto tremendo.
    Segura bem minhas mos e seus olhos suplicantes me deixam todo aberto.
    Ela diz:
 Ento me conte, Jimmy  a tremedeira das mos aumenta um pouco.  Por onde voc andou esse tempo todo?  ela no fala com agressividade, mas parece que est magoada. 
 Por onde voc andou?
    Algo fica engasgado aqui  as palavras. Finalmente, olho pra ela e digo:
 Estava procurando voc  digo isso como se fosse a grande verdade que eu conheo.
    Ela me tira um peso, fazendo que sim com a cabea.
 Foi o que pensei  puxa minhas mos pra mais perto e beija meus dedos.  Voc sempre foi bom com as palavras, no  mesmo, Jimmy?
     Sim  respondo.  Acho que sim.

Logo em seguida ela me diz que precisa dormir. Tenho certeza de que ela se esqueceu do bolo de chocolate, e estou louco pra comer um pedao. J so quase nove horas 
e estou desconfiado de que no vou ver nem um farelinho daquele bolo. Me sinto muito mal por isso,  claro. Eu me pergunto que tipo de pessoa eu sou, chateado por 
ficar sem comer a droga de um pedao de bolo.
    Ela se aproxima de mim por volta das cinco pras nove e diz:
     Acho melhor eu ir deitar, Jimmy. Tudo bem?
    Respondo suavemente:
     Sim, dona Milla, acho que sim.
    Andamos at a porta e eu dou um beijo em seu rosto.
     Obrigado pelo jantar  agradeo e saio.
     Foi um prazer, Vou v-lo novamente?
     Com certeza  eu me viro e respondo.  E no vai demorar.

A mensagem desta vez  pra aliviar a solido desta velhinha. Este sentimento vai tomando conta de mim enquanto ando pra casa, e, quando vejo Porteiro, levanto o 
danado e seguro os 45 quilos nos braos. Beijo o bicho com toda a imundcie e fedor, e tenho a impresso de que conseguiria segurar o mundo nos braos hoje. Porteiro 
olha pra mim todo confuso e pergunta: Que tal um cafezinho, meu velho?
    Eu o coloco de volta no cho, dou uma risada e preparo um caf pro velho malandro, com bastante acar e leite.
 Vai querer um cafezinho tambm, Jimmy?  pergunto a mim mesmo.
     Se no for incmodo  respondo.
 Incmodo nenhum  e caio na risada de novo, me sentindo um mensageiro de verdade mesmo.

  8        BANCANDO O JIMMY
  ?


  J faz um tempo que levei a mesinha de centro pra minha me. Tem umas duas semanas que no apareo por l  pra deixar que ela esfrie um pouco a cabea. Ela encheu 
o saco quando apareci com a mesinha.
    Dou uma passada nela no sbado de manh.
 Mas vejam s! Quem  vivo sempre aparece  ela d uma sacaneada quando entro pela porta.  Como anda a vida, Ed?
     T tudo bem. E com a senhora?
     Trabalhando feito uma condenada, como sempre.
    Ela trabalha no caixa de uma lanchonete. No faz porra nenhuma, mas, sempre que algum pergunta como ela est, a resposta  a mesma: "trabalhando feito uma condenada". 
Ela est preparando alguma coisa gostosa, tipo um bolo, mas no me deixa comer nem um pedacinho porque est esperando a visita de algum mais importante. Provavelmente 
algum do Lion's Club, ou alguma coisa assim.
    Chego mais perto pra ver melhor o que .
 Nem toque  ela avisa. De onde estou nem d pra colocar um dedinho.
     O que  isso a?
     E um cheesecake.
     T esperando quem?
     Os velhos Marshall.
    Bem tpico mesmo  uns caipiras que moram ali na esquina  mas fico na minha. Melhor deixar pra l.
     Como  que estamos de mesinha de centro?  pergunto.
    Ela d uma risada sinistra e responde:
     Muito bem. V dar mais uma olhada nela.
    E o que eu fao: entro na sala de visita e no acredito no que vejo. No  que ela trocou a porcaria?
 Pera!  grito pra cozinha.  Esta aqui no  a mesinha que eu trouxe!
    Ela vem at a sala.
     Eu sei. Decidi que no gostava daquela outra.
    Agora eu fiquei puto. Srio mesmo. Parei de trabalhar uma hora mais cedo pra pegar a outra mesinha e agora o negcio no presta pra ela.
     Que diabos aconteceu?
 Eu tava conversando com o Tommy no telefone, e ele disse que esse negcio de pinho  uma porcaria e que no dura nada  ela se balana toda entre as frases.  
E, pode acreditar, seu irmo entende muito bem dessas coisas. Ele comprou uma mesa velha de cedro pra ele l no centro. Conseguiu mandar uma letra no cara e descolar 
um abatimento de 300 paus, e ainda levou as cadeiras pela metade do preo.
     E da?
 E da que ele sabe o que t fazendo. Ao contrrio de certas pessoas que conheo.
     A senhora no me pediu pra ir buscar essa a...
     E por que diabos eu ia fazer isso?
     U, a primeira a senhora me pediu pra ir buscar...
 , mas vamos ser sinceros, Ed: seu servio de entrega  uma desgraa.
    Chega a ser irnico.

 T tudo bem, me?  pergunto mais tarde.  T indo fazer umas comprinhas daqui a pouco. A senhora t precisando de alguma coisa?
    Ela d uma pensada.
 Na verdade, a Leigh t vindo a semana que vem, e eu t com vontade de preparar um bolo de chocolate com avel pra ela e pra famlia. Compre as avels picadas 
pra mim.
     Tudo bem.
    Agora d o fora, Ed, eu penso logo ao sair. E o que ela estava pensando, tenho certeza disso.
    Gosto de ser o Jimmy.

 Lembra-se de quando voc lia pra mim, Jimmy?
     Lembro, sim  respondo.
    Nem preciso dizer que estou na casa da Milla de novo,  noite. Ela estica as mos e segura no meu brao.
 Ser que voc poderia pegar um livro e ler algumas pginas? Adoro o som de sua voz.
     Que livro?  pergunto quando chego perto do armrio.
     O meu preferido.
    Que merda... dou uma vasculhada nos livros que esto na minha frente. Qual ser o preferido dela?
    Mas no tem problema.
    Qualquer um que eu escolher vai ser o preferido dela.
     O Morro dos Ventos Uivantes?  sugiro.
      Como voc sabia?
     Intuio  respondo e comeo a ler.
    Ela cai no sono depois de algumas pginas; da eu a acordo e a levo pro quarto.
     Boa-noite, Jimmy.
     Boa-noite, Milla.
    Enquanto vou andando pra casa, penso numa parada que vi. E um pedao de papel que estava no livro, usado como marcador. No passava de um pedacinho normal de 
papel de bloco, todo amarelo e velho. Tinha uma data escrita: 1/5/41 e tinha alguma coisa escrita com uns garranchos de homem. Um pouco parecidos com meus garranchos.
    Dizia assim:

    Querida Milla,
    Minha alma precisa da sua.
                     Com amor,
                        Jimmy.

    Quando a gente se encontra de novo, ela pega os lbuns velhos e ficamos l, vendo as fotos. Toda hora ela aponta para um cara que est abraando-a ou beijando-a 
ou s est parado l na dele.
 Voc sempre foi to bonito  ela me diz. Ela chega a tocar no rosto do Jimmy nas fotos e entendo como  amar algum como a Milla amou esse cara. As pontas de seus 
dedos esto cheias de amor. Quando ela fala, sua voz  carregada de amor.  Voc mudou bastante, mas ainda est bonito. Sempre foi o garoto mais lindo da cidade. 
Era o que diziam todas as meninas. At minha me me disse que voc era timo, carinhoso e forte, e que eu deveria trat-lo muito bem  ela olha pra mim agora, com 
uma cara meio que desesperada.  Eu o tratei muito bem, no tratei, Jimmy?
    Eu me derreto.
    Eu me derreto e olho naqueles olhinhos velhos, mas adorveis.
 Voc me tratou muito bem, Milla. Muito bem mesmo. Voc foi a melhor esposa que eu poderia ter...
    E quando ento ela se desgua a chorar na minha manga. Ela chora, chora e ri. Ela treme de desespero e alegria, e as lgrimas mornas encharcam minha manga; isso 
causa uma sensao bacana no meu brao.
    Depois de um tempo, ela me oferece bolo de chocolate.  o mesmo que eu trouxe noutro dia.
 No lembro quem foi que me trouxe este bolo, mas est uma delcia. Quer um pedacinho, Jimmy?
     Eu aceito, sim.
    O bolo j est velho, passado e meio duro.
    Mas o gosto est perfeito.
    Algumas noites mais tarde, estamos todos na varanda aqui da minha casa, jogando cartas. Eu estou mandando superbem at que, de repente, todo mundo fica em silncio. 
Em seguida, vem um som l de dentro.
     E o telefone  diz Audrey.
    Alguma coisa est errada. Tenho uma sensao muito esquisita.
     E a, tu vai atender?  Marv pergunta.
    Eu me levanto e vou andando meio que na dvida e pulo Porteiro.
    O toque do telefone me chama pra perto.
    Eu atendo.
    Silncio. Silncio total.
     Al?
    De novo.
     Al?
    A voz tenta encontrar o centro de minha alma. Quando encontra, diz trs palavras:
     Como est, Jimmy?
    Sinto um estalo por todo o corpo.
     O que?  pergunto.  O que voc disse?
     Voc ouviu muito bem.
    O telefone fica mudo, e eu, sozinho.

Volto me arrastando pra varanda.
 Voc perdeu  Marv diz, mas quase nem escuto o cara direito. No estou mais nem a pro jogo.
 Que cara  essa?  Ritchie pergunta.  Senta a, brother.
    Aceito o conselho dele e me sento de novo pra jogar.
    Audrey olha pra mim e faz uma cara como se estivesse me perguntando "T tudo bem?" Respondo que sim, e mais tarde, depois do jogo, ela fica por aqui, e eu quase 
conto sobre Milla e Jimmy. Chego bem perto de perguntar o que ela acha disso tudo, mas eu j tenho as respostas. O que ela pensa no vai mudar nada; da acho melhor 
eu aceitar o fato de que tenho que continuar. Venho oferecendo a companhia de que Milla precisa, mas chegou a hora de ir adiante e passar pro prximo endereo ou 
voltar pra Rua Edgar. E claro que ainda posso fazer umas visitinhas pra Milla, mas j est na hora.
    Est na hora de seguir em frente.
    Naquela noite, saio pra andar com Porteiro, bem tarde. Vamos at o cemitrio, vemos meu pai e damos uma volta pelas outras sepulturas.
    Uma lanterna nos ilumina.
     o segurana.
 Voc sabe que horas so?  o cara pergunta.  um cara grande, de bigode.
     No tenho idia  respondo.
     Meia-noite e onze. O cemitrio t fechado, meu velho.
    Quase vazo dali, mas hoje no d. Abro a boca e digo:
     T dando uma volta, cara... T procurando uma sepultura.
    Ele olha pra mim pensando no que fazer. Ser que ele deveria me ajudar ou no?
    Ele decide que sim.
     Qual o nome do defunto?
 Johnson. Ele balana a cabea prum lado e pro outro, e ri, meio que criticando.
     Voc faz idia de quantos Johnsons tem neste lugar?
     No.
 Uma porrada  ele d uma fungada no bigode, como se tentasse parar uma coceira. O cara  ruivo.
     Mesmo assim, ser que podemos tentar achar?
     Qual  a raa desse cachorro?
      uma mistura de rottweiler com pastor.
 P, ae, o bicho fede que  um inferno, cara. Voc no d banho nele, no?
     Claro que dou.
 Caramba!  ele se vira, fazendo cara feia.  O fedor  diablico.
     Mas e a? A sepultura?
    Ele j tinha at esquecido.
 Ah, sim,  mesmo. Bem, podemos tentar. Voc sabe mais ou menos quando o pobre coitado morreu?
     Opa, olha o respeito!
    Ele pra.
 Olha aqui  o ruivo est ficando meio puto agora.  Voc quer a minha ajuda ou no?
     Tudo bem, foi mal.
 Por aqui. Andamos quase metade do cemitrio e achamos alguns Johnsons, menos o que eu procuro.
 Tu  um pouco exigente, no , no, malandro?  o segurana pergunta.  Esse a no serve?
     Essa a  Gertrude Johnson.
     E quem  mesmo que tu t procurando?
 Jimmy...  s que dessa vez eu digo mais uma coisa.  A esposa se chama Milla.
    Ele d uma parada brusca, olha pra mim e diz:
 Milla? Caralho, acho que conheo essa a. Lembro do nome, porque ela e mencionada na lpide  ele agora fica sussurrando enquanto andamos pra outra ponta do cemitrio. 
 Milla, Milla...
    A lanterna dele bate numa lpide e  essa mesma.

    JAMES JOHNSON
    1917-1942
    MORREU SERVINDO  NAO
    AMADO ESPOSO DE MILLA JOHNSON

    Passamos mais ou menos dez minutos ali, a luz da lanterna assando a sepultura. O tempo todo fico tentando imaginar onde e exatamente como ele morreu e, mais 
objetivamente, me dando conta de que a coitada da Milla j est sem ele h 60 anos.
    D at pra sacar.
    Nenhum outro homem entrou na vida dela. No da forma que seu Jimmy entrou.
    H 60 anos ela espera Jimmy voltar.
    E agora ele voltou.


  9        A MENINA DESCALA
  ?

  Mesmo assim, tenho que continuar.
    A histria de Milla  emocionante e trgica, mas tenho que dar conta de outras mensagens. A prxima  na Rua Macedoni, n 6, s cinco e meia da manh. Por um 
instante, penso em voltar  Rua Edgar, mas ainda estou com um medo danado depois do que vi e ouvi por aquelas bandas. Vou l mais uma vez, s pra checar se as coisas 
ainda esto na mesma. Esto.
    Chego junto com o sol na Rua Macedoni, meados de outubro. Em geral, no  muito comum fazer esse calor todo a esta altura do ano, e quando eu chego na rua da 
colina, j est bem quente. Vejo a casa de dois andares no topo da ladeira.
    Um pouquinho depois das cinco e meia, aparece um vulto que sai do lado da casa. Acho que  uma garota, mas no d pra ter certeza, pois a criatura est usando 
um capuz. Est vestindo um short vermelho de ginstica, um casaco cinza com capuz, mas est sem nada nos ps. Tem mais ou menos um metro e setenta e cinco de altura.
    Eu me sento entre dois carros estacionados e fico esperando que o vulto retorne.
    Quando canso de esperar e comeo a ir pro trabalho, finalmente a vejo ( definitivamente uma garota) dando a volta na esquina, correndo. O casaco agora est 
amarrado em volta da cintura, da consigo ver o rosto e o cabelo.
    Ela me pega de surpresa, porque ns dois chegamos na esquina juntos, vindos de direes opostas.
    A gente pra, por um momento.
    S por um segundo, nossos olhos se encontram.
    Ela olha pra mim e vejo que tem um cabelo da cor do sol amarrado pra trs num rabo-de-cavalo, olhos claros, feito gua. E o azul mais suave que eu j vi. Lbios 
macios que formam um sorriso simptico, de quem j me conhece.
    E ela continua correndo.
    Quando vejo, ela inclina a cabea e se vira.
    Suas lindas pernas compridas esto raspadas, me fazendo pensar que eu j deveria saber logo de cara que era uma menina. Elas so longas e adorveis. Ela  uma 
dessas meninas sem frescuras. Magrinha, peitinhos pequenos, mas bem jeitosos, as costas alongadas, quadris retos e pernas compridas. Seus ps tm tamanho mdio e 
batem no cho bem de leve.
    Ela  linda.
    Ela  linda, e eu estou com vergonha.
    Ela no deve ter mais que 15 anos, e eu estou na maior briga. Na maior briga comigo mesmo. Aqui dentro de mim, comeou uma batalha entre amor e teso, e vou 
me dando conta de que fiquei amarrado nesta garota que corre descala s cinco e meia da manh. Agora ferrou.
    Volto pra casa e fico tentando descobrir o que ela precisa  o que eu preciso fazer desta vez. De certa forma, vou por um processo de eliminao. Se ela mora 
nas colinas, no precisa de grana. Acho que no est precisando de amigos, mas quem sabe?
    Ela corre.
    Tem alguma coisa a ver com isso.
    Toda manh, estou l, mas fico escondido e acho que ela no me v.
    Um dia, resolvo estreitar os laos e sigo a menina. Estou com meu jeans, botas e uma camiseta velha, e ela est bem l na frente.
    Ela vai em passos largos.
    Eu vou penando.
    Quando comecei a correr, pareceu at que eu estava participando da final dos 400 metros rasos na Olimpada. Isso j passou, pois agora sinto quem sou de verdade: 
um taxista suburbano que no faz muito exerccio.
     lamentvel o meu estado.
    No tenho coordenao.
    Minhas pernas do um duro danado pra levantar e me arrastar adiante. Meus ps parecem que esto cravando na terra. Respiro o mais fundo possvel, mas tem um 
muro na minha garganta. Meus pulmes esto famintos. Dentro de mim, sinto o ar subindo o muro para descer at eles, mas no  suficiente. Ainda assim, continuo correndo, 
Eu preciso.
    Ela vai pro campo que fica no corredor esportivo, bem afastado da cidade. Fica no p de um pequeno vale, o que  um alvio pra mim, pois vai ser uma descida! 
O que me preocupa  a volta.
    Quando chegamos no campo, ela pula a cerca e deixa o casaco pendurado l. Enquanto isso, tento diminuir o passo e caio bem na sombra de um bordo.
    A menina vai dando voltas.
    O mundo est dando voltas ao meu redor.
    Me baixa uma tontura e sinto vontade de vomitar. Alm disso, estou seco pra beber alguma coisa, mas no consigo nem me levantar pra ir at a torneira. Da fico 
l, todo estirado e suando feito um louco.
    Que  isso, Ed?, penso enquanto respiro. Tu t fora de forma mesmo, hein, desgraado! Mais do que eu pensava.
    Eu sei, respondo.
    Que vergonha.
    Eu sei.
    Eu tambm sei que no deveria ficar aqui esticado embaixo desta rvore, mas agora no vou me esconder da garota nem a pau. Que se dane se ela me vir. No consigo 
nem me mexer, que dir me esconder, e sei que amanh vou estar todo duro.
    Ela d uma parada e se alonga, quando o ar finalmente consegue chegar de verdade nos meus pulmes.
    Ela tem a perna direita esticada pra cima, apoiada na cerca. E uma perninha linda, bem comprida.
    Pare de pensar nisso, pare de pensar nisso, digo pra mim mesmo. Mal termino de pensar, e ela me v, mas desvia o olhar logo de imediato. Balana a cabea e olha 
pro cho. Igualzinho ao que fez noutro dia. S por aquele segundo.
    Vejo logo que ela nunca vai se aproximar de mim. Saco tudo quando ela tira a perna da cerca e coloca a outra. Vou ter que me aproximar.
    Quando ela termina o alongamento e vai pegar o casaco, eu me levanto do cho e vou em sua direo.
    Ela comea a correr, mas pra.
    Ela sabe.
    Acho que ela consegue sentir que estou aqui por ela.
    Estamos a uns seis ou sete metros um do outro agora. Olho pra ela, e ela olha pro cho a menos de um metro do meu tornozelo direito.
 Oi!  eu digo. O tom babaca de minha voz E uma desgraa. Uma parada.
    Toma-se um flego.
 Oi!  ela responde, ainda com os olhos grudados no cho ao meu lado. Dou mais um passo. No mais.
     Eu sou Ed.
 Eu sei. Ed Kennedy  a voz dela  alta, mas suave, to suave que faz ccegas. Me lembra a Melanie Griffith. Sabe aquela voz suave que ela tem? Pois , a voz da 
garota  assim mesmo.
     Como voc sabe quem eu sou?
 Meu pai l o jornal todo dia, e eu vi sua foto... depois do roubo no banco, entendeu?
    Avano um pouco.
     Entendi.
    Depois de um tempo, ela finalmente olha pra mim direito.
 Por que voc t me seguindo? Paro ali, morrendo de cansao, e digo:
     No sei muito bem ainda.
     Voc no  nenhum tarado, ?
 No!  penso com meus botes: No olhe para as pernas dela. No olhe para as pernas dela!
    Ela olha pra mim agora daquele mesmo jeito com que me olhou noutro dia: um jeito de quem j me conhece.
     Ufa, que alvio. Eu te vejo quase todo dia.
    A voz dela  to doce que chega a ser ridculo. Parece at que tem gosto de morango, sei l.
     Desculpa a por te assustar.
    Carinhosamente, ela arrisca sorrir para mim.
 Tudo bem. E que... eu no sou muito boa pra conversar com as pessoas  ela desvia o olhar de novo, enquanto  sufocada pela timidez.  Tem algum problema se a 
gente no conversar?  ela agora fala rapidinho pra no me magoar.  Tipo assim, no me incomoda se voc estiver por aqui de manh comigo, mas no d pra papear, 
t bem? No me sinto  vontade.
    Fao que sim com a cabea e espero que ela veja.
     Sem problema.
 Obrigada  ela d uma ltima olhada pro cho, pega o casaco e me faz uma ltima pergunta:  Voc no  muito chegado numa corrida, ?
    Fico ali saboreando aquela voz por um instante. Meus lbios ficam com gosto de morango. Talvez esta seja a ltima vez que eu esteja ouvindo algo to doce. Ento...
 No sou, no  respondo. Passamos mais uns segundos de papo at ela sair correndo. Fico s olhando, ouvindo aqueles pezinhos descalos, tocando suavemente na terra. 
Gosto daquele som. Me faz lembrar da voz dela.

Vou at o campo toda manh antes de ir pro trabalho, e ela est l. Todo santo dia, sem falta. Numa manh, cai o maior temporal, mas mesmo assim ela est l.
    Numa quarta-feira, tiro uma folga (dizendo a mim mesmo que este  o tipo de sacrifcio que devemos fazer quando temos uma tarefa mais importante).  Junto com 
Porteiro, vou andando pra escola mais ou menos s trs horas. Ela sai com alguns amigos, o que me deixa contente, pois eu estava torcendo pra que ela no fosse solitria. 
Sua timidez me deixou preocupado.
 engraado que sempre que a gente v algum de longe, tudo parece sem som.  como assistir a um filme mudo. A gente fica imaginando o que as pessoas esto falando. 
Olhamos pro movimento das bocas e imaginamos o som dos ps delas batendo no cho. A gente fica tentando imaginar sobre o que esto conversando e, mais ainda, no 
que esto pensando.
    Enquanto observo, vejo um lance esquisito: quando um garoto se aproxima, fala com as meninas e anda com elas, a corredora aperta o boto "olhe pro cho" de novo. 
Quando ele se afasta, ela volta ao normal.
    Paro pra pensar um instante e chego  concluso de que  bem capaz de ela ter o mesmo problema que eu: falta de confiana.
    Vai ver ela se acha muito alta, desajeitada, e no faz a menor idia de que todo mundo sabe que ela  linda. Acho que, se for s isso, no vai demorar muito 
pra ela sair dessa.
    Balano a cabea, reprovando.
    A mim mesmo.
    Olha s quem fala, digo pra mim, quer dizer ento que ela vai sair dessa. Como  que voc sabe? Por acaso voc saiu dessa, Ed? E ruim, hein. Eu tenho toda razo. 
No tenho nada que ficar inventando um destino nem prevendo nada pra essa garota. S tenho que fazer o que eu tenho que fazer e espero que seja o bastante.
    Algumas vezes, vigio a casa dela  noite.
    No acontece nada.
    Nunca.
    Enquanto estou l pensando na garota, na velha Milla e no terror da Rua Edgar, me dou conta de que nem sei como a garota se chama. No sei por que, mas imagino 
que seja algo tipo Alison, s que penso nela mais como a corredora.
    Durante o vero, compareo aos encontros atlticos que rolam todo final de semana. Ela est l, sentada com o resto da famlia. Tem uma garota mais nova e um 
garotinho. Esto todos usando shorts pretos e camisetas azul-claras com um retngulo costurado nas costas. O retngulo da garota tem o nmero 176, bem embaixo do 
slogan dizendo: "Siga o exemplo de Milo".
    E ento anunciado o incio dos 1.500 metros prs de menos de 15 anos, e ela se levanta, passando a mo no short para tirar a grama seca.
     Boa sorte, filha  deseja a me.
 , boa sorte, Sophie  o pai repete. Sophie. Ta, gostei. Ouo o nome na mente e fao logo uma relao nome-rosto. Os dois se encaixam perfeitamente.
    Ela ainda est limpando o short com a mo quando eu lembro que as outras duas crianas existem  depois que elas se foram, consegui me concentrar totalmente 
na Sophie. A menina saiu pra fazer arremesso de peso, e o menino se enfiou em algum lugar pra brincar de soldado com um molequinho desgraado de feio chamado Kieren.

     Posso ir brincar com o Kieren, mame? Vai, deixa! Deixa!
 Est bem, mas preste ateno pra quando chegar sua vez  os 70 metros comeam logo, logo.
     T bom. Vamos, Kieren.
    Por um instante, dou graas a Deus por ter um nome fcil, simplesmente Ed. Nada de Edward, Edmund, Edwin. S Ed. Pelo menos uma vez na vida a mediocridade me 
faz sentir bem.
    Sophie me v quando se levanta, e seu rosto mostra um pouquinho de felicidade. Ela fica feliz de me ver, mas ainda vira o rosto pro outro lado. Ela caminha pra 
concentrao segurando um par de tnis todo ferrado (acho que deixam as crianas mais velhas usarem tnis nas corridas mais longas) quando o pai grita de novo.
     Sophie!
    Ela se vira pra ele.
 Voc consegue vencer, minha filha! Tenho certeza... E s querer.
     Obrigada, papai.
    Ela se afasta, andando rpido, virando-se mais uma vez pro lado onde estou sentado no sol, devorando um bolinho. Estou com o canto da boca sujo de coco ralado, 
mas agora no d mais pra tirar. J era. E tambm ela no conseguiria ver mesmo. No de onde ela est. Ela s me olha de relance e continua. Eu sei o que tenho que 
fazer agora.
    Se eu fosse um baixinho convencido, diria que essa misso  moleza. Molinho, molinho.
    Mas no sou.
    No consigo dizer isso porque ainda penso na Rua Edgar. Me dou conta de que, para cada mensagem boa, vai ter sempre uma que vai me deixar bolado, na maior agonia. 
Estou mais  agradecido por esta aqui. Est fazendo um dia lindo e eu gosto dessa garota. Gosto mais ainda quando ela corre ao lado de outra garota magrela e alta 
que anda toda empinada. Elas correm juntas, mas, no final, a outra garota termina com mais fora. Ela alarga os passos, e um homem no pra de gritar: "Manda brasa, 
Annie! Manda ver, filha! Manda ver! Acabe com ela, filha! Voc consegue!"
    Prefiro chegar em segundo lugar a ter algum gritando esse tipo de merda pra mim.
    O pai da Sophie  diferente.
    Ele vai pra perto da cerca e fica s assistindo  corrida com a maior concentrao. No grita nada. S fica ligado. s vezes, d pra perceber que ele fica um 
pouco tenso, querendo que a filha passe  frente da outra garota. Quando a outra  quem passa  frente, ele d uma olhada rpida no outro pai, e  s. Quando ela 
vence, ele aplaude a Sophie tambm. O outro pai fica l parado, com um orgulho obsceno, como se ele que tivesse acabado de correr e chegado em primeiro lugar.
    Quando Sophie se aproxima do pai, ele d um abrao nela. A menina est com os ombros pra baixo, expressando a decepo.
    De certa forma, o pai da Sophie me lembra meu velho, s que meu pai nunca me abraou. Isso sem mencionar que ele era alcolatra.  alguma coisa no jeito calado 
dele. Meu pai era um cara calado, que nunca falava mal de ningum. Ele ia pro bar e s saa de l quando fechava. Andava pelas ruas pra diminuir o efeito do lcool 
e ficar sbrio, mas no adiantava nada. Ainda assim, no posso negar, no dia seguinte ele se levantava e ia trabalhar, sem falta. Minha me ficava gritando uma porrada 
de desaforo e palavro por ele ter sado, mas ele nunca reagiu. Ele nunca mandou ela pra merda.
    O pai da Sophie parece a mesma coisa, tirando o lado da birita. Resumindo, ele parece ser um cara muito do elegante e educado.
    Os dois voltam juntos at a me e se sentam l no morrinho. Os pais se do as mos enquanto Sophie toma uma daquelas bebidas pra atletas. Parecem aquele tipo 
de famlia em que eles dizem que se amam antes de ir dormir, quando acordam, ou antes de sarem pra trabalhar.
    Sophie tira os tnis ferrados. Ela olha pra eles e suspira: "Pensei que eles fossem me dar sorte." Acho que os sapatos eram da me ou de um outro parente de 
sucesso.
    Quando eles se sentam no cho, dou uma olhada mais atenta naqueles sapatos. So azul e amarelo, meio desbotados. Esto velhos e gastos.
    E no est certo.
    A menina merece coisa melhor.

  10        A CAIXA DE SAPATOS
  ?


     Nossa, voc anda sumido!
     Ando ocupado.
    Estou com a Audrey na varanda, tomando uma bebida de quinta, como sempre. Porteiro vem pra fora e pede pra tomar um gole, mas s descola mesmo um carinho que 
eu fao nele.
     Recebeu mais alguma outra carta pelo correio?
    E claro que ela sabia o tempo todo que eu estava mentindo com aquela histria de jogar fora o s de ouros. S doido pra jogar um s de ouros fora, certo? So 
valiosos. Pelo menos precisam ser protegidos.
    Milla, penso. Sophie. A mulher na Rua Edgar e a filha, Angelina.
     No, ainda t na primeira.
     Voc acha que vai ter mais alguma?
    Dou uma pensada e fico na dvida se quero ou no receber mais outra carta.
 A primeira j t dando muito trabalho. E continuamos a beber.
    Fao vrias visitas  Milla, e ela me mostra as fotos todas de novo, e continuo lendo O Morro dos Ventos Uivantes. Na verdade, j estou at comeando a curtir. 
Algumas noites atrs o bolo acabou, graas a Deus, mas a velhinha continua superbacana.
    Sophie perde novamente na semana seguinte, desta vez na corrida de 800 metros. Ela no corre da mesma forma com aqueles sapatos velhos remendados. Precisa de 
alguma coisa melhor pra pelo menos chegar prximo do que ela corre de manh.  de manh que a garota  ela mesma. Praticamente entra em transe, quase fora de si.
    No sbado seguinte, de manh bem cedo, vou  casa dela e bato na porta. O pai dela atende.
     Pois no?
    Me bate um nervoso dos diabos, como se eu estivesse aqui pra pedir pra namorar a filha dele. O cara olha pra caixa de sapato que seguro com a mo direita. No 
perco tempo, levanto a caixa e digo:
 Tenho uma entrega pra sua filha Sophie. Espero que este nmero d nela. O cara pega a caixa e fica sem entender nada.
  s dizer pra ela que um cara trouxe uns sapatos novos. O homem olha pra mim como se eu estivesse drogado.
 Tudo bem  ele se esfora pra no zoar com a minha cara.  Pode deixar que eu darei o recado.
     Muito obrigado.
    Eu me viro e comeo a me afastar, mas ele me chama de volta.
     Espere.
     Pois no?
    Ele segura a caixa, confuso, levantando.
     Eu sei  digo.
    A caixa est vazia.

Eu no fiz a barba e s entreguei o txi s seis da manh; fui direto pra casa da Sophie e depois me mandei pra pista de corrida, onde senti um calor dos diabos. 
Como um salgadinho de salsicha e tomo um caf.
    Quando a chamam prs 1.500 metros, ela vai descala.
    Quando penso nisso, dou um sorriso.
    Sapatos ps-descalos...
     S espero que ningum pise nela  digo.
    Alguns minutos mais tarde, o pai dela vai pra perto da cerca. A corrida comea.
    O outro otrio comea a gritar.
    E a Sophie tropea no final da volta.
    Ela cai entre o grupo das cinco que esto liderando e o resto passa a frente, ganhando uma vantagem de talvez uns 25 metros. Quando ela se levanta, a cena me 
lembra aquela parte em Carruagens de Fogo quando Eric Liddell cai, acaba passando todo mundo e ganha.
    Ainda faltam duas voltas, e ela ainda est bem pra trs.
    Ela bate as duas primeiras corredoras molinho e est correndo como corre de manh. Sem esforo. A nica coisa que se v nela  a sensao de liberdade, e a sensao 
bem pura de estar viva. Ela s precisa do capuz e da cala vermelha. Com os ps descalos, ela passa a terceira e no demora muito pra ficar lado a lado com sua 
rival. Passa a rival e a segura, faltando ainda 200 metros.
    Igualzinho ao que ela faz de manh, eu penso, e as pessoas pararam pra assistir. Viram a menina cair, se levantar e continuar a batalha. Agora todos a vem l 
na frente, aprontando um feito que nunca foi visto em um final de semana normal nesta cidade. Parou tudo: o arremesso de discos, o salto  distncia, tudo. As atenes 
se voltam pra menina de cabelo dourado e aquela voz maravilhosa l na frente de todas...
    A outra garota a alcana.
    Ela vai com tudo, tentando a liderana.
    Os joelhos de Sophie esto sangrando da queda, e acho que ela espetou o p em algum lugar, mas  assim que tem que ser. Os ltimos 100 metros quase a matam. 
Vejo a dor estampada no seu rosto contorcido. Os ps descalos sangram ao passarem pela grama rasteira. Ela quase sorri de dor  quase sorri da prpria natureza 
disso tudo. Ela est fora de si.
    Descala.
    Mais viva do que qualquer pessoa que eu j tenha testemunhado.
    E cruzam a linha.

E a outra garota vence.
    Como sempre.

Ao cruzarem a linha, Sophie cai, e l embaixo, no cho, ela rola, fica de barriga pra cima e olha pro cu. Sente dor nos braos, nas pernas e no corao. Mas, no 
rosto, est a beleza da manh, e, pela primeira vez, acho que ela reconhece. Cinco e meia da manh.
    O pai dela aplaude, como sempre, s que, desta vez, ele no  o nico. O pai da outra menina aplaude tambm.

 Voc tem uma filha e tanto  ele diz.
    O pai de Sophie, muito modesto, s faz que sim com a cabea e diz:
     Obrigado. Voc tambm.

J        OUTRO SER HUMANO
?        ESTPIDO

  Antes de ir embora, jogo minha sujeirada no lixo: o copo de isopor do caf e o papel do salgadinho de salsicha. Como sempre, meus dedos esto todos sujos de molho.
    Ouo os ps dela atrs de mim, mas no me vire. Quero ouvir a voz dela.
     Ed?
    E inconfundvel.
    Eu me viro e sorrio pra garota que est com os ps e joelhos sangrando. O sangue est escorrendo todo torto de seu joelho esquerdo at a canela. Eu aponto e 
digo:
     E melhor dar um jeito nisso a. Ela responde na maior calma:
     Vou dar um jeito, sim.
    Baixa uma sem-gracice entre a gente, e eu saco que esse j no  mais o meu lugar. Ela est linda de cabelo solto. Vale a pena se afogar naqueles olhinhos, e 
sua boca fala, comigo.
     Eu s queria agradecer  ela diz.
     Por ter colocado voc nessa fria? Voc acabou toda ralada...
 No  ela recusa minha mentira.  Obrigada, Ed. Eu dou o brao a torcer.
 De nada, foi um prazer  minha voz chega a doer nos ouvidos se comparada  dela.
    Quando chego mais perto, percebo que ela no desvia o olhar agora. No balana a cabea nem olha pro cho. Ela se deixa olhar pra mim e estar comigo.
     Voc  linda. Voc sabe disso, n?
    Ela fica vermelhinha enquanto concorda comigo.
 A gente vai se ver de novo?  ela pergunta, e pra ser sincero acho que vou me arrepender da resposta.
     No s cinco e meia da madruga.
    Ela mexe com um dos ps, rindo baixinho pra si mesma.
    Estou quase indo embora quando ela diz:
     Ed?
     Oi, Sophie?
    Ela fica surpresa, sem saber como eu sei o nome dela.
     Voc  algum tipo de santo?
    Aqui dentro, eu dou uma risada. Eu? Santo? Fao uma lista do que sou. Taxista. Vagabundo da redondeza. Modelo de mediocridade. Um desastre sexual. Pssimo jogador 
de cartas.
    Digo minhas palavras finais pra ela:
 No, no sou santo, Sophie. S mais um ser humano estpido.
    A gente sorri, e eu vou embora. Sinto que ela fica me observando, s que eu no olho pra trs.

  Q        MAIS UMA VISITA 
  ?        RUA EDGAR


  Parece que as manhs bateram palmas.
    Pra me acordar.

Sempre que abro os olhos, vejo trs coisas, uma de cada vez.
    Milla.
    Sophie.
    Rua Edgar, n 45.
    As duas primeiras me encorajam com o nascer do sol. A terceira me d calafrio por todo o corpo: pele, carne e ossos.
    Passo os finais de noite vendo as reprises dos episdios de Os Gates. O gorducho sempre fica sentado l comendo marshmallow na sua mesa de trabalho. Como  
mesmo que se chama esse cara?, eu me perguntei quando vi o primeiro episdio. Da apareceu a Daisy e disse: "Tudo bem, Boss Hogg?"
    Boss Hogg.
     claro.
    Putz, a Daisy est linda com esse jeans apertadinho. Toda noite quando eu a vejo, meu corao dispara feito louco, mas ela nunca fica muito tempo na tela.
    Porteiro faz cara feia pra mim, toda vez.
     Eu sei  digo.
    Mas ento ela aparece de novo e no adianta discutir. As mulheres lindas so o tormento de minha existncia.
    As noites e os gates vo passando.
    Dirijo meu txi com uma dor de cabea que fica s me esperando por trs. Toda vez que eu me viro, ela est l.
     Obrigado  agradeo ao passageiro.  Deu $16,50.
 Dezesseis e cinqenta?  o velhote de terno reclama. As palavras dele parecem uma espuma na minha cabea, fervendo, subindo e descendo.
 Quer fazer o favor de pagar?  no estou com saco pra isso hoje.  Da prxima vez v andando, j que acha to caro.
    Tenho certeza de que ele coloca a corrida na conta da empresa. Ele me d a grana, e eu agradeo. No foi to difcil, foi?, eu penso. Ele bate a porta com fora. 
Parece que minha cabea estava l tambm.

De certa forma, estou esperando outro telefonema na minha casa, mandando que eu v pra Rua Edgar de novo, rapidinho. Espero algumas noites, mas ningum liga.
    Na noite de quinta, saio cedo do carteado na casa da Audrey. Mc sinto meio incomodado. A sensao me faz levantar e vazar de l, quase sem dizer nada. Chegou 
a hora e sei que preciso estar l do lado de fora daquela casa no final da Rua Edgar  uma casa refm da violncia que rola l dentro quase toda noite.
    Enquanto caminho pra l, me dou conta de que estou andando rpido. J consegui dar conta de duas.
    Milla e Sophie.
    Agora eu tenho que encarar essa.

Viro na Rua Edgar, cerrando o punho dentro dos bolsos da jaqueta. Dou uma olhada pra ver se no tem ningum me vendo. Com Milla e Sophie, sempre me senti  vontade. 
Elas foram as mensagens boas. No teve praticamente nenhum risco na parada, ao contrrio dessa agora, onde todas as respostas parecem ser dolorosas. Para a esposa, 
para a menina, para o marido. E para mim.
    Enquanto espero, tiro um pedao de chiclete que eu j havia esquecido que tinha ali no bolso e coloco na boca. Tem gosto de doena, de medo.
    A sensao aumenta quando o homem aparece e sobe as escadas da varanda. O silncio se aproxima mais ainda, me d uma porrada e me empurra pra frente.
    Acontece.
    A violncia interfere. Ela enfia o dedo em tudo e sai rasgando. Tudo se destri, e eu me odeio por esperar tanto tempo pra dar um fim nisso. Eu me odeio por 
escolher as opes mais fceis noite aps noite. Um dio est se desenrolando e se soltando dentro de mim. Perturba meu esprito e o faz cair de joelhos, perto de 
mim, Ele tosse e sufoca enquanto meu prprio dio por mim mesmo fica insuportvel.
    A porta, eu digo pra mim mesmo. V at a porta  t aberta, cara.
    Mas eu no me mexo.
    No me mexo porque meu cagao me segura, mesmo quando tento fazer com que meu esprito, que est ainda de joelhos, se levante. S que ele cai. Ele se vira pro 
lado e bate no cho fazendo um som seco. Ele olha pras estrelas l em cima. So estrelas que piscam no cu.
    V, eu repito pra mim mesmo e, desta vez, consigo sair do lugar.
    Sinto tudo chacoalhar enquanto subo as escadas da varanda e paro na porta. Nuvens distantes me observam, mas esto se afastando. O mundo no quer saber dessa 
histria. No o culpo por isso.
    L dentro, ouo os dois.
    Ele est acordando a mulher.
    Perturbando a coitada.
    Pegando-a e abandonando-a ao mesmo tempo.
    Ele a joga na cama, pega de novo e a abre. As molas da cama soltam um barulho desesperado de queda e, contrariadas, se esticam de novo. No adianta se recusar. 
No adianta reclamar. Um choro vem se arrastando pela porta onde estou parado. Sai mancando pela abertura na porta e pra nos meus ps.
    Como voc consegue ficar aqui (oral, eu me pergunto, mas mesmo assim espero.
    A porta se abre mais um pouco e tem algum l agora, de frente pra mim.  a garotinha.
    A menina est na minha frente, cobrindo os olhos com os punhos cerrados tentando resgatar o sono preso ali em algum lugar. Est usando um pijaminha amarelo com 
barquinhos vermelhos; ela est torcendo e contorcendo os dedos dos ps.
    Olha pra mim, mas sem medo. Est acostumada com coisa muito pior.
    Ela pergunta bem baixinho:
     Quem  voc?
     Eu sou o Ed  respondo baixinho.
 Eu sou Angelina. Voc t aqui pra salvar a gente? D pra ver uma esperana brilhando naqueles olhinhos.
    Eu me agacho pra v-la melhor. Tenho vontade de dizer que sim, mas as palavras no saem. Vejo que o silncio de minha boca no conseguiu matar a esperana que 
ela invocou. Est quase terminando quando finalmente eu falo. Olho pra ela com toda a sinceridade e digo:
 Voc tem razo, Angelina: eu t aqui pra salvar vocs. Ela se aproxima quando a esperana se reacende.
     Voc consegue?  ela pergunta surpresa.  jura?
    At mesmo uma garotinha de mais ou menos oito anos consegue ver que quase no h resgate de sua vida. Ela tem que confirmar se pode acreditar em mim.
 Vou tentar respondo, e a menina sorri. Sorri, me abraa e diz:
 Obrigada, Ed  ela se vira e aponta. Sua voz sussurra ainda mais baixinho  E o primeiro quarto ali do lado direito.
    Quem dera que fosse fcil assim.

 Vamos, Ed. Eles esto l dentro...
    S que, mais uma vez, no consigo me mexer.
    O medo se amarrou nos meus ps, e eu sei que no posso fazer nada. Hoje no. Pelo jeito, nunca. Se eu tentar me mexer, vou tropear no medo.
    Acho at que a garota vai gritar comigo. Alguma coisa tipo: "Mas voc prometeu, Ed! Voc prometeu!" Mas fica calada. Acho que ela saca a fora fsica do pai 
e que eu sou magrelo. Tudo que faz  se aproximar e me abraar de novo.
    A menina tenta se enfiar na minha jaqueta quando o barulho do quarto aumenta. Ela me d um abrao to apertado que fico pensando como que ela no quebra os ossos. 
Quando ela me solta e vai embora, diz:
     Obrigada por pelo menos tentar, Ed.
    No respondo nada, porque agora a nica coisa que sinto  vergonha. Vejo os ps dela virarem e irem embora embaixo do pijaminha amarelo. Ela se vira mais uma 
vez e diz:
     Tchau, Ed.
     Tchau  respondo atrs de minha cortina de vergonha.
    Ela fecha a porta toda, me deixando ali agachado. Eu me inclino pra frente e descanso a cabea na moldura da porta. Minha respirao sangra. As batidas de meu 
corao enchem meus ouvidos.

Agora estou deitado na cama, engolido pela noite. Como algum pode dormir quando no consegue sentir mais nada alm dos bracinhos de uma criana usando pijama amarelo, 
agarradinha no escuro? Cara, no d.
    Sinto que a insanidade logo vir atrs de mim. Se eu no voltar  Rua Edgar logo, acho que vou pirar. Que pena que a menina apareceu  se bem que eu sabia que 
ela ia aparecer. Ou pelo menos eu deveria saber. Ela havia aparecido nas outras noites e chorado na varanda, substituda mais tarde pela me. Sei que, enquanto estou 
aqui deitado de barriga pra cima, era pra eu conhecer a menininha. Eu queria que ela me desse coragem. Pra me forar a entrar. Mas no funcionou nem a pau. Na verdade, 
mais desastroso que isso, impossvel. Agora me sinto pior ainda.
    s 2:27 da madrugada, o telefone toca.
    Dou um pulo da cama, saio correndo e olho pro telefone. Isso no est me cheirando bem.
     Al?
    A voz do outro lado espera.
     Al?  repito.
    Finalmente a voz se manifesta, e consigo imaginar a tal boca, articulando as palavras. A voz  seca, de taquara rachada.  simptica, mas com um tom completamente 
profissional.
     D uma olhada na sua caixa de correios, Ed.
    Um silncio toma conta e a voz desaparece completamente. No ouo mais nenhuma respirao do outro lado.
    Ponho o telefone no gancho e ando devagar at a porta da frente, chegando  caixa de correios. No tem mais nenhuma estrela no cu e est caindo uma garoa fina 
 medida que vou me aproximando. Estou com as mos tremendo quando me inclino e abro o trinco. Coloco a mo l dentro.
    Toco numa coisa fria e pesada.
    Meu dedo toca no gatilho.
    Sinto um calafrio.
  K        ASSASSINATO NA CATEDRAL
  ?


  S tem uma bala no revlver. Uma bala pra um homem,  a que me sinto o cara mais azarado deste planeta. Digo pra mim mesmo; Voc  um taxista, Ed! Como foi se 
meter nessa fria, meu irmo? No deveria ter se levantado do cho daquele banco.
    Estou sentado na cozinha com a arma aquecendo na mo. Porteiro est acordado, doido pra tomar um caf e s consigo ficar ali olhando pra arma. E, pra piorar, 
o filho-da-me que est armando isso tudo s enviou uma bala. Ser que os caras no se tocam de que  mais provvel que eu d um tiro nos meus prprios ps antes 
mesmo de comear? No sei. Isso j foi longe demais. Uma arma, pelo amor de Deus! No posso matar ningum. Pra incio de conversa, sou um cago. Em segundo lugar, 
no sou nada forte. Em terceiro, est na cara que o que rolou no dia do assalto no banco foi pura sorte  nunca me mostraram como se usa uma arma...
    Agora fiquei puto.
    Por que me escolheram pra isso?, pergunto, mesmo sabendo, com toda a certeza, o que tenho que fazer. Voc ficou feliz com as outras duas, fico me castigando. 
Ento agora vai ter que dar conta dessa, maluco.
    E se eu no der conta? Talvez a pessoa do telefone venha atrs de mim. Talvez seja isso mesmo. Talvez o negcio seja o seguinte: ou eu fao a parada ou o resto 
das balas vai parar dentro de mim.
    Puta que o pariu, agora perdi o sono!
    Pelo amor de Deus, estou quase tendo uma hrnia.
    Dou uma olhada na coleo de discos velhos que meu pai me deu. Pra dar uma aliviada no estresse, saca? Vou passando lbum por lbum, na maior secura, e encontro 
o que estou procurando  o Proclaimers. Ponho na vitrola e fico olhando o vinil girar. As primeiras notas ridculas de Five Hundred Miles comeam a tocar e fico 
furioso. At os Proclaimers esto me deixando puto hoje. Os caras cantam mal que  uma desgraa.
    Ando pela sala.
    Porteiro olha pra mim como se eu tivesse pirado.
    E pirei mesmo. O negcio j est at oficializado.
    So trs da manh, estou tocando Proclaimers no ltimo volume e tenho certeza de que tenho que matar algum. Agora sim minha vida realmente encontrou um sentido, 
no acha, no?
    Uma arma.
    Uma arma.
    Aquelas palavras me atingem, e eu no paro de olhar pra ela, pra ver se isso est acontecendo mesmo. A luz branca da cozinha chega at a sala. Porteiro estica 
as patas e me arranha de leve, pedindo um cafun.
 Sai fora, Porteiro!  reclamo, puto da vida, mas os olhes marrons dele me pedem pra relaxar.
    Eu amoleo e fao um chamego na barriga dele, peo desculpa e preparo um cafezinho pra gente. Vai ser ruim de eu dormir hoje. Os Proclaimers esto s esquentando 
com aquela cano que vai da tristeza  felicidade  a que vem depois de Five Hundred Miles.

A insnia deve matar, penso, enquanto dirijo o txi de volta do centro, no dia seguinte. Meus olhos esto coando e ardendo enquanto dirijo com os vidros abertos. 
O calor do ar fica batendo nos meus olhos, mas eu deixo. A arma est embaixo do meu colcho, onde deixei ontem de noite. A arma est l embaixo do colcho, e a carta, 
na gaveta. E difcil dizer qual das duas me atormenta mais.
    Decido que tenho que parar de reclamar.
    De volta ao TAXI LIVRE, vejo Audrey beijando um dos novatos da cooperativa. Ele tem mais ou menos a minha altura, mas est na cara que malha. Os dois esto ali, 
no maior amasso, beijo de lngua e tudo. Ele est com as mos nos quadris dela e ela, com as mos enfiadas nos bolsos de trs do jeans dele.
    Graas a Deus eu no t com a arma agora, penso, mas eu sei que sou muito garganta.
 Oi, Audrey  falo com ela quando passo, mas ela no escuta. Estou indo pro escritrio pra falar com o chefe, Jerry Boston. Jerry  um cara obeso, cabelo oleoso 
com uns fios penteados de um jeito pra cobrir e disfarar a parte careca.
    Bato na porta.
 Entre!  ele grita l de dentro.  J estava na hora de voc...  ele no completa a frase.  Oh, pensei que fosse a Marge. J tem meia hora que ela ficou de me 
trazer um caf.
    Eu vi a Marge fumando um cigarro no estacionamento, mas decido no contar nada. Gosto da Marge e no gosto de me meter nesse tipo de coisa. Entro, fecho a porta 
e nos olhamos.
     E a?  ele pergunta.  O que  que t pegando?
     Seu Jerry, meu nome  Ed Kennedy, eu trabalho pro senhor...
     Muito bom! O que voc quer? Invento uma mentira:
 Meu irmo est de mudana hoje, e eu queria saber se eu poderia ficar com o txi pra ajud-lo, levando alguma coisa.
    Ele olha pra mim com uma cara generosa e diz:
 E por que diabos eu deixaria voc fazer isso?  ele sorri.  Por um acaso t pintado "Fazemos Mudana" nas portas dos meus txis? Eu l tenho cara de instituio 
de caridade?  agora ele est irritado.  V comprar um carro pra voc, ora essa.
    Mantenho a calma, mas me aproximo.
 Seu Jerry, s vezes chego a dirigir noite e dia e nunca tirei frias.
    Pra falar a verdade, por causa dos meus nove meses de experincia, meus turnos flutuam entre noite e dia toda semana. No sei bem se isso est dentro da lei. 
O pessoal novo fica com a noite. Os veteranos ficam com o dia. Eu fico com os dois. Continuo:
 S t pedindo por uma noite. Se o senhor quiser, eu pago. Boston se debrua na mesa. Ele me lembra o Boss Hogg. Marge aparece com o caf e diz:
     Oi, Ed. Como vai?
    Ah, esse mo-de-vaca de uma figa no vai liberar o txi pra mim, penso, mas s digo o seguinte:
     Tudo bem, Marge, e voc?
    Ela pe o caf na mesa e sai educadamente. Big Jerry toma um gole e diz:
 Ahh, t uma delcia  e muda de idia. Deus abenoe a Marge. Que chegada providencial! Ele diz:  Ento t, Ed, j que voc trabalha bem, vou deixar o txi com 
voc. Mas  s por uma noite, falou?
     Obrigado!
 Voc vem trabalhar amanh?  ele checa a lista de nomes e responde  prpria pergunta.  Vai pegar o turno da noite  ele d uma pensada e resolve a situao. 
 Traga o carro de volta amanh at o meio-dia. Nem um minuto a mais.  tarde vou coloc-lo na manuteno, pois  disso que ele t precisando.
     Tudo bem, seu Jerry.
     Agora me deixe beber meu caf em paz.
    E saio da sala.
    Passo pela Audrey, que ainda est no maior amasso com o cara novo. Eu me despeo, s que mais uma vez ela no ouve. Ela no vai jogar cartas esta noite, nem 
eu. O Marv vai ficar puto, mas com certeza no vai morrer por isso. Ele vai colocar a irm no lugar da Audrey e o pai no meu lugar. A irm dele de 15 anos  boazinha, 
mas come o po que o diabo amassou com um irmo desse. Ele inferniza a vida da garota, de vrias formas. Por exemplo, ela  odiada por todos os professores porque 
o Marv no valia nada enquanto estudava na escola. Todos acham que ela  uma tapada, quando na verdade  bem inteligente.
    De qualquer forma, tenho coisas mais importantes hoje do que as cartas. Tento comer, mas no consigo. Pego o s de ouros e a arma, e fico olhando pros dois na 
mesa da cozinha.
    As horas vo passando.
    Quando o telefone toca, me bate um cagao, mas ento me dou conta de que  o Marv, sem dvida nenhuma. Eu atendo.
     Al?
     Onde  que voc t, cara?
     Em casa.
 Por qu? Eu e o Ritchie estamos sentados aqui no maior tdio. E cad a Audrey? Ela t a com voc?
     No.
     E onde ela se meteu?
     Ela t com um cara l do trabalho.
 Por qu?  ele parece criana, juro por Deus. Esta sempre perguntando por que sem motivo nenhum. Se ela no est l, no est l e pronto. Marv no entende que 
no d pra fazer nada.
 Marv, t cheio de coisa pra fazer hoje. No vai dar pra eu ir.
     O que voc tem pra fazer?
    Devo ou no dizer?, penso. Decido que sim.
     T bem Marv, vou dizer por que no d pra ir hoje...
     Manda.
     Tudo bem. Tenho que matar algum, falou? Tudo bem pra voc?
 Olha s  ele est ficando de saco cheio.  Pra de me sacanear, Ed. No t nada a fim de ouvir seu rosrio de merdas.
    Rosrio? Desde quando o Marv conhece esse tipo de palavra? Bem, ele continua:
 Pra de palhaada e vem pra c. T avisando, maluco: se voc no vier pra c t fora do Jogo de Vero deste ano. Eu tava at falando sobre isso com uns camaradas 
hoje.
    O Jogo de Vero  uma partida de futebol ridcula que rola no corredor esportivo da cidade antes do Natal. Os participantes idiotas tipo Marv jogam descalos; 
o idiota do Marv me convenceu a jogar nos ltimos anos. E todo ano eu quase quebro o pescoo.
 Bem, ento no conta comigo este ano. No vou pra a, cara.
    Desligo o telefone. Como j  de se esperar, o telefone toca de novo, mas eu tiro o fone do gancho e coloco de volta. Eu quase caio na gargalhada quando imagino 
o Marv xingando do outro lado. Neste exato momento, ele deve estar comeando a gritar.
     Ok, Marissa! Venha jogar cartas com a gente!

No levo muito tempo pra me concentrar no trabalho que me espera pela frente. Esta  a nica noite que d pra eu colocar o plano em prtica. Uma noite com o txi. 
Uma noite do meu jeito. Uma noite com a arma.
    Quando olho pro relgio, j  quase meia-noite, mais cedo do que eu esperava.
    Dou um beijo no rosto do Porteiro e vazo. No olho pra trs, porque estou determinado a voltar s mais tarde. A arma est no bolso direito da jaqueta. A carta 
est no bolso esquerdo, junto com uma garrafinha de vodca. Misturei a parada com uma porrada de remdio pra dormir. Melhor que faa efeito.
    A diferena hoje  que eu no vou pra Rua Edgar. Nada disso, fico mais perto da rua principal e espero l. Na hora em que os bares encerrarem o expediente, um 
homem no vai voltar pra casa.
    J  bem tarde quando todos os ps-de-cana saem dos bares. No tem como perder o meu cara de vista, por causa do tamanho do sujeito. Ele se despede dos amigos 
aos gritos, sem saber que esta  a ltima vez. Dou uma volta no txi e tomo a mesma direo em que ele est andando. O cara se aproxima no meu espelho retrovisor 
lateral e passa. Quando ele est mais adiante no caminho, dou partida e dirijo em sua direo. O suor que sinto agora  normal, e eu sei que vou fazer. J embarquei. 
No tem escapatria.
    Paro ao lado dele e chamo baixinho.
     Quer uma carona, parceiro? Ele olha e arrota.
     No vou pagar, no, cara.
 Anda logo, brother. Voc parece que t mal. No vou cobrar a corrida, no, fica frio.
    Ento ele sorri, cospe e d a volta pro lado do passageiro. Quando entra, comea a explicar como se chega em sua casa, mas eu digo:
     Pode deixar comigo. Eu sei onde voc mora.
    Tem alguma coisa que parece me tirar da realidade imediata, me deixando meio que dormente. Sem isso, no consigo ir adiante. Lembro da Angelina, e o jeito como 
sua me estava arrasada no mercado. Tenho que fazer isso. Voc tem que fazer isso, Ed. Eu fao que sim com a cabea.
    Tiro a vodca do bolso e ofereo a ele.
    Ele no pensa duas vezes e vai logo pegando.
    Eu sabia, fico todo orgulhoso de mim mesmo. Um cara desse tipo pega tudo que quer, sem nem pensar. Um cara como eu pensa demais.
     Ah, eu aceito  ele diz e toma um belo de um gole.
     Pode ficar com a garrafa.  toda sua.
    Ele no diz nada, mas continua entornando quando passo pela Rua Edgar e me dirijo pro oeste, indo em direo aos cafunds da cidade. Tem um lugar por l numa 
rua de terra chamado Catedral. Fica no topo de uma montanha rochosa que d pra quilmetros e mais quilmetros de matagal. A gente ainda nem saiu do subrbio quando 
o grandalho adormece. Ele deixa a garrafa de vodca cair e derramar sobre ele enquanto continuo a dirigir.
    Dirijo por mais ou menos meia hora, chego na estrada de terra e da dirijo por mais meia hora. A gente chega l pouco depois de uma hora da manh e, quando paro 
o carro, estamos sozinhos, no maior silncio.
    Hora de partir pra grosseria, ou pelo menos  o que vou tentar.
    Saio do carro e vou pro lado do passageiro. Abro a porta. Porro a cara dele com a arma.
    Nada.
    Bato de novo.
    Depois de cinco tentativas, ele fica momentaneamente assustado, sentindo o gosto do sangue no nariz e na boca.
     Acorda!
    Ele gagueja um pouco, sem saber onde est ou o que est havendo.
     Saia.
    Tenho a arma apontada bem no meio da cara dele, entre os olhos.
 Se voc t pensando que a arma no t carregada, acredite: esse pode ser seu ltimo pensamento na vida.
    Ele ainda est grogue, mas arregala os olhos. Ele pensa em fazer um movimento repentino, mas rapidinho saca que mal consegue sair do carro sozinho. Ele acaba 
conseguindo sair, e eu o acompanho at a rua com a arma contra suas costas.
 Posso te dar um teco bem aqui na espinha e ento te deixar aqui mesmo. Ligo pra sua esposa e pra sua filha, e elas vm pra te ver. Vo fazer a maior festa. Voc 
quer que isso acontea? Ou prefere que eu meta uma bala na sua cabea pra que voc morra rapidinho? Voc  que escolhe.
    Ele cai, mas eu fico de joelhos pra acompanhar. Paraliso o cara com a arma apontada em sua nuca.
 T com vontade de morrer?  minha voz treme, mas se mantm durona.  Sei muito bem que  isso que tu merece.  pulo sobre ele e grito:  Levanta da e continua 
andando, ou morre agora mesmo.
    Ouo alguma coisa.
    O som vem do cho.
    Percebo que  o som de um homem chorando. S que hoje no estou nem a. Tenho que matar o cara porque toda noite ele mata a mulher e a filha aos poucos e sem 
fazer esforo, alm de se divertir com a situao. E  o Ed Kennedy sozinho, o suburbano, quem tem a chance de dar um fim nessa histria.
 Levanta da!  eu me grudo nele de novo, e continuamos subindo em direo  Catedral.
    Quando chegamos no pico, deixo ele parado l, a uns cinco metros da beirada. A arma est apontada pra sua nuca. Estou trs metros atrs dele. Nada pode dar errado.
    S que...
    Eu comeo a tremer.
    Comeo a cambalear e estremecer quando penso em matar outro ser humano. Eu estava todo no clima, s que o clima acabou. O ar de invencibilidade me deixou na 
mo e de repente tomo conscincia de que tenho que fazer isso cercado de mais nada alm de minha fragilidade humana. Respiro. Chego a quase amolecer.
    Agora eu pergunto:
    O que voc faria no meu lugar? Me diga. Por favor, me diga!
    Mas voc est longe disso. Seus dedos vo virando a esquisitice destas pginas que de certa forma ligam a minha vida com a sua. Seus olhos esto seguros. A histria 
pra voc no passa de mais umas 100 pginas em sua mente. Pra mim, est aqui. E agora. Tenho que ir at o fim, considerando o custo a todo momento. Nada ser o mesmo. 
Vou matar esse homem e vou morrer aqui por dentro. Quero gritar. Quero gritar, perguntando o porqu disso tudo. Hoje o cu est todo iluminado de pontinhos espalhados, 
parecendo at que vai chover estrelas, mas nada me acalma. No tem sada. A figura na minha frente cai, e eu estou de p sobre ele, esperando.
    Esperando.
    Tentando.
    Tentando conseguir uma resposta melhor que esta.
    Caraca, a arma est toda rgida na minha mo. Est fria e quente, escorregadia e rgida, tudo ao mesmo tempo. Eu tremo incontrolavelmente, sabendo que, se eu 
fizer isso, vou ter que atirar pra acertar. Vou ter que dar um teco nele e ver seu sangue humano cobrir seu corpo. Vou ficar vendo o cara morrer em uma torrente 
de violncia inconsciente, e, at mesmo quando explico a mim mesmo que estou fazendo a coisa certa, ainda imploro pra saber por que tem que ser eu. Por que no o 
Marv, a Audrey ou o Ritchie?
    Os Proclaimers explodem em meus ouvidos.
    Imagine s.
    Imagine s matar algum ao som de dois nerds quatro-olhos escoceses, de cabeas praticamente raspadas. Como vou poder ouvir essa msica de novo? O que vou fazer 
se a tocarem no rdio? Vou me lembrar da noite em que assassinei um outro homem e tirei a vida dele com as prprias mos.
    Eu tremo e espero.
    Ele comea a roncar. Por horas.

Os primeiros raios de luz comeam a rasgar o cu e, quando o sol aparece mais perto do leste, decido que chegou a hora.
    Acordo o cara usando a arma. Desta vez ele no demora pra responder e, de novo, estou trs metros atrs dele. Ele se levanta, tenta se virar, mas pensa melhor. 
Eu me aproximo e seguro a arma atrs da cabea dele, dizendo:
 Fui escolhido pra fazer isso com voc. Tenho visto o que voc apronta com sua famlia e agora isso tem que chegar ao fim. Balance a cabea se voc l entendendo 
 ele obedece lentamente.  Voc tem conscincia de que vai morrer pelo que fez?  ele no balana a cabea desta vez. Bato nele de novo.  E a?  desta vez ele 
balana.
    O sol desponta no horizonte, e eu seguro a arma bem firme. Meu dedo est no gatilho. O suor escorre pela minha cara.
 Por favor  ele suplica. Ele se dobra todo pra frente. Sente que vai morrer caso caia completamente. Um tipo perturbador de choro toma conta dele.  Sinto muito, 
sinto... Eu vou parar com isso. Eu vou parar.
     Parar com o qu? Ele nem espera pra falar.
     Voc sabe...
     Quero ouvir voc dizer.
     Vou parar de for-la quando eu chegar...
     For-la?
     T bem... estupr-la.
     Melhorou. Continue.
     Vou parar com isso, eu prometo.
     E como  que posso confiar na tua palavra?
     Voc pode.
 No  a resposta que t esperando. Se escrevesse isso a numa redao, levaria zero  e bato a arma com mais fora.  Responda  pergunta!
     Porque, se eu no parar, voc vai me matar.
 Vou matar voc agora!  estou alucinado de novo, molhado de suor, tentando acreditar no que estou fazendo.  Coloque as mos na cabea  ele obedece.  V pra 
perto da beirada  ele obedece.  Como  que voc se sente? Pense antes de responder. Tudo depende de voc acertar ou no.
 Me sinto do jeito que minha esposa se sente toda noite quando eu chego em casa.
     Assustado pra cacete?
     Sim.
      isso a.
    Eu o sigo at a beirada, aponto a arma e me certifico.
    O gatilho sua no meu dedo.
    Respire, eu me lembro. Respire.
    Um momento de paz me envolve e puxo o gatilho. O barulho arde no meu ouvido e, igualzinho ao dia do assalto no banco, a arma agora parece quente e macia na minha 
mo.

   PARTE     DOIS


      AS PEDRAS DE CASA




  A        O QUE RESTOU
  ?

  Secura.
    Saio cambaleando do carro e escorrego em direo  tela anti-inseto. Estou sentindo uma coisa que se parece mais com uma desolao total. Sinto a coisa me correndo 
direto pelo corpo. Direto, no. Em ziguezague. Cansei disso de ser mensageiro, no estou mais nem a pra isso. Essa histria me deixou cheio de culpa. Tento me livrar, 
mas volta sempre. Ningum disse que ia ser fcil.
    A arma.
    Tudo que sinto na mo  a arma. O metal quente e macio se fundindo com minha pele. Est l no porta-malas agora, fria e dura novamente, fingindo inocncia.
    Quando caminho pra varanda, ouo o corpo dele batendo no cho de novo. Acho que deve ter sido um choque pra ele ainda estar vivo. O cara ofegava toda vez que 
tomava um ar, tentando sugar a vida, tentando no morrer. Estava acabado. Eu tinha atirado pro sol, mas,  claro, estava longe demais. Naquele momento, me passou 
rapidamente pela cabea a questo de onde a bala tinha parado.
    O tempo todo enquanto eu voltava pra casa, com os pneus remarcando o caminho que a gente tinha trilhado, olhei pro banco do passageiro. Estava cheio de vazio. 
O que restou daquele cara provavelmente ainda estava l deitado, respirando com a cara no cho, at entupir os pulmes de terra.
    Tudo que eu quero agora  entrar em casa e abraar Porteiro. Espero que ele retribua o abrao.
    A gente toma um cafezinho.
     T bom?  pergunto. Excelente, ele responde.
    s vezes eu queria ser cachorro.

O sol est bem alto, e as pessoas esto indo trabalhar. Eu me sento  mesa da cozinha e sinto uma certeza de que ningum naquela rua annima, coberta de orvalho, 
teve uma noite como a minha. Imagino todas elas se levantando no meio da noite para dar uma mijada, ou gozando juntas em suas camas  enquanto eu estava fora, com 
a ponta de uma arma na nuca de um outro ser humano. Por que eu?, penso, mas  sempre assim. Estou me queixando, embora eu ache que tenho todo o direito. Teria sido 
maneiro estar fazendo amor no lugar de tentar cometer um assassinato. Tenho a sensao de que perdi alguma coisa, e meu caf est esfriando. O fedor de Porteiro 
se ergue e bate nos meus ombros. Apesar de perturbado pelos meus pensamentos, eu me sinto aliviado por ele estar dormindo.
    No demora muito e o telefone toca.
    Ah, no, voc no t podendo com isso, Ed,
    So eles, no so?
    O corao dispara feito louco. As batidas perdem o ritmo.
    ta, pulsao incompetente!
    Eu me sento.
    O telefone toca.
    Quinze vezes.
    Pulo Porteiro, olho atentamente pro telefone e decido ento atender. Fico com a voz meio presa na garganta.
     Al?
    A voz do outro lado est irritada, mas graas ao pai do cu  a voz do Marv. No fundo, d pra ouvir homens trabalhando. Martelando. Xingando. Cenrio de fundo 
pra voz do Marv.
 P, ae, muito obrigado por atender  porra do telefone, Ed  ele reclama. No posso com isso agora.  Eu j tava comeando a pensar que...
     Cala essa boca, Marv  desligo.
    Como  de se esperar, o telefone toca de novo. Eu atendo.
     O que  que t pegando, Ed?
     Nada, Marv. No tem nada pegando.
     No venha de sacanagens, Ed. Minha noite foi pssima.
     Sei. Voc tambm tentou matar algum, Marv?
    Porteiro olha pra mim como se estivesse perguntando se o telefonema era pra ele. Rapidamente, ele volta pra tigela e lambe, buscando um cheirinho perdido de 
caf.
 De novo essa sandice? Olha, j ouvi tudo quanto  desculpa esfarrapada nesta vida, mas nada se compara a essa a, Ed.
    Sandice. Adoro quando um cara como o Marv usa uma palavra assim. Eu desisto.
     Deixa pra l, Marv. No  nada.
 Ento timo  Marv est sempre mais feliz quando eu no tenho nada a dizer. Ele consegue ento dizer o que estava tentando o tempo todo.  E a, j pensou na parada?
     Que parada?
     Voc sabe, cara. Aumento a voz.
 No, Marv, no estado em que me encontro, no fao a menor idia do que voc t falando. Ainda  cedo pra caramba, passei a noite toda fora e, se quer saber, no 
t pronto emocionalmente pra levar esse papinho honesto agora  me d vontade de desligar de novo, mas eu me seguro.  D pra facilitar e me dizer exatamente do 
que estamos falando?
 Ok, ok  ele age como se eu fosse o maior filho-da-puta do mundo e que est me fazendo um favor por no bater o telefone na minha cara.  O pessoal t querendo 
saber se voc t dentro, cara.
     Dentro do qu?
     Voc sabe, p.
     Cara, me atualiza.
     Voc sabe... O Jogo de Vero.
    Puta que o pariu, como voc pde esquecer, otrio? A pelada de ps descalos. Vai ser egosta assim l no inferno, filho-da-puta.
     Marv, ainda no pensei muito bem no assunto.
    Agora ele ficou triste. E no falo de qualquer tristeza, no. Marv est fervendo. O cara praticamente me d um ultimato:
 Ento v se decide logo, Ed. Voc tem 24 horas pra me avisar se vai ou no jogar. Se no, vamos chamar outra pessoa. Tem uma porrada de gente querendo jogar, sacou? 
Esses jogos j so uma tradio superprocurada. Tem uns caras tipo Jimmy Cantrell e Horse Hancock que to doidinhos pra participar...
    Eu me desligo. Horse Hancock? Eu nem quero pensar quem diabos pode ser esse desgraado. S me dou conta de que o Marv desligou na minha cara quando ouo o sinal 
de ocupado. Acho melhor ligar pra ele mais tarde e dizer que vou jogar.
    Se Deus quiser, algum vai quebrar meu pescoo no meio de um matagal cheio de espinhos. Seria muito bom.
    Assim que largo o telefone, pego uma sacola plstica e levo pro txi e tiro a dor na conscincia do porta-malas. Eu a coloco de novo na gaveta e tento esquecer. 
No consigo.
    Durmo.
    Nem sinto as horas passarem enquanto estou na cama.
    Sonho com a noite passada, com o sol de rachar da manh e com a enorme tremedeira de um homem. Ser que ele j voltou pro subrbio? Ser que conseguiu voltar 
a p ou pelo menos pegar uma carona? Tento no pensar nisso. Toda vez que esses pensamentos sobem na cama, eu me viro, tentando amass-los contra o colcho. S que 
eles conseguem escapar.
    Quando acordo pra valer, parece que j estou no meio da tarde, s que ainda no so nem onze horas. O nariz molhado do Porteiro beija meu rosto. Devolvo o txi, 
volto pra casa e levo Porteiro pra passear.
 Fique atento  digo pra ele quando pegamos o caminho. Agora estou todo paranico. Penso no cara da Rua Edgar, embora eu saiba que ele est longe de fazer parte 
de minhas preocupaes. Preciso me preocupar, isso sim, com quem me mandou o s de ouros. Tenho um mau pressentimento: acho que os caras j sabem que eu completei 
a carta e logo, logo vo me enviar uma outra.
    Espadas. Copas. Paus.
    Qual ser a prxima carta que vai parar na minha caixa de correios? Acho que  a carta de espadas que mais me preocupa. O s de espadas me deixa bolado  sempre 
me deixou. Tento no pensar nisso. Sinto como se algum estivesse me vigiando.
    De tarde, andamos um bom pedao e acabamos na casa do Marv, onde encontro vrios caras nos fundos.
    Quando chego no quintal, chamo o Marv. Ele no me escuta de primeira, mas, quando ele vem, eu digo:
     T dentro, Marv.
    Ele aperta minha mo como se eu tivesse acabado de lhe pedir para ser meu padrinho de casamento. Pro Marv e importante que eu jogue porque ns dois participamos 
nos ltimos anos e ele quer que isso vire uma tradio. Marv d a maior importncia ao jogo, e eu me dou conta de que no devo fazer pouco caso da parada. O negcio 
 assim e pronto.
    Olho pro Marv e os outros caras no quintal.
    Eles nunca vo sair deste lugar. No vo querer, e tambm no tem problema.
    Converso com o Marv um pouco mais e tento vazar, embora uma porrada de suburbanos carregando caixas de isopor j tenha me oferecido cerveja. Os caras vestem 
bermudas de tactel, camisetas regata e chinelos de tiras. O Marv me acompanha at o porto onde Porteiro aguarda. Quando estou quase chegando na rua, ele chama.
     Ed!
    Eu me viro. Porteiro, no. Ele no gosta muito do Marv.
     Valeu, cara!
     Falou.
    E continuo andando. Levo Porteiro pra casa, vou pra TAXI LIVRE e bato meu ponto. Dirijo pra cidade, pensando novamente na noite passada. Fragmentos dela esto 
pelas ruas e correm pertinho do carro. Quando uma imagem vai sumindo,  logo substituda por outra. Por um momento, quando olho no espelho retrovisor, no reconheo 
quem sou. Parece que no sou eu. Nem me lembro quem Ed Kennedy tem que ser.
    No sinto nada.
    Pra minha sorte, o dia seguinte  minha folga.  tardinha, eu me sento com Porteiro no parque na rua principal do subrbio. Comprei sorvete pra gente. Dois sabores 
numa casquinha s. Manga e laranja pra mim. Chiclete e capuccino para Porteiro.  legal sentar na sombra. Fico prestando ateno em Porteiro gentilmente atacar o 
sorvete, querendo sentir o doce, ele amolece a casquinha com a baba. Ta um sujeito bonito.
    Ouo passos na grama atrs da gente.
    Meu corao dispara.
    Vejo sombras. Porteiro continua comendo  um sujeito bonito, mas um co de guarda intil.
     Oi, Ed. Reconheo a voz.
    Reconheo e no fundo fico meio sem graa.  Sophie. Dou uma rpida olhada em suas pernas atlticas quando ela pergunta se pode se sentar.
     Claro. Quer um sorvete?
     No, obrigada.
     No quer dividir um com meu amigo Porteiro?
    Ela ri.
     No, obrigada... Porteiro?
    Nossos olhos se encontram.
      uma longa histria.
    A gente fica calado, esperando, at que me lembro que sou o mais velho e assim devo puxar papo.
    Mas no puxo.
    No quero encher essa garota com papo furado.
    Ela  linda.
    Ela faz carinho em Porteiro, e a gente fica ali sentado por meia hora. Acabo sentindo que ela est olhando pro meu rosto. Sua voz penetra em mim. Ela diz:
     T com saudade de voc, Ed. Olho bem pra ela e respondo:
     Eu tambm t com saudade de voc.
    Pior que  verdade. Ela  to novinha, e eu sinto falta dela. Ou ser que no a esqueo porque ela foi uma mensagem bacana? Acho que sinto falta da pureza e 
da sinceridade dela.
    Ela  curiosa.
    Sinto isso.
     Voc ainda t correndo?  pergunto, negando.
    Ela faz que sim com a cabea e participa do papo.
     Descala?
     Claro.
    Seu joelho esquerdo ainda est esfolado, mas, quando olhamos pra ele, no existe arrependimento nos olhos da menina. Ela est contente, e pelo menos s de ver 
como ela est  vontade comigo j  um consolo pra mim.
    Voc fica to linda correndo descala, penso, mas no consigo dizer. Porteiro termina o sorvete e continua se empanturrando, lambendo da mo e dos dedos de Sophie.
    Um carro buzina atrs da gente e sabemos que  pra ela. Ela se levanta.
     Tenho que ir.
    No rola nenhum tchau.
    S os passos e uma pergunta quando ela se vira.
     T tudo bem com voc, Ed?
    Quando olho e a vejo, no agento e dou um sorriso.
     T esperando  respondo.
     Esperando o qu?
     O prximo s.
    Ela  esperta e sabe o que dizer:
     E voc t pronto pro prximo?
 No  encaro e aceito um fato muito claro.  Mas ele vai chegar do mesmo jeito.
    Ela vai embora e eu vejo seu pai me olhando do carro. Espero que ele no ache que eu sou um safado, sei l, sentado em parques e espreitando adolescentes inocentes. 
Ainda mais depois do lance da caixa de sapatos.
    Sinto o focinho do Porteiro na minha perna, e ele olha pra mim com seu olhar adorvel de velhinho.
 E a?  pergunto.  O que vai ser, amigo? Copas, paus ou espadas?
    Que tal mais um sorvetinho?, ele sugere.
    Ele no ajuda mesmo, n?
    Mastigo minha casquinha e a gente se levanta. Percebo que estou todo duro e dolorido de duas noites atrs, na Catedral.  nisso que d tentar assassinar algum.

   2        A VISITA
  ?


  Trs dias se passam e nada ainda.
    Estive na Rua Edgar e a casa est escura. A mulher e a menina esto dormindo, e ainda no h sinal dele. Cogitei retornar  Catedral pra ver o que aconteceu 
com ele, afinal.
    Ainda.
    Cara, como sou ridculo!
    Era pra matar o cara e aqui estou, todo preocupado com seu bem-estar. Eu me sinto culpado por tudo que fiz com ele, mas, por outro lado, me sinto culpado por 
no ter matado o safado. Afinal de contas, foi pra isso que me enviaram l. Acho que a arma na minha caixa de correios deixou isso muito claro.
    Talvez ele tenha conseguido chegar  rodovia e continuado a andar.
    Talvez ele tenha se atirado do penhasco.
    Dou um pra antes que eu pense em todas as possibilidades. No vai demorar pra eu no ter mais tempo de me preocupar. S mais alguns dias.
    Numa noite, depois de jogar cartas, volto e encontro a casa com um cheiro diferente. Tem o cheiro do Porteiro, mas tem outra coisa tambm. Alguma coisa assando. 
Da reconheo.
    Tortas.
    Meio que sem querer, eu me arrasto at a cozinha e percebo que a luz est acesa. Tem algum na minha cozinha comendo torta, que foi retirada do freezer e assada. 
Sinto o cheiro da carne processada e do molho. O cheiro do molho sempre se destaca.
    Com otimismo sem sentido, procuro alguma coisa pra usar como arma, mas no tem nada no meu caminho alm do sof.
    Quando chego na cozinha, vejo uma figura sozinha.
    Fico chocado.
    Tem um homem usando uma mscara de l, sentado na mesa, comendo uma torta de carne com molho. Muitas perguntas me passam pela cabea, mas todas me escapam. No 
 todo dia que se encontra uma parada dessa quando se chega em casa.
    Enquanto estou ali pensando no que fazer, me dou conta, apavorado, de que tem outro atrs de mim.
    No.
    Acordo com uma lambida das grandes.
    Porteiro.
    Graas a Deus voc est bem, digo a ele. Digo fechando os olhos aliviado.
    Ele lambe de novo, e sua lngua est vermelha do sangue que escorre no meu rosto. Ele sorri pra mim.
 Eu te amo tambm  digo, e minha voz soa distante. No sei muito bem se ela saiu ou no, nem se  verdade. Percebo que no ouo nada fora de mim. E tudo interno, 
e como esttica.
    Anda, digo a mim mesmo, mas no consigo me mexer. Eu me sinto grudado no cho da cozinha. At caio na besteira de tentar lembrar o que aconteceu. Isso s faz 
um barulho esquisito na minha frente e a cara do Porteiro se desfigura. A sensao  de que isso seja o precursor da morte. Um prlogo, talvez.
    A minha mente vai se desligando, se transportando.
    Para o sono.
    Mergulho bem no fundo de mim mesmo e me sinto preso, sem sada. Caio passando por vrias camadas de escurido, quase alcanando o fundo, quando parece que uma 
certa mo me puxa pela garganta e me traz de volta  dor da realidade. Algum est literalmente me arrastando pela cozinha. A luz fluorescente me esfaqueia os olhos, 
e o cheiro de torta com molho me d vontade de vomitar.
    Agora algum me apia pra sentar l no cho, meio inconsciente, segurando a cabea com as mos.
    Logo os vultos se misturam  nvoa e consigo v-los sob a luz branca da cozinha.
    Esto sorrindo.
    Esto sorrindo pra mim dentro daquelas mscaras de l bem grossas. So um pouco grandes e sarados, fortes, ainda mais comparados a mim.
    Eles dizem:
     Oi, Ed.
     Como t se sentindo, Ed?
    Tento me concentrar nos meus pensamentos como forma de me manter vivo.
 Meu cachorro  comeo a gemer. Minha cabea vai deixando minhas mos ensopadas, e minhas palavras rapidamente se afogam. J esqueci que foi Porteiro que me trouxe 
de volta  conscincia antes.
     Ele t precisando de um banho  um deles diz.
 Ele t bem?  palavras serenas. Palavras de medo que saem pela boca, tremem e tentam se manter no ar.
     E de uma coleira antipulga.
 Pulga?  pergunto. Minha voz est espalhada pelo cho.  Ele no tem pulga nenhuma.
     E o que  isso aqui?
    Um deles me agarra gentilmente pelo cabelo e levanta minha cabea pra eu ver. Ele mostra o antebrao cheio de picadas de inseto.
 No so do Porteiro  digo, sem entender muito bem por que decidi dar uma de teimoso numa situao desta.
     Porteiro?  como Sophie, os intrusos acham o nome curioso.
    Balano a cabea pra confirmar e da, pra minha surpresa, o movimento me desperta um pouco.
     Escuta, com pulga ou sem pulga, ele t bem ou no?
    Os dois se olham, e um deles d mais uma mordida na torta.
 Daryl  ele diz tranqilamente , acho que no t gostando muito do tom do Ed. T meio...  ele tenta achar a palavra certa.  E meio...
     Azedo?
     No.
     Depreciativo?
 No  mas agora ele encontrou.  Pior... E meio desrespeitoso.
    A ltima palavra  dita com total desdm. Ele olha diretamente pra mim ao falar. Seus olhos me avisam mais do que a boca. Ele d a entender que eu devo me descontrolar 
e cair no choro, implorando que no machuquem meu cachorro, meu companheiro de cafezinho.
 Por favor  digo finalmente.  Vocs no machucaram Porteiro, machucaram?
    Os olhos duros se abaixam.
    Ele balana a cabea de um lado pro outro.
     No.
    A melhor palavra que j ouvi na vida.
 Mas, c pra ns, ta cozinho imprestvel, hein!  diz o cara que ainda est terminando a torta, mergulhando o pedao no molho que est no prato.  Sabia que a 
gente entrou aqui e ele continuou no maior ronco?
     No duvido nada.
     Mesmo quando acordou, o bicho entrou pra pedir o que comer.
     E?
     A gente deu uma tortinha pra ele.
     Assaram primeiro ou deram congelada mesmo?
 Assada, Ed!  ele se ofendeu.  No somos selvagens, t sabendo? At que somos bem civilizados.
     Sobrou alguma torta pra mim?
     P, desculpa a, cara. O cachorro comeu a ltima.
    Usurrio, olho-grande do inferno!, penso, mas no posso usar isso contra ele. Cachorro come tudo mesmo. No d pra brigar com a natureza. De qualquer modo, tento 
pegar os dois. Disparo. Uma perguntinha rpida.
     Quem mandou vocs aqui?
    Depois de jogada ao ar, minha pergunta perde o ritmo. As palavras ficam pairando, e, com todo o cuidado, eu me levanto e me sento em uma das cadeiras vazias 
da cozinha. Estou me sentindo um pouquinho mais  vontade, sabendo que tudo isso faz parte do que est por vir.
 Quem mandou a gente?  o outro assume agora.  Boa tentativa, Ed, mas voc sabe muito bem que no d pra gente dizer. Nada nos daria maior prazer, mas nem a gente 
sabe. S fazemos o servio e pegamos a grana.
    Fico puto.
 O qu?!  isso no  uma pergunta, mas uma acusao.  Porra, eu no recebo grana nenhuma. Ningum me d...
    Levo um tabefe na cara. Um tabefe bem forte.
    Ele ento se senta de novo e volta a comer, mergulhando a ltima crostinha de torta na poa de molho no prato.
    Voc colocou demais, penso. Muito obrigado.
    Ele come calmamente a crosta, e com a boca cheia diz:
 Pra de reclamar, Ed! Todos aqui temos nossas obrigaes. Todos sofremos. Todos encaramos contratempos pelo bem maior da Humanidade.
    Ele impressionou o parceiro e a si mesmo.
    Os dois concordam um com o outro, balanando a cabea.
 Maneiro  o outro diz pra ele.  Tenta lembrar da frase toda.
 ... Como foi mesmo? O bem maior da... ? Ele se esfora, mas no consegue lembrar.
     Humanidade  respondo baixinho.
     O que, Ed?
     Humanidade.
      claro! Voc tem uma caneta a pra me emprestar, Ed?
     No.
     Por que no?
     T achando o que, que isso aqui  papelaria?
 L vem ele nesse tom de novo!  ele se levanta, me d um tabefe ainda mais forte e volta pra cadeira como se nada tivesse ocorrido.
     Essa doeu  reclamo.
 Obrigado  ele olha pra mo: pro sangue, pra sujeira e pra mancha.  Voc t mal, Ed, no t, no?
     Eu sei.
     O que t pegando?
     Eu quero uma torta.
    Cara, juro por Deus  e tenho certeza de que voc vai me entender muito bem baseado nas aes anteriores  s vezes viro criana. Uma criana bem p-no-saco. 
O Marv no  o nico.
    O cara que me deu o tabefe me sacaneia, me imitando com uma voz de criancinha.
 Eu quero uma torta...  ele at suspira.  Voc t se ouvindo, maluco? V se cresce, faz favor!
     Eu sei.
     Bem, j  alguma coisa.  o primeiro passo.
     Obrigado.
 Bem, onde  que estvamos mesmo? Os trs param pra pensar. Silenciosamente.
    Porteiro entra, com cara de quem tem culpa no cartrio.
    Pelo jeito, acho que no vai dar pra rolar um cafezinho, n?, ele consegue me perguntar. Ah, ele que se dane!
    S olho pra ele, e ele volta l pra fora. D pra ele sentir que est sujo comigo. Ns trs ficamos olhando enquanto o bicho se afasta da cozinha.
 D pra sentir o cheiro quando ele se aproxima, no d?  um diz.
     Com certeza.
    O que come mais devagar se levanta e comea a enxaguar os pratos na pia.
     Deixa pra l  digo.
     Nada disso... Civilizados, lembra?
     Ah sim,  mesmo. Ele bate as mos e se vira.
     Ae, minha mscara t suja de molho?
 Que eu esteja vendo, no  o outro responde.  E a minha? Ele se inclina e examina.
     No, c t limpinho, limpinho.
     Que bom.
    O que come devagar comea a brigar com a prpria cara, dizendo:
     Ah, essa porra coa que  um inferno.
     Ah, pra de reclamar, Keith.
     A sua no coa, no?
 E claro que coa!  Daryl no consegue acreditar que esto discutindo sobre isso.  Mas voc me v reclamando a cada cinco minutos, por acaso?
     A gente t aqui h uma hora.
 Mesmo assim, lembre: estas so as coisas que temos que passar pelo bem maior da...  ele estala os dedos pra mim.
     Oh, Humanidade.
     Isso a. Valeu, Ed. Bom trabalho.
     Tudo bem.
    Ficamos meio que amiguinhos agora. Eu sinto isso.
 Olha s, ser que d pra acabar logo com isso pra eu poder tirar essa mscara de l da cara, Daryl?
 Ser que voc poderia mostrar um pouco de disciplina, Keith? Todo matador que se preza  impecavelmente disciplinado, falou?
     Matador?  pergunto.
    Daryl encolhe os ombros.
     Bem,  assim que a gente se chama.
     Parece plausvel  concordo.
     Acho que sim  e ele pensa mais agora. Ele reflete. Ele fala.
 Ok, Keith, voc tem razo.  melhor ir logo embora. Voc pegou a pistola, no pegou?
     Peguei sim. Tava na gaveta.
 Bom  Daryl se levanta e tira um envelope do bolso da jaqueta. No envelope est escrito "Ed Kennedy".  Tenho uma entrega pra voc, Ed. Por favor, levante da, 
filho.
    Eu me levanto.
 Desculpa  ele agora usa a razo , mas t cumprindo ordens. Tenho que lhe dizer uma coisa: at agora voc t se saindo bem  ele abaixa a voz.  E s entre ns, 
e eu posso at acabar me ferrando por lhe dizer isso, a gente t sabendo que voc no matou o outro cara...
    Ele se desculpa de novo e me d um soco na costela.
    Eu me dobro de dor.
    O cho da cozinha est uma imundcie.
     plo de Porteiro pra tudo quanto  lado.
    Com o punho, o cara martela minha nuca.
    Meto a cara no cho.
    O gosto se junta na minha boca.
    Bem devagar, sinto o envelope parando nas minhas costas.
    Bem longe, ouo a voz do Daryl pela ltima vez. Ele diz:
     Desculpa a, Ed. Boa sorte.
    Seus passos ecoam pela casa e agora ouo a voz do Keith tambm.
     Posso tirar a mscara agora?
     Falta pouco, cara  Daryl responde.
    A cozinha vai escurecendo, e eu mergulho mais uma vez.

   3        O ENVELOPE
  ?


  EU queria muito poder dizer que Porteiro est me dando uma fora, mas  claro que no est. Ele se aproxima e me d umas lambidinhas at eu encontrar fora suficiente 
pra me levantar.
    A luz mergulha em mim.
    A dor aumenta.
    Quando tento manter o equilbrio, Porteiro balana, e eu, desesperado, peo ajuda pra ele. S que a nica coisa que ele consegue fazer  ficar ali, balanando 
e olhando.
    De canto de olho, vejo alguma coisa no cho.
    Eu me lembro.
    O envelope.
    Caiu das minhas costas, debaixo das cadeiras da cozinha, no meio dos plos do Porteiro.
    Eu me abaixo e pego o envelope entre os dedos, feito criana segurando alguma coisa muito suja, tipo um leno usado.
    Com Porteiro me guiando, vou pra sala e me esparramo no sof. O envelope oscila, fazendo graa de seu prprio perigo, como se dissesse, " s papel. S palavras". 
Nunca menciona se as palavras vo ser de morte ou estupro, ou outros servicinhos horrveis e sanguinrios.
    Ou se vai ter mais algumas Sophies, ou Millas.
    De qualquer forma, estamos sentados no sof.
    Porteiro e eu.
    E a?, ele pergunta com o queixo no cho.
    Eu sei.
    O negcio tem que ser feito.
    Abro o envelope, e o s de paus cai, com uma carta.

    Caro Ed:
    Se voc estiver lendo esta carta, provavelmente est tudo bem. Espero que sua cabea no esteja muito dolorida. Sem dvida alguma, Keith e Daryl mencionaram 
que estamos muito satisfeitos com seu progresso. Se minha intuio estiver certa, eles provavelmente deixaram escapar que ns sabemos que voc no matou o sujeito 
da Rua Edgar. Muito bem. Voc deu conta da situao muito bem. De fato, foi impressionante. Parabns.
    Caso voc esteja se perguntando, o Sr. Rua Edgar embarcou em um trem rumo a uma antiga cidade mineradora h pouco tempo. Tenho certeza de que voc ficar contente 
em saber disso...
    Agora novos desafios aguardam.
    Paus no  brincadeira, meu caro.
    A questo : Voc est disposto a encarar?
    Ou seria tal questo irrelevante? Voc no estava disposto para o s de ouros.
    Mas deu conta do recado.
    Boa sorte e continue firme nas entregas. Tenho certeza de que voc est consciente de que sua vida depende disso.
    Adeus.

Que timo.
    Simplesmente timo.
    Tremo todo s de pensar no s de paus revelando suas intenes. Tudo me leva a no pegar a carta. Contra toda a realidade, chego a imaginar Porteiro comendo 
a desgraada.
    O nico problema  que eu a sinto logo ali, depois do dedo do p. A droga da carta  como a prpria gravidade. Como uma cruz pra eu carregar nas costas.
    Ela est nos meus dedos agora.
    Eu a seguro.
    Est nos meus olhos.
    Eu a leio.
    Sabe quando voc faz alguma coisa e s se d conta de que realmente fez o troo depois de uns segundos? Pois , foi isso que acabei de fazer, e resultado: estou 
lendo o s de paus, esperando encontrar outra lista de endereos.
    Me dei mal.
    Como sempre, no vai ser to fcil. Desta vez no tem endereo nenhum. Essa histria no segue um padro exato. No tem nada que garanta a segurana dessa parada. 
Cada parte  um teste, e parte do teste est no inesperado.
    Desta vez o negcio est nas palavras.
    S palavras.
    Na carta est escrito o seguinte:

    Faa uma orao
    nas pedras de casa

E a, o que voc acha? D pra me dizer que diabos quer dizer isso? Pelo menos o lance dos endereos era curto e grosso, bem direto. As pedras de casa podem ser qualquer 
coisa. Em qualquer lugar. Qualquer pessoa. Como posso encontrar um lugar sem face, e nada pra me apontar na direo certa?
    As palavras sussurram pra mim.
    A carta suavemente fala no meu ouvido como se a recordao fosse vir  tona a qualquer momento.
    Mas no tem nada.
    S a carta, eu e um cachorro roncando bem baixo.
    Acordo mais tarde, todo amarfanhado no sof, e me dou conta de que minha nuca sangra de novo. O sof est sujo de sangue, e meu pescoo, cheio de ferrugem. A 
dor voltou, s que menos aguda. E constante.
    A carta est na mesinha de centro, pairando sobre a poeira. Crescendo no meio do p.
    Est escuro l fora.
    A luz da cozinha est muito forte.
    Ela me deixa surdo quando me dirijo pra l.
    O sangue enferrujado arranha meu pescoo e chega at as costas. No caminho, percebo que preciso beber alguma coisa, dou uma porrada no interruptor pra apagar 
a luz, e vou tropeando pelo escuro em direo  geladeira. L no fundo encontro uma cerveja e volto pra sala, tentando beber at ficar de porre. No meu caso, ficar 
de porre significa ignorar a carta. Dou uma batidinha no Porteiro com os ps, querendo saber que dia  hoje e que horas so, o que deve estar passando caso eu decida 
me dar ao trabalho de levantar pra ligar a TV. Tem alguns livros no cho. No vou ler nenhum deles.
    Alguma coisa escorre pelas minhas costas.
    Minha cabea est sangrando de novo.

   4        S   O  E D
  ?


     Mais uma?
     Mais uma.
     Qual  o naipe desta vez?
     Paus.
 E voc ainda no faz a menor idia de quem t te mandando?
 Audrey olha pra cerveja que caiu na minha jaqueta, e agora pro sangue coagulado e podre no meu pescoo.  Credo, em que fria voc se meteu ontem  noite?
     No se preocupe.
    Me sinto meio pattico, pra dizer a verdade. Vim direto pedir ajuda pra Audrey assim que amanheceu. A gente est aqui conversando na varanda j h algum tempo 
e s agora me toco que estou tremendo feito vara verde. O sol me aquece, mas minha pele tenta abandonar meu corpo, brigando com a carne.
    Posso entrar?, penso, mas rapidinho tenho a resposta, quando aquele novato do trabalho aparece, perguntando:
     Quem , gatinha?
     Oh...  Audrey fica meio...
    Sem graa.
    Ento manda, sem pensar.
     Oh,  s o Ed.
    S o Ed.

 Bem, at mais tarde...
    Comeo a andar pra trs, esperando. Esperando o qu?
    Ela.
    Mas ela no vem.
    Finalmente, ela d uns passos pra fora e diz:
     Voc vai estar em casa mais tarde, Ed?
    Continuo andando de costas.
 No sei   verdade. Eu no sei. Meu jeans parece ter mil anos de idade, embrulhando minhas pernas. Parece at uma mosca. Minha camisa arde no corpo. As mangas 
da jaqueta esto speras, meu cabelo, todo bagunado, e meus olhos, bem vermelhos. E ainda no sei que dia  hoje.
    S o Ed.
    Eu me viro.
    S o Ed sai andando.
    S o Ed anda rpido.
    Ele faz que vai correr.
    Mas ele tropea.
    Ele enfia um p na terra e diminui o passo, ouvindo a voz dela chamar, se aproximando.
     Ed?
     Ed?!
    S o Ed se vira pra ouvi-la.
     Mais tarde eu dou uma passada na sua casa, t bem?
    Ele desiste.
 Falou. Ento at mais  e vai embora. Ele olha pra Audrey l na porta...
    Uma camiseta supergrande fazendo a vez de um pijama. Cabelo superlindo. Mos nos quadris. As pernas finas e compridas, bronzeadas. Os lbios secos, de quem acaba 
de acordar. Marcas de dentes no pescoo.
    Putz, cara, dava pra sentir o cheiro de sacanagem nela.
    E, na maior angstia silenciosa, fico pensando que seria bacana se eu tambm estivesse cheirando a sexo.
    S que o nico cheiro que sinto aqui em mim  de sangue pisado e de cerveja respingada na jaqueta.
    Est fazendo um dia lindo.
    No tem uma nuvem no cu.

Pare de se lamentar, digo a mim mesmo depois, comendo meus sucrilhos, e j que o senhor quer saber, seu Ed, hoje  tera-feira. O senhor vai trabalhar hoje  noite.
    Deixo o s de paus na mesma gaveta de cima onde coloquei o s de ouros. Por um instante, imagino uma mo cheia de ases naquela gaveta, todos abertos feito um 
leque, como um jogador os seguraria numa partida. Nunca pensei que eu no fosse querer quatro ases. Num jogo de cartas, o cara reza pra pegar um jogo assim. Minha 
vida no  nenhum jogo de cartas. Tenho certeza de que o Marv no vai demorar pra me pentelhar de novo, querendo que eu v correr com ele, tipo uma preparao pro 
Jogo de Vero. Por enquanto, consigo at rir um pouco quando penso na situao  imaginando ns dois correndo descalos pelo orvalho e os enfeites assustadores dos 
jardins das pessoas. No adianta correr de tnis quando o pessoal vai jogar descalo.
    Audrey chega l pelas dez, toda cheirosinha, depois de tomar um banho. Amarrou o cabelo pra trs, deixou uns fozinhos caindo nos olhos. Veste cala jeans, botas 
caramelo e uma camisa azul com o logo da TXI LIVRE bordado no bolso.
     Ed.
     Audrey.
    A gente se senta na varanda e fica com as pernas balanando na beirada. Agora tem umas nuvens no cu.
     E a, o que esta diz?
    Dou uma pigarreada e falo baixo:
     ... Faa uma orao nas pedras de casa. Silncio.
 Alguma idia?  ela acaba perguntando, olhando pra mim. Sinto os seus olhos. Sinto a maciez deles.
     Nenhuma.
 E como t sua cabea e...  ela olha pra mim agora com um certo tipo de preocupao. ... tudo mais. Ed, voc t todo ferrado.
 Eu sei  minhas palavras batem nos meus ps e derrapam pra grama.
     Mas o que voc fez nos endereos da primeira carta?
     T mesmo a fim de saber?
     T.

Eu conto e vejo o que acontece.
 Bem, tive que ler pra uma senhora, deixar uma garota supermeiga correr descala at ficar toda contente, ensangentada, gloriosa e...  ainda estou falando calmamente. 
... tive que matar um homem que estuprava a mulher toda noite.
    O sol aparece depois que uma nuvenzinha se dispersa.
     T falando srio?
 Voc acha eu ia brincar com uma coisa dessas?  tento falar com um pouco de hostilidade, mas no consigo. Estou sem a menor energia.
    Audrey no tem coragem de me encarar agora, com medo de saber a resposta s de olhar pra mim.
     Voc fez isso?
    Agora me sinto culpado por pegar pesado e at por contar tudo isso. Ela no pode fazer nada pra ajudar. Nem consegue tentar entender. Ela nunca vai saber. Audrey 
nunca vai sentir os braos daquela criana, Angelina, em volta de seu pescoo; nunca vai ver a me se desmontando toda no mercado. Nunca vai sentir o frio daquela 
arma, nem vai ver o desespero de Milla querendo saber se tinha sido boa com o Jimmy, querendo ter certeza de que nunca decepcionou o cara. Ela nunca vai entender 
a timidez das palavras da Sophie no silncio de sua beleza.
    Fico perdido por uns segundos.
    Eu me perco nesses pensamentos.
    Quando recobro a conscincia e me pego ali sentado ao lado de Audrey, respondo  pergunta.
     No, Audrey. Eu no matei o cara, mas...
     Mas o qu?
    Balano a cabea e sinto algumas lgrimas nos olhos. No deixo que elas saiam.
     O que, Ed? O que voc fez?
    Lentamente. Vou falando. Lentamente.
    Lentamente...
 Levei o cara l pra cima, pra Catedral, com uma arma enfiada na cabea dele. Puxei o gatilho, mas no atirei nele. Mirei pro sol  sinto que ficar enrolando o 
papo assim desse jeito s piora.  Ele saiu da cidade e no voltou. Na verdade nem sei se ele vai voltar um dia.
     Ele merece?
 O que merecimento tem a ver com a histria? Quem sou eu pra decidir isso, Audrey?
 Tudo bem  a mo dela toca em mim com suavidade, em paz.  Se acalme.
 Me acalmar? Me acalmar?! Enquanto voc t trepando com aquele cara, enquanto o Marv planeja a partida de futebol idiota, enquanto o Ritchie faz sabe l Deus o 
que quando no t jogando cartas, e enquanto a cidade inteira dorme, eu lavo a roupa suja.
     Voc  um escolhido.
     Putz, que consolo!
 Ah ? E o que voc me diz da senhora e da menina? No foram maneiras?
    Eu me acalmo.
     ... mas...
     No valeu a pena passar por essa merda pra conhecer as duas?
    Puta merda.
    Que dio.
    Eu concordo.
  que... eu s queria que as coisas fossem um pouco mais fceis, entende?  neste momento fao questo de no olhar pra ela.  Eu queria que tivessem escolhido 
outra pessoa pra isso. Algum competente. Antes eu no tivesse me metido naquele assalto l do banco. No queria ter que passar por nada disso  as palavras esguicham 
de minha boca, feito leite derramado.  E eu queria que voc estivesse comigo e no com aquele outro cara. Eu queria que fosse minha pele que estivesse tocando na 
sua...
    E a est.
    A estupidez em sua forma mais pura.
     Ai, Ed...  Audrey olha pro outro lado.  Ai, Ed...
    Balanamos os ps.
    Fico olhando pra eles, e olho pro jeans nas pernas da Audrey.
    Ficamos l sentados.
    Eu e Audrey.
    E a sem-gracice.
    Espremida ali, bem entre ns.
    No demora muito e Audrey diz:
     Voc  meu melhor amigo, Ed.
     Eu sei.
    Essas palavras podem matar um homem.
    No precisa nem de arma.
    Nem de balas.
    S das palavras e de uma garota.

Ficamos mais um tempinho sentados na varanda, e eu olho pras pernas e pro colo da Audrey. Cara, que vontade de me encolher todo, colocar a cabea e dormir nesse 
colo. Essa histria toda s est comeando e eu j estou exausto.
     hora de tomar uma deciso.
    Tenho que me acalmar.

   5        OS TXIS, A PROSTITUTA
  ?       E ALICE


  O dia j vai chegando ao fim e estou no meu txi, dirigindo pro centro. Os prdios ao longe encobrem o pr-do-sol.
    A noitinha chega silenciosa e tranqila, bom pra pensar,
    A cliente mais interessante que pego  uma criatura com a maior pinta de puta; ela se senta na frente. A mulher tem um corpao. Toda durinha. O cabelo dela acena 
pra mim... E que boca  essa, meu irmo?! Muito linda. O que estraga so os dentes. Duas palavras para descrev-la: loura e meiga. Ela termina todas as frases com 
uma palavra carinhosa.
    "Por que a cara amarrada, gatinho?"
    "Nunca me senti assim, amor."
    Ao contrrio dos esteretipos, ela est usando uma maquiagem de bom gosto e leve. Botas pretas at o joelho, um collant branco todo grudado no corpo, que lhe 
d uma forma maravilhosa, e uma jaqueta escura.
    No tire os olhos do caminho, Ed.
     Gatinho...
    Eu me viro pra ela.
     Est lembrado para onde estamos indo, amor?
    Dou uma pigarreada.
     Para o Quay Grand?
 Isso mesmo, tenho que estar l por volta das dez, ok, doura?
 Claro  e eu olho pra ela com uma cara simptica. Gosto desse tipo de cliente.
    Quando chegamos l, o taxmetro est marcando $ 11, 65, mas ela me d $ 15 e diz pra eu ficar com o troco. Inclina-se na janela.
     Voc  uma gracinha.
    Dou um sorriso.
     Obrigado,
     T agradecido pela grana ou pelo elogio?
     As duas coisas.
    Agora ela estica o brao pra dentro do carro, me oferece a mo e diz:
 Eu me chamo Alice  seguro na sua mo.  As pessoas me chamam de Sheeba, mas voc pode me chamar de Alice, ok, gatinho?
     Ok.
     E como voc se chama?
 Eu?  solto a mo dela meio que a contragosto e respondo. Ela no deve ter visto minha identidade de taxista no painel.  Ed. Ed Kennedy.
    Ela solta uma ltima frase carinhosa.
 Bem, obrigada por me trazer aqui, Ed. E pare de se preocupar tanto com a vida. Vai se divertir, t, amor?
     Tudo bem.
    Quando ela se vai, eu a imagino se virando e dizendo: "Voc poderia voltar pra me pegar de manh, Ed?" Mas ela no se vira. Ela se foi. Alice no mora mais aqui.

Fico ali sentado dentro do txi, sozinho, s olhando aquela figura andando at as portas do hotel.
    Atrs de mim, um carro buzina feito louco, e um homem esbraveja pela janela.
     Anda, piloto!
    Ele tem razo. Somos um bando de otrios.

Enquanto dirijo noite adentro, imagino Alice se transformando em Sheeba. Ouo a voz dela e sinto o cheiro na penumbra do quarto do hotel com vista para o porto de 
Sydney.
    "T bom assim, gatinho?"
    "Ai, amor..."
    "Isso, gostosinho, isso... a mesmo... assim... vai... no pra."
    Eu me vejo embaixo dela.
    Ela me pega e faz amor comigo.
    Eu a sinto.
    Eu a conheo.
    Provo aquela boca de champanhe.
    Ignoro os dentes feiosos.
    Fecho os olhos e provo seu gosto.
    Toco em sua pele nua.
    O collant no cho.
    A jaqueta perto da gente.
    As botas jogadas perto da porta.
    Vou me acomodando dentro dela.
    "Ai!", ela diz, sem flego, "Ed, ai, Ed!". Fico doido. "Ai, Ed..."
 O sinal fechou, cara!  o passageiro no banco de trs grita. Enfio o p no freio.
     Que  isso, irmo?
     Me desculpe.
    Respiro fundo.
    Foi bom esquecer do s de paus e da Audrey por um tempo, mas agora voltei  realidade. A voz do homem trouxe as duas coisas  memria.
     Ficou verde agora, cara.
     Obrigado.
    E toco o txi.

   6        As PEDRAS
  ?


  Em casa.
    Volto pro subrbio enquanto o sol vai despontando no cu. Todas as estradas esto vazias e eu paro na TAXI LIVRE.
    Como sempre, volto andando pra minha casa.
    Porteiro fica feliz de me ver.
    Tomamos o cafezinho obrigatrio e tiro a carta da gaveta. Olho bem pra ela, tentando peg-la desprevenida e faz-la me revelar os segredos.
    A noite podia ter sido de qualquer forma, mas eu me sinto pronto agora. Quero fechar essa boca que s reclama e inventa desculpas, quero prosseguir a jornada. 
Chego a me encurralar na luz cada vez mais forte da sala. Penso: No culpe ningum, Ed. Aceite na boa. Vou at a varanda e percebo minha prpria viso limitada do 
mundo. Quero pegar este mundo, e pela primeira vez tenho a sensao de que posso fazer isso. Sobrevivi a tudo at agora. Ainda estou aqui, firme e forte. Tudo bem, 
vai, eu sei que  uma varanda toda fodida, caindo aos pedaos, e quem sou eu pra dizer que o mundo no  o mesmo? Mas Deus sabe que o mundo exige muito da gente. 
Porteiro fica paradinho s de butuca ao meu lado. Ao menos, tenta ficar parado. Quem olha at diz que  um cachorro confivel e obediente. Olho pra ele e digo:
     Chegou a hora.
    Quantas pessoas tm esta chance?
    E dessas poucas, quantas de fato aproveitam a oportunidade?
    Eu me agacho e coloco a mo no ombro do Porteiro (ou alguma coisa muito prxima a um ombro num cachorro), e vamos  luta,  caa das tais pedras de casa.
    Depois de meia hora de caminhada pela rua, a gente pra.
    A gente pra porque tem um pequeno detalhe.
    A gente no faz a menor idia de onde ir pra procurar a parada.

O resto da semana passa voando  jogo uma porrada de partidas de cartas, trabalho e fico de bobeira com Porteiro. Jogo uma bolinha com o Marv no campo perto de casa 
na noite de quinta-feira e depois do jogo, l na casa dele, fico s olhando enquanto ele enche a cara.
 Falta um pouco mais de um ms pro jogo  ele diz, bebendo a cerveja do pai. Ele nunca compra a dele. Nunca.

O cara ainda mora com os pais. Tenho que admitir que a casa  bem maneira por dentro. Tbua corrida. Janelas limpas. A me  que se junta com a Marissa pra manter 
tudo assim,  claro. Os machos  Marv, o irmo preguioso e o coroa  no movem uma palha. Marv deixa uma graninha com a famlia pelo quarto que ocupa e deposita 
o resto da grana no banco. s vezes fico me perguntando pra que ser que ele est juntando dinheiro. Da ltima vez que fez os clculos, ele disse que j tinha uns 
30 mil na conta.
     Tu quer jogar em que posio, Ed?
     Sei l.
 Eu quero jogar no centro  ele conta em segredo.  S que  bem provvel que eu fique na lateral de novo. Tu pega a segunda linha apesar de ser magrelo e fraco.
     Muito obrigado.
     U,  verdade, no ?
    Nessa eu fiquei sem sada.
 Mas na verdade, quando voc quer, at que joga bem  ele continua.
 a que eu devia dizer pro Marv que ele tambm  um bom jogador, mas fico na minha, sem abrir a boca.
     Ed?
    Nada.
    Estou pensando no s de paus de novo e onde devem estar as pedras de casa.
     Ed?  ele bate as mos.  C ta, cara?
    Por um instante, me d vontade de perguntar pro Marv se ele j ouviu falar nas pedras de casa, mas alguma coisa me trava. Ele no vai entender e j sei perfeitamente 
bem que, se for pra eu ser o mensageiro, terei que tocar o barco sozinho.
 T tudo bem, Marv, t aqui. S tava pensando numas paradas a.
 Voc ainda vai morrer disso, meu velho. Melhor no pensar, vai por mim.
    De certa forma, bem que eu queria ser assim. Sabe, tipo no ligar nem me preocupar com coisas que realmente so importantes. Acho que seria feliz, do mesmo modo 
lamentvel com que nosso amigo Ritchie  feliz. Nada abala o cara, e o cara no abala nada.
     Fica frio, Marv. Isso vai passar e eu vou melhorar.
    Marv est no maior pique pra conversar hoje.
     T lembrado daquela gatinha que eu namorava?  ele pergunta.
     A Suzanne?
    Ele diz o nome dela completo, bem devagar:
 Suzanne Boyd  e ento encolhe os ombros.  No esqueo de quando ela foi embora com a famlia sem nunca me dizer porra nenhuma. j faz trs anos... Pensei nisso 
pra caramba at que o lance me deixou maluco  ele agora verbaliza o que acabei de pensar.  Se fosse com algum como o Ritchie, ele no taria nem a. Chamaria a 
garota de vagabunda, tomaria uma cerveja e faria uma fezinha l na casa de apostas  Marv d um sorriso pesaroso e olha pra baixo.
    Quero conversar com ele.
    Quero perguntar sobre a garota e se ele gostava dela e se ainda sente saudade.
    S que nada sai da minha boca. Fala srio:  difcil conhecer de verdade os amigos, no , no? A gente no se abre muito.
    Rola um silncio bem longo at que eu resolvo cortar o clima. Parece at algum cortando um po e oferecendo um pedao. No meu caso, ofereo uma pergunta ao 
meu amigo.
     Marv?
     O que foi?  os olhos dele de repente me deixam angustiado.
 Como voc se sentiria se tivesse que estar neste exato momento em algum lugar e no soubesse como chegar l?
    Ele pra pra pensar. Consegue esquecer a garota por um instante.
 Tipo se eu perdesse o Jogo de Vero por no saber como chegar l no corredor esportivo?
    Dou uma colher de ch pra ele.
     Isso, pode ser.
 Bem...  ele pensa seriamente, esfregando a mo grossa nos pentelhos louros do rosto. Isso  s pra voc ter uma idia da importncia do jogo pra esse cara.  
Acho que eu ficaria pensando no que estaria acontecendo l, sabendo que eu no poderia fazer nada pra mudar por estar to longe.
     Frustrante?
     P, com certeza.

J dei uma olhada nuns mapas. Achei uns livros antigos que eram do meu pai e li umas histrias locais. S que nada me d a menor idia de onde eu possa achar as 
pedras de casa. Dias e noites se passam. Sinto a coisa ficando cada vez mais preta. Cada minuto me informa que alguma coisa pode estar acontecendo e que eu preciso 
ajustar. Ou dar um basta.
    Jogamos cartas.
    J dei mais algumas passadas pela Rua Edgar e nada mudou. O cara ainda no voltou. Acho que nunca vai voltar.
    Quando estive l, percebi que a me e a filha esto felizes. Deixo as coisas como esto.
    Uma noite, vou at a casa da Milla e leio pra ela.
    Ela fica toda contente ao me ver e, sinceramente,  bom voltar a ser o Jimmy. Tomo um chazinho e, na sada, dou um beijinho no rosto enrugado de Milla.
    Sbado, dou uma passada na Sophie e a vejo correr, Ela continua a tirar segundo lugar, mas no arreda o p e continua correndo descala. Ela me v enquanto corre, 
e por isso no me diz nada, s me cumprimenta com a cabea. Paro atrs da cerca que contorna a pista traseira. S naquele minutinho rpido a gente se reconhece e 
 o bastante.
    "Que saudade de voc, Ed", lembro dela dizendo isso naquela tarde no parque. Ainda hoje, quando passa por mim correndo, vejo que ela diz: "Que bom que voc veio."
    Eu tambm estou feliz por ter vindo, s que tenho que sair antes do trmino da corrida.
    Naquela noite, enquanto estou no trabalho, acontece.
    Encontro as pedras de casa.
    Ou, pra ser sincero...
    Elas me encontram.

Enquanto estou na cidade, fico ligado pra ver se encontro a Alice, sobretudo se eu estiver perto do Quay ou do Cross. S que no vejo a criatura em lugar nenhum, 
o que baixa minha bola um pouco. Os nicos passageiros que volto a pegar so uns velhos que sempre conhecem um caminho melhor, ou executivos mauricinhos que esto 
sempre olhando a hora ou de papo no telefone.
    J  tarde. So pelo menos quatro da manh e, no caminho de volta pra casa, pego um passageiro, um cara novo. Quando ele faz sinal, eu dou uma checada geral. 
Ele parece estvel, e acho que no  o tipo que vomita no carro. A ltima coisa de que preciso  algum vomitando no meu txi logo agora que estou quase encerrando 
o turno. Um negcio desses arruna uma noite inteira em apenas alguns segundinhos.
    Eu paro e ele entra.
     T indo pra onde?  pergunto.
 Deixa de papo e dirige  ele mal abre a boca e j soa ameaador.  Me leva pra casa.
    Fico nervoso, mas ainda assim pergunto:
     E onde fica sua casa?
    Ele se vira e me olha de um jeito sinistro.
 Onde voc mora  o cara tem uns olhos esquisitos, amarelos, tipo olho de gato. Cabelo preto, curto. Est todo de preto.  Dirija, Ed  so as duas palavrinhas 
finais.
    E eu, como no sou bobo nem nada, obedeo.
    Ele sabe meu nome, e eu sei que ele est me levando pra onde o s de paus quer que eu v.
    Ficamos um tempo sem falar nada, olhando as luzes dos postes passando. Ele est sentado na frente, e toda vez que tento olhar pra ele, no consigo. Sempre sinto 
aqueles olhos. Parece que esto prontos para me agarrar.
    Tento puxar papo.
     E a?  digo. Desesperado, eu sei.
     E a o qu?
    Da tento de outro jeito. Jogo verde pra ver se colho maduro. Voc conhece Daryl e Keith?  pergunto.
     Quem?
    Seu escrnio dirigido a mim  de matar, s que mesmo assim eu continuo a batalha.
     O Daryl... e o...
 Olha s, brother, eu escutei muito bem  ele endurece a voz mais ainda.  Se voc mencionar outros nomes aqui, no vai nem chegar em casa, t escutando? Juro por 
Deus.
    Fico me perguntando: Por que diabos toda pessoa que me visita  estourada, encrenqueira ou as duas alternativas acima? A impresso que tenho  de que no adianta: 
por mais que eu me esforce, sempre acabo com gente desse nvel na minha casa ou no meu txi.
    Acho que nem preciso dizer que no abro mais a boca enquanto a gente vai se aproximando do subrbio. Fico na minha, s dirigindo e, de vez em quando, tentando 
dar uma olhadinha nele, sem sucesso.
 Vai descendo toda vida  ele diz quando chegamos na rua principal.
     Perto do rio?
     No banque o espertinho. Dirija.
    Passo pela minha casa.
    Passo pela casa da Audrey. Deso at o rio.
      aqui.
    Paro o carro.
     Isso, valeu.
     Deu $ 27, 50.
     O qu?
 preciso coragem pra eu abrir a boca. O desgraado faz uma cara de quem est louco pra me matar.
     Eu disse que deu $ 27, 50.
     No vou pagar, no, cara.
    Eu acredito nele.
    Acredito porque ele fica ali parado, arregalando os olhos pretos no meio do amarelo. Este cara no vai pagar. Fim de papo. No tem discusso  embora eu at 
tente.
     Por que no?  pergunto.
     No tenho essa grana.
     Ento eu fico com sua jaqueta.
    Ele se aproxima, dando uma de simptico pela primeira vez.
     Eles tinham razo: tu  mesmo um cabea-dura, n?
     Eles quem?
    S que fico sem resposta.
    Ele faz uma cara de doido, abre a porta e pula do txi.
    Pausa.
    Eu me sinto preso no momento, mas saio do txi batido e corro atrs dele. Em direo ao rio.

Mato molhado e palavras.
     Volta aqui!
    Pensamentos esquisitos.
    Pensamentos de: Volta aqui, Ed? "Volta aqui"  muito comum.  o que todo taxista grita numa hora dessas. T na hora de inventar outra coisa.  at um milagre 
no terem adicionado a palavra "moleque" no final...
    Minhas pernas endurecem.

O vento passa pela minha boca, mas no entra.
    Corro.
    Corro e me dou conta de que j tive esta sensao antes  esta sensao de enjo.
    Foi quando eu era pequeno: uma vez, estava correndo atrs do Tommy, meu irmo menor. Esse mesmo, o "tal", o que tem as melhores perspectivas de futuro e melhor 
gosto para mesinha de centro das redondezas. Mesmo naquela poca, ele era mais rpido,  claro. Melhor. Ele sempre foi, e eu ficava envergonhado. Era uma vergonha 
ter um irmo menor mais rpido, mais forte, mais esperto e melhor. Em tudo. Mas ele era. Era e pronto.
    A gente pescava no rio, contra a correnteza, e apostvamos corrida pra ver quem chegava primeiro. Nunca consegui ganhar dele.  claro que eu dizia pra mim mesmo 
que eu poderia ter vencido se tivesse tentado pra valer.
    Ento uma vez.
    Tentei pra valer.
    E perdi.
    Tommy tambm encontrou algo extra naquele dia e ganhou de mim em pelo menos quatro metros.
    Eu tinha 11 anos.
    Ele, dez.
    Quase dez anos mais tarde, aqui estou eu de novo, ainda correndo atrs de algum mais rpido, mais forte e melhor.
    Depois de quase um quilmetro, meu flego vai pro saco.
    Ele olha pra trs.
    Minhas pernas se curvam.
    Dou uma parada.
    Acabou.
    O cara solta uma gargalhada, talvez uns 20 metros l na frente.
     Que azar, Ed  e ele se vira de novo. E vaza dali.
    Fico ali parado, perdido nas memrias, vendo as pernas dele desaparecerem na escurido.
    Um vento escuro passa por entre as rvores.
    O cu est nervoso. Preto e azul.
    Meu corao aplaude dentro dos meus ouvidos, primeiro como uma multido gritando, depois vai diminuindo, diminuindo, at virar uma nica pessoa, batendo palmas 
com sarcasmo descontrolado.
    P. P.
    P.
    Muito bem, Ed.
    Parabns por desistir.
    Fico ali no meio do mato comprido e ouo o rio agora pela primeira vez. Parece at que ele est bebendo. Quando olho pra l, vejo as estrelas no rio. Parece 
que esto pintadas na superfcie da gua.
    O txi, penso. Eu deixei aberto. As chaves tambm ainda esto l dentro, que, alis,  o pecado nmero um que qualquer taxista pode cometer ao perseguir um caloteiro. 
Na verdade, chega a ser at um pecado capital. Todo mundo sempre tira as chaves. Sempre fecha o carro. Menos eu.
    A imagem do txi me vem  cabea.
    Sozinho, l na estrada.
    Com as duas portas escancaradas.
     Tenho que voltar  falo bem baixinho, mas no volto.
    Fico ali duro at aparecer o primeiro raio de sol, e me vejo correndo com meu irmo.
    Vejo quando eu me ferro.
    Vejo a gente ali pescando juntos, na beira do rio, e ento indo mais adiante, rio acima, contra a correnteza, passando por onde d pra ver as casas. Pra bem 
alto, onde temos que escalar as pedras, de onde pescamos.
    As pedras.
    As pedras lisas.
    Como se...
    Ando devagar a princpio, ento acelero. Ando bem rpido no sentido contrrio  correnteza.
    Sigo a imagem do meu irmo correndo comigo e ento escalo. A gua vai caindo enquanto tomo impulso com as mos e com os ps pra subir. O mundo est ficando mais 
leve e alegre, tomando forma e ganhando cores. Parece que est sendo pintado, ao meu redor.
    Meus ps esto coando.
    Esto ficando mornos.
    Eu vejo.
    Vejo a gente.
    L, eu aponto. L esto as pedras. As pedras gigantes. Meu Deus, eu vejo a gente l, jogando, pulando, s vezes rindo. Jurando no contar pra ningum que a gente 
vem aqui.
    Estou quase l.
    Bem distante daqui, as portas do txi ainda esto abertas. O sol est bem alto  um recorte laranja em um cu de papelo. Chego ao topo e me ajoelho. Minhas 
mos tocam na pedra fria. Solto o ar dos pulmes. Feliz.
    Ouo o rio e olho pra cima, e me dou conta de que estou ajoelhado entre as pedras de casa.
    Tem trs nomes gravados na rocha.
    Eu os vejo alguns instantes mais tarde, quando olho pra cima e vou at elas. Os nomes so:

    THOMAS O'REILLY
    ANGIE CARUSSO
    GAVIN ROSE

    Por um instante o rio passa correndo pelos meus ouvidos e o suor se enfia embaixo dos meus braos. No meu lado esquerdo, o suor escorre, passando pelas minhas 
costelas e parando na cintura da cala.
    Procuro um papel e uma caneta, sabendo que no tenho nenhum dos dois, da mesma forma que se d uma resposta errada a algum na esperana remota e improvvel 
de que por um milagre ela possa estar correta.
    E  isso a. No tenho nada, da escrevo os nomes com lpis na mente e reforo com a canetinha imaginria. Ento eu os rabisco.
    Thomas O'Reilly.
    Angie Carusso.
    Gavin Rose.
    Nenhum dos nomes soa familiar, o que acho at bom. Acho que seria mais difcil ainda se eu conhecesse as pessoas para as quais sou enviado.
    Dou uma ltima olhada e saio dali, cantarolando os nomes pra no esquecer.
    Levo quase 45 minutos pra chegar de volta ao txi.
    Quando chego l, as portas esto fechadas, mas no esto trancadas  chave, e as chaves no esto mais na ignio. Eu me sento atrs do volante e quando abaixo 
o quebra-sol, elas caem no meu colo.

   7        O PADRE
  ?


  O'Reilly, O'Reilly...
    Estou pesquisando no catlogo telefnico da regio. J  meio-dia. Tirei um cochilo.
    Encontro dois T. O'Reilly. Um na parte nobre da cidade. Outro na rea das malocas.
     esse, penso. O das malocas.
    Eu sei.
    Pra me certificar, primeiro dou uma passada no endereo mais nobre.  uma casa superbacana com uma garagem bem grande. Bato na porta.
     Pois no?
    Um cara alto abre e olha pra mim atravs da tela contra insetos. Ele est de short, camiseta e chinelos.
     Desculpa incomodar  eu digo , mas...
     Voc est vendendo alguma coisa?
     No.
      testemunha de Jeov?
     No.
    Ele fica chocado.
     Bem, j que  assim, pode entrar.
    Ele mudou imediatamente o tom de voz e faz uma expresso mais acolhedora. Me d at vontade de aceitar o convite, mas decido recusar.
    Ficamos ali, cada um de um lado da tela contra insetos. Tento pensar num jeito de fazer a parada direito, e decido que  melhor ir direto ao assunto.
     O senhor  Thomas O'Reilly?
    Ele se aproxima e espera um instante antes de responder.
 No, parceiro, eu sou Tony. Thomas  meu irmo. Ele mora em algum buraco l pela Rua Henry.
 Ento t, valeu, e desculpa qualquer coisa  e comeo a andar.
 Oi  ele abre a porta e vem atrs de mim.  O que voc quer com meu irmo?
    Dou uma parada.
     Ainda no sei.
 Se voc for por aquelas bandas, ser que poderia me fazer um favor? Encolho os ombros.
     Claro, sem problema.
 Voc poderia dizer pra ele que a ganncia ainda no me devorou? A frase cai entre a gente como se fosse uma bola murcha, sem ar.
     Claro, digo sim.
    Estou quase cruzando o porto quando Tony O'Reilly me chama uma ltima vez. Eu me viro pra olhar pra ele.
 Acho melhor te avisar uma coisa  ele se aproxima.  Meu irmo  padre. Ns dois ficamos completamente parados por uns segundos, enquanto eu processo a informao.
     Valeu!  agradeo e saio da entrada da garagem.
    Vou embora pensando: Ainda  melhor do que um marido que espanca e estupra a mulher.

 Quantas vezes voc quer que eu diga?
     Tem certeza agora?
     No sou eu, Ed. Se fosse, eu diria.
    Estou levando este papo com meu irmo, Tommy, no telefone. Depois que acabei parando no rio e nas pedras de casa, fiquei pensando que podia ser ele. Pelo que 
sei, Tommy  a nica pessoa que sabe que a gente ia l, j que nunca contamos pra ningum. A gente sempre achou que ia acabar levando um couro por ir l pro rio 
sozinho. Quem sabe outra pessoa no tenha descoberto e decidido ignorar. Eu e o Tommy sabamos nadar.
    Um pouco antes, eu contei das cartas pra ele, que disse:
 Por que ser que este tipo de coisa vive acontecendo contigo, Ed? Sempre que tem alguma coisa esquisita no ar, ela sempre consegue terminar pousando no seu colo. 
Voc  um tipo de im que atrai merda.
    Ns rimos.
    Pensei no que ele disse.
    Taxista. Vagabundo das redondezas. Modelo de mediocridade. Um desastre sexual. Pssimo jogador de cartas. E agora, pra completar, im que atrai merda.
    Diga a, pode admitir.
    Que bela lista estou montando, no , no?

 E como  que vo as coisas, Tommy?
     T tudo bem, e com voc?
     Tranqilo.
    Fim de papo.
    No  o Tommy.

J faz algum tempo que estamos sem jogar, e da o Marv organiza uma noite daquelas. Decidimos que vai ser na casa do Ritchie. Os pais dele acabam de viajar de frias.
    Antes de ir pro Ritchie, dou uma passada na Rua Henry e procuro Thomas O'Reilly. Enquanto ando pra l, sinto um frio na barriga, e minhas mos ficam desesperadas 
procurando pelos bolsos. A rua  uma coisa horrorosa e sempre teve essa fama mesmo.  um lugar onde tudo  quebrado: os telhados, as janelas e as pessoas. No escapa 
nem a casa do padre, que  bem estranha. J d at pra ver de longe.
    O telhado  corrugado, vermelho e enferrujado.
    As paredes todas de concreto, encardidas.
    A pintura est cheia de bolhas, uma coisa horrorosa.
    A cerca est caindo aos pedaos, lutando pra ficar de p.
    E um porto que est agonizando.
    Estou quase l quando percebo que no vai dar pra eu chegar...
    Trs grandalhes saem de um beco e comeam a me pedir umas coisas. No fazem nenhuma ameaa, mas s a presena deles me deixa sem graa e me sentindo sozinho.
     Ae, cara. Tu tem 40 centavos?  um deles pergunta.
     Ou um cigarrinho?  o outro diz.
     C precisa mesmo dessa jaqueta?
 P, cara, vai! Um cigarrinho. Eu sei que tu fuma. Que mal vai te fazer me emprestar o...
    Eu congelo por um instante, me viro e saio andando. Rpido pra caralho.

Na casa do Ritchie, no consigo tirar da cabea o que rolou, enquanto os outros do as cartas e conversam.
 Mas, ento, conta pra onde seus pais foram, Ritchie  diz Audrey. Ele demora um bom tempo pra responder.
     No fao a menor idia.
     Voc t de gozao, no t, no?
     Eles disseram, mas acho que esqueci.
    Audrey balana a cabea, e Marv ri atravs da fumaa do charuto. Penso na Rua Henry.

Pra variar um pouco, o vencedor de hoje sou eu.
    Dou uns vacilos numas rodadas, mas de alguma forma consigo ganhar a maioria. Marv ainda fala todo orgulhoso sobre o Jogo de Vero.
 Ae, vocs to sabendo?  ele pergunta pra mim e pro Ritchie.  Os Falcons to com um cara novo este ano. Dizem que tem um-cinco-zero.
     Um-cinco-zero o qu? Quilos?  pergunta Ritchie.
    Assim como eu e Marv, o Ritchie jogou nos ltimos anos, na lateral, mas ele  menos interessado ainda do que eu. S pra voc ter uma idia, ele geralmente divide 
uma ou duas cervejas com a multido durante o jogo.
 Isso mesmo, Ritchie  Marv afirma. O negcio  srio.  O cara  da pesada.
     C vai jogar, Ed?
    Quem pergunta isso  a Audrey. Ela sabe que vou jogar, mas pergunta s para se confortar. Desde o incidente do "S o Ed" na porta da frente, ela anda meio sem 
graa comigo, sem saber o que dizer. De onde estou na mesa, olho pra ela e dou um sorriso amarelo. Ela sabe que isso quer dizer que estamos na boa.
     Vou  respondo.  Vou estar l, sim.
    O sorrisinho dela diz: "Que bom." Bom que estamos na boa. Audrey no est nem a pro Jogo de Vero. Ela odeia futebol.
    Mais tarde, quando termina o jogo, ela d uma passada na minha casa, e a gente bebe na cozinha.
 Tudo bem l com o novato?  pergunto. Estou jogando os farelos de torrada dentro da pia. Quando me viro pra ouvir a resposta, vejo sangue ressecado no cho. Sangue 
da minha cabea no meio de todo esse plo de cachorro. Lembranas do que rolou esto espalhadas por todos os cantos.
     T tudo bem  ela responde.
    Quero me desculpar por ter aparecido l daquele jeito naquele dia, mas prefiro no dizer nada. Estamos na boa agora e no faz sentido revirar um assunto que 
eu no posso fazer nada pra mudar. Em alguns momentos eu quase falo, mas deixo pra l. Melhor assim.
    Quando estou colocando a torradeira no lugar, vejo minha imagem refletida nela  apesar da sujeirinha. O negcio chega a doer nos olhos. E neste momento que 
eu rapidamente vejo a natureza lamentvel de minha vida. Esta garota que eu no consigo conquistar. Estas mensagens que eu me sinto incapaz de entregar... Mas ento 
vejo os olhos ficarem mais determinados. Vejo uma verso futura de mim mesmo voltando  Rua Henry pra visitar o padre Thomas O'Reilly. Vou colocar minha jaquetinha 
velha e suja, sem nenhum tosto no bolso e nenhum cigarro, igualzinho  ltima vez. S que da prxima vez pretendo chegar  porta da frente.
    Eu tenho que chegar l, penso, e falo com Audrey.
     Eu sei aonde eu tenho que ir.
    Ela toma um gole do suco de toranja que eu lhe servi e pergunta:
     Onde ?
     Mais trs pessoas.
    Os nomes gravados naquela pedra enorme aparecem na minha cabea, mas no digo quais so. Como eu j disse, de nada adianta.
    Ela est louca de vontade de perguntar os nomes.
    Est na cara.
    S que ela no deixa escapar uma nica palavrinha sequer, e no posso negar uma coisa: ela nunca fora a barra com nada. Ela sabe que eu no vou dizer nada se 
ela pentelhar muito.
    O que eu realmente conto pra ela  onde encontrei os nomes.
 Peguei um passageiro caloteiro que saiu correndo. E foi pra l que ele foi... Agora Audrey s consegue balanar a cabea de um lado pro outro.
     Seja l quem for, com certeza t tendo o maior trabalho.
 E  incrvel como os caras me conhecem to bem... quase que to bem quanto eu mesmo.
     , mas quem  que te conhece bem, Ed?
    , meu irmo...  isso.
     Ningum  respondo.

Nem mesmo eu?, Porteiro entra e pergunta.
    Olho pra ele e respondo:
    Olha s, companheiro, tomar umas xcaras de caf juntos no quer dizer que voc me conhece.
    s vezes nem mesmo eu acho que me conheo.
    Meu reflexo me ataca novamente.
    Mas voc sabe o que fazer, ele diz.
    Eu concordo com ele.

Na Rua Henry na noite seguinte depois do trabalho, chego at a porta da frente, e, devo dizer, a casa do padre O'Reilly  a prpria encarnao do significado da 
palavra cruel.
    Eu me apresento e sem muito mais blblbl o padre me convida pra entrar.
    Sem ao menos pensar, eu digo no corredor:
 Deus do cu, acho que no ia custar nada fazer uma faxininha por aqui de vez em quando, no acha, no, padre?
    Que  isso, meu irmo? Ser que eu falei isso mesmo?
    Mas nem preciso me preocupar, porque o padre responde logo na lata.
 Bem, e o que dizer do seu estado? Quando foi a ltima vez que voc lavou esta jaqueta?
 Ta, o senhor tem razo  digo, agradecido pela resposta rpida.
    O padre est ficando careca; deve ter uns 45 anos. No  to alto quanto o irmo; tem olhos verde-garrafa e  bem orelhudo. Usa uma batina e fico sem entender 
por que ele mora aqui e no l na igreja. Sempre achei que os padres morassem nas igrejas pra que as pessoas pudessem ir l quando precisassem de ajuda ou de um 
conselho.
    Ele me leva pra cozinha, e a gente se senta  mesa.
     Vai ser um caf ou prefere um ch?
    Do jeito que ele pergunta, fica parecendo que eu no tenho escolha, e que eu vou beber alguma coisa e pronto. S falta decidir qual dos dois.
     Caf  respondo.
     Leite e acar?
     Ah, eu agradeo.
     Quanto de acar?
     Quatro cubinhos  tenho um pouco de vergonha desse lance.
     Quatro cubinhos de acar! Quem  voc, David Helfgott?
     Quem diabos  esse?
 Ah, no lembra, no? Pianista, meio louco  ele fica surpreso por eu no conhecer o cara.  Ele bebia 12 xcaras de caf por dia com dez colheres de acar em 
cada.
     Ele era bom?
 Era, sim  ele solta a chaleira.  Louco, mas bom  seus olhos vidrados tomam um ar de bondade agora. Uma bondade gigantesca.  Voc tambm  louco, mas bom, Ed 
Kennedy?
 Sei l!  digo, e o padre cai na gargalhada, mais pra si mesmo do que pra qualquer outra pessoa.
    Quando o caf fica pronto, o padre traz pra mesa e se senta comigo. Antes de tomar o primeiro gole, ele pergunta:
 Algum o parou pra pedir dinheiro e cigarro l fora?  ele joga a cabea pra trs, na direo da rua.
     Sim, e um cara no pra de me pedir a jaqueta.
 E mesmo?  ele reprova com a cabea.  V Deus saber por qu... S se for mau gosto!  ele bebe.
    Dou uma olhada na jaqueta.
     Putz, ela  mesmo horrvel assim?
 Que nada  ele fala bem srio agora.  S estou pegando no seu p, filho. Dou mais uma olhada na manga e no material perto do zper. A camura preta est bem gasta, 
quase puda.
    Um silncio desconfortvel baixa entre ns. Isso quer dizer que e hora de eu entrar em ao. Acho que talvez o padre sinta o mesmo, e ele faz uma cara de curiosidade, 
mas paciente, como quem est esperando.
    Na hora em que eu estou quase falando, comea a rolar um quebra-pau em uma das casas vizinhas.
    Quebram um prato.
    Os gritos saem pulando pela cerca.
    A briga fica mais feia.  gente gritando e porta batendo que  uma loucura.
    O padre percebe que eu estou assustado e diz:
 Espere um minutinho, Ed  ele vai at a janela e escancara tudo. Ele grita:
     , Clem!
    Ouvimos ento um murmrio chegando pela janela, seguido de uma voz.
     Pois no, padre?
     O que t acontecendo a hoje?
    A voz responde:
     Ela t me irritando de novo, padre!
     Bem, isso d pra ver, Clem, mas e quanto...
    Chega uma outra voz.  voz de mulher:
 V se pode, padre, j tava ele l no pub de novo. Enchendo a cara e torrando dinheiro em apostas!
    O padre agora fala bem srio e firme.
     Isto  verdade. Clem?
      sim, padre, mas...
 Nem mais nem menos, Clem. Fique em casa hoje, ok? Fiquem de mos dadas e assistam  TV.
    Primeira voz:
     Tudo bem, padre.
    Segunda voz:
     Obrigada, padre!
    Padre O'Reilly volta pra mesa agora, reprovando com a cabea.
     Esses so os Parkinsons. Cambada de inteis.
    Fico chocado com o comentrio. Nunca ouvi um padre falar assim. Na verdade, nunca falei com nenhum padre, mas duvido muito que sejam assim.
     Isso acontece sempre?  pergunto.
     Duas vezes por semana. Pelo menos.
     Como o senhor consegue agentar uma coisa dessas?
    Ele simplesmente estica os braos e bate na batina.
      para isso que estou aqui.
    Caminho um pouco com o padre.
    Conto pra ele como  ser taxista.
    Ele me conta como  ser padre.
    A igreja dele  aquela bem velhinha l nos cafunds da cidade, e agora percebo por que ele escolheu morar aqui. A igreja fica longe demais pra ele ajudar algum, 
ento este  o melhor lugar pra ele. E aqui que o padre precisa estar. No em uma igreja, juntando poeira.
s vezes fico pensando no jeito com que ele fala, que  confirmado quando ele explica a igreja pra mim. Ele admite que, se a igreja dele fosse algum tipo de loja 
ou restaurante, j teria fechado h muitos anos.
     Os negcios andam mal ultimamente?  pergunto.
 Quer saber a verdade?  o brilho nos olhos dele desaparece.  Andam uma merda.
    E quando pergunto:
     O senhor pode falar desse jeito? Tipo sendo sagrado e tudo mais?
 O qu? Porque sou padre?  ele termina o restinho de caf.  Claro. Deus sabe o que  importante.
E um alvio pra mim que ele no comece com aquele sermo de que Deus conhece cada um de ns e blblbl. Ele nunca d sermo. Mesmo quando a gente fica sem o que 
dizer, ele olha pra mim e diz:
 Mas no vamos entrar nos assuntos religiosos hoje, Ed. Vamos falar de outra coisa  ele fica um pouco formal agora.  Vamos falar sobre os motivos que o trazem 
aqui.
    De frente um pro outro, sentados  mesa, nos olhamos com ateno. Rapidinho.

Depois de um silncio prolongado, confesso ao padre. Digo que ainda no sei por que estou aqui. No falo nada sobre as mensagens de que j dei conta, nem das que 
ainda tenho que dar. S digo que tenho um propsito aqui e que uma hora ou outra eu descubro qual .
    Ele escuta com ateno, com os cotovelos na mesa, as mos juntas e os dedos entrelaados embaixo do queixo.
    Depois de um tempinho, ele se d conta de que eu no tenho muito mais a dizer. Ento fala bem calma e claramente:
 No se preocupe, Ed. O que voc precisa fazer certamente chegar ao seu conhecimento. Algo me diz que no  a primeira vez que voc passa por isso.
     No, no .
 Apenas me faa um favor de se lembrar de uma coisa  ele diz, e percebo que est tentando no ser o tpico religioso.  Tenha f, Ed, ok?
    Procuro a caneca de caf, mas no tem nenhuma l.

Ele me acompanha at l fora e caminha pela rua comigo. Pelo caminho, a gente se esbarra com os cretinos do cigarrinho, da grana e da jaqueta, e o padre rene a 
cambada toda ali em volta. Ele diz:
 Ouam bem, garotos. Quero que vocs conheam Ed. Ed, este aqui  Joe, este  Graeme, e este aqui  Joshua  aperto a mo de todos.  Pessoal, este  Ed Kennedy.
     Prazer, Ed.
     Fala, Ed!
     E a, Ed, beleza?
 Quero que vocs se lembrem de uma coisa  o padre agora fala bem srio.
 Ed  um grande amigo meu e no tem isso de ficar pedindo cigarro nem dinheiro pra ele. E podem deixar a jaqueta dele em paz  ele d um sorrisinho rpido pra mim. 
 Afinal, d s uma olhada, Joe. A coisa  um horror, no acha? Vai ser horrorosa assim l no inferno!
    Joe concorda com prazer:
     Com certeza, padre.
     Muito bem. Ento, estamos entendidos?
    Apertamos as mos, nos despedimos, e o padre est bem longe quando eu me viro ao me lembrar do irmo dele. Volto correndo, chamando:
     Ei, padre!
    Ele ouve e se vira.
 J ia me esquecendo  eu diminuo o passo e paro a uns 15 metros na frente dele.  Seu irmo  ele me olha mais atentamente.  Ele mandou lhe dizer que ainda no 
foi devorado pela ganncia.
    Ento os olhos do padre se acendem, com um toque de arrependimento.
 Meu irmo, Tony...  suas palavras suaves vm mancando na minha direo.
 Faz muito tempo que no vejo meu irmo Tony. Como ele est?
 Bem  respondo com uma confiana que no entendo. S a intuio me diz que  a resposta certa e agora ficamos os dois ali parados no meio da sem-gracice e da tolice. 
 O senhor t bem, padre?
     Estou sim, Ed. Obrigado pela preocupao.
    Ele se vira, sai andando e pela primeira vez no o vejo como padre. No o vejo nem como homem.
    Neste momento, ele  simplesmente um ser humano indo pra casa na Rua Henry.

Contraste total agora.
    Estou na casa do Marv, assistindo a SOS Malibu com o volume baixo. O enredo e os dilogos so as coisas que menos interessam pra gente.
    Estamos ouvindo os Ramones, o Marv se amarra neles.
     Posso tocar outra coisa?  Ritchie pergunta.
 Pode. Toca Pryor a  diz Marv. A gente at passou a chamar o Jimi Hendrix de Richard Pryor. Purple Haze comea a rolar, e ele pergunta:
     Cad a Audrey?
     T aqui  ela entra.
 Que fedor  esse?  Ritchie pergunta. Ele se contorce.  Isso no me  estranho.
    O Marv j sacou e aponta o dedo pra mim. Tipo me acusando.
     Tu trouxe o Porteiro, no trouxe, maluco?
 No tive outra alternativa, cara... O bicho tava com cara de solitrio quando eu tava saindo.
     Voc sabe que ele no  bem-vindo aqui.
    Porteiro est na porta dos fundos, que est aberta; est olhando pra dentro.
    Ele late pro Marv.
    A nica pessoa pra quem ele late.
     Ele no vai com a minha cara  Marv explica.
    Outro latido.
 E porque voc olha todo torto pra ele e fica falando mal dele o tempo todo. O bicho entende, t sabendo?
    A gente discute mais um pouquinho, mas a Audrey encerra a briga dando as cartas.
 Cavalheiros?  ela d uma tossidinha pra limpar a garganta. A gente se senta e joga.
    Na terceira partida, eu pego o s de paus. Padre O'Reilly, penso.
     O que voc vai fazer no domingo, Marv?
     Como assim, o que eu vou fazer no domingo!
 O que voc acha que eu quero dizer com minha pergunta? Ritchie diz:
 Tu  muito babaca, Marv. Acho que o Ed s t perguntando se voc vai estar ocupado no domingo.
    Marv aponta pro Ritchie agora. Est todo grosso hoje porque eu trouxe Porteiro,
 Ah, v se no comea voc tambm, Pryor  ele agora olha pra Audrey.  E voc pode ficar quietinha a.
    Audrey fica boba:
     Que diabos eu fiz?
    Eu interrompo.
 Seguinte: no s voc, Marv; vocs trs  coloco minhas cartas na mesa, viradas pra baixo.  T precisando de um favor.
     Tipo o qu?  pergunta Marv.
    Os trs esto ouvindo com ateno.
    Esperando.
 Bem, ser que a gente poderia ir...  deixo as palavras sarem rapidamente da minha boca  ...  igreja?
     O qu?
     Qual o problema?  protesto.
    Marv tenta se recuperar do choque.
     Pra que diabos voc quer que a gente v  igreja?
     Bem, tem um padre que eu conheo que...
     Ele no  nenhum daqueles do tipo do Alan Chesters, ?
     No, no .
 Que negcio  esse de Alan Chesters? O que quer dizer?  Ritchie quer saber, mas ningum responde. No final, ele nem quer mais saber e deixa pra l.
    A prxima pessoa que fala  Audrey, finalmente trazendo um pouco de lgica ao papo. Ela pergunta:
 Por que, Ed?  acho que ela j sacou que tem alguma coisa a ver com o s de paus.
 O padre  um cara maneiro e acho que poderia ser bom, mesmo que fosse s pra dar umas risadas.
     Esse a vai tambm?
    Marv aponta pro Porteiro.
      claro que no.
    E o Ritchie salva a ptria. Ele pode ser preguioso, um jogador e ter a tatuagem mais tosca do mundo no brao, mas ele concorda com quase tudo. Com seu jeito 
bondoso de sempre, ele diz:
 Ah, por que no, Ed? Eu vou contigo  e ento acrescenta:  Pra dar umas risadas, certo?
     Claro  respondo.
    Da Audrey diz:
     T bem, Ed.
    Agora, de volta ao Marv, que sabe que est numa situao delicada. Ele no est a fim de ir, mas, se recusar, ele sabe que vai pegar mal pra caramba. Ele finalmente 
deixa o ar sair dos pulmes enormes que ele tem e diz:
 Meu Deus, no acredito numa coisa dessa. T bem, Ed, eu vou  ele d um risinho infeliz.  Marcado. Igreja no domingo  e balana a cabea.  Cristo Rei!
    Eu pego minhas cartas.
     Exatamente.

Mais tarde naquela noite, o telefone toca de novo. No deixo que ele me intimide.
     Al?
     Oi, Ed.
 minha me. Dou um suspiro de alvio e me preparo para ouvir desaforo. J faz um tempo que no tenho notcias da coroa, provavelmente ela vai despejar em cima de 
mim o equivalente a uma quinzena ou at um ms de avacalhao.
     Tudo bem, me?
     Voc j ligou pra Kath?  aniversrio dela.
    Kath, minha irm.
     Putz...
 Pois , putz  a resposta certa, Ed. Agora v se toma vergonha nessa cara e liga pra ela agora.
     T bom, eu vou...
    E o telefone fica mudo.
    Ningum consegue assassinar uma ligao telefnica como minha me.

S dei um vacilo: eu devia ter pensado rpido e pedido o nmero da Kath, pois vai que eu no consiga achar por aqui... Tenho uma m sensao de que perdi o nmero, 
o que acabo me certificando ser verdade, depois que revirei todas as gavetas e todo canto na cozinha. No est em lugar nenhum e nem listado no catlogo.
    Oh, no.
    Acertou.
    Tenho que fazer o que mais temo: ligar pra velha.
    Eu disco.
     Al?
     Me, sou eu.
 O que foi agora, Ed?  vejo logo que ela est de saco cheio s pelo suspiro que ouo do outro lado.
     Qual  o telefone dela?
    Tenho certeza de que d pra voc imaginar.

O domingo chega mais rpido do que eu pensei.
    A gente se senta nos fundos da igreja.
    Ritchie est na boa e Audrey est contente. O Marv est de ressaca  andou bebendo a cerveja do pai de novo  e eu, nervoso por algum motivo que no consigo 
identificar.
    S tem umas 12 pessoas na igreja, alm da gente.  meio deprimente ver este vazio aqui. O carpete est todo ferrado, cheio de furos, os bancos sem ningum do 
at tristeza. S as janelas chumbadas parecem sagradas. As outras pessoas so velhas e esto sentadas arqueadas feito mrtires.
    Quando o padre O'Reilly aparece, ele diz:
     Obrigado a todos por virem.
    S por um instante ele parece derrotado. E quando ento ele percebe as quatro pessoas no fundo, e diz:
     Boas-vindas especiais aos taxistas do mundo.
    O claro da janela chumbada bate na careca dele e a faz brilhar. Ele olha pra mim, como se agradecesse. Eu sou o nico que sorri.
    Ritchie, Marv e Audrey viram as cabeas e ficam olhando pra mim. Os olhos do Marv do at medo de to vermelhos que esto.
     A noite foi boa, hein?
     Uma beleza.
    O padre organiza os pensamentos e d uma olhada nas pessoas presentes. D pra eu ver que o cara est tentando buscar fora pra tocar o barco com vigor. Padre 
O'Reilly vai l no fundo de seu ser. E comea o sermo.
    Depois, estamos todos sentados l fora, e a missa j terminou.
     Qual o sentido dessa historinha de pastor?  Marv pergunta.
    Ele se deita na grama. At a voz dele soa feito ressaca.
    A gente se senta embaixo de um salgueiro bem grande, com folhas penduradas entre a gente. Antes disso, l dentro da igreja, me passaram um prato onde o pessoal 
pe dinheiro um pouco antes de sairmos. Coloquei cinco dlares, Ritchie estava duro, Audrey ps uns dlares e Marv remexeu os bolsos e colocou uma moeda de 20 centavos 
e uma tampa de caneta.
    Eu olhei pra ele.
     O que foi?
     Nada, Marv.
     Isso mesmo.
    Enquanto estamos sentados embaixo da rvore, Audrey cantarola alguma coisa, e Ritchie se recosta, inclinado no degrau. Marv cai no sono, e eu espero. No demora 
muito e sinto a presena atrs de mim. Eu sei que  o padre O'Reilly antes mesmo que ele abra a boca. E a impresso do homem. Seu jeito quieto e realista, at engraado, 
de ser.
    Ele est atrs de mim e diz:
 Obrigado por vir, Ed  e olha pro Marv.  Esse camaradinha parece que est numa merda maior que voc, pelo amor de Deus!
    Ele faz uma cara de perverso, e todos ns rimos, menos o Marv.
    Marv acorda.
     Oh  ele coa o brao.  Oi, padre. Gostei do sermo.
 Obrigado  ele olha pra todos ns de novo.  Obrigado por virem. Nos veremos na prxima semana?
     Talvez sim  respondo, mas o Marv decide falar por si mesmo.
     E ruim, hein.
    O padre leva na boa.
    Acho que no sei exatamente o que o padre precisa, mas agora sei o que pretendo fazer. De volta pra casa, eu me sento com Porteiro, de vez em quando dando uma 
olhada nos retratos em cima da TV e lendo alguma coisa.
    Ento decido.
    Vou encher a igreja do cara.
    S resta saber como.

   8        DELINQENTES
  ?


  Alguns dias se passam e estou tentando criar um jeito de trazer pessoas pra igreja. Penso em pedir pra galera, a Audrey, o Marv e o Ritchie, pra levar as famlias 
e os amigos, s que nenhum deles  muito confivel, e depois j vai ser difcil pra cacete fazer com que eles voltem pela segunda vez!
    No incio da semana, dou vrias corridas com o txi, s pensando nessa histria.
    A idia pinta quando estou levando um cara pro aeroporto. Estamos quase chegando quando ele diz:
 Amigo, eu estou com um tempinho sobrando... Ser que voc pode me deixar aqui neste pub?
    Olho pelo espelho retrovisor e pimba! Cai a ficha.
      isso!  digo pra ele.
 S uma cervejinha num pub de verdade  ele diz.  No agento aqueles sagues de aeroporto.
    Eu paro e o deixo saltar.
     Voc gostaria de me acompanhar?  por minha conta.
 No  respondo.  Tenho que pegar outro passageiro, mas posso voltar e te pegar em meia hora, se quiser.
     Com certeza.
    O cara est todo contente.
    Sendo bem sincero, eu tambm, pois o que tenho pra te dizer  fato: Neste pas, s tem uma coisa que pode arrastar uma multido, sem sombra de dvida. Sabe o 
que ?
    Cerveja.
    Cerveja de graa.
    Vou at o padre, entrando pela porta da frente todo empolgado e ofegante, dizendo que a gente pode organizar uma parada bem maneira pro prximo domingo. Conto 
a idia toda pra ele:
 Cerveja grtis, umas coisinhas pra crianada, comida. J falei da cerveja de graa?
     Sim, Ed, creio que sim.
     E ento? O que o senhor acha?
    Ele se senta na maior tranqilidade e pensa no assunto.
     Parece timo, Ed, mas voc est esquecendo de uma coisa.
    No d pra desanimar hoje.
     Do qu?
     Vamos precisar de dinheiro pra tudo isso.
 Achei que a Igreja Catlica tivesse uma porrada de grana... Todo aquele ouro e tudo mais naquelas catedrais enormes...
    Ele d uma risadinha.
     Voc viu algum ouro na minha igreja, Edward?
    Edward?
    Acho que o padre  a nica pessoa que eu deixo que me chame assim. At na minha certido de nascimento eu sou s Ed. Eu continuo:
 O senhor tem certeza de que no tem nenhuma graninha por a, no?
 Na verdade, no, Ed. Coloquei tudo nos fundos de auxlio s mes solteiras adolescentes, alcolatras, sem-teto, viciados e minhas frias em Fiji.
    Acho que ele est de sacanagem com a minha cara, com essa histria de Fiji.
 Ah, ento, t bem  digo.  Eu mesmo vou levantar a grana. Tenho um pouquinho guardado. Vou entrar com 500 paus.
 Quinhentos?  muito dinheiro, Ed. Voc no parece o tipo de pessoa que tem muito.
    Saio andando bem rpido pela porta da frente.
 No se preocupe com nada, padre  chego mesmo a rir.  S tenha um pouco de f.

Agora, devo dizer.
    Numa hora dessas  bem til ter amigos imaturos. Eles do idias de como espalhar a notcia bem rapidinho sobre alguma coisa que a gente quer fazer. Sem estresse 
com cartazes. Sem estresse com anncio no jornal. O cara percebe que s tem uma resposta verdadeira. Alguma coisa que entre logo na cabea do pessoal:
    Tinta spray.
    Rapidinho o Marv fica interessado em ir  igreja no domingo. Explico o plano pra ele e tenho certeza de que posso contar com sua ajuda. Ta uma rea em que o 
Marv se supera e se diverte. Comportamento imaturo e juvenil  com ele mesmo.
    A gente maloca as churrasqueiras de minha me e do Ritchie, eu ligo e encomendo um pula-pula, e pego emprestado uma daquelas paradinhas de karaok com um parceiro 
do Marv que trabalha num pub. Alm disso a gente arranja ainda uns barris, consegue fazer um acordo mais ou menos com o aougueiro pra descolar umas salsichas, e 
pronto.
    Hora de usar a tinta.
    Compramos o spray numa loja de ferragens ali do local numa tarde de quinta-feira e samos pelo subrbio s trs da manh. O carro do Marv resolve nos deixar 
na mo e pra na porta de minha casa, ento decidimos ir andando mesmo. Em cada canto da rua principal, escrevemos a mesma coisa com letras gigantescas pelo caminho:

DIA ESPECIAL CONHEA UM PADRE
NESTE DOMINGO As 10:00
IGREJA DE SO MIGUEL

VA ROLAR COMIDA, MSICA, DANA
E

CERVEJA DE GRAA

NO PERCA!!
VAI SER UMA FESTA DOS DIABOS

    No sei se o Marv sente a mesma coisa, mas eu percebo o maior clima de parceria quando a gente se ajoelha ali e manda ver no piche. Parece que voltamos  infncia 
enquanto escrevemos as palavras. Numa hora eu olho pro meu amigo. Marv, o encrenqueiro. Marv, o mo-de-vaca. Marv, da garota que sumiu do mapa.
    Quando terminamos, ele d um tapa no meu ombro, e a gente sai correndo, como ladres pintosos. A gente corre, ri, e este momento  to denso e especial que me 
d vontade de me entregar e mergulhar de cabea na emoo, esquecer de tudo.
    Adoro as gargalhadas desta madrugada.
    Nossos ps batem nos traseiros de tanto correr, e no quero que isso pare. Quero correr e rir assim pra sempre. Quero evitar qualquer momento de sem-gracice 
quando o diabo da realidade enfiar o tridente na nossa carne, nos deixando ali parados, juntos, com cara de manes. Quero ficar aqui neste momento e nunca ir a outros 
lugares, onde a gente no sabe o que dizer nem o que fazer.
    Por enquanto, deixem a gente correr em paz.
    A gente corre direto pela madrugada na maior gargalhada.
    No dia seguinte, no tem uma alma viva que no esteja falando da parada. Est todo mundo comentando.
    Os policiais j passaram no padre perguntando se ele est sabendo de alguma coisa. Ele admite que est por dentro do dia, mas no sabe das tcnicas de propaganda 
adotadas por alguns dos fiis.
    Na tarde de sexta, l na casa dele, o padre me conta tudo.
 Como vocs podem imaginar  ele disse pros policiais , tenho uma clientela muito suspeita. Mas, tambm, me digam qual igreja inserida numa comunidade pobre no 
tem.
    Eles caram no papo,  claro. Quem no acreditaria neste homem?
 Tudo bem, seu padre, mas, por favor, nos avise caso o senhor fique sabendo de alguma coisa.
  claro,  claro  e mesmo quando os tiras comearam a sair, o padre fez mais uma ltima perguntinha.  Vocs vo dar uma passadinha l no domingo?
    Pelo jeito os tiras so humanos tambm.
 Cerveja de graa? S se a gente fosse doido pra recusar uma coisa dessas.
    timo!

Ento est tudo pronto. Vai todo mundo. Famlias. Bebuns. Canalhas. Ateus. Adoradores do co. Gticos. Todo mundo.  pra voc ver o que cerveja de graa  capaz 
de fazer. No tem erro.
    Ainda trabalho na sexta-feira  noite, mas tiro folga no sbado.
    Naquele dia, rolam duas coisas.
    Primeiro, o padre d uma passada aqui em casa. E hora do almoo e ofereo uma sopinha pra ele. Quando chega na metade do prato, ele pra, e eu vejo uma emoo 
estampada em seu rosto.
    Padre O'Reilly larga a colher e diz:
     Tenho que lhe contar uma coisa, Ed.
    Dou uma parada tambm.
     O que , padre?
 Sabe, dizem que h inmeros santos que no tm nada a ver com a Igreja e praticamente no tm nenhum conhecimento de Deus. Mas dizem que Deus anda com essas pessoas 
sem que elas se dem conta disso  os olhos dele esto dentro de mim agora, acompanhados pelas palavras.  Voc  uma dessas pessoas, Ed.  uma honra conhec-lo.
    Cara, fiquei bobo.
    J me chamaram de tudo nesta vida  mas  a primeira vez que algum diz que  uma honra me conhecer.
    De repente, eu me lembro da Sophie perguntando se eu era um santo e lembro que eu disse que no passava de mais um ser humano estpido.
    Desta vez, eu me permito ouvir.
     Valeu, padre. Obrigado mesmo.
     O prazer  meu.
    Bom, a segunda coisa que rola  a seguinte: fao umas visitinhas pela cidade. Em primeiro lugar, dou uma passada rpida na Sophie. Pergunto se ela vai poder 
ir l no domingo, e ela diz:
     Claro, Ed.
     Traga a famlia  sugiro.
     Vou levar, sim.
    Ento passo na Milla e pergunto se ela me permitiria acompanh-la  igreja no domingo.
 Seria um prazer inenarrvel, Jimmy. Traduzindo: ela ficou superempolgada com a idia.
    Ento.
    A ltima visita.
    Quando estou ali batendo na porta do Tony O'Reilly, tenho muito pouca esperana.
 Oh,  voc  ele diz, embora parea feliz de me ver.  Voc deu o recado quele meu irmo?
     Dei, sim. Ah, e meu nome  Ed.
    Fico meio sem graa agora. Odeio dizer s pessoas o que fazer, at pedir. Mesmo assim, olho agora pro Tony O'Reilly e converso.
     Fiquei meio...  o resto da frase se quebra e cai no cho.
     O qu?
    Fico na minha. Acabo mudando a estratgia.
     Acho que voc sabe, Tony.
 Sim  ele concorda.  Sei, sim. J vi a pichao. Olho pra baixo e levanto a cabea de novo.
     E a?
    Ele abre a tela antiinseto e fico com medo do cara sair e me dar umas porradas, mas ele me convida pra entrar, e a gente se senta na sala de visita. Ele est 
vestindo uma roupa parecida com aquela da ltima vez. Short, camiseta regata e chinelos. Ele no parece to mau, mas eu boto muita f nos caras que se vestem assim. 
Os melhores criminosos usam shortinhos bem curtos, camiseta regata e sandlias de couro.
    Sem oferecer nada, ele traz uma bebida gelada.
     Aceita um suco de laranja?
     Claro.
    Tem at gelo picado! Ele deve ter uma daquelas geladeiras iradas que fazem de tudo.
    Ouo umas crianas correndo no quintal, e logo em seguida vejo as carinhas delas aparecendo de vez em quando, subindo e descendo em um trampolim.
 Que danadinhos!  Tony d uma risadinha baixa. Ele tem o mesmo senso de humor do irmo.
    Passamos uns minutos olhando pra tela da televiso enorme que ele tem, assistindo a uma reportagem supermaneira sobre cabo-de-guerra num programa do tipo Mundo 
Esportivo, mas, quando entra o comercial, Tony volta a ateno pra mim.
 Mas ento, Ed... Me diz uma coisa... Acho que voc quer saber por que rola essa briga minha com meu irmo.
    No consigo mentir.
     Ah, t sim.
     Voc est mesmo a fim de saber o que aconteceu?
    Olho pra ele.
    Honestamente.
    E balano a cabea de um lado pro outro.
     No, no posso me meter na sua vida.
    Tony solta um suspiro bem pesado e toma um gole da bebida. Ouo quando ele pica ainda mais o gelo dentro da boca. Nem me dou conta, mas, eu dei a resposta certa.
    Uma das crianas entra chorando na sala.
     Papai, o Ryan no pra de...
     Ah, vai parando de chorumela e cai fora daqui!  Tony grita.
    O garotinho tenta chorar um pouco mais alto, mas, quase de imediato, pra. Ele se ajeita todo e pergunta:
     Isso a  suco, papai?
     .
     Posso tomar um pouquinho?
     E como  que se diz?
     Por favor.
     Certo. Agora diga tudo direitinho.
     Posso tomar um pouquinho de suco, por favor?
 Pode. Assim est bem melhor, George. Agora v para a cozinha e faa um pouco para voc.
    O menino fica todo radiante:
     Obrigado, papai!
 Diabo de crianas!  Tony ri.  Elas no tm mais modos como antigamente...
     Eu sei  respondo e ento rimos juntos. Rimos, e Tony diz:
 Sabe, Ed...  bem capaz de voc me ver l amanh. E s ficar atento. Sinto uma alegria aqui dentro de mim, mas no demonstro.
    Que bom!
     Obrigado, Tony.
     Papaaaaai! Eu derramei!  George grita da cozinha.
     Eu sabia!
    Tony se levanta, balanando a cabea.
 Desculpe, no vou poder acompanhar voc at a porta, lenho que cuidar dessa merda.
     No tem problema. Fique tranqilo.
    Deixo pra trs a TV de tela gigante e saio do casaro aliviado. Resultado agradvel.

Pra minha surpresa, consigo dormir feito uma pedra, e acordo cedo. Eu estava lendo um livro maneirssimo, meio esquisito, chamado Table of Everything ontem  noite. 
Procuro o diabo do livro, mas percebo que ele caiu entre a cama e a parede. Quando j estou h alguns minutos procurando, lembro que hoje  o dia. Dia de Conhecer 
um Padre. Desisto de procurar e me levanto.
    Audrey, Marv e Ritchie chegam na minha casa s oito horas e vamos pra igreja. O padre j est l, andando de um lado pro outro, ensaiando e revendo o sermo.
    Outras pessoas aparecem:
    O parceiro do Marv com os barris e com o karaok.
    O pessoal com o pula-pula.
    Pegamos as churrasqueiras e determinamos que o Ritchie e alguns de seus colegas vo segurar as cervejas enquanto o padre estiver fazendo o sermo.

L pelas nove e quarenta e cinco, as pessoas comeam a chegar pra valer, e eu me lembro que tenho que ir pegar a Milla.
 Ei, Marv  nem acredito que vou fazer isso.  Posso pegar seu carro por dez minutos?
 O qu?  j saquei que ele vai pegar no meu p.  Voc quer pegar minha lata-velha?
    Putz, no estou com tempo pra isso.
     , Marv. Retiro tudo o que eu disse sobre sua mquina.
     E?
    E?
    A ficha cai.
     Nunca mais vou falar mal dela.
    Ele d um sorriso de vitria e me joga as chaves.
     Cuida bem da mquina, Ed.
    Comentariozinho completamente desnecessrio. Marv sabe que eu vou ter que me segurar pra no falar. O safado chega at a esperar, mas eu fico na minha, seguro 
a onda legal.
     Bom garoto  ele diz, e eu saio batido.
    Milla est toda ansiosa esperando e j vai abrindo a porta antes mesmo de eu comear a subir as escadas pra varanda.
     Ol, Jimmy!
     Oi, Milla.
    No carro, abro a porta pra ela e voltamos pra igreja. Pela janela quebrada, entra uma brisa muito maneira.
    Quando chegamos, so cinco pras dez e eu fico bobo de ver. A igreja est lotada. Vejo at minha me entrando, com um vestido verde. Acho que a velha no  muito 
chegada  cerveja. Ela s no quer ficar de fora do que est rolando.
    Encontro um dos poucos assentos vagos e peo que Milla se sente l.
 E voc, Jimmy?  ela pergunta nervosa.  Onde voc vai se sentar?
 No se preocupe. Vou encontrar um lugarzinho  s que eu no encontro. Eu me junto s pessoas em p nos fundos da igreja, esperando o padre O'Reilly dar o ar da 
graa.
    Quando so dez horas, os sinos da igreja tomam posse da congregao e, agora, todo mundo  crianas, senhoras cheias de p na cara e carregando bolsas de mo, 
bbados, adolescentes e as mesmas pessoas que esto sempre por l, todas as semanas , todos ficam em silncio.
    O padre.
    D o ar da graa.

Ele aparece e fica todo mundo esperando pelas palavras.
    Por um instante, ele simplesmente d uma olhada pra multido. Ento ele d um sorriso sincero e diz;
 Ol a todos  e a galera vai  loucura. Rolam aplausos, assobios, e o padre fica animado de um jeito que eu nunca vi. O que eu no sei  que ele tambm tem seus 
truques.
    Por enquanto ele no diz mais nada.
    Nada de reza.
    Ele espera mais uma vez pelo silncio, tira uma gaita da batina e comea a tocar uma cano soul. Alguns instantes depois, aparecem trs caras de terno, todos 
desleixados, um batendo numa lata, o outro tocando violino, e o ltimo tambm tocando gaita. Uma das grandes.
    A msica toma conta da igreja e cria um clima, uma atmosfera ali entre o povo que eu jamais vi na vida.
    Quando param, o pessoal grita de novo, e o padre espera.
    Finalmente, ele diz:
 Essa cano foi pra Deus. Veio Dele e  dedicada a Ele. Amm.
     Amm  o povo repete.

Ento o padre fala um pouco, e eu adoro suas palavras e o jeito com que ele as diz. Ele no fala como todos aqueles pregadores naquelas igrejas arcaicas, onde tem 
mais baboseira do que qualquer outra coisa. O padre O'Reilly fala com uma sinceridade que chega a hipnotizar. No sobre Deus, mas sobre a necessidade de as pessoas 
desta cidade se unirem. Fazerem coisas juntas. Ajudarem umas s outras. E basicamente se juntarem mesmo. Ele convida o pessoal a fazer tudo isso na igreja todo domingo.
    Ele pega aqueles caras, o Joe, o Graeme e o Joshua, para ler. D at pena deles, de to lentos, mas so aplaudidos como heris quando terminam, e d pra ver 
o orgulho estampado em suas caras. Bem diferente de sair por a pedindo dinheiro, cigarros e jaquetas.
    Por um bom tempo, fico me perguntando onde ser que o Tony est. Quando olho pra multido, cruzo olhares com a Sophie, e ns dois levantamos as mos, e ela volta 
a prestar ateno. No encontro Tony em lugar nenhum.
    No final, o padre manda uma das antigas  a nica cano que todos conhecem , "Ele tem o mundo inteiro nas mos". Todos cantam e batem palmas no compasso, e, 
quando a msica termina, finalmente vejo o Tony.
    Ele atravessa o mundaru de gente e pra ao meu lado.
     Oi, Ed.
    Ele est segurando uma criana em cada mo. Pergunta logo em seguida:
     Tem algum suco de laranja por a?  pras crianas.
     Tem, sim, pode ficar tranqilo.
    Talvez uns cinco minutos depois, o padre me v com Tony, de p nos fundos da igreja.
    Ele j est acabando e nada de reza. Thomas O'Reilly finalmente decide pr a mo na massa.
    Ele diz:
 Pessoal, vou fazer uma orao agora, em voz alta. Quando eu fizer a orao em silncio, sintam-se  vontade pra fazer quaisquer oraes de suas autorias  ele 
inclina a cabea e diz:  Senhor, eu Vos agradeo. Eu Vos agradeo por este momento glorioso, por toda esta gente magnfica. Eu Vos agradeo pela cerveja gratuita 
(o povo ri nessa hora), pela msica e pelas palavras que Vs nos ofereceste neste dia. Porm, acima de tudo. Senhor, eu Vos agradeo pela presena de meu irmo aqui 
hoje e por certas pessoas no mundo que tm um pssimo gosto pra jaquetas... Amm.
     Amm  o povo repete mais uma vez.
 Amm  digo, atrasado, e agora, como muitas dessas pessoas, rezo pela primeira vez em anos.
    Minha orao  assim: D sade  Audrey, Senhor, e ao Marv, mame, Ritchie e toda a minha famlia. Por favor, acolha meu pai em Vossos braos, e por favor, por 
favor, me ajude com as mensagens que tenho que entregar. Me ajude a fazer tudo direitinho...
    As ltimas palavras do padre chegam cerca de um minuto mais tarde.
     Obrigado, pessoal. E vamos dar incio  festa! O povo vibra.
    Uma ltima vez.

Ritchie e Marv preparam o churrasco. Audrey e eu nos encarregamos da cerveja. Padre O'Reilly toma conta da comida e da bebida da crianada, e ningum perde nada.
    Quando os comes e bebes acabam, trazemos o karaok e muita gente canta, tudo quanto  tipo de coisa. Passo um tempo com a Milla, que tambm encontra algumas 
garotas com quem ela estudou. Elas se sentam num banco, e uma delas tem as pernas to curtinhas que no consegue tocar o cho. Com as pernas cruzadas nos tornozelos, 
ela as balana pra frente e pra trs, e  a coisa mais bonita que vejo no dia.
    Consigo at convencer a Audrey a cantar comigo. Eight Days a Week, dos Beatles. Nem preciso dizer que Ritchie e Marv causam o maior frisson quando cantam You 
Give Love a Bad Name, do Bon Jovi. Cara, por Deus, essa cidade vive no passado.
    Eu dano.
    Dano com Audrey, Milla e Sophie. Adoro principalmente quando as rodopio e elas riem.
    Quando acaba, depois que eu j levei a Milla pra casa e voltei, a gente limpa tudo.
    A ltima coisa que vejo no dia  Thomas e Tony O'Reilly, sentados nos degraus da igreja, fumando juntos.  muito provvel que passem mais alguns anos sem se 
ver, mas no posso pedir mais do que isso.
    Eu no sabia que o padre fumava.

   9        OS TIRAS APARECEM
  ?


  Naquela noite, recebo visitas  primeiro, o padre O'Reilly e, depois, a polcia.
    O padre bate na minha porta e pra l, sem dizer nada.
     O que foi?  pergunto.
    Mas o padre no fala. S fica l parado, me olhando. Ele busca em mim uma resposta ao que aconteceu hoje. No fim, acho que ele desistiu de usar palavras. Ele 
s d um passo pra frente, coloca as mos nos meus ombros e olha bem seriamente dentro dos meus olhos. D pra ver o sentimento mexendo com a pele de seu rosto. Ele 
se contorce de um jeito bem pacfico e sagrado.
    Acho que  a primeira chance que o padre tem, depois de um bom tempo, de agradecer por alguma coisa. Geralmente,  ele quem recebe os agradecimentos do povo. 
Acho que  por isso que ele est com uma expresso to sria, e por isso que o reconhecimento em seu rosto tropea na tentativa de me alcanar.
 Tudo bem  digo. Uma felicidade silenciosa se estende entre a gente. Ficamos assim por um tempo.
    Quando ele se vira e vai, observo-o andar pela rua, at desaparecer.

A polcia aparece mais ou menos s dez e meia. Os guardas trazem uns esfreges e um bagulho lquido.
 Isso aqui  pro senhor retirar a pichao da rua  dizem.
     Muito obrigado  respondo.
     E o mnimo que podamos fazer.
    De novo, s trs da matina, l estou eu na rua principal da cidade, desta vez esfregando a tinta da pichao.
     Por que eu?  pergunto a Deus.
    Deus no diz nada.
    Eu caio na gargalhada, e as estrelas ficam s olhando l de cima.
    E bom estar vivo.


  10        MOLINHO FEITO SORVETE
  ?


  Passo os dias seguintes com uma puta dor nos braos e nos ombros, mas ainda acho que valeu a pena.
    Acabo descobrindo a tal de Angie Carusso. No tem muitos Carusso no catlogo, e vou eliminando uma por uma, at que eu a encontro.
    Ela tem trs filhos e parece que foi uma daquelas mes adolescentes nesta cidade. Tem dois meninos e uma menina, e trabalha meio expediente na farmcia. Tem 
cabelo curto, castanho escuro e fica bonita de uniforme. A roupa  um daqueles vestidos brancos, at o joelho, que se usa em clnicas, que toda assistente de farmcia 
parece usar. Eu gosto.
    Toda manh, Angie apronta as crianas pra escola e vai andando at l com elas. Vai ao trabalho trs vezes por semana. Nos outros dois, ela fica em casa.
    Fico observando de longe, e percebo que ela recebe o pagamento toda quinta. Nessas tardes, ela pega as crianas e as leva pro mesmo parque em que eu me sentei 
com Porteiro quando Sophie veio e conversou comigo.
    Ela compra um sorvete pra cada uma das crianas, que devoram o negcio mais rpido do que eu possa imaginar. Assim que terminam, j querem outro.
 No, vocs conhecem as regras  diz Angie.  Semana que vem vocs tomam mais sorvete.
     Por favor...
     Por favor...
    Um deles comea a fazer pirraa e por um momento me d vontade de ir l e dar um jeito no moleque. Graas a Deus, ele pra logo, pois quer ir no escorrega.
    Angie os observa por um instante at que fica de saco cheio e os arrasta com ela.
    Eu sei.
    Eu j sei.
    Esta  fcil, penso.
    Molinho, molinho, feito sorvete.
    Fico triste ao ver as pernas de Angie, enquanto ela sai andando. No sei por qu. Acho que  porque elas se mexem muito lentamente. Ela adora aquelas crianas, 
mas elas retardam o passo. Angie anda um pouco torta pro lado pra poder segurar na mo da filhinha.
     O que vai ter pro jantar, mame?  um dos meninos pergunta.
     Ainda no sei.
    Ela gentilmente tira uma mechinha de cabelo escuro dos olhos e continua andando, ouvindo as palavras faladas pela filha. A menina est contando a Angie sobre 
um garoto na escola que no pra de pegar no seu p.
    E continuo observando os passos curtos que as pernas errantes de Angie vo dando.
    Ainda me deixam triste.

Depois disso, ainda trabalho bastante no txi e ando pra caramba  noite. Minha primeira parada  na Rua Edgar, onde as luzes esto acesas e consigo ver a me comendo 
com a filhinha. O que me chama a ateno  que, sem o cara l, provavelmente elas no tm muita grana pra pagar as contas. Por outro lado,  muito provvel que ele 
torrasse todo o dinheiro com a birita, e estou quase certo de que ela prefere estar um pouco mais pobre a ter o cara por l.
    Tambm dou uma passada na Milla e, mais tarde, fao uma visita ao padre O'Reilly, que ainda est vibrando de felicidade depois do Dia de Conhecer um Padre na 
parquia. Nas semanas seguintes poucas pessoas compareceram  missa, mas ainda assim, se for comparar com antes, a igreja anda at cheia.
    Por ltimo, vou a cada endereo que abriga algum com sobrenome Rose. Tem mais ou menos uns oito, e encontro quem estou procurando na quinta tentativa.
    Gavin Rose.
    E um camarada de mais ou menos 14 anos que anda com umas roupas velhas e um ar de deboche. Tem cabelo razoavelmente comprido, e as camisas de flanela que ele 
usa parecem pano de cho.
    Ele est estudando.
     do tipo de adolescente que fuma.
    Tem olhos azuis da cor da gua limpa de banheiro e a cara cheia de sardas.
    Ah, e tem outra coisa...
    O cara  um tremendo de um escroto.

Por exemplo, ele vai a algumas lojinhas de esquina e desrespeita os donos que no falam nossa lngua muito bem. Ele rouba dessas lojas  qualquer coisa que caiba 
embaixo dos braos ou nas calas. Ele empurra os meninos mais fracos e cospe neles sempre que tem uma chance.
    Enquanto observo o filho-da-me antes da escola, tomo cuidado para que a Sophie no me veja. Alguns medos antigos voltam a me azucrinar e me arrepio todo s 
de pensar na possibilidade de Sophie me ver e ficar pensando que eu curto passar o tempo em ptios de escolas. Observando.
    Na maioria das vezes, vejo o Gavin Rose em casa.
    Ele mora com a me e o irmo mais velho.
    A me acende um cigarro atrs do outro, usa botas de pele de carneiro, se amarra em encher a cara, e o irmo  to escroto quanto ele. Na verdade fica at difcil 
decidir quem  o pior ali.
    Eles moram bem no cu da cidade, perto do riacho sujo e espumante que nasce no rio. A caracterstica principal do lugar  que a nica coisa que os irmos Rose 
fazem  sair no brao. Quando vou l de manha, eles esto no maior bate-boca.  noite, eles esto se pegando, no maior quebra-pau. A qualquer hora, eles esto sempre 
trocando amabilidades.
    A me no pode com eles.
    E pra aturar a desgraceira, ela enche a cara.
    Ela adormece no sof, embalada pela novela das oito.
    Em uma semana, eu j vi esses caras brigando pelo menos umas 12 vezes, at que uma noite, na tera-feira, eles travam a pior de todas as brigas. Explodem pela 
porta da frente e pelo lado da casa, e o irmo mais velho, Daniel, enche o Gavin de porrada. Gavin j pediu arrego, e o Daniel o levanta pelo colarinho.
    Ele passa um sermo no infeliz e balana a cabea pra frente e pra trs ao mesmo tempo.
 Eu te disse... pra... no... meter as mos... nas minhas coisas. Entendeu?
    Ele o atira contra o cho, antes de voltar pra dentro de casa, andando todo determinado.
    Gavin fica l, e, depois de uns minutinhos, ele vai se levantando, apoiando as mos e os joelhos no cho; fico do outro lado da rua s olhando.
    Depois de checar se a cara est sangrando, ele finalmente solta um palavro qualquer e comea a se mexer pela rua, meio andando, meio correndo. Ele s fala de 
dio e diz que vai matar o irmo, at que pra e se senta no meio-fio no p da ladeira, onde tem uns arbustos ao redor do caminho.
    Este  o meu momento.
    Eu me aproximo e paro na frente dele. Vou te confessar uma parada: me bate um cagao dos diabos. O cara  duro, no vai facilitar pra mim.
    Uma luz da rua est bem em cima da gente, observando.
    Um ventinho frio passa esfriando o suor no meu rosto, e, aos poucos, vejo minha sombra se aproximar e cobrir Gavin Rose.
    Ele levanta a cabea.
     O que voc quer, , babaca?
    As lgrimas quentes esto cozinhando seu rosto, e os olhos esto ardendo. Balano a cabea.
     Nada.
     Ento "sarta" fora, veado, seno acabo com a tua raa.
    Ele tem 14 anos, penso. Lembra da Rua Edgar? Isto aqui  moleza. Viro pra ele e digo:
     Ah, ento acaba logo, porque daqui eu no saio.
    Minha sombra cobriu o cara completamente, e ele no se mexe. Como eu pensei, ele  muito garganteiro. Ele arranca um mato do cho e joga na rua. Sai puxando 
tudo como se fosse cabelo. Suas mos esto ferozes.
    Depois de um tempo, eu me sento no meio-fio a uns metros de distncia e deixo que minha boca acabe com o nada que se instalou depois da ameaa.
 O que foi que aconteceu?  pergunto, sem olhar pra ele. Acho que vai funcionar se eu no olhar.
    Ele d uma resposta bem curta:
     Meu irmo  um escroto imbecil, e eu quero matar o safado.
     Muito bem!
    Ele olha enfurecido:
     C t de sacanagem com a minha cara?
    Mexo a cabea sinalizando que no, ainda me recusando a olhar pra ele.
     No t, no.
    Seu escrotinho, penso. Ele agora comea a repetir:
 Eu quero matar o infeliz. Eu quero matar o infeliz. Eu quero. Matar. O infeliz  o cabelo rebelde meio que cobre seu rosto. As sardas ficam todas acesas com a 
luz do poste.
    Olho pro garoto e penso no que tenho que fazer. Ser que esses Rose alguma vez foram testados? Esto prestes a enfrentar um teste.

   J        A COR DOS LBIOS DELA
  ?


   tarde de quinta-feira passa na boa.
    Angie Carusso segue a rotina de sempre no trabalho e pega as crianas na escola. Vai com elas at o parque e discutem pra decidir que sorvete vo comprar. Um 
deles toma uma deciso esperta: a de comprar um mais barato pra poder tomar dois. Ele sugere isso pra Angie, e ela diz que mesmo assim ele s pode tomar um. Ele 
ento muda de idia e volta pro mais caro.
    Fico aguardando no parque, enquanto esto l dentro da loja. Eu me sento em um dos bancos mais afastados e espero at que eles saiam. Depois que aparecem, vou 
at a loja e tento adivinhar que tipo de sorvete Angie Carusso gostaria de tomar.
    Anda logo, penso, quando voc sair da loja, eles no vo estar mais l. Por fim, escolho dois sabores. Menta e maracuj numa casquinha de biscoito.
    Quando saio, as crianas ainda esto devorando seus sorvetes. Esto todos no banco.
    Eu me aproximo.
    Disparo a falar, surpreso pelas palavras sarem direitinho.
 Com licena, eu...  Angie e as crianas se viram pra me olhar. Bem de perto, Angie Carusso  bonita e tmida.   que eu j vi vocs aqui outras vezes e notei 
que voc nunca toma um sorvetinho  ela olha pra mim como se eu fosse um doido varrido.  Achei que voc merecia um tambm.
    Meio atrapalhado, passo o sorvete pra ela e j est escorrendo verde e amarelo pelos lados do cone.
    Ela libera a mo devagar e pega o sorvete, com uma cara assustada j se descontraindo. Por uns segundinhos, ela olha pro sorvete. Ento, passa a lngua pra salvar 
o que escorre ao lado do cone.
    Depois que ela limpa tudo com a lngua, tenta dar uma mordida como se fosse o pecado original. Ser que eu deveria? Ela olha pra mim cuidadosamente de novo antes 
de enfiar os dentes no sorvete de menta. Seus lbios ficam verde-claros bem na hora em que os meninos saem correndo pro escorrega. S a menininha fica e aponta:
     ... hoje at voc ganhou sorvete, mame.
    Angie tira a franja dos olhinhos da filha.
     , Casey, viu s? Agora v brincar com seus irmos.
    Casey vai, e ns dois ficamos ss no banco.
    Est fazendo um dia quente e mido.
    Angie Carusso toma o sorvete, e eu fico sem saber onde coloco as mos. Ela passa a boca ao redor do sorvete de menta e agora comea a explorar o maracuj, bem 
devagarzinho. Com a lngua, ela empurra pra baixo evitando que o cone fique vazio. Parece at que ela no suportaria a idia de ver o cone oco.

Enquanto toma o sorvete, Angie fica de olho nas crianas. Os meninos mal se deram conta de minha presena, e o negcio deles  ficar gritando pra me e discutir 
sobre quem est indo mais alto nos balanos.
 So umas gracinhas  Angie diz olhando pro cone  na maioria das vezes.
    Ela balana a cabea e continua:
 Eu era a mais dcil quando era pequena. Agora tenho trs filhos e estou sozinha. Ela olha, e d pra ver que est imaginando como seriam os balanos se as crianas 
no estivessem l. Por um instante ela se sente culpada por pensar isso. Mas o pensamento est sempre ali, nunca sai de sua cabea, apesar do amor que sente por 
eles.
    Percebo que nada pertence mais a ela, e ela pertence a tudo.
    Angie chora, por um momento, enquanto observa. Ela se permite pelo menos isso. Na cara, lgrimas rolando; nos lbios, doce sorvete.
    No tem mais o mesmo sabor.

Ao se levantar, Angie Carusso me agradece. Ela pergunta como eu me chamo, mas respondo que no importa.
 Nada disso  ela protesta.  Importa, sim. Eu dou um desconto.
     Eu sou Ed.
     Obrigada, Ed. Obrigada mesmo.
    Ela me agradece mais algumas vezes, s que as melhores palavras que ouo no dia chegam a mim bem na hora em que eu acho que o negcio terminou. E a menininha, 
Casey. Segurando na mo da me, ela se retorce toda e diz:
     Semana que vem eu te dou um pouco do meu, mame.
    De alguma forma, eu me sinto triste e vazio, mas tambm sinto que fiz o que era pra fazer. Pelo menos uma vez, um sorvetinho pra Angie Carusso. Nunca vou esquecer 
da cor do sorvete naqueles lbios.

  Q        SANGUE E OS ROSE
  ?


  Agora tenho que cuidar dos Rose e, como eu j disse, acho que eles nunca foram testados. Acho que ningum nunca perguntou como reagiriam se outra pessoa interrompesse 
o quebra-pau deles metendo a porrada.
    Tenho o endereo deles.
    Tenho o telefone deles e estou pronto.

No incio da semana pego o turno do dia direto e toda noite que tenho uma folga dou uma passada por l. Eles s esto de bate-boca. No vejo nenhuma porradaria propriamente 
dita, da volto pra casa frustrado. Na volta, procuro o telefone pblico mais prximo da casa deles e acho um algumas ruas depois.
    Tenho que trabalhar nas prximas noites, o que acabo achando at bom. No faz muito tempo que tiveram um quebra-pau srio, e da acho que eles precisam de mais 
alguns dias pra se prepararem pro prximo. S preciso que o Gavin saia da casa de novo. Meu trabalho no  nada agradvel.

No domingo  noite, acontece.
    Estou aqui h quase duas horas quando a casa vem abaixo e o Gavin sai mais uma vez.
    Ele volta ao mesmo lugar e se senta no mesmo meio-fio.
    E, novamente, eu vou at l.
    Minha sombra quase que nem encosta no moleque quando ele diz:
     Porra, voc de novo?
    Mas ele nem olha pra mim.
    Abaixo a mo e o agarro pelo colarinho.

Tenho a sensao de estar fora de mim.
    Eu me vejo arrastar Gavin Rose para a moita e meter a porrada nele ali no meio do mato, entre a terra e os galhos derrubados das rvores.
    Enfio a porrada na cara dele e fao um rombo no estmago do moleque.
    O cara chora e implora. Chora de soluar.
     No me mate, no me mate...
    Fao questo de no olhar nos olhos dele, da j meto um porrado no nariz pra eliminar qualquer viso que ele possa ter tido. Ele est machucado, mas eu continuo. 
Quando eu terminar, o cara no vai poder mexer nem um dedo;  isso que eu quero.
    O cheiro do medo que ele est sentindo chega no meu nariz.
    Ele est exalando medo.
    O negcio chega e se agarra no meu nariz.
    Eu me dou conta de que o tiro aqui pode sair pela culatra, mas no tenho outra escolha.
 hora de explicar que, antes de pegar aquela mensagem na Rua Edgar, eu nunca havia sequer encostado um dedo em algum desse jeito. No  nada bacana fazer isso, 
sobretudo quando  um cara mais novo que no tem chance. S que no posso deixar que isso atrapalhe. Estou possudo  medida que continuo porrando a cara e o corpo 
do Gavin Rose. Est escuro e passa um vento balanando a moita.
    Ningum pode ajud-lo.
    S eu.
    E como o ajudo?
    Dou um ltimo chute pra garantir que ele no consiga se mexer pelo menos nos prximos cinco ou dez minutos.
    Saio de cima dele, sem flego.
    Gavin Rose no vai a lugar nenhum.

Tem sangue nas minhas mos enquanto saio depressa da moita em direo  rua. Ouo a televiso na casa dos Rose quando passo rapidinho por l.
    Quando viro a esquina e vejo o telefone pblico, descubro um problemo: tem algum usando.
 Ah, que se dane o que ela diz  esbraveja uma adolescente grandalhona com um piercing no umbigo.  No tem nada a ver comigo...
    No consigo evitar.
    Penso: Larga esse telefone, mocria.
    S que a filha-da-puta se empolga mais ainda na conversa.
    Um minuto, penso. Vou dar um minuto e da vou entrar nessa cabine.
    Ela me v, mas no d a mnima. Ela se vira e continua falando.
    Chega. Vou entrar nessa merda. E bato no vidro.

  K        A CARA DE PAUS
  ?


  Bem, devo dizer que estou orgulhoso de mim mesmo. Tinham trs nomes gravados naquele pedregulho no meio das pedras, e tenho certeza de que consegui dar conta de 
tudo.
    Vou at o rio e Porteiro vem atrs de mim; a gente segue a contra-corrente, pro lugar onde esto os nomes. A subida fica puxada pro Porteiro, ento olho pra 
ele, decepcionado.
 Tinha que vir, n? Eu disse que tu no ia agentar, mas no me deu ouvidos.
    Vou esperar aqui, ele responde.
    Dou uma batidinha no danado enquanto ele se deita e contnuo a subida. Quando escalo as pedras maiores, sinto um orgulho se apossando de mim.  bom pra caramba 
voltar l vitorioso, depois da incerteza de minha primeira visita.
    J estamos pra l do meio da tarde, mas no est fazendo calor, e assim, quando bato os olhos nos nomes, praticamente no estou suado.
    Imediatamente, percebo que tem alguma coisa diferente. Os nomes so os mesmos, mas ao lado de cada um deles, tem um ok marcado, obviamente para cada vez que 
completei a tarefa.
    Fico muito feliz de ver o primeiro nome.
    Thomas O'Reilly. Um ok bem grande.
    Ento Angie Carusso. Outro ok.
    E da...
    Como assim?
    Nem acredito quando vejo que o nome Gavin Rose ainda est pelado, sem nenhum ok.
    Paro ali, com o brao em volta do corpo, coando as costas.
 O que ainda preciso fazer?  pergunto.  Mais concluda do que a mensagem do Gavin Rose, impossvel.
    A resposta no deve estar longe.

Alguns dias se passam e estamos quase no final de novembro. O Jogo de Vero est se aproximando. O Marv no pra de me ligar, ainda bolado com minha aparente falta 
de interesse.
    Chega dezembro, e duas noites antes do jogo ainda estou nervoso com o lance do Gavin Rose sem o ok marcado na pedra. J voltei l outras vezes e nada. Fiquei 
na esperana de que a pessoa encarregada de marcar a pedra tivesse se atrasado, mas  impossvel que trs ou quatro dias se passassem. Duvido muito que a pessoa 
por trs de todo o esquema fosse dar um furo desses.
    No consigo dormir direito.
    Porteiro est me irritando.
    Mais uma vez sem dormir depois da quinta-feira, e ento vou direto  farmcia 24 horas l no incio da rua principal pra comprar qualquer bagulho que me ajude 
a pegar no sono. Eu deveria ter guardado uns tranqilizantes daqueles que usei com o cara da Rua Edgar.
    Quando saio da farmcia, vejo uns carinhas reunidos do outro lado da rua.
    Quando vou me aproximando de casa, fica claro que eles esto me seguindo e, quando estamos todos parados num cruzamento esperando o sinal ficar verde, identifico 
a voz de Daniel Rose.
      esse a, Gav?

Tento reagir, mas eles so muitos, uns seis pelo menos. Os caras me arrastam para um beco e fazem comigo o que eu fiz com o Gavin. Me socam com fora, uns me seguram 
no cho enquanto os outros mandam ver, e assim vo se revezando na porradaria. Sinto o sangue escorrer pela minha cara e os hematomas aparecendo nas costelas, pernas 
e estmago. Eles se divertem.
 Isso  pra voc ver o que acontece quando fodem com meu irmo  este  o Daniel Rose puxando papo. Ele me d um chute bem forte na costela. Lealdade di.  Vamos 
l, Gav! Manda o ltimo pra saideira!
    Gav aceita a sugesto.
    D um chute no meu estmago e mete um soco no meio da minha cara.
    E saem correndo pela noite.
    Quanto a mim, eu tento me levantar, mas no consigo.
    Vou me arrastando pra casa e sinto que encerrei um ciclo desde quando recebi o s de paus.
    Quando entro cambaleando pela porta. Porteiro olha todo chocado. Quase que preocupado. S consigo balanar a cabea, dar um sorrisinho amarelo de dor e garantir 
pra ele que estou bem. Imagino que, enquanto toda essa parada est rolando, esto marcando um ok bem grande na pedra ao lado do nome Gavin Rose. Agora acabou.

Mais tarde naquela noite, olho no espelho do banheiro.
    Dois olhos roxos.
    Queixo inchado.
    Sangue escorrendo pelo pescoo.
    Eu me olho e fao um esforo do cacete pra sorrir.
    Mandou bem, Ed, digo a mim mesmo, e dou uma ltima olhadinha na minha cara quebrada e ensangentada.
    Olho esquisito pra cara de paus.



   PARTE     TRS


        TEMPOS DIFCEIS
        PARA ED KENNEDY




  A        O JOGO
  ?



  Um mosquito canta no meu ouvido, e eu quase me sinto grato pela companhia. D at vontade de cantar junto.
    Est escuro, estou com sangue na cara, e o mosquitinho podia facilmente se sentar e beber sem injetar. Ele podia se ajoelhar e beber o sangue da minha bochecha 
direita e dos meus lbios.
    Quando saio da cama, o cho est frio e meus ps curtem o alvio. Meus lenis pareciam estar tecidos junto com o suor, e agora eu me inclino e me escoro na 
parede do corredor. O suor escorre at meu tornozelo e rola at a base de cima do meu p.
    No estou me sentindo mal.
    Um riso escapa da minha boca quando olho a hora, vou pro banheiro e tomo um banho frio. A gua gelada bota fogo nos cortes e hematomas, mas a sensao  boa. 
So quase quatro da manh e no estou mais com medo. No visto nada alm de um jeans velho; depois volto pra cama procurando os dois ases. Abro a gaveta e levanto 
as cartas nos dedos. A luz amarela do quarto est perto de mim quando olho com felicidade para as histrias dessas cartas. Eu me emociono quando penso na Milla e 
na Rua Edgar, e desejo que a Sophie tenha uma tima vida pela frente. Acho graa do padre O'Reilly, da Rua Henry e do Dia de Conhecer um Padre. Ento penso na Angie 
Carusso e acho uma pena no ter podido fazer mais por ela. E aqueles filhos-de-uma-puta, os Rose.
    Qual ser a prxima carta?, imagino.
    Acho que vai ser de copas.
    Fico ento aguardando.
    Aguardando a luz do dia e o prximo s.

Desta vez eu quero que seja rpido.
    Quero a carta agora mesmo. Sem palhaada. Sem charadas. S me d os endereos. Me d os nomes e me mande l. E isso que eu quero.
    A nica preocupao  que, toda vez que eu quis que alguma coisa sasse de um jeito X, degringolou pro jeito y, como se fosse um lance planejado direitinho pra 
me desafiar com o desconhecido.
    Quero ver o Keith e o Daryl entrando por essa porta de novo. Quero que entreguem a prxima carta e falem mal do fedor e das pulgas do Porteiro. Nem passei a 
chave na porta, pra que os caras entrem de maneira civilizada.
    Mas eu sei que eles no vm.

Acho meu livro e vou pra sala. Levo os ases comigo e seguro os danados enquanto leio.
    Quando acordo de novo, estou no cho com as duas cartas perto da mo esquerda. J so quase dez horas, est calor e tem algum batendo na porta.
    So eles, penso.
     Keith?  grito, ficando de joelhos.  Daryl? So vocs?
 Que mane Keith o qu? Quem  Keith? Levanto a cara e vejo Marv parado. Esfrego os olhos.
     O que voc t fazendo aqui, maluco?  pergunto.
     E assim que voc fala com os amigos, cara?
    Ele agora v meu rosto melhor e as listras roxas e amarelas formadas pelas costelas. "Meu Deus do cu", eu o vejo pensando, mas ele no fala. Ele d uma resposta 
pra uma pergunta diferente da que eu fiz. O Marv adora fazer isso; chega a dar no saco. Em vez de dizer o que est fazendo aqui, ele diz como entrou;
 A porta tava sem a chave e no sei por que cargas d'gua Porteiro me deixou entrar.
     T vendo a? Eu te disse que ele  bacana.
    Vou pra cozinha e o Marv vem atrs. Ele quer entender o que est vendo.
     Como foi que voc acabou nesse estado, Ed?
    Ligo a chaleira.
     Quer um caf?
    Aceito, sim, obrigado.
     claro que Porteiro acaba de entrar no recinto.
     Valeu  responde Marv.
    Enquanto bebemos, conto pro Marv o que aconteceu.
 Uns carinhas a. No foram com a minha cara e me pegaram pelas costas.
     Voc conseguiu revidar?
     Porra nenhuma.
     Por que no?
     Os caras tavam em seis, Marv!
    Ele balana a cabea.
 Meu Deus, o mundo t muito louco, cara  ele decide voltar pra algo mais tranqilo.  Voc acha que vai estar em condies de jogar esta tarde?
     claro.
    O Jogo de Vero.
    Hoje  o dia.
     Sim, Marv  dou uma resposta bem clara , eu vou jogar.
    De repente, sinto uma puta disposio pro jogo deste ano. Apesar das condies fsicas lastimveis, eu me sinto mais forte do que nunca, e na verdade estou at 
curtindo a idia de levar mais umas porradas. No me pergunte por qu. Eu mesmo no consigo entender.
 Venha  Marv se levanta e vai em direo  porta.  Vamos tomar um caf-da-manh. E por minha conta.
     T falando srio?
    Sinistro. O Marv no  de fazer um negcio desses.
    Quando estamos saindo, peo que ele fale a verdade.
     Voc faria isso se eu tivesse tirado o corpo fora do jogo?
    Marv abre o carro e entra.
     Nem ferrando.
    Pelo menos ele  honesto.

O carro no d partida.
     Pode ficar caladinho a  ele me olha.
    Ns dois damos um sorrisinho amarelo.
    Este dia promete. Estou com unia boa sensao.

Vamos andando pra uma lanchonete de merda no final da rua principal. Eles servem ovos, salame e um po na chapa. A garonete  uma mulher grandona, bocuda, com um 
leno na mo. No sei por que, mas pra mim ela tem cara de Margaret.
 Vou logo avisando: aqui no tem essa histria de "viado", no.
    A gente fica chocado com o comentrio.
     "Viado"?  Marv pergunta.
    Ela olha pra gente com aquela cara do tipo "Num t com tempo pra isso". A mulher est de saco cheio disso aqui.
 Meu filho, o que no falta aqui  gente querendo comprar "viado".  a que a ficha cai, e eu percebo que ela est dizendo "fiado".
     Ei, Marv! "Fiado".
     O qu?
     Fiado.
    Marv d uma olhada no cardpio.
    Margaret d uma pigarreada pra limpar a garganta.
    Pra no encher mais o saco dela, fao o pedido rapidinho.
     Ser que d pra me ver um milkshake de banana?
    Ela faz cara feia.
     Estamos sem leite.
     Sem leite? Como  que uma lanchonete pode funcionar sem leite?
  s, num sou eu quem compra leite aqui. Tenho nada com isso. S sei que estamos sem leite. Por que vocs no pedem alguma coisa pra comer?
    Putz, essa mulher adora o trabalho. D pra sentir no ar.
     Vocs tm po?  pergunto.
     No banque o engraadinho, garoto.
    Dou uma geral na lanchonete pra ver o que os outros clientes esto comendo.
 Vou querer a mesma coisa que aquele cara ali pediu. Ns trs olhamos pra l.
 Tem certeza?  Marv adverte.  Aquele negcio t parecendo bem esquisito, Ed.
     Cara, pelo menos eles tm pra servir, certo?
    E agora  que a Margaret fica puta.
 Olha aqui  ela coa a cabea com a caneta. S falta ela fazer da caneta cotonete tambm.  Se no esto gostando do lugar, melhor darem o fora e procurarem outro 
canto pra comer.
    Ela  muito impaciente, pra no dizer outra coisa.
 Beleza  levanto a mo, quase arrastando a cadeira pra trs.  Traga pra mim o que aquele cara pediu e uma banana, tudo bem?
     Bem pensado  Marv aprova.  Potssio pro jogo.
    Potssio?
    No acho que v ajudar muito.
     E voc?  Margaret agora volta a ateno pro Marv.
    Ele se mexe todo na cadeira.
     Que tal aquele po na chapa com a melhor tbua de frios?
    Ele tinha que fazer uma graa. Marv no resiste em dar uma de engraadinho com uma pessoa assim. E da natureza dele, no adianta.
    S que a Margaret  cobra criada. Ela j est acostumada a lidar com babacas como a gente o tempo topo.
 No me faa dizer o que vou fazer com essa tal de tbua, garoto  ela responde e, no vou mentir, ns dois camos na gargalhada.
    Ela decide no notar.
     Os dois vo querer mais alguma coisa?
     No, obrigado.
     Certo. D $ 22,50.
     Quanto?!  no d pra esconder o susto.
     Sim. Isso aqui  lugar de classe, no sabiam?
     Ah, sim, isso ficou claro: o atendimento  de primeira.
    E agora ficamos sentados na parte aberta da lanchonete, torrando e suando ao sol, enquanto esperamos pelo caf. Margaret faz questo de passar pela gente, toda 
feliz, pra servir outras pessoas. Quase perguntamos que fim levou nossos pedidos, mas a gente sabe que isso s vai aumentar o tempo de espera. As pessoas esto na 
verdade j almoando antes de ns tomarmos caf-da-manh, e, quando o pedido finalmente chega, Margaret joga as coisas na nossa mesa como se estivesse servindo adubo.
 Um brinde pra voc, linda!  diz Marv.  Voc se superou! Margaret assoa o nariz e sai fora.
    Indiferena selvagem.
 Como t o seu?  pergunta Marv.  Ou melhor, o que  isso que voc t comendo?
     Ovo com queijo e mais alguma paradinha.
     E voc l gosta de ovo?
     No.
     Ento por que pediu esse troo?
 Ah, sei l, tipo... no parecia ovo quando olhei no prato do outro cara.
     T explicado. Quer um pouco do meu?
    Aceito a oferta e como um pedao do po na chapa. Nada mau, na verdade, e finalmente pergunto pro Marv por que ele escolheu exatamente hoje pra me pagar um caf-da-manh 
fora. Isso nunca aconteceu antes. Nunca sa pra tomar caf-da-manh em toda a minha vida. Alm disso, jamais passaria pela cabea do Marv pagar pra mim. Ta um negcio 
fora de cogitao. Normalmente, ele preferiria a morte.
 Marv  digo, olhando direto pra ele , por que voc me trouxe aqui?
    Ele balana a cabea.
     Eu...
 Diz a um negcio: voc t  fazendo uma mdia pra garantir que eu v ao jogo esta tarde, n, no?
    Marv no pode mentir pra mim agora e ele sabe disso.
      basicamente isso sim, cara.
 Eu vou, brother. Pode contar comigo l s quatro horas em ponto.
     Beleza!
    O resto do dia passa voando. Graas a Deus, Marv larga do meu p nas prximas horas, ento aproveito e vou pra casa dormir mais um pouco.
    Quando chega perto da hora marcada, vou caminhando pro corredor esportivo com Porteiro, que percebeu minha felicidade, apesar do estado aparentemente catastrfico 
em que me encontro.
    Damos uma passada na Audrey.
    No tem ningum em casa.
    Talvez ela j esteja no corredor esportivo. Ela odeia futebol, mas no falta a nenhum Jogo de Vero.
    So quase quinze pras quatro quando entramos no vale onde fica o corredor esportivo, e eu me lembro de quando estive aqui com a Sophie, na pista de corrida. 
Isso faz este jogo parecer lastimvel, o que alis no deixa de ser. J tem uma galera se reunindo no campo de futebol, enquanto a pista est vazia, com exceo 
das imagens da menina descala.
    Passo um bom tempo encarando a beleza e ento me viro pra olhar o resto.
    Quanto mais eu me aproximo, maior fica o cheiro de cerveja. A tarde est quente. Faz uns 32 graus.
    Os dois times esto em cantos diferentes do campo, e uma multido de 100 pessoas comea a se juntar e crescer aos poucos. O Jogo de Vero  sempre meio que um 
evento. Rola no primeiro sbado de dezembro todo ano, e acho que esta  a quinta edio. E a terceira vez que participo.
    Deixo Porteiro na sombra de uma rvore, e quando me aproximo do time, os caras que percebem minha presena olham bem pro meu rosto. S que o interesse deles 
desaparece rapidinho. Esto acostumados a ver hematomas e sangue o tempo todo.
    Em cinco minutos, visto uma camisa com listras vermelhas e amarelas. Nmero 12. Tiro o jeans e coloco um short preto. Nada de meia nem chuteira  estas so as 
regras do Jogo de Vero. Nada de chuteira nem de proteo nenhuma. S mesmo uma camisa, um short e uma boca suja. E s disso que precisamos.
    Nosso time  conhecido como os Colts. Os adversrios so os Falcons. Eles usam camisas verde e branca com shorts da mesma cor, embora ningum ligue muito pra 
eles. J  muita sorte termos as camisas, se formos lembrar aqui que teve um ano em que a gente malocou algumas de um dos times profissionais e pegou outras do lixo.

Tem uns quarentes no Jogo de Vero. Bombeiros ou mineiros grandes e feiosos. Tem tambm uns jogadores mais ou menos; alguns novos, tipo Marv, Ritchie e eu; e uns 
que sabem jogar bem de verdade.
    Ritchie  o ltimo do nosso time a dar as caras.
 Ih, olha s! Apareceu a violeta!  diz um gordo que joga em nossa equipe. Um dos camaradas dele tenta explicar que no se diz "apareceu a violeta", e sim "apareceu 
a margarida", mas, com toda a sinceridade, o gorducho tem muita banha no crebro pra entender a parada. Ele tem o que chamaramos de um bigode do estilo Merv Hughes. 
Se voc no entende a expresso, vou simplificar:  um bigode enorme. Voc s precisa saber disso: enorme, cheio e vergonhoso. E quer saber o mais triste disso tudo? 
O cara  nosso capito. Acho que o nome dele  Henry Dickens. Nenhum grau de parentesco com o Charles.
    Ritchie larga a mochila e diz:
 E a, galera! Como estamos?  mas ele olha pro cho e ningum esta nem a pra como est o pessoal.
    Faltam cinco pras quatro e a maioria do time esta enchendo a cara de cerveja. Algum joga uma cervejinha pra mim, mas eu guardo pra depois.
    Passo um tempinho por ali enquanto a multido continua enchendo o lugar e Ritchie se achega.
    Ele me olha de cima a baixo e fala.
 Meu Deus do cu, Ed! Voc t um desespero. Todo cheio de sangue, todo fodido!
     Valeu!
    Ele olha mais de perto.
     O que aconteceu, cara?
     Ah, s uns carinhas mais novos se divertindo um pouco.
    Ele me d um tapinha nas costas, com fora suficiente pra doer.
     Acho que agora voc aprende, n, Ed?
     Aprendo o qu?
    Ritchie pisca pra mim e termina de tomar a cerveja.
     Sei l.
    Cara, eu adoro o Ritchie. Ele no liga muito pra como as coisas acontecem, nem tem vontade de perguntar o porqu. Ele percebe que eu no estou a fim de falar 
do incidente, faz um comentariozinho sacana e fica por isso mesmo.
    O Ritchie  um cara maneiro.

Acho curioso que ningum tenha ao menos dito que eu deveria ter ligado pra polcia e contado o que aconteceu. No se faz esse tipo de coisa por aqui. As pessoas 
esto sempre levando umas bordoadas por a o tempo todo, e, na maioria dos casos, ou o cara revida ou acata a porrada e vai chorar na cama, que  lugar quente.
    No meu caso, acatei na boa.

Enquanto estou fazendo uns alongamentos, dou uma olhada no time adversrio. Os caras so maiores que a gente; tem um que parece um armrio; olho bem pra ele. O Marv 
tinha falado sobre essa figura um tempo atrs. O sujeito  um monstro e, pra ser sincero, no d pra dizer se  homem ou mulher. Na verdade, de longe parece Mimi 
do Drew Carey Show.
    Ento.
    O pior.
    Olho pro nmero dele.
     nmero 12, como eu.
 Voc vai ter que marcar em cima daquele ali  diz uma voz atrs de mim. Sei que  o Marv, e o Ritchie se aproxima tambm.
 Boa sorte, Ed  ele diz, tentando disfarar o cagao. Quase que sem querer, eu solto uma risada.
     Puta que o pariu! O cara vai me esmagar. Literalmente.
     Tem certeza que aquilo  homem?  pergunta Marv.
    Eu me dobro e seguro os dedos dos ps, alongando a parte de trs das pernas.
 Pode deixar que eu pergunto quando ele estiver em cima de mim. S que, pode at ser esquisito, mas no estou to preocupado.
    A multido vai ficando desesperada.
     Certo, entre aqui  diz Merv.
    Isso mesmo que voc leu. Eu disse Merv, no Marv  resolvi chamar o gordo bigodudo de Merv porque duvido muito que ele se chame Henry. Acho que os amigos dele 
o chamam de Merv por causa do bigode.


    Todo mundo se junta bem de pertinho e  a que a gente pega um gs pro jogo. E uma verdadeira coleo de sovaco suado, bafo de cerveja, boca banguela e barba 
por fazer.
 Certo  diz Merv.  O que a gente vai fazer quando entrar em campo? Ningum responde.
     E a, galera?
     Sei l  algum resolve dizer alguma coisa.
 Vamos acabar com esses filhos-da-puta!  grita Merv, e agora todo mundo concorda, exceto o Ritchie, que boceja.
    Outros gritam tambm, mas nem chega a fazer diferena. Os caras xingam, debocham e esculacham os Falcons.
    Isso sim  um bando de homens adultos, penso. A gente nunca cresce.
    O juiz apita. Como sempre, o jogo  arbitrado pelo Reggie La Motta, famoso na cidade por ser um bebum. Ele s est nessa pra descolar duas garrafas de birita 
que todos ns fizemos uma vaquinha pra comprar. Uma garrafa de cada equipe.
 E isso a, vamos acabar com esses caras   o consenso geral, e a bola j vai comear a rolar.
    Rapidamente, volto pra rvore onde deixei Porteiro. Ele dorme, e um garotinho faz carinho nele.
     Voc quer tomar conta do meu cachorro?
     Quero!  ele responde.  Meu nome  Jay.
 O nome dele  Porteiro  e corro pro campo pra me juntar ao time.

 Oua aqui, pessoal  Reggie fala com a gente. No d pra entender muito bem o que ele diz. O jogo nem comeou ainda e o rbitro j est todo nervosinho. Chega 
a ser engraado.  Se acontecer a mesma merda do ano passado, eu pulo fora e vocs que se virem.
     E da tu fica sem a birita, Reg  algum diz.
 E ruim, hein  Reggie responde.  Sem palhaadas, ouviram bem?
    Todo mundo concorda.
     Obrigado, Reggie.
     Certo, Reg.
    Todos avanam pra frente e apertamos as mos. Aperto a mo do cara que joga na minha posio no outro time. O cara chega perto e parece um armrio de to grande, 
sua sombra me engole. Ele  homem mesmo, mas  bem parecido com a Mimi do Drew Carey.
     Boa sorte  digo.
 Me d uns minutinhos  Mimi responde com a voz bem rouca. S falta uma maquiagem bem pesada nos olhos.  Vou fazer picadinho de voc.
    E a bola comea a rolar.

Os Falcons do o pontap inicial e no demora muito pra eu dominar a bola.
    Levo uma rasteira.
    Recobro a posse de bola.
    Levo outra rasteira e ainda ouo merda no ouvido quando Mimi amassa minha cabea no cho. E essa a essncia do Jogo de Vero. A multido no pra de gritar, 
vaiar, xingar e gargalhar  isso tudo acompanhado de cerveja, vinho, torta e cachorro-quente vendidos pelo mesmo cara de todo ano. Ele monta uma barraquinha na lateral 
do campo e no deixa de atender nem  crianada, pra quem ele vende refrigerantes e pirulitos.
    Os Falcons marcam alguns pontos sobre a gente e assumem a liderana.
 Que diabos est acontecendo?  algum pergunta quando paramos perto do meio de campo. E o Merv. Como capito, ele se sente obrigado a pelo menos dizer alguma coisa. 
 Porra, s um no time t suando a camisa: esse a... Ei, como  seu nome mesmo?
    Fico embasbacado, porque o cara t apontando pra mim. Surpreso, respondo:
     Ed Kennedy.
 Bem, o Ed  o nico que t correndo e mandando ver. Vamos reagir, pessoal!
    Continuo a correr.
    Mimi continua me fazendo de gato e sapato, e eu me pergunto se ele nunca perde o flego. No  possvel que algum desse tamanho v muito longe neste calor.
    Eu estou no cho quando Reggie encerra o primeiro tempo e todo mundo pra pra tomar uma cerveja. Cada jogador vai tentar convencer a si mesmo, com dificuldade, 
a voltar a jogar.

Durante o intervalo, eu me deito na sombra, perto do Porteiro e do menino. E quando aparece a Audrey. Ela no pergunta nada sobre o meu estado porque sabe que tem 
a ver com as mensagens. J est se tornando um lance normal e ento nem toco no assunto.
     T tudo bem?  ela pergunta.
    Dou um suspiro feliz e digo:
     Claro! A vida  bela! Eu amo a vida.

No segundo tempo, a coisa se inverte e comeamos a contra-atacar. Ritchie marca um de escanteio e ento outro cara d um de bicicleta. Ficamos quites.
    Marv tambm est jogando um bolo agora, no maior pique.
    Mimi finalmente est se cansando e, durante uma interrupo devido a uma contuso causada por uma falta, o Marv se aproxima e me provoca.
 E ae?  ele vem pra cima.  Voc ainda no machucou aquela orca. O lourinho de cabelo sebento est todo cheio de determinao.
    Vou contra ele.
 Cara, olha s o tamanho dele. Pelo amor de Deus! O cara  maior do que Mama Grape.
     Quem  Mama Grape?
 Ah, voc sabe... daquele livro  eu acabo cedendo.  Fizeram at um filme. No t lembrado, no? Johnny Depp?
     Ah, no importa, Ed. Levanta essa bunda e mostra pra ele!
    E  o que eu fao.
    Aproveito que o cara est sendo socorrido pra me aproximar de Mimi. Eu digo:
 Quero ver se tu consegue dominar a bola da prxima vez. E saio andando, definitivamente me cagando de medo.
    O jogo recomea e ento Mimi domina. Vou com tudo atrs dele e por algum motivo eu sei que vou conseguir. Ele tenta se manter com a bola, dou um drible e lhe 
passo uma rasteira. S ouo o som. Uma coliso da pesada que faz tudo estremecer. Enquanto a multido vai ao delrio, eu me dou conta de que ainda estou de p  
e Mimi est esparramado no campo, feito uma trouxa de merda.
    Logo, logo os caras esto todos ao meu redor, parabenizando e coisa e tal, mas de repente me bate um enjo dos diabos. Eu me sinto muito mal pelo que fiz e o 
nmero 12 bem grande nas costas de Mimi olha pra mim todo infeliz, paralisado.
     Ele t vivo?  algum pergunta.
     Ah, que se foda  vem a resposta.
    Eu vomito ali mesmo.

Vou saindo do campo devagar, enquanto todo mundo discute o que fazer pra se livrar de Mimi e dar prosseguimento  partida.
     Ah, pega a maa  ouo.
 No temos maa nenhuma e, alm disso, olha s o tamanho deste cara. Ele  grande demais. Vamos precisar de um guindaste, isso sim.
     Ou de um caminho.
    E no pra de chover idias e sugestes. Gente assim no est nem a se vai ofender ou no os outros. Qualquer que seja a caracterstica. Tamanho, peso, fedor. 
Se voc tiver uma delas, o povo no perdoa, mesmo que voc esteja todo fodido no cho.
    A ltima voz que ouo  do Merv. Ele diz:
 Essa  a maior unanimidade que vi nos ltimos tempos  ele disse essa frase com tanta alegria, e os outros jogadores concordam com ele.
    Continuo andando. Ainda me sinto muito mal. Culpado.
    Pra mim, o jogo acabou.
    O jogo acabou, mas outra coisa comea.

Volto pra rvore e no encontro Porteiro. Um medo familiar corre pelo meu corpo.

  2        VINTE DLARES PELO
  ?        CO E PELA CARTA



  Fico desesperado, olhando pra todos os lados em 360 graus, tentando achar meu cachorro e aquele menino.
    Depois do campo de futebol, tem um pequeno riacho, e decido comear por l. Corro o mximo que posso no estado em que me encontro, deixando o jogo pra l, e 
do canto do olho vejo uma garota com cabelo amarelo vindo em minha direo.
 Porteiro  grito pra Audrey.  Ele sumiu  e me dou conta de que adoro esse cachorro.
    Ela se junta a mim por um tempo, ento se afasta em outra direo. No riacho, no tem nada.
    Volto pro gramado. A bola continua rolando e ainda d pra ouvir o povo gritando, em algum canto l no fundo de minha mente.
 Alguma coisa?  Audrey pergunta. Ela foi mais pra l do riacho.
     Nada.
    Damos uma parada.
    Calma.
    No h outro jeito melhor, e agora, quando volto pra rvore onde estava Porteiro, vejo o menino voltando com ele pra l. O menino leva uma lata de bebida na 
mo e um doce de alcauz, e agora vejo que tem mais uma pessoa com eles.
    Ela me v.
    E uma mulher meio jovem e, quando ela percebe que estou encarando, rapidamente se ajoelha e agarra o menino. Ela d alguma coisa pra ele, fala e sai imediatamente 
na direo oposta.
  mais uma carta  digo pra Audrey e saio disparado. Corro mais rpido do que nunca.
    Quando chego perto do menino e do cachorro, paro e vejo que  isso mesmo. O menino est segurando uma carta de baralho mas por enquanto no vejo o naipe. Volto 
 minha busca pela mulher. Ela sumiu na multido, mas eu corro mesmo assim, porque tenho certeza. Certeza absoluta de que estou correndo atrs de algum que ao menos 
sabe quem est por trs disso tudo.
    Mas ela se foi.
    A mulher sumiu, e eu fico na linha da lateral sem flego.
    Eu podia at continuar a perseguio, mas no adianta. Ela se foi e eu preciso pegar a carta. Vai que o menino decide fazer picadinho dela?
    Graas a Deus, quando chego l, ele ainda est segurando a carta. Bem firme. Parece que no vai ser moleza faz-lo abrir mo da carta.
    Acaba que tenho razo.
     No  ele diz.
 Olha aqui  a ltima coisa que eu quero  perder tempo com esse moleque.
     Passa a carta pra c e pronto,  s isso.
     No!  o menino tenta chorar.
     O que aquela mulher te disse?
 Ela disse...  ele passa a mo nos olhos pra enxugar as lgrimas  que a carta pertence ao dono deste cachorro.
     U, meu Deus! O cachorro  meu!
    Cara, pode mandar o Daryl, o Keith e at outra surra, penso. Qualquer coisa  melhor do que esse pentelho.
 Tudo bem  ajusto o plano do jogo.  Te dou dez dlares pelo cachorro e pela carta.
    O menino no  burro.
     Vinte.
    Pra ser econmico aqui, eu me sinto contrariado com a proposta, mas peo vinte pratas a Audrey, e ela passa pra mim.
     Te pago depois  digo pra ela.
     Sem problema.
    Passo os vinte paus pro menino e recebo Porteiro e a carta.
 Foi bom fazer negcio com voc  o menino revela sua vitria. D vontade de torcer o pescoo do infeliz.
No  o que eu espero.
     Espadas  digo pra Audrey.
    Ela est to pertinho que seu cabelo toca no meu ombro. Porteiro est pisando no meu p.
 E voc, seu safado  brigo com ele.  Da prxima vez no saia do lugar. Tudo bem, tudo bem, ele responde e logo em seguida tem uma crise de tosse.
    Ento ele cospe um pedao de doce de alcauz e fica todo sem graa, com aquele olhar de culpa.
 Isso  pra voc aprender  aponto pra ele, puto da vida. Ele tenta me ignorar.
     T tudo bem com ele?  Audrey pergunta enquanto caminhamos.
 Claro que t. Esse bicho vai viver mais do que eu. Esse filho-da-me. Tem o olho maior que a barriga.
    S que, no fundo, eu sorrio.


  3        HORA DE DESCOBRIR
  ?



  Tudo indica que ganhamos o jogo, e vai rolar uma festa pra comemorar a vitria na casa do Merv. Marv me liga  noitinha e manda que eu v pra l, j que a galera 
toda me elegeu como o melhor jogador por tirar o velho Mimi de campo.
     Cara, Ed, voc tem que ir.
    Ento eu vou.

Mais uma vez, dou uma passada na Audrey antes de ir, s que eu no a encontro. Acho que ela saiu com o namorado. Perco at a vontade e o nimo de ir pro Merv, mas 
fao um esforo e vou mesmo assim.
    Quando chego l, ningum me reconhece.
    Ningum fala comigo.
    A princpio, no consigo encontrar nem mesmo o Marv, mas ele me localiza mais tarde, na varanda.
 Cara, voc veio! T tudo bem contigo? Olho pro meu amigo e respondo:
     Cara, nunca me senti to bem.
    L atrs, o pessoal j est de cara cheia, fazendo a maior zona, e tem gente no quarto da frente fazendo voc sabe muito bem o qu.
    Passamos um tempo sentados e o Marv me conta o que rolou no jogo. Ele quer saber onde eu me enfiei, mas s digo que me senti mal e que no deu pra continuar. 
Falamos sobre o porrado que eu dei no Mimi.
     Tu mandou muito bem, velho!
     P, valeu, cara.
    Tento me livrar da conscincia pesada. Ainda tenho pena dele, ou dela, ah, sei l o que  aquilo.
    Depois de uns dez minutos, percebo que o Marv est a fim de voltar l pra dentro.
    Tenho a nova carta no bolso.
    s de espadas.
    Quando me lembro da carta, olho bem l pra rua, tentando imaginar o que vai rolar agora. Estou feliz.
 O que foi?  Marv pergunta.  T rindo do qu? Comprou alguma coisa  vista ou "viado"?
    "Viado", penso. Ns dois camos na risada e, por um instante, sinto o vnculo forte de nossa amizade.
     Fala a, Ed. Srio, o que t rolando?
 Hora de descobrir  respondo e saio da varanda.  Eu vou nessa, Marv. Desculpa a, cara. At mais.
    Eu me sinto mal, porque de uns tempos pra c parece que vivo sempre seguindo em frente e deixando o Marv pra trs. Hoje ele me d um espao. Acho que finalmente 
ele est entendendo que o que  importante pra ele no tem que ser necessariamente importante pra mim.
 V l, cara, abrao  ele diz e, pela sua voz, sinto que ele est feliz.

A noite est escura, mas uma delcia, e vou andando pra casa. Chego perto de um poste onde tem uma luz piscando, tiro a carta do bolso e dou uma olhada de novo. 
J examinei o s de espadas uma porrada de vezes, em casa e l na varanda do Merv. Fiquei bolado com a escolha do naipe, porque estava esperando copas. Copas teria 
seguido o padro vermelho e preto, e pensei que espadas, sendo o naipe com um visual mais perigoso do baralho, viria por ltimo. Tem trs nomes escritos na carta:

Graham Greene
Morris West
Sylvia Plath

    Esses nomes no me so estranhos, no sei bem por qu. No conheo nenhum, mas j ouvi falar deles.  certo. Chego em casa, dou uma checada no catlogo e acho 
um Greene e alguns West, mas nenhum com G nem M antes. Ainda assim, deve ter outras pessoas com esses nomes nesses endereos. Decido fazer uma busca geral pela cidade 
no dia seguinte.
    Relaxo na sala com Porteiro. A gente come umas batatinhas fritas que eu preparei no forno. Sinto umas dores a mais pelo corpo, resultado do Jogo de Vero e, 
quando d meia-noite, eu mal consigo me mexer. Porteiro est no meu p, e eu fico l sentado, esperando o sono chegar.
    Minha cabea rola pra trs.
    O s de espadas escorrega de minha mo e cai num cantinho do sof.
    Eu sonho.

E uma longa noite, onde fico preso num mundo de sonho e no consigo decidir se estou dormindo ou acordado. Quando acordo perto de amanhecer, ainda estou no Jogo 
de Vero, correndo atrs da mulher que trouxe a carta e brigando com o menino. Barganhando.
    Mais tarde, sonho que estou na escola de novo, s que no tem mais ningum l. Estou sozinho, e o ar na sala de aula est amarelo de tanta poeira. Estou sentado 
l com uma poro de livros espalhados na mesa e umas palavras escritas no quadro. Algum escreveu o negcio correndo e no consigo entender nada.
    Entra uma mulher.
    Uma professora com pernas finas e compridas, saia preta, blusa branca e um casaco roxo. Ela tem mais ou menos uns 50 anos, mas de certa forma  uma mulher sexy. 
Ela me ignora quase que o tempo todo, at que toca uma sirene, bem alto, parecendo que est bem ali fora da sala. E quando, pela primeira vez, ela se d conta de 
minha existncia.
    Ela olha.
     Hora de comear, Ed.
    Eu estou pronto.
     Pois no?
     Por favor, leia as palavras no quadro.
     No d, professora.
     Por Deus, por que no?
    Eu me concentro bastante nas palavras, mas ainda no consigo entender nada. Ela balana a cabea, condenando. No vejo, mas d pra sentir a decepo quando colo 
os olhos na mesa. Passo um tempo olhando pra baixo e fico puto por ter decepcionado esta mulher.

    Alguns minutos depois.
    Eu ouo.

Ouo um barulho de chicote seguido de um estalo.
    Levanto a cabea e fico chocado com o que vejo. Chego a perder o ar  a professora est pendurada numa corda na frente do quadro negro.
    Ela est morta.
    Balanando ali pendurada.
    O telhado foi pro saco e a corda est amarrada em uma das ripas de madeira.
    Apavorado, fico ali sentado, sufocando, tentando feito louco respirar o ar que parece no ter oxignio. Minhas mos ficam to grudadas na mesa que eu preciso 
fazer uma fora do cacete pra mexer com elas quando levanto e tento correr dali pra buscar ajuda. Minha mo direita chega na maaneta da porta quando, bem devagar, 
eu paro e me viro de novo pra mulher pendurada na corda.
    Bem devagar.        
    Quase me arrastando.
    Eu me aproximo pra olhar bem pra ela.
    Quando comeo a achar que a mulher est com aparncia tranqila, ela abre os olhos de repente e fala.
    Sua voz sai estrangulada e rouca.
 Reconhece as palavras agora, Ed?  ela pergunta, e eu fico ali parado feito um dois de paus, olhando pro quadro. Agora vejo o ttulo no alto e entendo o que diz:
    Mulher Estril.
     quando o corpo cai no cho aos meus ps, e eu acordo.

Agora quem est aos meus ps  Porteiro, e o ar da minha sala est amarelo, empoeirado com a luz do sol nascente l fora.
    O sonho continua martelando minha cabea depois que eu abro os olhos e vejo a mulher, as palavras e o ttulo de novo. Sinto a criatura caindo nos meus ps e 
a ouo dizendo:
     Reconhece as palavras agora, Ed?
     Mulher Estril  falo baixinho.
    Sei que j ouvi isso antes. Alis, sei que j li um poema chamado Mulher Estril. Li na escola porque eu tive uma professora de ingls que era depr total. Ela 
adorava esse poema e at hoje me lembro de umas partes. Palavras tipo "o menor passo de todos", "um museu sem esttuas" e comparando a vida dela com uma fonte que 
esguicha gua e volta a cair em si mesma.
    Mulher Estril.
    Mulher Estril.
    Quando me lembro deste lance, eu me levanto rapidinho. Quase tropeo em Porteiro, que alis no fica impressionado. Ele olha pra mim como se dissesse P, voc 
me acordou, companheiro!
     Mulher Estril  digo pra ele.
    E da?
    Repito o ttulo e, desta vez, brinco com ele, agarro seu focinho, porque agora eu sei a resposta pro s de espadas. Ou, pelo menos, estou no caminho.
    O poema Mulher Estril foi escrito por uma mulher que se matou e tenho certeza de que o nome dela era Sylvia Plath.
    Vasculho o sof procurando a carta e vejo o nome dela de novo, o terceiro da lista. So escritores, penso. So todos escritores. Graham Greene, Morris West e 
Sylvia Plath. Fico surpreso de no ter ouvido falar nos dois primeiros, mas tambm no d pra conhecer todo mundo que j escreveu um livro, n, no? Mas tenho certeza 
da Sylvia. J at me sinto ntimo dela. S pra voc ver que estou superorgulhoso de mim mesmo.
    Passo um tempinho comemorando a descoberta, me sentindo como se eu tivesse desvendado um mistrio por acaso. Estou com o corpo todo duro agora, e minhas costelas 
esto doendo pra cacete, mas ainda consigo comer meus sucrilhos com leite e uma porrada de acar; o negcio no est l muito bom.
    So mais ou menos sete e meia quando descubro que s resolvi uma parte do problema. Ainda no fao a menor idia de onde tenho que ir nem das pessoas que tenho 
que visitar.
    Vou comear pela biblioteca, penso. Pena que  domingo. S vai abrir mais tarde.

Audrey d uma passada aqui em casa.
    A gente assiste a um filme que ela recomenda, toda entusiasmada.
     bom.
    Consigo me segurar e no pergunto onde ela estava ontem  noite.
    Falo pra ela do s de espadas, dos nomes, e que vou  biblioteca de tarde. Tenho quase certeza que fica aberta de meio-dia s quatro da tarde no domingo.
    Enquanto ela toma o caf que eu preparei, olho pra vermelhido de seus lbios e sinto uma baita vontade de me levantar, me aproximar e meter um beijo naquela 
boca. Quero sentir a carne desses lbios e a maciez deles tocando nos meus. Quero respirar dentro dela e com ela. Quero poder cravar os dentes em seu pescoo e colocar 
a mo em suas costas, passar os dedos em seu cabelo louro.
    Com toda a sinceridade.
    No sei o que deu em mim esta manh.
    Mas logo entendo por que estou assim  eu mereo alguma coisa. P, ando por a dando jeito nos problemas dos outros, mesmo por um instante. Ando por a batendo 
em quem pede porrada, quando na verdade esse negcio de causar dor  totalmente contra minha natureza.
    Eu pelo menos mereo alguma coisa, acho. Bem que a Audrey podia me amar nem que fosse por um segundinho, mas eu sei. Sem dvida, sei que no vai rolar nada. 
Ela no vai me beijar. Se bobear, nem vai encostar em mim. P, eu corro a cidade toda, levando surra, ouvindo desaforo, e pra qu? O que eu ganho com isso tudo? 
O que o Ed Kennedy ganha com essa histria?
    Quer saber o que ele ganha? Vou te dizer:
    Nada.

S que  mentira.
 mentira e prometo, neste exato momento, que vou parar. J passei por tudo isso e pensei que tinha virado uma esquina depois do s de paus.
    Eu paro.
    Paro tudo.
    E fao uma besteira.
    Eu me levanto num impulso, me aproximo da Audrey e meto um beijo de lngua nela. Sinto os lbios vermelhos, a carne e o ar dentro dela, e com os olhos fechados, 
eu a sinto s por um segundo. Eu a sinto todinha, correndo por todo o meu corpo. Sinto calor, frio, me d uma tremedeira e eu me sinto derrotado.
    Derreto pelo som da minha boca se desvencilhando desses lbios at que o silncio baixa entre a gente.
    Sinto gosto de sangue.
    Ento vejo sangue, nos lbios da Audrey, que est com uma cara de surpresa.
    Meu Deus, nem consegui dar um beijo decente na garota. No consegui fazer o negcio sem me abrir todo e sangrar nela.
    Fecho os olhos.
    Fecho os olhos bem apertados.
    Logo paro tudo e digo:
 Desculpa, Audrey  eu me viro.  Eu no sabia o que tava fazendo. Eu...  e as palavras tambm do um pra agora. Elas do um pra antes que seja tarde demais, 
e ficamos os dois ali parados de p na cozinha.
    Os dois com sangue nos lbios.

Ela no quer sentir nada assim por mim, e eu consigo aceitar isso, mas fico me perguntando se ela algum dia vai saber que ningum vai am-la tanto quanto eu. Ela 
passa a mo na boca pra tirar o sangue, e eu me desculpo mais uma vez. Audrey, maneira como sempre, aceita as desculpas, explicando que no d pra fazer este tipo 
de coisa comigo. Acho que ela prefere fazer o negcio sem nenhum significado nem verdade. S fazer por fazer, sem correr riscos de se apegar. No posso fazer nada 
se ela no quer o amor de ningum, s posso respeitar.
     T tudo bem, Ed  ela diz, e sei que est sendo sincera.
    Ta um lance superbacana: eu e a Audrey estamos sempre numa boa. De alguma forma, a gente consegue. Parece que no importa o que acontea. Penso nisso por um 
instante e, pra ser bem sincero, fico me perguntando por quanto tempo isso vai durar. Com certeza no vai ser pra sempre.
 D um sorriso, Ed  ela diz mais tarde, quando est indo embora. No consigo me segurar.
    Dou um sorrisinho pra ela.
     Boa sorte com as espadas  ela diz.
     Valeu.
    A porta se fecha. J  quase meio-dia, calo os sapatos e vou pra biblioteca. Ainda me sinto um idiota.

 bem verdade que eu j li uma porrada de livros, mas comprei todos eles, sobretudo nos sebos da vida. A ltima vez que de fato usei uma biblioteca, ainda havia 
aquelas gavetas enormes de catlogos. Mesmo na escola, quando passaram a usar o computador pra armazenar os catlogos, eu ainda usava as gavetas. Eu curtia puxar 
o carto de um autor e ver a lista dos livros.
    Quando entro na biblioteca, penso que vou ser atendido por uma senhora atrs do balco, mas  um cara novo, mais ou menos da minha idade, de cabelo comprido 
e ondulado. Ele  meio grosso, mas eu gosto dele.
     Voc tem aqueles cartes?  pergunto.
 Que tipo de cartes? Cartes de jogos? De biblioteca? De crdito?  ele est Tirando um sarro.  O que voc quer dizer exatamente?
    Percebo que ele est querendo me deixar com cara de burro e intil, embora eu no precise de sua ajuda pra isso. Comeo ento a explicar:
     Sabe, os cartes com todos os escritores, autores e tudo mais.
 Ah!  e ele solta uma boa gargalhada.  J faz muito tempo que voc no pisa numa biblioteca, no  mesmo?
 Pois   respondo. Agora sim, me sinto burro e intil. Melhor at pendurar uma placa no pescoo dizendo: "Pode bater que  otrio." Dou uma disfarada e levo na 
boa.  Mas j li Joyce, Dickens e Conrad.
     Quem so esses?
    Agora eu estou em vantagem.
 O qu? Voc no leu esses caras? E tira onda de bibliotecrio? Ele agora me d razo, com um sorrisinho do mal.
     Touch.
    Touch.
    No suporto essa expresso.
    Bem, mas o que interessa  que o cara agora ficou mais solcito. Ele diz:
 A gente no usa mais cartes; agora  tudo no computador. Vem. Vamos at os computadores e ele diz:
     Bem, me diz um autor a.
    Dou uma gaguejada porque no quero mencionar uma das pessoas no s de espadas. Esses so meus. Ento mando um Shakespeare.
    Ele digita o nome e logo todos os ttulos aparecem na tela. Ento ele digita o nmero ao lado de MacBeth e diz:
     Aqui. Entendeu como ? Leio a tela e saco tudo.
     P, valeu.
     Sem problema.
    Ele se afasta e me deixa s, com as teclas, os escritores e a tela.
    Primeiro, ataco logo o Graham Greene. Vou seguir a ordem em que aparecem na carta. Vasculho o bolso  caa de um papel, mas s tenho um guardanapo quase se esfarelando. 
Tem uma caneta amarrada na mesa, e quando digito o nome e aperto a tecla retornar, todos os ttulos de Graham Greene aparecem na tela.
    Alguns dos ttulos so fantsticos.
    O Fator Humano
    Brighton Rock
    O Corao da Matria
    O Poder e a Glria
    Nosso Homem em Havana
    Anoto todos no guardanapo, junto com o nmero do primeiro. Todos os nmeros so iguais.
    Em seguida digito West, Morris. Alguns de seus ttulos tambm so bons, se no forem melhores.
    Forca na Areia
    As Sandlias do Pescador
    Children of The Sun
    The Ringmaster
    Os Fantoches de Deus
    Agora, vamos  Sylvia.
    Admito, tenho uma quedinha pela Sylvia, porque uma vez li alguma coisa dela que me veio no sonho. Se no fosse por ela, eu no estaria sentado aqui, prximo 
de descobrir aonde eu tenho que ir. Quero que os ttulos dela sejam os melhores, e, tendencioso ou no, pra mim, eles so.
    The Winter Tree
    Colossus
    Ariel
    Pela gua
    A Redoma de Vidro
    Levo o guardanapo at as prateleiras e procuro cada ttulo de novo, em ordem. So todos lindos. Todos velhos e de capas duras, vermelhas, azuis ou pretas. Pego 
todos. Carrego cada um e vou me sentar com eles. E agora?

Como  que vou ler tudo isso em uma ou duas semanas? Os poemas da Sylvia, talvez, mas os outros dois escreveram livros bem grossos, pra dizer o mnimo. Espero que 
prestem.

 Oua  diz o cara da biblioteca. Estou no balco com todos os livros.  Voc no pode pegar isso tudo. Tem um limite, entende? Voc pelo menos tem um carto?
 Que tipo de carto?  no consigo evitar.  Um carto de jogo? De biblioteca? De crdito?
 Voc  cheio de graa. Achamos a situao engraada, e ele mete a mo embaixo do balco e me d uma folha de papel.
 Preenche isso aqui, por favor. Depois que recebo o carto, tento fazer uma mdia com ele pra ver se consigo levar todos os livros.
     Valeu, cara. Voc trabalha bem pra cacete.
    Ele levanta a cabea:
     Voc ainda t querendo todos os livros, n?
 Pois   fao uma pilha com os livros no balco, tirando-os do cho.  E que eu preciso muito deles e, de uma forma ou de outra, eu vou peg-los. S numa sociedade 
doente mesmo pra se condenar algum por ler muitos livros  olho pra trs, pro vazio da biblioteca.  Os livros esto quase com teia de aranha, meu velho! No acredito 
que algum esteja querendo l-los neste exato momento.
    Ele me deixa falar e fica ali ouvindo s por obrigao.
 Olha s, pra ser sincero, no t nem a pro nmero de livros que voc pega emprestado. So as normas. Se meu chefe me pega, eu t ferrado.
     Como assim? O que pode acontecer?
 No sei, cara, mas a coisa pode ficar feia pro meu lado. Mesmo assim, continuo olhando pra ele, sem dar a mnima.
    Ele acaba cedendo.
 T bem, passa eles pra c. Vou ver o que eu posso fazer por voc  ele comea a passar o scanner neles.  Meu chefe  um otrio mesmo.
    Quando ele termina, tem exatamente 18 livros do outro lado do balco.
     Valeu, cara  eu agradeo.  Valeu mesmo!
    Como  que vou fazer pra levar todos esses livros pra casa?, eu me pergunto.

Penso at em ligar e pedir uma carona pro Marv, mas acabo me virando sozinho mesmo. Derrubo alguns pelo caminho, paro algumas vezes pra descansar, mas no fim cada 
livro consegue chegar na minha casa.
    Estou com uma puta dor nos braos.
    Eu no sabia que as palavras pesavam tanto.

Passo a tarde toda lendo.
    Adormeo uma vez, sem nenhum desrespeito aos escritores. Ainda estou todo estourado depois da porrada que levei dos Rose e depois do Jogo de Vero.
    Enquanto leio, vou curtindo o trabalho de Graham Greene. No descubro nenhuma pista de onde eu tenho que ir, mas acho que deve ser mais simples do que isso. 
Dou uma olhada pra pequena montanha de livros que eu constru. E desmoralizante, pra dizer o mnimo. Como  que eu vou achar o que preciso entre essas milhares de 
pginas?
    Quando acordo, venta l fora, e alis faz um frio nada comum nesta poca do ano. Acho at meio esquisito colocar um casaco assim, no incio de dezembro. Passo 
pela porta da frente e vejo um pedao de papel por l.
    No,  o guardanapo.
    Me bate um nervoso, fecho os olhos por um segundo e me inclino pra peg-lo. Isso me desperta para o fato de que eu venho sendo seguido esse tempo todo. Eles 
me observaram indo  biblioteca. Me observaram dentro da biblioteca e no caminho de volta pra casa. Eles estavam sabendo que eu escrevi os ttulos no guardanapo.
    Bato os olhos num recado.
    So s umas palavrinhas, em vermelho.

    Caro Ed,
    Bom trabalho  mas no se preocupe,  mais simples do que voc est achando.

    Volto e me sento com os livros. Leio Mulher Estril at saber palavra por palavra de cor.
    Mais tarde, Porteiro pede pra sair, da vamos dar uma caminhada. Andamos sem destino pelas ruas do bairro, e eu fico curioso pra saber onde ser o prximo endereo.
     Alguma pista, Porteiro?
    Ele no responde. Est ocupado demais com o cheira-cheira e o fua-fua aleatrios de sempre.
    O que eu no tinha reconhecido at agora  que as respostas esto sempre sinalizadas. Esto por todo lado, em cada rua, cada cruzamento. E se as mensagens estiverem 
escondidas nos ttulos? Nos ttulos dos livros. Eu s iria precisar combinar a rua com um dos livros de cada escritor.
    "Mais simples do que voc est achando", digo a mim mesmo. O guardanapo ainda est no meu bolso junto com o s de espadas. Tiro os dois pra fora e olho pra eles. 
Os nomes me observam, e tenho certeza de que eles sacam quando eu entendo. Eu me inclino por um instante e digo todo empolgado pro Porteiro:
     Venha. Temos que ir andando.
    Corremos pra casa ou, pelo menos, vamos to rpido quanto Porteiro permite. Preciso dos livros, do guia de ruas e, graas a Deus, de poucos minutos. Sim, corremos.

Os livros ficam ali esperando enquanto eu me sento com meu velho Gregory's tentando encontrar algo que se parea ou soe parecido com alguns desses ttulos. Procuro 
primeiro por Graham mais uma vez. No tem nenhuma rua chamada Humano, nem Fator, nem Corao.
    Depois de uns dois minutos mais ou menos, eu encontro.
    Seguro o livro na mo.
 preto, e o ttulo est escrito com letras douradas na lombada. O Poder e a Glria. No tem nenhuma rua chamada Poder, mas os meus olhos crescem quando volto algumas 
pginas. O nome atinge meus olhos como um soco. Estrada da Glria.
    Dou um sorriso e esfrego a mo no plo de Porteiro. Estrada da Glria. Que timo! Eu adoraria morar na Estrada da Glria.
    No mapa, fica bem l na periferia.
    Agora dou uma vasculhada nos ttulos do Morris West. Desta vez a parada  mais rpida.
    Os Fantoches de Deus.
    Encontro uma Rua Fantoche na rea nobre da cidade.
    E, por ltimo, a rua da Sylvia  a Rua Redoma, do A Redoma de Vidro. Segundo o guia, a Redoma  uma das ruelas que rodeiam a rua principal da cidade.
    Agora checo pra ver se algum dos outros ttulos tambm combina, mas estou seguro. No tem mais nenhum.
    S resta uma perguntinha pra cada rua.
    Que nmero?

                        Agora tenho que descobrir.
    Estou trabalhando com espadas, ento tenho que cavar pra conseguir descobrir.
As pistas devem estar nos livros com esses ttulos, da agora eu empurro os outros pro lado e me concentro nos trs finalistas. Sinto pena dos que ficaram de lado, 
pra ser sincero. Parecem os perdedores de uma corrida dramtica e tumultuosa, sentados no cho. Se fossem pessoas, cada um estaria segurando a cabea com as mos.
    Primeiro, pego O Poder e a Glria. Passo a noite lendo e s tiro os olhos do livro depois que d uma hora da manh. Ainda no tenho nenhuma pista e estou comeando 
a me desanimar. E se eu tiver passado pela pista sem reconhec-la?, eu me pergunto, mas estou certo de que, quando puser os olhos na pista, vou reconhec-la na hora. 
E continuo lendo. Sinto que devo. A histria aqui  essa mesmo. Seria um pecado desistir agora.
s 3:46 da manh (ficou registrado na minha memria), eu encontro.
    Pgina 114.
    No p da pgina, no canto esquerdo, tem um smbolo de espadas, desenhado em preto. Perto dele, est escrito:
    "Muito bem, Ed!"
    Eu me encosto no sof, triunfante. Melhor do que isso, impossvel. Nada de pedras. Nada de violncia. J estava mesmo na hora desse negcio ficar civilizado.
    Agora vou direto pra Os Fantoches de Deus e dou uma folheada. Nem acredito que no fiz isto logo de primeira. E definitivamente mais fcil do que tentar achar 
as pistas em cada palavra de cada pgina. "Mais simples do que voc est achando", eu me lembro.
    Desta vez, est na pgina 23. S o smbolo. E no A Redoma de Vidro, na pgina 39. Tenho o endereo e estou exausto.
    Chega de cavar.
    Caio no sono.

  4        OS BENEFCIOS DA MENTIRA
  ?



 noite de tera-feira e estamos jogando cartas na minha casa. O Ritchie est se queixando de dor na clavcula, resultado do Jogo de Vero, Audrey est se divertindo 
e o Marv, ganhando. Ele est insuportvel, como sempre.
    Estive na Estrada da Glria e vi o nmero 114.  uma famlia polinsia com um marido maior que o cara da Rua Edgar. Ele trabalha em construo e trata a esposa 
feito uma rainha e os filhos como deuses. Quando chega em casa do trabalho, ele pega os danadinhos e os joga pra cima. Eles sorriem, brincam e ficam esperando o 
pai chegar,
    A Estrada da Glria  uma estrada comprida e isolada. Todas as casas so bem velhas. Todas de alvenaria.
    Ainda no sei o que devo fazer l, mas estou confiante agora. Uma hora ou outra eu descubro.

 Parece que eu ganhei de novo  Marv se gaba. Ele est cheio de pose, com um charuto preso no canto da boca.
     Eu odeio voc, Marv  diz Ritchie.
    Ele s est resumindo o que todos ns pensamos em momentos como este.
    O Marv  rpido pra organizar um jogo de Natal.
 Este ano  a vez de quem?  ele pergunta, embora a gente saiba que  a vez dele e que ele vai tentar tirar o corpo fora. Marv jamais prepararia uma ceia de Natal. 
No que ele no tenha competncia pra isso. E que ele  mo-de-vaca mesmo. O cara no compraria um peru pra salvar a prpria vida. Aquele caf-da-manh no dia do 
Jogo de Vero foi um milagre.
  sua vez  responde Ritchie olhando direto pro Marv.   sua vez, Marv.
     Tem certeza?
     Tenho  Ritchie responde firme.  Tenho, sim.
 Mas sabe... minha famlia vai estar l, tipo meus pais, minha irm e...
 Porra, que maneiro, Marv, a gente adora seus pais  Ritchie manda bem. Todos ns sabemos que ele no est nem a pra onde a festa vai rolar. Ele se amarra em pegar 
no p do Marv.  E a gente adora sua irm tambm. Ela  um verdadeiro fil, cara. Maravilhosa.
     Fil?  Audrey pergunta.  Maravilhosa?
    Ritchie fecha o punho e bate na mesa.
      isso a, garota!
    Ns trs camos na gargalhada, enquanto o Marv se mexe todo nervoso.
 O problema no  a grana, certo?  digo.  Trinta mil, correto?
     Acabou de completar 40  ele responde.
    Isso gera uma discusso sobre o que o Marv pretende fazer com esse dinheiro. Ele diz que ningum tem nada com isso e da no pensamos muito no assunto. Acho 
que no pensamos muito em muitas coisas. Depois de uns minutinhos, eu me acalmo.
 Ento vamos fazer aqui  eu digo e olho pro Marv.  S que voc vai ter que agentar Porteiro, cara.
    Marv no fica nada satisfeito, mas concorda. E eu no paro por a. Digo:
 Beleza, Marv. Seguinte: o jogo de Natal pode ser aqui, mas tem uma condio.
     Que condio?
 Voc vai ter que trazer um presentinho pro Porteiro  no d pra ficar sem pegar no p do Marv, cara, e devo dizer, isso aqui est saindo melhor do que eu esperava. 
Estou me divertindo.  Voc pode trazer um bife bem suculento pra ele e...   a que a coisa fica melhor ainda.  Voc vai ter que dar um beijo de Natal nele.
    Ritchie estala os dedos.
     Que tima idia, Ed! Perfeito!
    O Marv fica bolado.
    Revoltado.
 Que coisa ridcula  ele diz, mas ainda assim  melhor do que comprar um peru e ainda ter o trabalho de cozinhar. Ele finalmente chega a uma concluso.  Tudo 
bem, aceito  ele agora aponta um dedo pra mim.  Mas voc  um belo de um filho-da-puta, Ed.
 Obrigado, Marv, obrigado mesmo  e pela primeira vez depois de muitos anos no vejo a hora do Natal chegar.

Dependendo dos turnos em que estou rodando com o txi, continuo voltando  Estrada da Glria e, embora seja claro que esta famlia est ralando pra cacete pra poder 
sobreviver, eu ainda no sei o que tenho que fazer. Numa noite, quando estou parado atrs da moita, o pai se aproxima de mim. O cara  to grande que poderia me 
estrangular s com uma das mos. Ele no parece nada contente.
 Ei, voc a  ele grita.  J no  a primeira vez que te vejo  ele apressa o passo, vindo na minha direo.  Pode ir saindo a da moita, espertinho.
    Ele no est gritando. Pela voz d pra imaginar que na maior parte do tempo  um cara bacana, tranqilo. O que me preocupa  o tamanho dele.
    Fica frio, tento me acalmar. Voc no est aqui  toa. Vai ter que encarar, acontea o que acontecer.
    Saio da moita e encaro o sujeito enquanto o sol se pe atrs da casa. Ele  um cara moreno, de cabelo preto ondulado e olhos que me ameaam.
     Voc est espreitando meus filhos, menino?
 No, senhor  levanto a cabea. Preciso parecer orgulhoso e honesto. Pera, penso. Eu sou honesto. Honesto pra cacete.
     E o que voc est fazendo aqui, ento?
    Invento uma mentira e peo a Deus que cole.
     E que eu morava nessa casa.
    Caramba, bem pensado, Ed. Fico impressionado comigo mesmo. E continuo:
 Muitos anos atrs, antes de nos mudarmos mais pra perto da cidade. De vez em quando gosto de dar uma passadinha por aqui pra olhar a casa.
    A, meu Deus do cu, tomara que esse pessoal no more aqui h muito tempo.
 Meu pai morreu tem pouco tempo e quando venho aqui penso nele. Penso nele quando vejo o senhor brincando com seus filhinhos, sabe, jogando pra cima, colocando 
no ombro...
    O cara d uma relaxada. Putz, obrigado, meu Deus!
    Ele se aproxima um pouco mais enquanto o sol vai se despedindo do dia atrs dele.
 E... A casa est bem velha e maltratada  ele faz uns gestos com as mos.
     Mas  o melhor que a gente pode fazer no momento.
     Pra mim ela ainda est legal  digo.
    Conversamos mais um pouquinho e no final o cara se afasta um pouco, pensa e ento me surpreende:
 Olha s, no quer entrar e dar uma olhada l dentro? Voc  meu convidado pro jantar. Est quase na hora mesmo.
    Meus instintos me dizem que  pra eu no aceitar, mas eu aceito. A deciso mais difcil  a de entrar.
    Sigo o cara at a varanda e ento entramos na casa. Antes de entrarmos, ele diz:
     Meu nome  Lua. Lua Tatupu.
 Ed Kennedy  respondo e apertamos as mos. Lua praticamente esmaga todos os ossos da minha mo direita.
 Marie?!  ele grita quando j estamos l dentro.  Crianas?!  ele se vira pra mim.  A casa continua a mesma?
 Como?  ento eu me lembro.  Ah, ... sim, t a mesma coisa.
    As crianas ento aparecem do nada e comeam a trepar em cima da gente. Lua me apresenta a elas e  esposa. O jantar  pur de batatas com salsicha.
    Jantamos, Lua conta piadas e as crianas no param de rir, apesar de j terem escutado as mesmas piadas mil vezes, segundo Marie. Marie tem umas rugas embaixo 
dos olhos e parece cansada da vida, das crianas, de colocar comida na mesa toda noite. Sua pele  mais suave do que a de Lua e seu cabelo  castanho-escuro, ondulado. 
Ela j foi bonita no passado  mais bonita do que hoje. Ela trabalha num supermercado todos os dias.
    Eles tm cinco filhos. Nenhum deles consegue comer de boca fechada, mas, quando riem, d pra ver o mundo em seus olhos. No  pra menos que Lua os trata desse 
jeito e os ama tanto.
 Posso fazer cavalinho no Ed, papai?  uma das meninas pergunta. Viro pra ele e sinalizo que sim com a cabea.
 Claro, filhinha, mas est faltando alguma coisa na sua pergunta. Isso me lembra o irmo do padre O'Reilly, Tony.
    A menina bate na testa sorrindo e diz:
     Por favorzinho...
     Pode, sim, meu amor  Lua diz, e eu fao cavalinho.
    J estou no dcimo terceiro cavalinho quando Marie me resgata do menino mais novo.
     Jessie, acho que o Ed t cansado, t bem?
 T...  Jessie obedece e cai de costas no sof.
    Jessie tem mais ou menos uns seis anos, e, enquanto estou sentado l, ele sussurra uma parada no meu ouvido.
     a resposta.
    Ele diz:
 J t chegando o dia que papai vai colocar as luzes de Natal. Voc vem pra ver? Eu me amarro nas luzes...
     Venho, sim, prometo  respondo.
    Dou uma ltima olhada na casa, quase que me convencendo de que eu morava aqui. Chego a pirar e criar memrias de mim com meu pai entre estas paredes. Lua j 
est dormindo quando saio, ento Marie me leva at a porta.
     Obrigado por tudo  agradeo.
    Ela s olha pra mim, com aquele olhar carinhoso e sincero e diz:
     No tem de que, Ed. Aparea sempre que quiser.
     Vou aparecer  digo.
    Desta vez no estou mentindo.
    No final de semana, dou uma passada por l durante o dia. J colocaram as luzes de Natal, que esto velhas e desbotadas. Tem lmpada faltando.  um conjunto 
de luzes daqueles antigos. No so pisca-pisca. S lmpadas grandes, coloridas, penduradas seguindo o contorno da beirada do telhado que cobre a varanda.
    Depois eu volto pra dar uma olhada nisso, penso.
 noite, vejo que metade das lmpadas est queimada. Isso quer dizer que s quatro esto acesas mesmo. Quatro lmpadas pra iluminar a casa dos Tatupu este ano. No 
 nada demais, coisa pequena, mas acho que  verdade o que se diz por a, tipo que as grandes coisas so sempre coisas pequenas que percebemos.
    Na primeira chance que eu tiver, volto aqui durante o dia quando o pessoal estiver no trabalho e na escola.
    Tenho que dar um jeito nessas luzes.
    Vou ao KMart e compro um conjunto novinho de luzes, igualzinho ao que est l na varanda dos caras. Luzes bem grandes, vermelhas, azuis, amarelas e verdes.  
quarta-feira, faz um calor dos diabos e, por um milagre, nenhum vizinho vem perguntar o que estou fazendo na varanda dos Tatupu, trepado num vaso grando virado 
pra baixo. Retiro as luzes originais, desamassando os pregos que esto segurando os fios. Depois que trago tudo pra baixo, percebo que a tomada est l dentro (como 
alis, eu deveria ter imaginado), o que significa que no vai dar pra fazer o servio completo. Mudana de planos: coloco as luzes velhas no lugar e deixo as novas 
na porta da frente.
    No deixo nenhum bilhete escrito ou coisa parecida.
    No h mais nada pra se fazer.
    No incio pensei at em escrever "Feliz Natal" na caixa, mas mudei de idia.
    No se trata de palavras.
    O negcio aqui  outro: luzinhas brilhantes e pequenas coisas que so grandes.

  5        O PODER E A GLRIA
  ?


  Naquela mesma noite, estou comendo ravili na cozinha quando uma van pra na frente de casa. Ouo o motor rosnar, parar e ento escuto quando fecham a porta da 
van numa porrada. Em seguida, vem o som de pequenas mozinhas na minha porta.
    Porteiro late pra variar, mas eu o acalmo e abro a porta.
    Dou de cara com Lua, Marie e todas as crianas da famlia.
 Oi, Ed  diz Lua, seguido pelo eco dos outros.  Procuramos seu telefone no catlogo, mas no encontramos, da resolvemos ligar pra todos os Kennedy das redondezas. 
Sua me nos deu o endereo.
    Fico calado, s pensando no que minha me pode ter dito. Marie quebra o silncio.
     Vem conosco  ela diz.
    Dentro da van, vou sentado espremido entre as crianas, e, pela primeira vez com esta famlia, todo mundo fica quieto, sem falar nada. Como voc pode imaginar, 
isso me deixa muito sem graa. As luzes dos postes passam bem rpido, cada uma vindo na minha direo e ento indo para longe. Fechando-se. Quando olho pra frente, 
pego Lua olhando pra mim pelo espelho retrovisor.
    Cinco ou dez minutos depois chegamos na casa deles.
    Marie assume o controle.
     J pra dentro, crianas.
    Ela vai junto e da eu fico sozinho com Lua na van.
    Mais uma vez ele olha no retrovisor e nossos olhos se encontram.
     T pronto?  pergunta.
     Pronto pra qu?
    Ele s balana a cabea.
     No me venha com essa, Ed.
    Lua sai da van e fecha a porta.
     Vem  ele chama pela janela.  Sai da, garoto.
    Garoto.
    No gostei do jeito com que ele disse isso. Achei um mau sinal. Estou no maior cagao! Sei l, vai que acabei insultando o cara com as luzes novas... Ele pode 
ter interpretado como se eu estivesse insinuando que ele no  capaz de dar conta do recado como o chefe desta famlia. Deve imaginar que eu esteja dizendo: Este 
pobre coitado mal consegue arranjar um conjunto de luzes que funcione direito. Nem me atrevo a olhar pra casa enquanto o sigo at onde ele est parado na beira da 
estrada, olhando pra trs. Est tudo escuro. Muito escuro.
    Ficamos os dois ali parados.
    Lua s me olhando.
    E eu olhando pro cho.
    Logo em seguida, ouo a tela protetora da porta se abrindo e batendo vrias vezes. As crianas vm correndo em nossa direo, seguidas pela Marie caminhando 
depressa.
    Quando conto as crianas, percebo que falta uma.
    Jessie.
    Olho para todos os rostos antes de voltar a olhar pro cho. Lua ento dispara um grito que me estremece o corpo todo.
     Ok, Jess!
    Segundos depois, quando levanto a cabea, a velha casa de alvenaria est toda acesa. As luzes ficaram to lindas que parece at que esto mantendo a casa de 
p. As crianas. Lua e Marie ficam todos com os rostos encharcados de vermelho, azul, amarelo e verde. Sinto uma luz vermelha brilhando no meu rosto e sobre o meu 
sorriso de alvio. As crianas fazem a maior festa, gritando, batendo palmas e dizendo que esse vai ser o melhor Natal de todos os tempos. As garotas se juntam pra 
danar, segurando as mozinhas. E quando ento Jess sai correndo de casa pra dar uma olhada.
 Ele fez questo de ligar as luzes  Lua me conta; quando olho pro Jessie, ele est com um sorriso at as orelhas. O sorriso mais vivo. Este  o momento dele, penso. 
Dele, do Lua e da Marie.  Quando recebemos estas luzes novas, Jessie disse que queria que voc estivesse aqui quando fssemos acender. Da no teve jeito.
    Balano a cabea, observando o brilho colorido que cruza o jardim. As cores nadam pelos meus olhos. Digo a mim mesmo: O Poder e a Glria.

  6        UM MOMENTO DE BELEZA
  ?


  Enquanto as crianas danam no jardim sob o cu noturno e as luzes, vejo uma coisa.
    Lua e Marie esto de mos dadas.
    Parecem muito felizes, curtindo este momento, vendo as crianas e as luzes em sua velha casa de alvenaria.
    Lua beija Marie.
     s um beijinho de leve nos lbios.
    E ela retribui o beijinho.
    s vezes as pessoas so bonitas.
    No pela aparncia fsica.
    Nem pelo que dizem.
    S pelo que so.

  7        UM MOMENTO DE VERDADE
  ?


  Marie me faz entrar pra tomar um cafezinho. A princpio tento recusar o convite, mas ela insiste.
     No pode me fazer esta desfeita, Ed.
    Acabo cedendo, a gente entra, toma um caf e joga conversa fora. Est tudo bem por um tempo, at que as palavras de Marie param bem ali no meio da conversa. 
Ela mexe o caf e diz:
 Obrigada, Ed  as rugas ao redor de seus olhos ficam mais expressivas, e seus olhos se enchem de brilho.  Muito obrigada mesmo.
     Pelo qu?
    Ela balana a cabea de um lado pro outro.
 Pra com isso, Ed. A gente sabe que foi voc. Jessie no consegue guardar segredo nem que se passe cola na boca dele. Sabemos que foi voc.
    Entrego os pontos completamente.
     Vocs merecem.
    Ela ainda no se d por satisfeita.
     Mas por qu? Por que a gente?
    Digo a verdade.
 Isso eu no sei responder, no fao a menor idia  tomo um gole do caf.   uma longa histria, quase inexplicvel. S sei que eu estava parado na frente desta 
casa e aconteceu o resto.
    Lua mal espera eu terminar a frase e diz:
 Sabe, Ed, j vai fazer um ano que moramos aqui, e ningum  absolutamente ningum  nunca moveu uma palha pra nos ajudar nem pra nos acolher como vizinhos  ele 
bebe.  Veja bem, no t me queixando de nada. J  de se esperar este tipo de coisa hoje em dia. As pessoas j tm l seus problemas...  ele olha pra mim bem firme, 
s por um segundo.  Mas da voc aparece do nada. No entendemos...
     quando surge na minha frente um momento de clareza. Eu digo:
     Nem tentem entender. Eu mesmo no entendo.
    Marie aceita o que eu digo, mas no d por encerrado.
    Ela diz:
     Tudo bem, Ed, s que mesmo assim queremos agradecer.
      isso mesmo  Lua concorda.
    Marie olha pra ele e faz que sim com a cabea, e ento ele se levanta e vai at a geladeira, onde tem um envelope preso com um im. Ele se aproxima e me entrega 
o envelope, onde est escrito "Ed Kennedy"-
 No temos muito  ele diz , mas  o melhor que podemos fazer pra agradecer  ele coloca o envelope na minha mo.  Acho que voc vai gostar.  s um palpite.
    Quando abro, encontro um carto natalino artesanal. Todas as crianas desenharam nele. Arvores de Natal, luzinhas e crianas brincando. Alguns dos desenhos so 
toscos, mas ainda assim excelentes. Dentro do carto, tambm escrito por uma das crianas:

    Querido Ed,
    Que voc tenha um feliz Natal! Esperamos tambm que voc tenha luzes to bonitas quanto as que voc nos deu.
    De toda a famlia Tatupu.

Me d vontade de sorrir e eu me levanto e vou pra sala onde as crianas esto todas esparramadas, vendo televiso.
     Ei, valeu pelo carto!  agradeo.
    Todas elas me respondem, mas  o Jessie quem fala mais alto:
      o mnimo que a gente podia fazer, Ed.
    E, em questo de segundos, a meninada toda volta a concentrao pra TV. Esto assistindo a um vdeo. Um daqueles lances de aventuras com bichos. No conseguem 
tirar os olhos de um gato descendo um riacho numa caixa de papelo.
     J t indo. Tchau pra vocs.
    Ningum d ouvidos. Olho de novo prs desenhos, todo contente, e volto pra cozinha.
    Quando chego l, o lance dos presentes ainda no acabou.
    Encontro Lua parado com uma pedrinha escura que tem um lance gravado, tipo uma cruz.
    Ele diz:
 Ganhei isto aqui de um amigo, Ed.  pra dar sorte  ele me entrega a pedra.  Quero que voc fique com ela.
    A princpio, todos nos olhamos pra pedra, sem falar nada. Minha voz me pega de surpresa.
     No  digo.  No posso aceitar, Lua.
    As palavras dele so calmas, gentis e tranqilas, mas firmes. Ele arregala os olhos com sinceridade.
 No, Ed, pode ficar pra voc. Voc nos deu muito. Mais do que voc possa imaginar  ele ento estica o brao, estica minha palma, coloca a pedrinha e fecha minha 
mo, pra segur-la bem firme. Ele segura minha mo com as duas mos.   sua.
 E no  s pra te dar sorte  Marie diz.   tambm pra voc guardar como recordao da gente.
    Aceito a pedrinha e olho pra ela.
 Obrigado. Vou cuidar bem dela  agradeo olhando para os dois. Lua coloca a mo no meu ombro e diz:
     Eu sei.
    Ficamos parados na cozinha juntos, os trs.
    Quando saio, Marie me d um beijo no rosto e a gente se despede.
 E no se esquea de uma coisa  ela diz.  Aparea quando quiser. Voc  sempre bem-vindo aqui.
     Obrigado  respondo e vou em direo  porta da frente.
    Lua se oferece pra me levar de carro, mas no aceito, especialmente porque estou com muita vontade de caminhar hoje. Apertamos as mos, Lua me esmagando mais 
uma vez.
    Ele me acompanha at a beirada da grama e me faz uma ltima pergunta.
     Deixe-me perguntar uma coisa, Ed.
    Estamos bem prximos um do outro.
     Manda  respondo.
    Ele se afasta um pouquinho enquanto estamos ali parados no escuro. Atrs da gente, as luzes ainda brilham orgulhosamente na noite. Este  o momento da verdade.
    Lua diz:
     Voc nunca morou nesta casa, Ed. Morou?
    No tem mais como esconder. Fico sem sada.
     No  respondo.  Nunca morei.
    Observamos um ao outro e vejo que tem uma porrada de coisas que Lua quer saber. Ele est quase perguntando, mas vejo que segura a onda. Ele prefere no estragar 
as coisas com mais perguntas.
    As coisas so como tm que ser.
     Tchau, Ed.
     Tchau, Lua.
    Apertamos as mos e cada um vai pro seu lado.
    Antes de dobrar a esquina, eu me viro pela ltima vez pra ver as luzes.

  8        RUA FANTOCHE. BATATAS
  ?        FRITAS.   PORTEIRO E EU.



 O dia mais quente do ano e rodo com o txi na cidade durante o dia. E, pra infelicidade de todos os passageiros que pego, a droga do ar-condicionado pifa. Toda 
vez que pego algum, eu aviso, mas s um desiste da corrida e sai fora.  um cara que ainda est soltando a fumaa do Winfield que acabou de fumar.
     Que merda  ele diz.
     Pois   s encolho os ombros e concordo.
    A pedrinha que Lua Tatupu me deu est no meu bolso esquerdo. Ela me deixa feliz no trnsito catico da cidade, mesmo quando o sinal est verde e nenhum carro 
sai do lugar.

Assim que termino de deixar o carro na cooperativa, Audrey chega com o dela. Abaixa o vidro da janela pra falar comigo.
     T suando feito uma porca aqui dentro  ela diz.
    Imagino o suor naquele corpinho e fico com vontade de prov-lo. Com cara de paisagem, corro os olhos pra baixo pra poder visualizar melhor.
     Ed?
    O cabelo dela est engordurado, mas bonito. Lindo, dourado feito palha. Vejo umas trs ou quatro sardas espalhadas no seu rostinho. E ela fala de novo:
     Ed?
 Foi mal  digo.  Eu tava pensando numa parada  olho pra trs, onde o namorado est esperando.  Ele t te esperando  quando olho de novo pra ela, no vejo mais 
seu rosto, s um relance de seus dedos no volante. Esto relaxados e cobertos de luz. E so lindos. Ser que ele repara nesses detalhes?, penso, mas no falo nada 
pra Audrey. S digo:
     Boa-noite pra voc  e me afasto do carro.
     Pra voc tambm, Ed  e ela continua estacionando.
    Mais tarde, quando o sol se pe e vou  Rua Fantoche, ainda estou com Audrey na cabea. Vejo aqueles braos e as pernas ossudas. Vejo aquele sorriso que ela 
d enquanto fala e come com o namorado. Imagino os dois na cozinha dela... Vejo o cara passando os dedos sujos de comida pra ela lamber... Imagino aqueles lbios 
macios borrando o cara com sua beleza.
    Porteiro est comigo.
    Meu companheiro fiel.
    No caminho, compro umas batatas fritas quentinhas com bastante sal e vinagre. Tudo  antiga, embrulhadas na seo de turfe do jornal de hoje. A dica do dia  
uma gua de dois anos chamada Bacon Rashers. Imagino como ela se saiu no preo. Porteiro, por outro lado, est nem a. Ele sente o cheiro das fritas.
    Quando chegamos no nmero 23 da Rua Fantoche, descobrimos que  um restaurante.  pequenininho e se chama Melusso's. Cozinha italiana. Fica numa vilazinha de 
compras e, como todo restaurante pequeno, segue o ritual das luzes fraquinhas. O cheiro  timo.
    Tem um banco de praa do outro lado da rua, e a gente se senta l, comendo as fritas. Enfio a mo no embrulho gorduroso feito com jornal. Vou curtindo cada segundo 
da experincia. Toda vez que jogo uma batatinha pro Porteiro, ele deixa a danada bater no cho, se abaixa e lambe. Este cachorro no recusa nada. Acho que est cagando 
e andando pro colesterol.

Hoje no rola nada.
    Nem na noite seguinte.
    Na verdade, o tempo est passando.
    J virou tradio. Rua Fantoche. Batata frita. Porteiro e eu.
    O dono  um coroa bem srio, e tenho certeza de que no estou aqui por causa dele. Sinto isso. Vai acontecer alguma coisa.

Sexta-feira  noite, fico parado l e, quando fecham o restaurante, volto pra casa e encontro Audrey sentada na minha varanda. Est de bermuda e uma camisa leve, 
sem suti. Audrey no  muito avantajada na regio de cima, mas  bacana. Paro por um instante, fico meio sem saber o que fazer e continuo. Porteiro adora Audrey 
e comea a correr.
 Oi, Porteiro  ela se abaixa toda carinhosa pra falar com ele. Esses dois so bons amigos.  Oi, Ed.
     Oi, Audrey.
    Abro a porta e ela entra comigo.
    A gente se senta.
    Na cozinha.
     Onde voc tava desta vez?  ela pergunta.
    Soa at engraado, porque  o tipo de pergunta que se faz a um marido safado e mulherengo.
     Na Rua Fantoche.
     Rua Fantoche?
    Fao que sim com a cabea.
     Num restaurante que tem l.
     Existe mesmo uma rua chamada Fantoche?
     Pois ...
     J aconteceu alguma coisa l?
     No.
     Sei.
    Quando ela desvia o olhar, tomo uma deciso. Pergunto:
     E voc, o que t fazendo por aqui, Audrey?
    Ela olha pra baixo.
    Esquivando-se.
    Quando finalmente responde, ela diz:
 Acho que tava com saudade de voc, Ed  aqueles olhos verdes esto plidos e midos. D vontade de dizer que no faz nem uma semana que a gente se viu, mas acho 
que entendo o que ela sente.  Sinto voc se afastando, sei l. Depois que isso tudo comeou, voc mudou.
     Mudei?
    Eu pergunto, mas tenho conscincia de que mudei. Eu me levanto e olho bem pra ela.
 Mudou, sim. Antes voc era simplesmente Ed  ela explica como se no quisesse ouvir a prpria explicao. S que parece que ela tem que dizer.  Agora voc t 
importante, Ed. No t completamente por dentro do que voc t fazendo, nem pelo que tem passado, mas, sei l... voc parece distante agora.
    Chega a ser irnico, no chega? Tudo que eu sempre quis foi me aproximar dela. At tentei, desesperadamente.
    Ela conclui:
     Voc t melhor.
    E com estas palavras que vejo as coisas do ponto de vista da Audrey. Ela gostava quando eu era simplesmente Ed. Era mais seguro assim. Estvel. Agora, ando mudando 
as coisas. Deixei minhas digitais no mundo, mesmo que pequenas, e isso mexeu no equilbrio entre ns dois. Talvez ela tenha medo de eu no quer-la, j que no posso 
t-la.
    Assim.
    Como ramos.
    Ela no quer me amar, mas tambm no quer me perder.
    Ela quer que a gente fique numa boa. Como antes.
    Mas no existe mais garantia.
    A gente vai ficar numa boa, tento prometer.
    Tomara que eu esteja certo.

Ainda na cozinha, coloco a mo no bolso e passo os dedos na pedrinha de Lua mais uma vez. Penso no que a Audrey est me dizendo. Talvez eu esteja mesmo transformando 
o antigo Ed Kennedy cheio de incompetncias numa nova pessoa cheia de objetivos. Talvez eu acorde um dia e saia de mim mesmo, olhe pra trs e veja o antigo Ed, deitado, 
morto nos lenis.
    Sei que  uma coisa boa.
    Mas como uma coisa boa pode de repente parecer to triste?
    Eu sempre quis isso, desde o comeo.

Volto pra geladeira e pego mais alguma coisa pra beber. Cheguei  concluso de que temos que encher a cara. Audrey concorda.

Mais tarde, no sof, eu pergunto:
 E voc, o que tava fazendo enquanto eu tava l na Rua Fantoche?
    Vejo seus pensamentos girarem.
    Ela est bbada o bastante pra me dizer, pelo menos timidamente.
     Ah, voc sabe...  ela responde envergonhada.
     No sei, no  dou uma sacaneada.
 Eu estava l em casa com o Simon e a gente... por umas horinhas.
     Umas horinhas.
    Fico puto por dentro, mas disfaro.
     De onde voc tirou fora pra chegar at aqui?
  No sei  ela admite.  Ele foi pra casa, e eu me senti vazia.
    Porra, e ento veio pra c, penso, mas no sou um cara amargo. No neste momento. Consigo ser racional e concluir que as coisas fsicas no importam tanto. Audrey 
est precisando de mim agora, e, em nome dos velhos tempos, pra mim j  o bastante.

Ela me acorda um pouquinho depois. A gente ainda est no sof. Na mesa, um pequeno exrcito de garrafas vazias. Elas esto ali feito platia. Parecendo um grupo 
observando um acidente.
    Audrey olha bem firme pra mim, se mexe um pouco, ento faz uma pergunta.
     Voc me odeia, Ed?
    Ainda meio idiota, com o estmago borbulhando de tanta vodca, eu respondo. Bem srio.
     Odeio, sim  digo bem baixinho.
    Os dois ento quebram o silncio caindo na gargalhada. Quando o silncio retorna, rimos de novo. O riso rodopia na nossa frente, e no conseguimos mais ficar 
srios.
    Quando tudo se acalma, Audrey diz baixinho:
     No tiro sua razo.
    Quando acordo de novo, tem algum batendo na porta.
    Com a lngua ainda meio presa, vou atender e bem na minha frente est o cara que atacou meu txi. Tenho impresso de que isso foi h um sculo. Ele parece meio 
puto. Como sempre. Ele levanta a mo como sinal pra eu no abrir a boca e diz:
 Shhh!  e espera pelo efeito.  Cala a boca e oua com ateno  na verdade ele parece um pouco mais do que puto,  medida que continua.  Olhe aqui, Ed  os olhos 
amarelos me arranham.  So trs horas da manh. Ainda t mido pra cacete, e aqui estamos.
   concordo. Uma nuvem de embriaguez paira sobre mim. Estou praticamente esperando a chuva cair.  Aqui estamos.
     No vem me sacanear, garoto.
     Desculpa. O que t pegando?
    Ele d uma parada, e a tenso aumenta entre a gente. Ele fala.
 Amanh, oito da noite em ponto. No Melusso's  ele vai saindo e logo se lembra de uma coisa.  E tem mais: ser que voc poderia me fazer um favor?
     Claro.
 Pega leve nas batatas fritas, pelo amor de Deus. T me deixando enjoado
 ele agora aponta o dedo pra mim, tipo me ameaando.  E v se no demora com essa merda. Voc pode at pensar que eu no tenho mais o que fazer, mas eu tenho, 
falou?
 Falou. Estamos entendidos  no meu estupor, tento uma coisinha extra.
     Quem te mandou aqui?
    O jovem com os olhos amarelos, todo de preto e uma disposio brutal retorna, sobe as escadas da varanda. Ele diz:
 Como  que vou saber, Kennedy?  ele ri e balana a cabea.  Voc pode no ser o nico que t recebendo ases pelo correio. J pensou nisso?
    Ele fica mais um pouco, se vira e vai embora, se dissolvendo na escurido. Se misturando ao escuro.
    Audrey est atrs de mim na porta agora, e eu tenho algo no que pensar.
    Anoto o que ele me disse sobre o Melusso's.
    Oito da noite, amanh, tenho que estar l.
    Depois que grudo a anotao na geladeira, vou me deitar e Audrey vem comigo. Ela dorme com as pernas sobre mim e eu adoro sentir sua respirao ali pertinho 
na minha garganta.
    Depois de uns dez minutos talvez, ela diz:
     Conta a, Ed. Me conta por onde voc tem andado.
    Uma vez eu contei pra ela sobre as mensagens do s de ouros, mas s por alto, sem detalhes. Estou morto de cansao agora, mas conto pra ela.
    Sobre Milla. A linda Milla. Enquanto falo, vejo o rostinho dela querendo saber se foi boa pro Jimmy.
    Conto sobre a Sophie. A garota descala com...
    Audrey est dormindo.
    Ela est dormindo, mas eu continuo falando. Falo sobre a Rua Edgar e todos os outros. As pedras. As surras. Padre  OReilly.  Angie Carusso. Os irmos Rose. 
A famlia Tatupu.
    Estou me sentindo feliz neste instante e quero ficar acordado, mas no demora muito e a noite me devora, e eu caio no ronco.


  9        A MULHER
  ?



s vezes  to lindo ver uma garota bocejar que d at arrepios.
    Especialmente quando ela est na nossa cozinha s de calcinha e blusa, bocejando.
    A Audrey faz isso neste exato momento, enquanto eu lavo a loua. Enxguo um prato e l est ela, esfregando os olhos, bocejando e dando um sorriso em seguida.
     Dormiu bem?  pergunto.
    Ela faz que sim com a cabea e diz:
     Voc  muito confortvel, Ed.
    Percebo que eu poderia ficar ofendido com o comentrio, mas  um elogio.
 Puxa uma cadeira a  digo sem pensar. Olho prs botes de sua blusa e prs seus quadris. Passo os olhos desde suas pernas aos seus joelhos, passando pela canela, 
chegando aos tornozelos. Tudo isso em um segundinho bem rpido. Os ps de Audrey so macios e delicados. Parece at que poderiam derreter no cho da cozinha.
    Sirvo uns sucrilhos, e ela come fazendo aquele barulhinho. Nem precisei perguntar se ela queria. Tem algumas coisas que j sei. Isso se confirma depois que ela 
toma um banho e se veste. Na porta da frente, ela diz:
 Obrigada, Ed  ela d uma parada antes de falar novamente.  Sabe de uma coisa? Voc  a pessoa que mais me conhece e que me trata melhor. Eu me sinto muito mais 
 vontade com voc  ela se inclina bem de perto e me d um beijo no rosto.  Obrigada por me agentar.
    Enquanto ela se vai, eu ainda sinto seus lbios na minha pele. O sabor deles.
    Fico ali s olhando, at ela dobrar a esquina no final da rua. Um pouquinho antes de dobrar, ela sabe que fiquei l parado e se vira para acenar. Levanto a mo 
pra responder, e ento ela se vai.
    Devagar.
    s vezes dolorosamente.
    A Audrey me mata.

"Ser que voc poderia me fazer um favor? Pega leve nas batatas fritas, pelo amor de Deus."
    Ouo mais uma vez as palavras que meu amigo disse ontem  noite.
    Elas passaram o dia inteiro na minha cabea, junto com as outras coisas que ele falou:
    "Voc pode no ser o nico que t recebendo ases pelo correio. J pensou nisso?"
    Claro, ponto de interrogao  parte, eu sei que foi uma afirmao. E me faz pensar em todas as pessoas com quem esbarrei. E se todas forem mensageiras como 
eu e estiverem sendo ameaadas e desesperadas pra fazer logo o que tem que ser feito pra poder sobreviver? Ser que elas tambm receberam cartas de baralho e armas 
pelo correio? Ou ser que cada um recebe suas prprias ferramentas especficas? Seria tudo pessoal, penso. Eu recebi cartas porque  o que eu fao. Talvez Daryl 
e Keith tenham recebido os capuzes, e meu amigo de ontem  noite tenha recebido a roupa preta e aquele mau humor.
    As quinze pras oito, estarei no Melusso's, sem Porteiro. Desta vez eu vou entrar. Tenho que explicar isso pra ele antes de ir.
    Ele olha pra mim.
    O qu?, ele pergunta. No vai rolar batatinha esta noite?
     Desculpa, amigo. Eu trago alguma coisa pra voc, prometo.
    Na hora que saio, ele parece contente, pois preparei um cafezinho com sorvete pra ele. Ele quase que pula de pata em pata quando estou servindo a gostosura.
    Maneiro, ele me diz na cozinha. Ainda estamos amigos.
    Devo admitir, enquanto caminho pra Rua Fantoche em direo ao Melusso's, pinta uma saudade dele. E que a gente estava junto nessa e agora eu tenho que concluir 
sozinho e receber toda a glria.
    Isto ...
    Se tiver alguma glria.
    Quase esqueci que as coisas podem dar errado, sei l, podem ser difceis. Tenho duas provas disso: A) Rua Edgar; B) Os irmos Rose.
    Agora fico imaginando qual  a minha misso desta vez, quando cruzo a porta do Melusso's, penetrando naquele aroma quente e envolvente de molho de macarro, 
massa e alho. Fiquei de olho pra ver se no estava sendo seguido, mas no vi ningum que parecesse interessado. S pessoas fazendo o de sempre.
    Conversando. Estacionando os carros meio tortos.
    Xingando. Mandando os filhos apertarem o passo e pararem de reclamar.
    Esse tipo de coisa.
    Agora, no restaurante, peo pra garonete gorducha me arranjar uma mesa no canto mais escuro.
     Ali?  ela pergunta, bolada.  Perto da cozinha?
     Sim, por favor.
     Nunca me pediram pra sentar ali. Voc tem certeza, meu amigo?
 Absoluta. "Cara esquisito", vejo a gorducha pensar, mas ela me leva at a mesa.
     Vai querer ver a carta de vinhos?
     Oi?
     Gostaria de beber um vinho?
     No, obrigado.
    Ela arranca a lista de vinhos da mesa e me diz quais as sugestes da casa. Peo espaguete com almndegas e uma lasanha.
     Voc t esperando algum?
    Fao que no com a cabea.
     No.
     Ento vai comer as duas coisas?
 Oh, no  respondo.  A lasanha  pro meu cachorro. Eu prometi que ia levar alguma coisinha pra ele.
    Desta vez ela me olha como se dissesse "Pobre z-man, pattico e solitrio", o que  compreensvel, acho eu. Mas ela diz:
 Ento vou trazer a lasanha um pouquinho antes de voc ir embora, t bem?
     Obrigado.
     Vai beber alguma coisa?
     No, obrigado.
    No aceito nenhuma bebida em restaurantes porque acho que posso comprar bebida em qualquer outro lugar; estou aqui, isso sim, pela comida que no sei nem posso 
cozinhar.
    Ela se afasta e eu dou uma olhada no restaurante, que est meio cheio. Gente se empanturrando, outros bebendo vinho, um casal se beija e compartilha a comida. 
A nica pessoa interessante e um homem que est do mesmo lado do restaurante que eu. Ele est esperando algum, tomando um vinho, mas sem comer nada. Est vestindo 
um terno e tem cabelo ondulado, preto com fios grisalhos, penteado pra trs.
    Assim que recebo o espaguete com almndegas, a noite comea a tomar forma e ganhar um significado.
    Quase engasgo quando a convidada do cara chega. Ele se levanta para beij-la e coloca as mos em seus quadris.
    A mulher  Beverly Anne Kennedy.
    Bev Kennedy.
    Tambm conhecida como mame.

Puta que o pariu, penso e continuo de cabea baixa. Por algum motivo, me d vontade de vomitar.

Minha me usa um vestido superelegante. Azul-escuro brilhante. Quase que da cor de uma tempestade. Ela se senta educadamente, e seu cabelo na verdade emoldura seu 
rosto lindamente.
    Pra encurtar,  a primeira vez que ela parece mulher pra mim. Geralmente ela s parece uma criatura de boca suja que me xinga, me chama de mane imprestvel. 
S que hoje ela est usando brincos e est com o rosto moreno e os olhos castanhos brilhando num sorriso. Ela enruga um pouquinho quando sorri, mas, sim, ela est 
feliz.
    Ela parece feliz, sendo mulher.

O homem  supercavalheiro, servindo vinho e perguntando o que ela gostaria de comer. Eles conversam com prazer, esto bem  vontade, mas no d pra ouvir o que dizem. 
Pra ser sincero, eu tento no escutar nada.
    Penso no meu pai.
    Penso nele e imediatamente fico deprimido.
    No me pergunte por que, mas sinto que ele no merecia uma coisa dessas. E bem verdade que ele foi um tremendo p-de-cana, sobretudo no fim da vida, mas era 
gente boa, gentil, generoso. Olhando pras almndegas, vejo o cabelo preto e curto dele, e seus olhos quase desbotados. Ele era bem alto e, quando saa pra trabalhar, 
sempre usava uma camisa de flanela e levava um cigarro na boca. Nunca fumava dentro de casa. Ele tambm era um cavalheiro, apesar de tudo.
    Tambm me lembro dele cambaleando na porta de casa e dando tropees at o sof depois que o bar fechava.
    Mame gritava com ele, claro, mas isso acabou perdendo o efeito.
    Ela pegava no p dele direto. Ele se esfolava de tanto trabalhar, mas nunca era o bastante. Lembra o lance com a mesinha de centro? Pois , meu pai tinha que 
agentar isso todos os dias.
    Quando ramos pequenos, ele nos levava prs lugares, tipo pro Parque Nacional, pra praia e um parquinho que ficava bem longe dali onde tinha um foguete de metal 
enorme. Bem diferente dos parques de merda, cheios de brinquedos de plstico que as pobres crianas tm pra brincar hoje em dia. Ele nos levava pra esses lugares 
e ficava l, quieto, na dele, s vendo a gente brincar. A gente olhava pra trs, e ele estava l sentado, feliz da vida, fumando, talvez sonhando. Minha primeira 
recordao  de quando eu tinha quatro anos e Gregor Kennedy, meu pai, me levou de cavalinho nos ombros. Isso foi quando o mundo no era to grande e dava pra eu 
ver todos os lugares. Quando meu pai era um heri e no humano.
    Agora estou eu aqui sentado, me perguntando o que devo fazer.
    A primeira coisa  terminar de comer as almndegas. Fico s vendo minha me em seu encontro maravilhoso. Fica bem claro que os dois j estiveram aqui juntos 
outras vezes. A garonete os conhece e pra pra trocar umas palavrinhas com o casal. Esto muito  vontade.
    Tento at ficar puto com a histria, mas eu me seguro. Do que adianta? Afinal de contas, ela e uma pessoa e tem o direito de ser feliz como todo mundo.
    S um pouco depois  que eu entendo exatamente por que meu primeiro impulso  de invejar a felicidade de minha me.
    No tem nada a ver com meu pai.
    O negcio  comigo.
    Quando um enjo forte toma conta de mim, vejo o horror absoluto desta situao:
    Ali est minha me, 50 anos na cara, andando pela cidade com um cara  enquanto eu estou aqui sentado, na flor de minha juventude, completamente sozinho.
    Fao um gesto de repreenso com a cabea.
    Pra mim mesmo.

  10        O CICLONE DA VARANDA
  ?



  A garonete leva as almndegas e traz a lasanha do Porteiro numa caixinha de plstico vagabunda. Ele vai ficar todo feliz, assim espero.
    Quando vou ao balco e pago a conta, olho pra trs pra ver minha me com o cara, tomando todo o cuidado pra no ser visto, mas ela est toda derretida, com toda 
a ateno voltada pra ele. Ela olha fixamente e ouve com tanta ateno que nem me dou mais ao trabalho de me esconder. Pago a conta e saio batido, s que no volto 
pra casa. Vou at a casa de minha me e espero na varanda.
    Esta casa tem o cheiro da minha infncia. D pra sentir o cheiro at por baixo da porta, enquanto estou aqui sentado no cimento frio.
    O cu est todo estrelado, dando uma baita vida  noite, e quando eu me deito e olho pra cima, fico at perdido. Tenho a sensao de que estou caindo, s que 
pra cima, no abismo do cu sobre mim.
    Em seguida, sinto o p de algum cutucando minha perna.
    Eu acordo e vejo quem .
     O que voc est fazendo aqui?  ela pergunta.
     minha me.
    Simptica como sempre.
    Levanto o corpo com os cotovelos e decido ir direto ao assunto.
 Dei uma passada aqui pra perguntar se a senhora se divertiu l no Melusso's.
    Uma expresso de surpresa cai de sua cara, mas ela tenta manter a pose. A mscara quebra, e ela parece peg-la e mexer nela com as mos.
 Foi muito bacana  responde, mas d pra ver que ela est pensando no que dizer.  Uma mulher tem que viver.
    Eu agora me sento.
     Acho que  justo.
    Ela encolhe os ombros.
 Foi s pra isso que voc veio aqui? Pra me condenar por jantar fora com um homem? Eu tenho minhas necessidades, sabia?
    Necessidades.
    Oua s quem est falando.
    Ela passa por mim pra chegar na porta e pe a chave na fechadura.
     Agora, se no se importa, Ed, estou muito cansada. Agora.
    O momento.
    Eu quase entrego os pontos, mas hoje eu me levanto. Sei muito bem que, de todos os filhos, sou o nico que esta mulher no vai convidar pra entrar em casa nesta 
situao. Se minhas irms estivessem aqui, ela j estaria fazendo caf. Se fosse o Tommy, ela estaria perguntando como vo as coisas na faculdade, oferecendo uma 
Coca-Cola ou uma fatia de bolo.
    S que, comigo, Ed Kennedy, to filho dela quanto os outros, ela pula por cima e no consegue nem ser simptica, ainda mais convidar pra entrar. Ao menos uma 
vez, eu queria que ela fosse um pouquinho carinhosa.
    A porta est quase fechada quando eu a paro com a mo. O som de um tapa na cara.
    Quando olho pra ela, sua expresso  de quem est puta da vida.
    Eu falo de maneira bem dura:
     Me?
     O que ?
     Por que voc me odeia tanto?
    E agora esta mulher olha pra mim, enquanto eu fao de tudo para que meus olhos no me entreguem.
    Curta e grossa, ela responde:
     Porque voc se parece com ele, Ed.
    Ele?
    A ficha cai.
    Ele  meu pai.
    Ela entra e bate a porta.
    Cara, j tive que levar um homem l pra cima na Catedral e tentar mat-lo. J recebi a visita de dois matadores profissionais que comeram torta na minha cozinha 
e me deitaram no cho. J levei uma surra de um grupo de moleques.
    Mas  agora que me sinto passando pelo pior momento da minha vida.
    De p.
    Magoado.
    Na varanda da casa da minha me.
    O cu se abre agora, se desmoronando.
    D vontade de porrar e chutar a porta.
    Seguro a onda.
    Eu s me ajoelho, abatido pelas palavras que poderiam nocautear qualquer um. Tento transformar essa merda numa coisa boa, porque eu amava meu pai. Tirando o 
departamento etlico, acho que no  vergonha nenhuma ser parecido com ele.
    Ento por que ser que estou me sentindo to mal?
    No me mexo.
    Na verdade, prometo s sair desta varanda de merda depois de ouvir as respostas que mereo. Se for preciso, vou at dormir aqui e esperar no calor de rachar 
o dia inteiro amanh. Eu me levanto de novo e grito.
 No vou arredar o p daqui, me. Voc t me ouvindo? Eu no vou sair daqui.
    Depois de 15 minutos, a porta se abre de novo, mas eu no olho pra ela. Eu me viro e falo pra rua:
 Voc trata os outros to bem  a Leigh, a Kath e o Tommy. E como se...  no posso deixar a peteca cair, no posso amolecer. E continuo.  Mas a senhora fala comigo 
com total desrespeito, e sou eu quem t sempre aqui  agora eu me viro e olho pra ela.  Sou eu quem sempre t aqui quando a senhora precisa, no , no?
    Ela concorda.
  sim, Ed  mas ela tambm ataca. Ela me ataca com sua prpria verso da verdade. As palavras entram cortando meus ouvidos de forma to brutal que chego a achar 
que vai jorrar sangue deles.  Sim, voc t aqui, e  exatamente este o problema!  ela estica os braos.  Olha s pra esta merda de lugar. A casa, a cidade, tudo 
 sua voz est sombria.  E seu pai... ele prometeu que um dia a gente sairia daqui. Disse que a gente faria as malas e iria embora, e olha s onde estamos, Ed. 
Ainda estamos aqui. Eu t aqui. Voc t aqui, e, exatamente como seu pai, voc s promete, Ed, e no cumpre porra nenhuma. Voc  e ela aponta o dedo pra mim, amargurada. 
 Voc podia ser to bom quanto qualquer um deles. To bom at mesmo quanto o Tommy... Mas voc ainda t aqui e ainda vai estar aqui daqui a 50 anos  ela fala de 
maneira bem fria.  E voc no ter realizado nem alcanado nada.

    Faz-se um silncio.

 Eu s quero que voc seja algum na vida  aos poucos, bem devagar, ela se aproxima das escadas da frente.  Voc tem que entender uma coisa, Ed.
     O qu?
    Com cuidado, ela diz:
 Acredite ou no,  preciso muito amor pra te odiar desta forma.
    Tento entender.

Ela ainda est na varanda quando eu deso at o gramado e me viro. Meu Deus, est muito escuro agora. To escuro quanto o s de espadas.
 A senhora saa com aquele homem enquanto papai ainda tava vivo?
    Ela olha pra mim, muito contrariada, e, embora fique calada, eu sei. Sei que ela no odeia s meu pai, mas a si mesma. E a que me dou conta de que ela est 
completamente equivocada.
    No  o lugar, penso. So as pessoas.
    Seramos todos a mesma coisa em outro lugar.
    Eu falo de novo. Fao uma ltima pergunta.
     Papai sabia?
    Faz-se uma longa pausa.
    Uma pausa que mata, at que minha me se vira e chora, e a noite  to profunda e escura que fico sem saber se o dia vai amanhecer.


   J        UM TELEFONEMA
  ?



     Me?
     Oi?
    Olho pro Porteiro, que est comendo a lasanha de um jeito que s pode ser descrito como o maior dos xtases. So 2:03 da manh e estou com o telefone no ouvido.
     T tudo bem, me?
    A voz do outro lado treme, mas responde como eu esperava.
     T, t tudo bem, sim.
     Que bom.
     S que voc me acordou, seu imprestvel.
    Eu desligo, mas sorrindo.
    Eu queria dizer que ainda a amo, mas talvez seja melhor assim.
  Q        O CINEMA DA RUA REDOMA
  ?



  No consigo me esquecer das coisas que minha me disse ontem  noite.
    E domingo de manh e mal dormi. Tomei uns cafezinhos com Porteiro, mas caf no me deixa muito aceso, no. Tem uma pergunta que est martelando aqui dentro: 
ser que meu servio na Rua Fantoche acabou? Ser que conclu o lance com minha me? Alguma coisa me diz que sim. Ela precisava me dizer aquelas coisas.
    E claro que no  nada agradvel saber que minha me acha que eu sou um z-man imprestvel.
    Nem me serve de consolo que ela tambm se considere um zero  esquerda, embora isso devesse me deixar sentindo um pouco melhor. De certa forma, isso tudo me 
deu uma sacudida e abriu meus olhos. Percebo que no posso passar o resto da minha vida dirigindo um txi. Isso vai me deixar doido.
    Pela primeira vez, uma mensagem tocou minha prpria vida de algum jeito.
    Pra quem foi a mensagem?
    Pra minha me ou pra mim?
    Da ouo as palavras de novo. " preciso muito amor pra te odiar desta forma."
    Acho que vi alvio no rosto dela depois de dizer isso.
    A mensagem era dela.

Porteiro e eu vamos  igreja fazer uma visita ao padre O'Reilly, que ainda tem uma congregao bem generosa.
 Ed!  ele diz todo empolgado.  Temi que voc nunca mais fosse dar as caras. Senti sua falta nas ltimas semanas.
    Ele faz um carinho rpido em Porteiro.
     Acho que temos andado muito cheios de coisas pra fazer.
     Voc tem sentido a presena do Senhor em sua vida?
 No muito  respondo. Penso na noite passada e na idia de minha me cometendo adultrio, odiando meu pai por no cumprir promessas e desprezando o prprio filho 
que continua na cidade.
     Ah, tudo tem um propsito  ele afirma.
    Concordo com ele. Nada aconteceu  toa, e ento me concentro na prxima mensagem.

Agora s falta a Rua Redoma, e eu vou l de tarde. O nmero 39  um cinema caindo aos pedaos que fica abaixo do nvel da rua. Em cima dele, tem uma antiga casa 
onde se encontra uma placa colada no toldo. Hoje est escrito "Casablanca 14:30" e "Quanto Mais Quente Melhor 19:00". Logo na descida, a gente d de cara com uns 
cartazes de filmes antigos colados na janela. O papel est amarelado nas bordas e, quando eu entro, vejo mais cartazes.
    O cheiro  de pipoca velha e carpete sujo. Parece vazio.
     Opa, tem algum a?
    Minha pergunta fica sem resposta.
    Esse lugar deve ter morrido h anos, quando a rede de cinemas Greater Union se espalhou pela cidade. Est entregue s moscas.
     Tem algum a?  grito mais alto desta vez.
    Olho pra uma sala nos fundos e vejo um senhor dormindo. Est de terno e gravata-borboleta, tipo um lanterninha das antigas.
     T tudo bem?  pergunto, e ele acorda sob ressaltado.
 Oh!  ele pula da cadeira e conserta o palet.  Em que posso ajud-lo? Olho pra placa acima do balco e digo:
     Eu vou querer uma entrada pro Casablanca, por favor.
     Meu Deus, voc  a primeira pessoa que atendo em semanas!
    O cara tem rugas superfortes ao redor dos olhos e sobrancelhas extremamente peludas. O pouco cabelo que resta  branco e est perfeitamente penteado, sem tentar 
disfarar com um tufo grande por cima da careca. Ele faz uma expresso sincera. O sujeito est muito feliz. Falando bem francamente, ele s falta pular de alegria.
    Dou dez dlares e ele me passa cinco de troco.
     Vai querer pipoca?
     Vou, sim, por favor.
    Todo empolgado, ele coloca pipoca na caixa.
      por conta da casa  e pisca pra mim.
     Valeu!
    O cinema  pequeno, mas a tela  bem grande. Tenho que esperar um tempo, mas o velho chega mais ou menos s duas e vinte e cinco.
 Acho que no vem mais ningum. Voc se importaria se comessemos mais cedo?
    Ele provavelmente tem medo de que eu fique puto se tiver que esperar muito tempo.
     Sem problema.
    Ele sai correndo pelo corredor.
    Estou sentado quase que no meio do cinema, certinho. Acho que  numa fileira mais pra perto do que pra longe da tela.
    O filme comea.
    Preto-e-branco.
    Depois de um tempo, o negcio pra. Da olho pra trs, na direo da janela de projeo. Ele esqueceu de trocar o rolo. Eu grito pra ele.
     Ei!
    Nada.
    Acho que ele dormiu de novo, da eu me levanto e saio andando at dar de cara com uma porta onde est escrito "SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO" e entro. O lugar vai 
dar na cabine de projeo, onde o cara est roncando baixinho, reclinado em sua cadeira, encostada na parede ao lado.
     Moo?
     Ah, essa no!  ele grita consigo mesmo.  De novo, no!
    Ele ficou chateado, e corre pra pegar outro rolo, ralhando consigo mesmo e se desculpando.
 Tudo bem  digo.  Fica frio  mas ele no consegue se acalmar. Ele no pra de dizer:
 No se preocupe, filho. Vou devolver seu dinheiro e at darei uma sesso de graa. Passo o filme que voc escolher.
    Eu aceito. No tenho outra opo. Ele vem apressado e diz:
 Agora anda, anda que d tempo de chegar l embaixo sem perder nada. Antes de voltar pro meu lugar, me d vontade de me apresentar.
 Eu sou Ed Kennedy  e estico o brao. Ele pra e aperta minha mo.
 E, eu sei quem voc   por um instante ele esquece do rolo e olha bem nos meus olhos, com toda a simpatia.
 Me disseram que voc viria. Ele ento volta ao trabalho. Fico l parado.
    Esse negcio est cada vez melhor.
    Assisto ao resto do filme e digo a mim mesmo: S saio daqui depois que eu descobrir quem informou o velho de que eu viria.
 Gostou?  ele pergunta quando estou saindo, mas no dou abertura pra esse tipo de papo. Vou logo perguntando:
     Quem foi que lhe disse que eu viria?
    Ele tenta se esquivar.
 No  ele entra em pnico.  No posso  ele est se mexendo agora.
     Eu prometi para eles, e foram to gentis...
    Eu ento o puxo pra que ele olhe pra mim.
     Eles quem?
    Ele agora parece at mais velho, verificando os sapatos e o carpete.
     Foram dois homens?  pergunto.
    Ele olha pra mim e diz que sim.
     Daryl e Keith?
     Quem?
    Uso outra abordagem.
 Foi o Daryl com o Keith  confirmo. Aqueles comeles de uma figa.  Eles machucaram o senhor?
 Oh, no. No, foram muito gentis. Cordiais. Eles vieram h mais ou menos um ms e assistiram a Mister Roberts. Antes de partirem, disseram-me que um sujeito chamado 
Ed Kennedy viria e que voc teria uma entrega quando tivesse terminado.
     E quando eu termino?
    Ele estica as mos.
 Me disseram que voc saberia  ele inclina a cabea, quase com pena.  Voc terminou?
    Fao que no com a cabea.
 No, a sensao  de que no terminei  desvio o olhar e ento volto pra ele.
 Tenho que fazer alguma coisa pelo senhor. Alguma coisa boa, eu diria, no seu caso.
     Por qu?
    Quase digo que no sei, mas eu me recuso a mentir.
     Porque o senhor t precisando.
    Ser que ele est precisando acertar as contas com o padre O'Reilly? Duvido muito. Acho que no rola duas vezes.
 Talvez  ele se aproxima  voc termine quando voltar para assistir quele filme de cortesia.
     T certo  concordo.
 Voc pode trazer sua namorada  ele sugere.  Tem namorada, Ed?
    Saboreio o momento.
     Tenho, tenho, sim.
 Ento pode traz-la  ele esfrega as mos.  Nada como ficar a ss com a namorada de frente para o telo  ele d uma risada sacana.  Quando eu era mais moo, 
adorava trazer a mulherada aqui. Por isso que comprei o lugar depois que me aposentei da construo.
     O senhor chegou alguma vez a ganhar algum trocado aqui?
 Por Deus, no, no! Eu no preciso. S gosto mesmo de projetar os filmes, gosto de v-los, dormir um pouco. A patroa l em casa me diz que, se for pra me manter 
longe de brigas e confuso, t valendo.
     Entendo.
     E ento? Quando voc acha que voltar?
     Talvez amanh.
    Ele me d um catlogo do tamanho de uma enciclopdia para que eu escolha um filme, mas nem preciso.
     No, obrigado, eu sei o que quero ver.
      mesmo? Mas j?
    Fao que sim com a cabea.
     Rebeldia Indomvel.
    Ele esfrega as mos de novo e d um sorrisinho.
 tima escolha. Excelente filme. Paul Newman est impagvel e George Kennedy, seu xar, est inesquecvel. Sete e meia amanh?
     Maravilha.
 timo, ento at amanh. Como  mesmo que se chama sua namorada?
     Audrey.
     Ah, lindo nome!
    Estou quase saindo quando me dou conta de que no fao a menor idia de como este homem se chama. Ele se desculpa.
     Oh, mil perdes, Ed. Meu nome  Bernie. Bernie Price.
     Muito prazer, Bernie  e vou saindo.
 Igualmente  ele responde.  Fico feliz por voc ter vindo.
     Eu tambm.
    E saio para o ar quente do fim de tarde, e curto o vero.
    Este ano a vspera de Natal cai numa quinta, e o povo vem pra minha casa pra jogar, comer peru e ver Marv dar um beijo no Porteiro.
    Ligo pra Audrey e falo sobre o lance de amanh; ela cancela o encontro com o namorado. Acho que, pelo tom de minha voz, ela sacou que eu estava mesmo precisando 
que ela topasse.
    Assim que a gente resolve esse lance, vou at a casa da Milla, na Avenida Harrison.
    Quando ela abre a porta, vejo que se abateu muito nas ltimas semanas. J faz um tempo que no dou uma passada pra fazer uma visitinha, e ela s falta pular 
de alegria quando me v. De incio, ela est meio arqueada, mas logo se ajeita quando v meu rosto.
     Jimmy! Venha, entre!
    Vou entrando e, quando chego na sala de visitas, vejo que anda tentando ler O Morro dos Ventos Uivantes sozinha, mas no avanou muito.
 Ah, sim  ela diz quando volta com o ch.  Estou tentando ler sem voc, mas no est dando muito certo.
     Quer que eu leia um pouco?
     Seria timo  ela sorri.
    Eu me amarro no sorriso desta senhorinha. Adoro ver as rugas em seu rosto e a alegria em seus olhos.
     Voc gostaria de ir  minha casa no Natal?  pergunto.
    Ela coloca a xcara de ch na mesinha e responde:
 Claro que sim, eu adoraria. Est tudo...  ela olha pra mim,  Est tudo to solitrio e vazio sem voc, Jimmy.
     Eu sei. Eu sei.
    Pego a mo dela e esfrego devagarzinho. E em momentos como este que eu rezo para que as almas possam se encontrar depois da morte. Milla e o Jimmy verdadeiro. 
Peo a Deus que eles se encontrem.
 Captulo Seis  leio.  Sr. Hindley veio para o funeral; e  algo que nos surpreendeu, tomando-se motivo de fofoca entre os vizinhos  trouxe consigo uma esposa...

Segunda-feira  um dia cheio. Passo o tempo todo ralando na cidade. Pego uma porrada de passageiros e consigo driblar o trnsito muito bem, pra variar. Tenho sempre 
um objetivo como taxista: no encher a pacincia de outros motoristas. Hoje estou conseguindo colocar isto em prtica.
    Chego em casa um pouquinho antes das seis, como alguma coisa com Porteiro e pego a Audrey por volta de sete. Estou usando a melhor cala jeans que tenho, botas 
e uma camisa que um dia foi vermelha, mas agora anda meio laranja.
    Quando Audrey abre a porta, sinto logo o cheiro do perfume.
     Voc t cheirosa.
 Muito obrigada, gentil cavalheiro  e ela estica o brao pra eu beijar a mo. Est vestindo uma saia preta, sapato alto bem maneiro e uma blusa creme, meio cor 
de areia. Est tudo combinando, e no cabelo ela fez uma trana pra trs deixando uns fios soltos.
    A gente sai andando pela rua, e ela vem agarrada no meu brao. Quando vemos nosso reflexo, no agentamos e camos na gargalhada.
     Mas voc t to linda e cheirosa.
 Voc tambm t bem bonito  ela responde e pensa por um instante.  Mesmo com esta camisa horrorosa.
    Olho pra baixo.
     Eu sei. Tosca pra cacete, pode falar.
    Mas Audrey no est nem a. Ela quase d uns pulinhos ou dana enquanto caminha e diz:
     Me conta que filme a gente vai ver.
    Tento disfarar o orgulho que estou sentindo de mim mesmo, pois sei que  o filme preferido dela.
     Rebeldia Indomvel.
    Ela pra e faz uma carinha to linda que me d vontade de chorar.
     Agora voc arrebentou, Ed.
    Cara, a ltima vez que escutei algum dizer isso foi quando o Marv estava falando com Margaret, a garonete. Desta vez, no  sarcasmo.
 Valeu  agradeo, e a gente continua andando. Viramos na Rua Redoma e Audrey ainda est agarrada no meu brao. Eu queria que o cinema fosse mais longe.
 Aqui esto eles!  diz Bernie quando chegamos. Est todo empolgado. Na verdade fico at surpreso por ele no estar dormindo.
 Bernie  digo cheio de educao.  Esta  Audrey O'Neill.
     E um grande prazer, Audrey  Bernie sorri.
    Quando ela vai ao banheiro, ele me puxa de lado todo alegrinho e fala baixinho:
     Ela  bem formosa, hein, Ed?
     Com certeza. Ela  mesmo.
    Vou comprar a pipoca murcha, ou ao menos tentar (pois o Bernie, nas palavras dele, no vai aceitar meu dinheiro), e vamos ento sentar perto do lugar onde sentei 
ontem.
    Ele deu um ingresso pra mim e outro pra ela.
    "Rebeldia Indomvel: 19:00."
     O seu indomvel tem trs A?  Audrey pergunta.
    Olho pro ingresso, surpreso. Tem trs A mesmo, e parece perfeito pra esta noite, pois aqui dentro do peito meu corao faz "!!!".
    Agente se senta e espera, e logo em seguida ouvimos algum batendo l em cima na janela de projeo.
     Esto prontos?  ouvimos a voz abafada.
 Estamos!  a gente grita e se vira pra tela de novo. O filme comea.
    Enquanto assistimos, fico pedindo a Deus para que Bernie esteja l em cima, feliz, s lembrando de como era quando ele tinha a minha idade e vinha aqui.
    Espero que ele ainda acredite que Audrey  realmente minha namorada ao olhar pras duas sombras sentadas de frente pra tela  duas silhuetas apenas.
    Misso cumprida.
    S que eu no vejo a cara de Bernie. Tento capt-la nas pessoas na tela.
    E isso a: espero que o Bernie esteja feliz.
    Espero que ele se lembre bem.
    Audrey acompanha de leve a msica do filme, e neste momento ela  minha namorada. Posso fazer de conta.
    Esta  a noite do Bernie, mas eu tambm aproveito pra tirar uma casquinha.
    Ns dois j assistimos a esse filme algumas vezes. Certamente  um dos nossos preferidos. Tem partes que sabemos os dilogos de cor, mas a gente se segura pra 
no falar junto com os personagens. O lance  ficar aqui sentados, s curtindo. Curtimos o cinema vazio, e eu fico curtindo a Audrey. Acho maneirssimo estar aqui 
sozinho com ela.
    "S voc e sua namorada", lembro o Bernie dizendo isso ontem, e me dou conta de que ele realmente merece mais do que ficar sentado na cabine de projeo hoje. 
Falo baixinho pra Audrey:
 Tudo bem se eu chamar o Bernie pra descer e sentar com a gente? Ela me d a resposta que eu j esperava:
     Claro que sim.
    Pulo as pernas dela e me mando pra cabine de projeo l em cima. Encontro o Bernie dormindo, mas o acordo com calma, dando uma cutucada.
     Bernie?
     Hum... oi, Ed  ele tenta vencer o cansao.
 A gente t querendo que voc desa pra assistir ao filme. Ele protesta, se ajeitando na cadeira.
 Ah, no, Ed, eu jamais faria uma coisa dessas. Jamais! Tenho muito o que fazer aqui em cima, e vocs devem ficar sozinhos l embaixo. Voc entende... pra aprontar 
alguma.
 Pra com isso, Bernie! Vamos nessa. A gente ia adorar ter a sua companhia l embaixo.
 No, no, no  ele se mostra inflexvel.  No posso.
    Depois de uns minutos de discusso, eu entrego os pontos e volto l pro cinema. Quando me sento, Audrey pergunta onde ele est.
 Ele no quis incomodar a gente  explico, mas, enquanto eu me ajeito na poltrona, a porta de trs se abre e Bernie est l parado, na luz. Ele desce bem devagar 
em nossa direo e se senta do outro lado da Audrey.
     Que bom que voc veio  ela sussurra.
    Bernie olha pra gente.
 Obrigado  seus olhos exaustos piscam agradecidos, e ele olha pra tela, cheia de vida.
    Talvez uns 15 minutos depois, Audrey encontra minha mo no descanso da poltrona. Ela desliza os dedos nos meus e os agarra. Quando ela me aperta suavemente, 
dou uma olhada pro lado e descubro que ela est segurando na mo do Bernie tambm. s vezes s a amizade da Audrey j me basta. s vezes ela sabe direitinho o que 
fazer.
    A garota sempre age nos momentos mais apropriados.
    Est tudo indo muito bem at que chega a hora de trocar o rolo. Bernie est dormindo de novo. Ns o acordamos.
     Bernie  Audrey fala baixinho, dando uma leve sacudida nele.
    Quando ele acorda, pula da poltrona e grita:
 O rolo!  e sai correndo pelo corredor, e quando eu me viro pra olhar pra cabine de projeo, eu percebo.
    J tem algum l.
 Ei, Audrey. Olha l  e ns nos levantamos e olhamos fixamente pra janela.  Tem algum na cabine de projeo  parece que o ar pra de circular entre a gente 
at que eu finalmente comeo a sair do lugar. Saio batido em direo ao corredor.
    A princpio, Audrey fica sem saber o que fazer, mas logo eu ouo os ps dela atrs de mim. Passo correndo pelo corredor com os olhos atentos  sombra na cabine 
de projeo. A pessoa nos v e comea a se mexer rapidamente. A criatura sai correndo da sala toda desesperada quando estamos bem perto da porta do cinema.
    L no foyer, sinto o cheiro de tenso entre as pipocas murchas e o carpete. O cheiro de algum que veio e saltou fora. Me mando pra porta com a placa "SOMENTE 
PESSOAL AUTORIZADO". Audrey vem atrs.
    Quando chegamos l, a primeira coisa que vejo  o Bernie com as mos trmulas.
    O choque escorre pela sua cara.
    Passa pelos lbios e vai em direo  garganta.
     Bernie?  pergunto.  Bernie?
 Ele me fez uma terrvel surpresa  ele diz.  Quase me derrubou no cho ao sair correndo  ele se senta.  Eu estou bem, Ed  logo, ele aponta pra uma pilha de 
rolos.
     O que , Bernie? O que ?  pergunta Audrey.
     O primeiro rolo de cima  Bernie responde.  No  meu.
    Ele vai at l e o pega. D uma olhada. No rolo tem uma etiqueta pequena com alguma coisa rabiscada. Est escrito: "ED".
     Ser que  pra ns projetarmos isto?
    Fico parado por um tempo, mas digo que sim.
 Melhor ento assistirem l do cinema. Tero uma viso melhor. Antes de ir, fao uma pergunta que acho que Bernie pode responder.
     Por que, Bernie? Por que eles ficam fazendo isso comigo?
    Mas o Bernie s d uma risadinha.
    Ele diz:
     Voc ainda no entende, no  mesmo, Ed?
     Ainda no entendo o qu?
    Ele olha pra mim e suspira, sem pressa pra responder.
 Eles fazem isso porque podem  a voz est cansada, mas firme e verdadeira. Determinada.  Foi tudo planejado h muito tempo. H pelo menos um ano.
     Eles te disseram isso?
     Sim.
     Com essas mesmas palavras?
     Sim.
    Ficamos l parados por uns minutos, pensando, at que o Bernie manda a gente sair.
 Vamos, vamos! Voltem l pra baixo. Vou rodar este rolo em um minuto. De volta ao foyer, eu me encosto na porta, e Audrey fala.
      sempre assim?
   respondo, e ela simplesmente balana a cabea e fica calada,  Melhor a gente ir  digo, e depois de algumas tentativas eu a conveno de voltar pro cinema. 
 T quase acabando  afirmo, e por algum motivo acho que Audrey pensa que eu estou falando do filme.
    Logo eu?
    No penso mais no filme.
    No penso mais em nada.
    S em cartas de baralho.
    S em ases.

  K        O LTIMO ROLO
  ?



  Enquanto descemos pelo corredor, a tela ainda est toda branca.
    Quando a projeo comea, passa uma cena toda escura e vejo os ps de uns caras novos, andando.
    Logo adiante, eles se aproximam de um vulto sozinho na rua.
    E uma rua desta cidade.
    O vulto  de uma pessoa desta cidade...
    Eu paro de descer o corredor.
    Imediatamente.
    Audrey ainda caminha mais um pouco at que ela se vira e me v ali, com os olhos grudados na tela.
    No incio eu s aponto.
    Ento eu digo:
     Aquele ali sou eu, Audrey.
    Na tela, assistimos  filmagem dos irmos Rose junto com os comparsas vindo pra cima de mim na rua e metendo o cacete. Meus dedos se viram e ardem na pele que 
est cicatrizando.
 Sou eu  repito. Desta vez sai bem baixinho, e, perto de mim, os olhos de Audrey se voltam para baixo e choram no escuro do cinema.

A cena seguinte mostra eu saindo da biblioteca, carregando todos aqueles livros. Em seguida mostra as luzes da Estrada da Glria. E s uma filmagem deles sozinhos 
 noite  o poder e a glria. No incio est tudo escuro, at que eles acendem as luzes, e a tela acaba iluminando a sala do cinema. Depois vem uma cena do ciclone 
da varanda, silncio. Vejo minha me praticamente cortando meu rosto com suas palavras dolorosas, at que, bem devagar, saio caminhando quase que pra dentro da cmera. 
Assistimos  caminhada em direo ao cinema da Rua Redoma.
    Por ltimo, vemos umas palavras escritas diretamente no rolo:
    "Tempos difceis para Ed Kennedy. Parabns, Ed! Hora de passarmos adiante."
    E a tela fica preta de novo.
    Toda preta.

Ainda no consigo mexer os ps. Audrey tenta me puxar, mas nem adianta. Fico l parado, com a cara grudada na tela.
 Vamos voltar pras nossas poltronas  ela diz e d pra perceber que est preocupada comigo.  Acho melhor voc se sentar um pouco, Ed.
    Devagar, vou levantando um p e depois o outro.

 Posso voltar a projetar o filme?  Bernie grita pra gente. Audrey olha pra mim com os olhinhos de quem quer saber. Levanto um pouco a cabea e volto a abaix-la, 
fazendo um gesto afirmativo.
     Pode, sim, Bernie  responde Audrey.
    Pra mim ela diz:
     tima idia. Vai te ajudar a esquecer um pouco.
    Por alguns segundos, me d vontade de sair correndo e fazer uma vistoria em todo o cinema, procurando quem foi a pessoa. Quero perguntar pro Bernie se foram 
Daryl e Keith de novo. Quero saber por que disseram aquilo pro Bernie e por que me deixam no escuro.
    S que eu sei que no adianta.
    "Eles fazem isso porque podem."
    Essas palavras se projetam na minha cabea algumas vezes, e eu sei que estou exatamente onde era pra eu estar. Para o naipe de espadas, esta  a prova final 
na qual preciso me sair bem. Temos que ficar.
    Quando comea a projeo, fico aguardando a famosa cena em Rebeldia Indomvel, quando Luke enfim enfraquece e todos o abandonam. "Onde vocs esto agora?", espero 
ele gritar logo, logo, de sua cama.
    Enquanto voltamos pras nossas poltronas, Luke comea a se arrastar pela tela, completamente desesperado. Ele se vira e cai perto da cama. "Onde vocs esto agora?", 
ele pergunta baixinho.
    Onde vocs esto agora?, eu pergunto e me viro, na esperana de ver um vulto parado em algum canto do cinema. Imagino sentir alguns passos pelo cho, atrs da 
gente. Viro a cabea pra olhar. O cinema est lotado, s que as poltronas esto vazias. Em cada espao escuro que vejo, acho que localizei algum, porm a escurido 
aumenta cada vez mais e  tudo o que h mesmo: escurido.
     O que foi, Ed?  Audrey pergunta.
 Eles esto aqui  respondo, embora eu no tenha certeza de nada. Foi o que aprendi com essa experincia.  Eles tm que estar  mas, quando meus olhos rastreiam 
todo o cinema, no vejo nada. Se estiverem aqui, no consigo ver ningum.
    Logo, eu me dou conta.
    Eu me dou conta, quando estamos voltando pras nossas poltronas, que eles no esto aqui agora  mas estiveram.
    Estiveram aqui, sim, pois bem ali na minha poltrona encontro um s de copas.
    "Onde vocs esto agora?", Luke grita na tela, e quem responde so meus batimentos cardacos. As batidas me chacoalham todo por dentro como se fossem as batidas 
de um sino. O negcio incha e inflama quando engulo.
    Pego a carta e a seguro na mo.
     Copas  digo baixinho.
     onde estou.

Sinto uma tentao danada pra ler o que est na carta, mas consigo me segurar e assistir ao resto do filme, segurando a danada na mo. Assisto ao filme.
    Assisto  Audrey e curto o momento, ou pelo menos o que restou dele. Na mo, quase d pra sentir a pulsao da carta cheia de coraes, enquanto ela fica ali, 
s esperando.







PARTE     QUATRO




      A MSICA DOS CORAES




  A        A MSICA DOS CORAES
  ?


  Na minha cabea, toca uma msica vermelha e preta. E a manh seguinte. A manh do s de copas. Eu o sinto como se fosse uma ressaca.

Depois de checar se est tudo bem com o Bernie (ele estava dormindo quando o deixamos na cabine de projeo), caminhamos de volta pela Rua Redoma e penetramos na 
noite. Estava quente e mido, e a nica pessoa por ali era um cara novo, virado pro outro lado. Estava sentado num banco velho e descascado.
    A princpio, eu estava atordoado, com a cabea girando, s pensando no que tinha acontecido, e quando eu me virei, pra ver o cara de novo, ele no estava mais 
l.
    Tinha desaparecido.
    Audrey fez uma pergunta, mas eu no consegui escutar. Sua voz estava na periferia do barulho infernal dentro dos meus ouvidos. No incio fiquei sem saber o que 
era, mas, ento, tive certeza. Eram coraes vermelhos e palavras pretas, batendo.
    O som de copas; o som dos coraes.
    Eu sabia que aquele rapaz era o que tinha sido enviado ao cinema.
    Talvez ele pudesse ter me levado at a pessoa que est enviando as cartas.
    Talvez muitas coisas.
 medida que caminhamos, o barulho dentro dos meus ouvidos diminuiu. Os passos e a voz de Audrey ficaram claros novamente.

Agora j amanheceu e estou ouvindo aquele som de novo.
    A carta est no cho.
    Porteiro est deitado perto dela.
    Fecho os olhos, mas tudo est vermelho e preto.
    Esta  a ltima carta, digo a mim mesmo, mas eu me viro e caio no sono de novo, apesar da msica dos coraes batendo na minha cama.

Sonho que estou correndo.
    Num carro.
    Com Porteiro no banco da frente.
    Isso deve ser por causa do cheiro dele perto da cama.
    E um sonho bonito, tipo fim de filme americano, onde o protagonista e sua garota saem dirigindo pelo resto do mundo.
    S tem uma coisa: estou dirigindo sozinho.
    Sem garota nenhuma.
    S eu e Porteiro.
    A tragdia  que, enquanto durmo, eu acredito. Acordar  um choque dos diabos, porque no estou mais na estrada. Estou em casa, isso sim, onde Porteiro ronca, 
com a perna traseira esticada por cima da carta no cho. No d pra pegar a carta agora nem por um decreto. No gosto de mexer no Porteiro quando ele est dormindo.
    Na minha gaveta, as outras cartas agora aguardam a chegada da ltima.
    Cada uma delas est de certa forma completa.
    S mais uma, penso, e me ajoelho na cama, enterrando a cabea no travesseiro.
    No rezo, mas chego perto disso.

Quando eu me levanto, viro Porteiro e leio a carta de novo. As letras pretas so as mesmas que aparecem nas outras cartas. Desta vez, aparecem os seguintes ttulos:
A Mala
Dvida de Sangue
A Princesa e o Plebeu

    Tenho quase certeza de que so todos ttulos de filmes, embora eu no tenha visto nenhum. Lembro que A Mala  bem recente. No teria estado em cartaz no cinema 
da Rua Redoma, mas tenho certeza de que rodou em um daqueles cinemas obscuros mas populares na cidade. Lembro que vi uns cartazes. Era um remake espanhol, se no 
me engano  uma comdia de gngster, cheia de matadores profissionais, balas e uma mala cheia de francos suos roubados. No conheo os outros dois filmes, mas 
sei quem pode me ajudar nessa.
    Estou pronto pra comear, mas, nos poucos dias que faltam pro Natal, permito que o trabalho atrapalhe. Essa poca  sempre movimentada, ento tiro uns servios 
extras e rodo uma porrada de noites. Guardo o s de copas no bolso da camisa. A carta vai comigo pra todos os lados, e no vou largar dela enquanto no terminar 
tudo.
    Mas ser que isso vai ter um fim?, eu me pergunto. Ser que esse negcio vai largar de mim? Eu j sei que tudo isso vai ficar comigo pra sempre. Vai me assombrar, 
mas o meu medo  que acho que vou ficar grato. Digo medo porque s vezes eu realmente no quero que isso vire uma lembrana bacana antes da concluso. Tambm tenho 
medo de que, no fim, nada disso acabe. Enquanto a memria conseguir meter o machado numa parte macia e entrar na mente, as coisas continuaro aqui.

Pela primeira vez depois de anos, eu dou cartes de Natal.
    A nica diferena  que no dou cartes com Papai Noel nem rvores de Natal. Pego algumas cartas velhas de baralho e tiro os ases. Escrevo uma notinha na carta 
para cada lugar que visitei, coloco-a num pequeno envelope e escrevo "Feliz Natal. Ed." At mesmo para os irmos Rose.
    Numa noite, antes de ir trabalhar, passo nos endereos para deixar as cartas e, na maioria dos lugares, consigo que ningum me veja. Quando passo na Sophie, 
acabo sendo visto e devo confessar: eu meio que queria que ela me visse mesmo.
    Por algum motivo, sinto um lance especial por Sophie. Talvez uma parte de mim a ame porque ela  a eterna corredora derrotada, igualzinho a mim. Mas eu tambm 
sei que  mais do que isso.
    Ela  linda.
     o jeitinho dela.
    Quando coloco o envelope na sua caixa de correio, eu me viro e saio andando, como fao em todos os outros lugares, mas sua voz me encontra l de cima, da janela.
     Ed?
    Quando eu me viro, ela pede pra eu esperar e rapidinho aparece na porta da frente. Ela est com uma camiseta branca e um short azul de corrida. O cabelo est 
preso pra trs, mas a franja flutua pelo rosto.
     S passei pra te deixar um carto de Natal.
    De repente, sou tomado por uma estupidez e comeo a me sentir esquisito, ali parado na entrada da garagem.
    Ela abre o envelope e l o carto.
    Pra ela, escrevi uma coisinha a mais, embaixo dos diamantes que representam o naipe de ouros.
    "Voc  linda", escrevi, e vejo lgrimas se formarem nos seus olhos quando eles vem o que est escrito.  o que eu disse no dia dos ps descalos e do sangue 
no corredor esportivo.
 Obrigada, Ed  ela diz olhando fixamente pra carta.   a primeira vez que recebo um carto assim.
  que acabaram os estoques dos cartes com Papai Noel e rvores de Natal.  meio esquisito entregar as cartas a essas pessoas. Elas nunca sabero de verdade o 
significado disso, e em alguns casos no faro a menor idia de quem diabos  esse tal de Ed. No fim, decido que no importa, e me despeo da Sophie.
     Ed?
    J estou no txi e abaixo a janela.
     Oi, Sophie?
    Ela diz com toda educao:
 Eu gostaria de saber o que eu poderia te dar. Voc j me deu tanto...  Eu no te dei nada, Sophie.
    Mas ela me conhece bem.
    Nada foi uma caixa de sapatos vazia, mas jamais a trocaramos.
    Ns dois sabemos.
    O volante est quente, e eu vou embora.
    A ltima carta que entrego  pro padre O'Reilly, que parece estar dando uma festa em casa pra todos os casos perdidos da rua. Aqueles caras que tentaram malocar 
minha jaqueta e meu dinheiro e cigarros imaginrios esto l, todos comendo sanduches de salsicha cheios de molho e cebola.
 Olha s  um deles aponta pra mim. Acho que  o Joe.   o Ed!  ele tenta encontrar o padre.  Ei, padre!  ele chama, cuspindo metade do sanduche com as palavras. 
 O Ed t aqui.
    Padre O'Reilly vem correndo e diz:
 E aqui est ele: o homem que fez toda a diferena no ano. Tenho tentado ligar pra voc.
     Ando meio ocupado, padre.
 Ah, sim  ele balana a cabea.  A sua misso  ele me puxa pro lado e diz:  Eu s quero lhe agradecer mais uma vez, Ed.
    Sei que eu deveria me sentir bem com isso, mas no  o que acontece.
 No vim aqui pra receber agradecimentos, padre. S vim trazer um cartozinho bem simples pro senhor.
     Mesmo assim eu agradeo, garoto.
    Estou meio pra baixo por causa do meu ltimo s.
    Justamente o de copas ficou por ltimo.
    Eu estava esperando espadas.
    Peguei copas e, por alguma razo, este parece o mais perigoso de todos.
    O naipe  de coraes, cara, saca? Tem gente que morre de mgoa, um troo que afeta o corao. Uma porrada de gente morre de ataque cardaco. E  o corao que 
mais di quando as coisas do errado e se desmoronam.
    Quando volto pra rua, o padre sente minha apreenso e diz:
     Ainda no acabou, no  mesmo?
    Ele sabe que ele foi apenas uma parte do que eu tenho que fazer. Apenas uma mensagem.
     No, padre. Ainda no acabou.
     Vai dar tudo certo  ele me diz.
 No, no vai. No vou estar bem s por estar. Nunca mais.
     verdade.
    Vou ter que fazer muito por merecer estar bem um dia.
    A carta ainda est no meu bolso quando desejo ao padre um feliz Natal e saio pela noite. Sinto o s de copas balanando dentro do bolso. Ele se inclina pra frente, 
tentando se aproximar do ar e do mundo que eu tenho que enfrentar.
 Para onde?  pergunto  primeira pessoa que pego no dia seguinte, mas no ouo a resposta. S consigo ouvir o som dos coraes de novo, gritand0o, esbravejando 
e batendo nos meus ouvidos.
    Mais rpido.
    Mais rpido.
Nada de motor.
    Nada de tique-taque do letreiro luminoso, nada de voz de passageiro, e nada de chiado do trnsito. Somente os coraes.
    No meu bolso.
    Nos meus ouvidos.
    Na minha cala.
    Na minha pele. No meu hlito.
    Esto bem no meu interior.
     Somente coraes  digo.  Por todos os lados.
    S que minha passageira no faz a menor idia do que eu estou falando.
     Pode me deixar aqui  ela diz.
    Ela tem uns 40 anos, usa um desodorante que tem cheiro de incenso adocicado e uma maquiagem da cor das rosas. Quando ela me d a grana, fala, olhando pra mim 
pelo espelho.
     Feliz Natal.
    A voz dela tem o som dos coraes.

  2        O BEIJO,
  ?        O TMULO, O FOGO



  Comprei tudo que preciso comprar. Mais birita do que comida,  claro, e quando todo mundo aparece pra vspera de Natal, encontra minha casa com cheiro de peru, 
salada de repolho e,  claro, de Porteiro. Por um tempo, o cheiro do peru consegue se destacar, mas o fedor desse cachorro supera qualquer coisa.
    A primeira a chegar  a Audrey.
    Ela traz uma garrafa e uns brioches que ela mesma fez.
 Desculpa, Ed, no vai dar pra ficar muito tempo  ela me diz ao entrar. Logo em seguida me d um beijo no rosto.  O Simon tem um lance com os amigos, e ele quer 
que eu v.
 Voc quer ir?  pergunto, embora saiba que ela quer. Por que iria preferir ficar com trs otrios e um cachorro imundo? S se fosse doida.
    Audrey responde:
 Claro que sim. Voc sabe muito bem que eu no faria nada que eu no tivesse a fim de fazer.
     Isso  verdade  respondo. E  mesmo.
    Comeamos a beber quando o Ritchie chega. Ouvimos a moto dele se aproximar l do incio da rua, e, quando pra, ele nos chama pra abrir a porta. Est trazendo 
um isopor cheio de camaro daqueles bem grandes, salmo e limo fatiado.
 Nada mau, hein?  ele larga o isopor.   o mnimo que eu podia fazer.
     Como voc conseguiu trazer?
     O qu?
     O isopor. Como conseguiu trazer o isopor na moto?
 Ah, sim. Eu o prendi nas costas. Vim praticamente em p o tempo todo. O isopor ocupou metade do assento  Ritchie pisca pra gente, com um ar de generosidade.  
Mas valeu a pena.
    O cara deve ter gasto metade do seguro-desemprego no contedo daquele isopor. Agora a gente espera.
    Pelo Marv.
 Quer ver s como ele no vem?  Ritchie aposta depois de se acomodar. Ele passa a mo nos pentelhos speros da cara, e o cabelo ensebado est mais sujo do que 
nunca. A expresso que se destaca em seu rosto  de alegria. Ele no v a hora do lance acontecer. Sentado no sof tomando uma cervejinha, ele relaxa os ps em Porteiro. 
 um preguioso, o Ritchie, deitado ali de pernas esticadas, todo confortvel. De alguma forma, ele parece bem ali.
 Ah, ele vem, sim  garanto.  Seno, vou arrastar o Porteiro at a casa dele e fazer com que ele d o beijinho l mesmo  largo o copo.  Tem muitos anos que no 
me sinto to empolgado com o Natal.
     Eu tambm  responde Ritchie.
    Ele mal consegue esperar.
 Alm do mais, tem comida de graa  continuo.  O Marv pode ter 40 mil no banco, s que mesmo assim ele no perde uma boca-livre nem a pau. Pode crer. Ele vem, 
sim.
 ta mo-de-vaca dos infernos  diz Ritchie. Isto sim  que  o esprito natalino mais puro.
     Ser que devemos ligar pra ele?  sugere Audrey.
 No. Deixe que ele venha at a gente  Ritchie d um sorriso maldoso, e eu s sacando. Essa vai ser tima. Ele olha pro cachorro e diz:  T animado, Porteiro?
    Porteiro olha pra cima como se dissesse: De que porra que tu t falando, companheiro? Ningum disse pra ele o que ainda est por ocorrer esta noite. Coitado. 
Ningum perguntou pra ele se estava tudo bem.
    Finalmente, chega Marv de mos vazias.
     Feliz Natal  ele diz.
 T, t, pra voc tambm  respondo. Aponto ento pras mos vazias.  Putz, vai ser generoso assim l no inferno, moleque.
    Mas eu sei como o Marv pensa.
    Ele decidiu que, se tem que beijar Porteiro,  mais do que o suficiente este ano. Garanto que ele ainda est pedindo a Deus para que a gente tenha esquecido 
do lance.
    S que o Ritchie sai logo destruindo qualquer esperana.
    Ele se levanta e diz:
     E a, Marv?  ele est sorrindo.
     E a o qu?
     Voc sabe  Audrey se junta ao papo.
     No sei, no  Marv insiste.
 Ah, no venha com essa merda pra cima da gente  Ritchie j vai colocando ordem.  Voc sabe, sim. Ns sabemos  ele est se divertindo com a histria. S falta 
esfregar as mos de prazer.  Marv  ele anuncia.  Tu vai beijar esse co  ele aponta pro Porteiro.  E o pior, tu vai gostar, meu irmo. Tu vai fazer isso com 
um baita sorriso na cara, seno a gente vai te forar a fazer vrias vezes.
 T bem  Marv responde todo puto. Parece at um menininho contrariado.
     Um beijinho na cabea, certo?
 Ah, no!  Ritchie reclama. Ele se levanta, curtindo cada minuto disso tudo.
 Acho que o acordo foi que voc ia beijar o co bem na boquinha e  exatamente l que voc vai beijar  ele aponta pro Marv.
    Porteiro levanta a cabea,
    Ele parece desconfortvel com todos ns ali olhando pra ele.
     Coitado de voc  diz Ritchie.
    Marv se queixa:
     Coitado de mim, mesmo.
 No, cara  Ritchie discorda.  Coitado dele!  e joga a cabea em direo ao cachorro.
 Agora chega  diz Audrey.  Agora nada de gracinha que o negcio  srio  ela me passa minha cmera.  Vamos l, Marv. Ele  todo seu.
    Com o peso do mundo nos ombros, Marv se abaixa horrorizado e finalmente consegue se aproximar da cara do Porteiro. Porteiro olha to nervoso que at chora  
plo preto e dourado e olhos cheios de lgrimas.
 Ele precisa colocar a lngua pra fora desse jeito?  Marv me pergunta.
     Ele  cachorro  respondo.  Que mais voc espera dele?
    Extremamente infeliz e contrariado, Marv acaba dando o beijinho. Ele se inclina e beija o focinho de Porteiro, bem rpido, mas dando tempo suficiente pra eu 
tirar uma foto e pra Audrey e Ritchie comemorarem, baterem palmas e carem na gargalhada.
 T vendo s? At que no foi to difcil, foi?  diz Ritchie, mas Marv j sumiu, foi correndo pro banheiro.
    Coitado do Porteiro.
    Eu mesmo vou l e dou-lhe um beijinho na testa e um pedao bem caprichado de peru.
    Valeu, Ed, ele sorri.
    Porteiro tem um sorriso bacana.

Mais tarde conseguimos fazer com que o Marv relaxe e ria um pouco, embora ele fique reclamando de estar com gosto de Porteiro nos lbios.
    A gente come, bebe, joga, at que uma batida na porta anuncia a chegada do namorado. Ele bebe um pouco com a gente e come uns camares. E um cara maneiro, decido, 
mas s de olhar eu j sei. Audrey no o ama.
    Acho que  isso.

Depois que Audrey se vai, resolvemos no ficar ali bebendo e lamentando. Ritchie, Marv e eu comemos, bebemos e samos perambulando pela cidade. L no incio da rua 
principal, tem uma fogueira iluminando tudo, e  pra l que vamos.
    Por um tempo,  difcil andar direito, mas, quando chegamos l, j estamos bem sbrios.
    Est fazendo uma noite bacana.
    Tem gente danando.
    Falando alto.
    Algumas pessoas esto brigando.
    Natal  sempre assim. A tenso do ano inteiro vem  tona.
    Na fogueira, vejo Angie Carusso com os filhinhos, ou melhor, eles  que se aproximam de mim.
    Sinto uma batidinha na perna e, quando olho pra baixo, vejo um dos meninos. O choro.
     Oi, moo!  ele diz.
    Quando eu me viro, vejo Angie Carusso segurando um sorvete. Ela me oferece e diz:
     Feliz Natal, Ed. Eu aceito.
     Obrigado. Eu tava precisando mesmo de um sorvete.
     s vezes todo mundo precisa.
    A felicidade que ela sente em poder retribuir um favor fica estampada na cara. Dou uma lambida e pergunto:
     Como voc est, Angie?
 Ah...  ela olha pras crianas e de volta pra mim.  Estou sobrevivendo, Ed. s vezes isso s j basta  ela se lembra de alguma coisa.  Ah, e antes que eu me 
esquea, obrigada pelo carto.
    E ento, aos poucos, Angie vai se afastando com as crianas.
 No precisa agradecer  eu grito pra ela.  Divirta-se e aproveite a noite!
     Curta o sorvete  ela responde e sai contornando a fogueira.
     O que foi isso?  pergunta Marv.
     Ah,  s uma conhecida.
    E a primeira vez que ganho um sorvete de Natal.
    Ali parado, olhando a fogueira, deixo o friozinho doce encharcar meus lbios.
    Atrs de mim, ouo um pai conversando com o filho.
 Se voc fizer isso novamente, vou te meter um tabefe to grande que voc vai parar na fogueira  e a voz dele amolece, de ironia.  E no queremos que isso acontea, 
no  mesmo? Papai Noel no vai gostar nada disso, certo?
    Marv, Ritchie e eu achamos aquilo interessante.
 Aaaahh...  Ritchie suspira todo feliz.  Isto, sim,  Natal. Todos ns ouvimos aquilo de nossos pais. Pelo menos uma vez.
    Penso no meu velho, morto e enterrado. Este  o primeiro Natal que passo sem ele.
  Feliz Natal, pai  digo e mantenho os olhos longe da fogueira. O sorvete derrete nos meus dedos.

A noite avana, dando lugar  manh de Natal, e eu, Marv e Ritchie vamos nos separando. A multido aumenta e, depois que a gente se perde um do outro, acaba a festa.
    Volto andando pelas ruas e dou uma passada no cemitrio pra visitar o tmulo do meu pai, onde fico um tempo. Do cemitrio, vejo o brilho da fogueira, e eu me 
sento l, olhando pra lpide onde est escrito o nome do meu pai.
    Eu chorei no velrio.
    Deixei as lgrimas encharcarem minha cara num silncio total, com um baita peso na conscincia por no poder sequer arranjar coragem pra falar sobre ele. Eu 
sabia que todos ali estavam s pensando que ele era um pinguo, enquanto eu me lembrava das outras coisas tambm.
     Ele era um cavalheiro  falo baixinho agora.
    Que pena que no disse isso um dia, penso, pois meu pai nunca falou mal de ningum, nem agiu de forma grosseira.  bem verdade que ele no chegou a lugar nenhum 
e desapontou minha me com promessas no cumpridas, mas acho que ele merecia que algum da famlia dissesse umas palavrinhas naquele dia.
 Me perdoe  digo pra ele agora, enquanto me levanto pra ir embora.  Me perdoe, meu pai.
    E vou embora, com medo.
    Com medo, porque no quero que meu prprio funeral seja assim, triste e vazio.
    Quero que algum diga algumas palavras no meu velrio.
    Mas acho que isso significa que o cara precisa de vida em sua vida.
    E agora caminho.

S caminho.

Quando chego em casa, encontro o Marv dormindo no banco de trs de seu carro e Ritchie sentado na varanda. Ele est com as pernas esticadas pra fora e o corpo recostado 
na parede. Quando olho mais de perto, vejo que ele tambm est dormindo. Dou um puxo na manga de sua camisa.
 Ritchie  falo bem baixo.  Acorda, cara. Ele abre os olhos numa porrada s.
     Qu?  ele pergunta todo apavorado.  O qu?
 C t dormindo na minha varanda, maluco. Melhor ir pra casa. Ele se sacode pra despertar, olha pra meia-lua e diz:
     Deixei as chaves na mesa de sua cozinha.
     Venha.
    Abaixo a mo pra ele segurar e se levantar.
    L dentro, vejo que so trs e pouquinho da manh.
    Ritchie pega as chaves com os dedos.
     Quer comer ou beber alguma coisa? Tipo um caf?  ofereo.
     No, valeu.
    Mas tambm ele no vai embora.
    Por um instante, ficamos ali parados, sem graa, at que finalmente Ritchie olha pra mim e diz:
     No t a fim de ir pra casa hoje, Ed.
    Percebo uma ponta de tristeza em seus olhos, mas logo passa, assim que ele vai relaxando. Ele s olha pras chaves, e eu fico me perguntando o que se espreita 
sob o exterior tranqilo e calmo de meu amigo. Morto de cansao, fico me perguntando o que poderia incomodar algum to sossegado e preguioso como o Ritchie.
    Ele arrasta os olhos de novo pra mim.
 Claro, velho. Pode ficar por aqui hoje. Ritchie se senta  mesa.
     Valeu, Ed. Ei, Porteiro.
    Porteiro entrou na cozinha enquanto fui buscar o Marv.
    Por um instante tenho vontade de deix-lo no carro, mas o esprito natalino consegue ter efeito at mesmo num cara como eu. Tento bater na janela, mas minha 
mo atravessa a danada.
     claro.
    No tem janela nenhuma.
    Marv ainda no consertou essa droga desde o assalto l no banco. Acho que ele fez um oramento, mas o cara disse que a janela ia acabar saindo mais cara do que 
o carro.
    Ele dorme com a cabea nas mos, e os mosquitos esto fazendo fila pra chupar seu sangue.
    A porta da frente no est trancada, ento eu a abro e aperto a buzina sem d nem piedade.
     Meu Deus!  Marv grita.
     Vamos l pra dentro, Marv.
    Logo depois, ouo a porta do carro abrir e fechar numa porrada e seus ps se arrastando atrs de mim.
    Ritchie fica com o sof, Marv fica na minha cama, e eu resolvo ficar na cozinha. Digo pro Marv que no conseguiria mesmo dormir, e ele aceita a cama com todo 
gosto.
     Valeu, Ed.
    Antes de ele entrar, aproveito pra ir l no quarto e tirar todas as cartas da gaveta ao lado da cama. A pedrinha dos Tatupu tambm est l.
    Na cozinha, dou uma olhada nelas, lendo tudo de novo, embora a vista cansada faa com que as letras dancem na minha frente. Me sinto um caco.
    Em alguns momentos de lucidez, eu me lembro do s de ouros, revivo o s de paus e at rio do s de espadas.
    Estou preocupado com o de copas.
    No quero dormir pra no ter que sonhar com os coraes...

  3        O TERNO ESPORTE
  ?



  Tradio pode ser at um palavro, sobretudo na poca do Natal.
    As famlias em todo o mundo se renem e curtem a companhia uns dos outros por alguns minutos. Por uma hora, eles se toleram. Depois disso, s tentam suportar 
uns aos outros.
    Dou uma passada na casa da minha me depois de uma manh montona com Ritchie e Marv. Tudo que fizemos foi comer os restos da noite anterior e jogar umas partidas 
de Porre. No foi a mesma coisa sem a Audrey, e no demorou muito pra gente arrumar as coisas e prs caras darem o fora.
    Minha famlia geralmente se encontra ao meio-dia na casa de minha me. E esse o programa.
    Minhas irms esto l com os filhos e maridos, e o Tommy apareceu com uma garota linda que ele conseguiu conquistar na faculdade.
 Esta  Ingrid  ele apresenta, e vou dizer que Ingrid podia at posar pra revistas. Ela tem um cabelo comprido, castanho, um rosto lindo, bronzeado, e um corpinho 
no qual eu me deixaria derreter todo.
 Muito prazer  ela diz. E, pra completar, ela ainda tem uma voz encantadora.  Tommy j falou muito de voc, Ed   claro que  mentira, e decido no engolir. 
Este ano, eu simplesmente no tenho fora pra isso.
    Ento respondo:
 Falou nada, Ingrid  mas digo isso com um tom simptico. Quase tmido. Ela  bonita demais pra me aborrecer. Garotas bonitas matam e ainda se safam na boa.
     Ah, voc veio  minha me diz quando me v.
 Feliz Natal, me!  grito todo animado e aposto como todos perceberam o sarcasmo na minha voz.
    Comemos.
    Trocamos presentes.
    Brinco com os filhos da Leigh e da Katherine, pendurando os moleques nos ombros, brincando de aviozinho, de cavalinho, at no agentar mais e mal conseguir 
me levantar.
    Pego o Tommy passando a mo na Ingrid, na sala de visitas. Bem perto da famosa mesinha de cedro.
     Puta merda, foi mal, pessoal  e saio batido da sala.
    Boa sorte pra ele.

So quinze pras quatro e est na hora de ralar e pegar a Milla. Beijo minhas irms, aperto as mos dos cunhados e me despeo da crianada.
 ltimo a chegar, primeiro a sair  diz minha me, soltando fumaa de cigarro. Ela fuma  beca no Natal.  E  o que mora mais perto.
    O comentrio quase que me faz perder a cabea e falar umas boas pra ela. A mulher chifra meu pai, penso. E ainda me insulta o tempo todo. Fico com uma baita 
vontade de abrir o verbo com essa mulher ali parada na cozinha, contaminando o ar com a fumaa que expele dos pulmes. S que eu me controlo e s olho pra ela. Falo 
entre a nvoa quente.
 Voc fica horrorosa fumando  digo e saio, deixando a velha abandonada entre a nvoa.

L na grama da frente, quando estou saindo, ouo me chamarem duas vezes. Primeiro  o Tommy e depois  a minha me. Tommy sai de casa e pergunta:
     T tudo bem com voc, Ed?
    Eu volto e respondo:
 T tudo bem, Tommy. Foi um ano muito doido, mas eu t bem. E voc?
    A gente se senta nos degraus da escada da frente, metade dos quais est na sombra, e a outra metade, toda iluminada pelo sol. Obviamente, eu fico na parte da 
sombra e o Tommy se senta na luz. Mais simblico do que isso, impossvel.
    Pela primeira vez no dia eu me sinto bem, conversando ali com meu irmo, trocando perguntas e respostas rpidas.
     T tudo bem na faculdade?
     T, as notas esto boas. Melhores do que eu esperava.
     E a Ingrid?
    Paira um silncio geral, at que no d mais pra se segurar. A gente se rende e cai na gargalhada. Parece bem coisa de moleque, mas eu dou os parabns pr ele, 
e ele se parabeniza.
 At que ela no  m  ele diz, e, com toda sinceridade, eu digo ao meu irmo que tenho orgulho dele, e no  pela Ingrid. A Ingrid no significa nada comparada 
ao que estou me referindo.
 Que bom pra voc, Tommy  apoio a mo nas costas dele e me levanto.  Boa sorte, maninho.
    Quando estou descendo as escadas, ele diz:
     Depois eu te dou uma ligada pra marcar alguma coisa.
    S que, mais uma vez, no d pra engolir essa. Eu me viro com uma tranqilidade que surpreende at a mim.
 Duvido muito que voc ligue pra mim, Tommy. Que sensao boa! E bacana emergir das mentiras.
    Tommy concorda.
     Voc tem razo, Ed.
    Ainda somos irmos, e quem sabe? Talvez um dia. Tenho certeza de que um dia a gente vai se encontrar, se lembrar e falar sobre uma porrada de coisas. Coisas 
maiores do que a faculdade e a Ingrid.
    S que ainda vai levar um tempo.
    Por enquanto, vou cruzando a grama do jardim e digo:
 Tchau, Tommy. Obrigado por vir falar comigo  e estou satisfeito apenas com uma coisa:
    Eu queria ficar na varanda com ele at o sol brilhar sobre ns dois, mas no fiquei. Eu me levantei e desci as escadas. Prefiro correr atrs do sol a esperar 
que ele venha incidir sobre mim.

Quando o Tommy entra, quem sai  minha me.
     Ed!  ela me chama.
    Olho pra ela.
    Ela se aproxima de mim e diz:
     Feliz Natal, t?
 Pra senhora tambm. Sabe, me,  a pessoa que conta, no o lugar. Se a senhora tivesse sado daqui, teria sido a mesma em qualquer outro canto   bem verdade 
mesmo, mas no consigo parar agora.  Se um dia eu sair deste lugar...  engulo saliva.  Vou tentar primeiro ser uma pessoa melhor aqui.
 Ok, Ed  ela fica atordoada, e eu sinto pena desta mulher parada na varanda de uma rua pobre em uma cidade qualquer.  Tudo bem.
     Tchau, me.
    E vou embora.
    Eu tinha que fazer aquilo.

Dou uma passada em casa pra beber alguma coisa e vou pra casa da Milla. Quando chego l, ela est toda ansiosa esperando, com um vestido leve azul-claro e segurando 
um presente. Mal consegue disfarar a empolgao.
  pra voc, Jimmy  ela me d uma caixa bem grande e fina. Eu me sinto meio mal, pois no trouxe nada pra ela.
 Me perdoe  comeo a me desculpar, mas ela rapidinho me cala com a mo.
 J me basta o fato de voc voltar pra mim. Voc no vai abrir?
     No, vou esperar.
    E ofereo o brao  velhinha. Ela segura e samos, rumo  minha casa. Pergunto se devemos pegar um txi, mas ela est feliz em caminhar, e, na metade do caminho, 
fico na dvida se ela vai conseguir chegar. Ela tosse forte e respira com dificuldade. Eu me imagino tendo que carreg-la. Mas ela consegue, e, quando chegamos, 
eu sirvo um vinhozinho pra ela.
     Obrigada, Jimmy.
    Ela se afunda na poltrona e apaga quase que de imediato.
    Vrias vezes dou uma checada pra ver se ainda est viva, mas sempre escuto sua respirao.
    Acabo ento me sentando na sala com ela enquanto o dia morre l fora da janela.
    Quando ela acorda, comemos peru da noite passada e um pouco de salada de feijo.
     Maravilhoso, Jimmy  a velhinha vibra.  Maravilhoso.
    Seu sorriso estala.
    Em circunstncias normais, eu preferiria dar um tiro em algum que use a palavra "maravilhoso", s que combina muito bem com a Milla. Ela passa o guardanapo 
na boca, sussurra "maravilhoso" vrias vezes, e tenho ento a sensao de que o Natal est completo.
    Com um ar mais disposto depois da soneca, Milla bate nos braos da poltrona e pede:
     Abra seu presente, Jimmy.
    Eu ento obedeo.
     Claro.
    Vou at a caixa embrulhada e levanto a tampa. Dentro, tem um terno esporte preto e uma camisa azul-marinho. Provavelmente  o primeiro e ltimo terno que ganho 
na vida.
     Gostou?  ela pergunta.
  lindo  eu me apaixono pelo terno na hora, mesmo sabendo que vai ser muito ruim arranjar uma oportunidade pra us-lo.
     Coloque-o, Jimmy.
 Vou colocar  respondo.  J vou  e, depois que vou pro quarto, procuro um velho par de sapatos pretos pra combinar. Graas a Deus o terno no tem daqueles ombros 
superlargos. Fico todo empolgado pra voltar pra sala e mostrar  Milla como ficou, mas quando chego l, ela est dormindo de novo.
    Ento eu me sento. Com o terno no corpo.
    Quando acorda, a velhinha diz:
 Nossa, que terno lindo, Jimmy  e passa a mo pra ver qual  o tecido.  Onde voc conseguiu esta beleza?
    Por um instante fico meio confuso, e ento a ficha cai: ela se esqueceu completamente. Dou ento um beijinho em seu rosto.
     Uma linda mulher me deu de presente.
    A velhinha est maravilhada. Que velhinha maravilhosa!
     Est muito bem em voc!
     T mesmo  concordo.
    Ela tem razo.

Depois de tomarmos um cafezinho, chamo um txi e a acompanho ate sua casa. E o motorista  nada mais, nada menos que Simon, o "namorado", ganhando um extra na bandeira 
dois no Natal.
    Antes de sair do txi e acompanhar a Milla at sua casa, peo pro Simon esperar.  pura preguia, eu sei, mas estou com grana hoje e d pra voltar de txi.
 Bem, mais uma vez obrigada, Jimmy  Milla agradece e caminha trmula pra cozinha. Ela  to frgil, mas, mesmo assim, to linda.  Foi um timo dia  ela completa, 
e eu s concordo. Foi mesmo. Eu me dou conta de que o tempo todo fiquei pensando que estava fazendo um favor a esta velhinha, passando o dia de Natal com ela.
    Quando estou saindo de sua casa, usando o temo preto, percebo que  o contrrio. Eu sou o privilegiado, e a velhinha sempre ser maravilhosa.
 Te deixo em casa?  o "namorado" pergunta quando volto pro txi.
     Sim, por favor.
    Vou no banco da frente, e o "namorado" puxa conversa. Pro meu azar, infelizmente ele parece estar a fim de falar sobre a Audrey.
 Quer dizer ento que voc j  amigo da Audrey h muitos anos? Olho pro painel.
     Provavelmente mais do que anos.
     Voc a ama?  ele pergunta.
    A franqueza do cara me pega de surpresa, ainda mais assim de cara, logo no incio do papo. Chego  concluso de que ele sabe que a corrida  bem rpida. Quer 
maximizar os resultados logo.
    Ento pergunta de novo:
     E a?
     E a o qu?
 Ah, pra de palhaada, Kennedy. Voc ama a garota ou no?
     O que voc acha?
    Ele esfrega o queixo e no diz nada, da eu continuo.
 No  exatamente isso que voc quer saber. A questo aqui no  se eu a amo, mas si ela te ama  minha voz o espanca. Eu parto pra cima do coitado.  N, no?
 Bem...  o cara hesita enquanto dirige, e acho que ele merece pelo menos algum tipo de resposta.
 Ela no quer te amar, cara  digo.  Ela no t a fim de amar ningum. A vida endureceu a Audrey. Ela acabou odiando as nicas pessoas que amou  comeo a lembrar 
algumas cenas de nossa infncia. Ela enfrentou muita mgoa e jurou que a coisa ia mudar. No ia mais deixar que ningum ferrasse com ela.
    O "namorado" no diz nada. Percebo que ele  um cara pintoso. Mais pintoso do que eu. Tem os olhos maneiros e queixo quadrado. Com os plos no rosto ento, fica 
at parecendo modelo de revista.
    Ficamos no maior silncio at chegarmos na minha casa. Da o "namorado" fala de novo:
     Ela ama voc, Ed...
    Olho pra ele.
    Mas ela quer voc, cara.
    E  a que est o problema.
     Toma  passo a grana, mas ele no aceita.
 Nada disso,  por minha conta  ele diz, mas eu tento de novo e desta vez ele aceita.
 No marque esta corrida, cara  sugiro.  Acho que merece embolsar esta s pra voc hoje.
    Passamos um momento juntos antes de eu descer.
 Foi bom levarmos um papo  digo e apertamos as mos.  Feliz Natal pra voc, Simon.
    A partir de agora, nada mais de "o namorado". Acho que ele  Simon mesmo. Depois de entrar em casa, durmo no sof sem tirar meu terno preto nem a camisa azul-marinho. 
Feliz Natal, Ed.

  4        SENTIR O MEDO
  ?



  Aqui por essas bandas fazemos feriado no dia 26 de dezembro, s que mesmo assim eu trabalho. No dia seguinte, fao uma visita a Bernie no cinema da Rua Redoma.
 Ed Kennedy!  ele grita quando chego l.  Voltou pra mais um filminho, hein?
 No, no. T precisando de sua ajuda, Bernie. Imediatamente ele se aproxima e pergunta:
     Como posso ajud-lo?
     Bem, voc conhece seus filmes, certo?
     Claro, voc pode assistir a qualquer coisa que...
 Shhh! S me diga, Bernie. Me diga tudo que voc sabe a respeito destes ttulos aqui  tiro o s de copas, embora eu conseguisse muito bem repetir todos os ttulos 
sem a carta.  A Mala, Dvida de Sangue e A Princesa e o Plebeu.
    Logo de cara, Bernie j vai logo arregaando as mangas.
 S tenho aqui A Princesa e o Plebeu  e ele me passa uma porrada de informaes.  A Princesa e o Plebeu  considerado um dos melhores filmes com Gregory Peck, 
produzido em 1953 e dirigido por William Wyler, o mesmo de Ben-Hur. Foi filmado belamente em Roma e ficou famoso pela atuao gloriosa de Audrey Hepburn,  qual 
Peck insistiu que fossem dados os mesmos crditos que a ele na publicidade do filme. Segundo Peck, se no fosse assim, ele viraria motivo de piada  tamanha a fora 
da atuao de Audrey. Isso foi corroborado quando ela levou um Oscar...
    Ele continua falando bem rpido, mas eu volto a uma palavra que Bernie disse.
    Audrey, penso.
     Audrey  digo.
 Isso  ele olha pra mim desorientado pela minha ignorncia.  Isso mesmo. Audrey Hepburn. E ela era absolutamente marav...
    No, no diga maravilhosa, imploro. Essa palavra pertence  Milla.
 Audrey Hepburn!  eu quase grito.  O que voc sabe sobre os outros dois filmes?
 Bem, eu tenho um catlogo. E maior ainda do que aquele que eu te mostrei da ltima vez. Nele voc encontra praticamente todos os filmes j lanados. Atores. diretores, 
cineastas, trilhas sonoras, partituras das msicas, tudo que voc possa imaginar.
    Ele pega o livro bem grosso e o passa pra mim. Dou logo uma olhada em Divide de Sangue. Assim que acho a pgina, leio em voz alta:
 Estrelando Lee Marvin em um de seus mais famosos papis... Paro porque encontrei. Volto e leio o nome de novo. "Lee Marvin". Agora dou uma olhada em A Mala.
    Assim que acho o filme, leio o elenco e o diretor. O diretor  um cara chamado Pablo Sanchez. Ele tem o mesmo sobrenome do Ritchie.
    E eu tenho ento os trs endereos.
    Ritchie. Marv. Audrey.
    A empolgao do incio  logo substituda pela ansiedade.
    Tomara que as mensagens sejam boas, penso, mas algo me diz que no vai ser fcil. Deve haver um bom motivo pra essa turminha ter ficado por ltimo. Alm de serem 
meus amigos, sero ainda as mensagens mais desafiadoras que eu vou ter que dar conta. J estou at vendo.
    Seguro a carta e largo o catalogo no balco. Bernie fica preocupado.
     O que foi, Ed?
    Olho pra ele e digo:
 Me deseje boa sorte, Bernie. Reze pra que eu consiga passar por essa.
    Ele me deseja sorte.
    Ainda com a carta na mo, saio andando pra rua. L fora, encontro a escurido e a incerteza do que est por vir.
    Sinto o medo, mas ando rpido na direo dele.

O cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mos em mim, mas eu no deixo, e vou andando. Toda vez que me d um arrepio nos braos e nas pernas, eu aperto o passo, 
sem saber se Audrey est precisando de mim, ou talvez Ritchie ou Marv... Cara, tenho que correr.
    O medo  a rua.
    O medo  cada passo.
    A escurido aumenta na estrada, e eu comeo.
    A correr.

O primeiro impulso que tenho  de ir direto pra Audrey.
    Quero chegar l o mais rpido possvel pra poder resolver qualquer problema que ela tiver. Nem tenho coragem de pensar na possibilidade de ter que fazer alguma 
coisa desagradvel.
    S tenho que chegar l, digo a mim mesmo, mas ento  um outro impulso que assume o controle.
    Continuo andando, mas levanto a carta e a seguro bem na frente dos olhos.
    Checo a ordem.
    Ritchie. Marv. Audrey.
    Um sentimento bem forte dispara na minha frente e traz a noo de que tenho que seguir a ordem. A Audrey  a ltima por um motivo, e eu sei disso. O primeiro 
ento  o Ritchie.
  isso mesmo  concordo com meu prprio raciocnio, e continuo indo a toda. Vou pra casa do Ritchie na Rua Bridge. Pego um atalho pra l e meus ps vo se movendo 
pra frente e cada vez mais rpido.
    Ser que estou correndo pra poder chegar logo na Audrey?, pergunto, mas no respondo.
    Eu me concentro no Ritchie.
    Imagino a cara dele quando passo embaixo dos galhos de uma rvore. Passo me esfregando nas folhas e o tiro da minha viso, ouvindo sua voz e os comentrios durante 
as partidas. Lembro dele todo alegre no Natal ao ver o Marv beijar Porteiro.
    Ritchie, penso. Qual ser a mensagem pro Ritchie?
    J estou quase l.
    A esquina da Rua Bridge est logo ali na frente.
    Meu corao acelera e toma impulso.
    Quando dobro a esquina, vejo logo a casa do Ritchie. Uma questo de choque est ao meu lado e respira na minha cara.
    Vejo as luzes na cozinha e na sala do Ritchie, mas me distraio com um pensamento que se recusa a desgrudar de minha cabea.
    E agora? O que eu fao? A pergunta fica martelando.
    Os outros lugares at que foram relativamente fceis porque eu no conhecia as pessoas (com exceo de minha me  e quando estava ali sentado naquele restaurante 
italiano, eu no fazia a menor idia de que estava esperando por ela), de forma que no tive muita escolha. S esperei a oportunidade pintar. Mas com o Ritchie, 
o Marv e a Audrey a histria  bem diferente: no d pra ficar parado do lado de fora da casa de cada um deles, que so pessoas que conheo muito bem. E a ltima 
coisa que eu faria.
    Mesmo assim, penso, penso, tentando chegar a uma concluso e acabo decidindo atravessar a rua e me sentar encostado a um velho carvalho pra esperar.
    J estou do lado de fora h quase uma hora e, pra ser bem sincero, at agora muito pouco aconteceu. Percebo que os pais do Ritchie j voltaram das frias. (Vi 
a me dele lavando a loua.)
    Est ficando tarde e no demora muito pra luz da cozinha ser a nica coisa acesa. Todas as casas na rua vo se apagando e o que sobra mesmo so as luzes dos 
postes.
    Na cozinha da casa dos Sanchez, entrou um vulto sozinho e se sentou  mesa.
    Tenho certeza que  o Ritchie.
    D vontade de ir l, mas, antes de conseguir me levantar, ouo umas pessoas vindo da rua na minha direo.
    Quando olho, tem dois caras de p na minha frente.
    Esto comendo torta.
    Um deles olha pra baixo e fala comigo. Ele me olha com um tipo de deboche familiar e diz:
 Disseram que voc estaria aqui, Ed  ele balana a cabea e joga uma torta, que certamente comprou numa loja de convenincia ali perto. E ento se abaixa.  Tu 
 um escroto mesmo, n, no? Fala srio!
    Olho pra cima, completamente perdido, sem saber o que dizer.
 E a, Ed?  o outro resolve falar, e sei at que parece ridculo, mas  bem difcil reconhecer os dois sem as mscaras de l.
     Daryl?  voc?  pergunto.
     Sou.
     Keith?
     Isso mesmo.
    Daryl se senta e me d a torta.
     Em nome de nossa velha amizade  ele explica.
     Sei  respondo, chocado.  Valeu.
    De repente comeo a me lembrar da ltima visita que esses dois me fizeram. Na cabea me vm imagens de sangue, palavras e do cho da cozinha imundo. Tenho que 
perguntar logo.  Vocs no vo...  ainda est meio difcil falar.
 O qu?  Keith fala desta vez, sentado do outro lado.  Te sentar o pau um pouquinho?
       respondo.
    Como prova de boa-f, Daryl desembrulha minha torta e me passa.
 Ah, no, Ed. Nenhum corretivo hoje. Nada do tipo  ele d um riso nostlgico de um jeito que parece at que somos velhos companheiros de guerra, ou coisa parecida. 
 S pra voc ter uma idia, se voc bancar o esperto com a gente...
    Ele se acomoda no cho. O cara  plido e tem a cara toda marcada de briga, mas ainda assim consegue ser pintoso. Keith, por outro lado, tem a cara cheia de 
espinhas, um nariz pontudo e um queixo que Deus me livre.
    Olho pra ele e digo:
     Caraa, velho! Acho que gostei mais de voc com a mscara.
    Daryl dispara a rir. Keith, por sua vez, no fica impressionado, pelo menos no no incio. Ele rapidinho se acalma, e entre a gente o clima  de bons amigos. 
Acho que  porque a gente vem passando por uns lances juntos, embora seja de lados totalmente diferentes.
    Passamos uns minutinhos comendo.
     Tem molho a?  pergunto.
     Eu disse!  Keith acusa Daryl.
     O qu?
 Eu disse que devamos trazer um molho pra voc, Ed  Keith explica , s que o mo-de-vaca a no deu ouvidos.
    Daryl joga a cabea pra trs antes de responder.
 Olha s, molho  muito perigoso  ele aponta pra minha camisa.  D uma olhada e me diga a cor desta camisa. Qual , hein, Keith? Diga. Qual  a cor desta camisa?
 Eu sei qual  a cor, Daryl. No precisa ficar todo cheio de sacanagem.
     De novo? E quando  que eu sacaneio, maluco?
    Eles esto quase gritando um com o outro, e eu s ali no meio dos dois, tirando mais um pedao da torta meio fria.
 Neste exato momento  continua Keith. Ele tenta me colocar na discusso.  E voc, Ed? O que voc diz?  ele est olhando bem pra mim.  O Daryl no t de sacanagem?
    Resolvo responder a primeira pergunta de Daryl:
     Eu t usando uma camisa branca.
     Exatamente  responde Daryl.
     Exatamente o qu?
 Exatamente, Keith,  simplesmente perigoso demais pro Ed chegar a pensar em comer essa torta com molho  agora sim ele est falando definitivamente num tom de 
quem est sacaneando.  Vai cair nesta linda camisa branca, e o infeliz ainda vai ter que lavar a desgraada. E esta  a ltima coisa de que precisamos agora, concorda?
 O cara no vai morrer se tiver que lavar a camisa, maluco!  Keith diz isso com muita firmeza.  Ele pode at encher a mquina e deixar uma porrada de roupa batendo 
enquanto d um banho naquele co fedido. Vo ser necessrias umas duas horas mesmo.
 Alto l, meu irmo. Deixe Porteiro fora dessa  protesto.  Ele no fez nada.
 Exatamente  Daryl concorda.  O comentrio foi totalmente desnecessrio, Keith.
    Keith se acalma, abaixa a cabea e admite:
     Eu sei  e at se desculpa.  Foi mal, Ed.
    D pra notar que desta vez eles receberam ordens de se comportarem muito bem comigo. Talvez por isso estejam discutindo muito mais entre si.
    Eles falam mais um pouco at que os dois pedem desculpas, e por um tempo batemos um papo que entra pela noite que caiu silenciosamente sobre a gente.
    Estamos bem felizes, com o Daryl contando piadas sobre homens entrando em bares, mulheres com espingardas, esposas, irms e irmos que dormiriam com o leiteiro 
por um milho de dlares.
    Sim, estamos todos bem felizes, at que as luzes da cozinha do Ritchie se apagam.
    Eu ento me levanto e digo:
     Que timo. S faltava essa.
    Eu me viro para os dois melhores briguentos que j conheci e digo que perdi uma chance.
    Eles no do a mnima.
     Sua chance de qu?  pergunta Daryl.
     Voc sabe  respondo.
    Mas ele s balana a cabea e diz:
 Na verdade no sei, no, Ed. S sei que esta  sua prxima mensagem e pelo visto voc no tem a menor idia do que  pra fazer  ele fala com voz tranqila, mas 
ao mesmo tempo alguma coisa a deixa pesada.
    Verdade, penso.
    E isso que est dando um peso na voz dele.
    Ele tem razo. Eu realmente no sei o que estou fazendo. Ainda estou tentando adivinhar, na esperana de que a resposta simplesmente pinte a qualquer momento.
    Daryl e Keith se levantam e ficam ali parados ao meu lado, embaixo do carvalho.
     o Keith quem faz as ltimas perguntas.
    Suas palavras penetram nos meus ouvidos enquanto ele fala com uma voz rouca, gentil e sbia.
    Ele chega bem pertinho de mim e diz:
 O que voc t fazendo aqui, Ed?  as palavras vo aumentando de tamanho e penetrando no meu ouvido.  Por que voc t aqui parado, esperando? Voc deveria saber 
o que fazer...  ele descansa um pouco antes de concluir com suas palavras finais, que inundam meus ouvidos.  O Ritchie  um de seus melhores amigos, Ed. Voc no 
precisa pensar em nada, nem esperar, nem decidir o que fazer. VOC j sabe, sem dvida nenhuma. No sabe? Diga a, Ed; sabe ou no sabe?
    DOU uma cambaleada pra trs e deslizo at o meu lugar original na rvore, onde eu estava sentado.
    Os dois continuam de p, olhando pra casa.
    Minha voz se arremessa pra frente, caindo no cho aos ps deles.
    Voc sabe o que fazer, penso.
 Sim  respondo.  Eu sei. Sou atacado brutalmente por vises. Fico em pedaos espalhados pelo cho. Keith e Daryl do o fora.
    No sei qual deles grita:
     Ia!!!
    Me d vontade de sair correndo atrs deles e implorar para que me contem quem est por trs disso e por que motivo, mas...
    No consigo.
    S consigo ficar l sentado, catando os pedacinhos de tudo que acabei de ver.
    Vi o Ritchie.
    Vi a mim mesmo.
    Agora, com a rvore sobre mim, tento negar e me levantar, s que meu estmago cai, e eu me sento de novo.
 Desculpa a, Ritchie  falo baixinho , mas eu tenho que fazer isso.
    Se meu estmago tivesse cor, penso, seria preto como esta noite, e eu me equilibro e dou incio ao que parece uma caminhada sem fim at a minha casa.
    Quando chego, vou pra cozinha.
    Encaro uma pilha de loua que est na pia, e a ltima coisa que lavo  uma faca. Ela reflete a luz da cozinha e vejo meu rosto morno, dentro do metal.
    Estou oval e distorcido.
    Estou cortado nas beiradas.
    As ltimas coisas que vejo so as palavras que preciso dizer pro Ritchie. Ento coloco a faca no escorredor, no topo da montanha de louas limpas. Ela escorrega 
e cai no cho, fazendo aquele barulho metlico, e ento fica rodopiando feito um ponteiro de relgio.
    Meu rosto aparece trs vezes, enquanto a faca rodopia no cho.
    A primeira vez, vejo o Ritchie nos meus olhos.
    Depois vejo o Marv.
    E ento, a Audrey.

Pego a faca do cho e a seguro firme.
    Pena que no d pra abrir o mundo todo com ela. Se desse, eu cortaria o mundo em duas fatias e subiria em uma delas.
    Na cama, fico s pensando.
    Tem trs cartas na minha gaveta e uma na minha mo.
    O sono vem chegando e eu aperto de leve a beirada do s de copas. A carta  fria e afiada.
    Ouo o tique-taque de um relgio.
    Tudo observa, impacientemente.

  5        O PECADO DO RITCHIE
  ?



    Nome: David Sanchez
    Tambm conhecido como: Ritchie
    Idade: 20
    Profisso: Nenhuma.
    Realizaes: Nenhuma.
    Ambies: Nenhuma.
    Probabilidade de chegar a uma resposta s trs questes
    anteriores: Zero.

  Quando volto  casa do Ritchie na Rua Bridge, encontro o lugar totalmente escuro. Quase vou embora, quando ento a luz da cozinha se acende. A fluorescente pisca, 
pisca, at se estabilizar.
    Chega uma silhueta e se senta  mesa da cozinha. Com certeza  o Ritchie. D pra sacar pelo formato do cabelo e pelo jeito com que ele se mexe e se senta.
    Quando me aproximo, descubro que ele est escutando o rdio.
    D pra ouvir de longe:  muita falao e algumas msicas espaadas.
    Eu me escondo o mais prximo possvel sem ser pego, e escuto.
    As vozes no rdio ficam abafadas e se aproximam. Palavras como braos, que param e se apiam nos ombros do Ritchie.
    Imagino toda a cena da cozinha.
    Uma torradeira cercada de farelos.
    Um forno meio sujo.
    Os armrios brancos, mas j amarelados pelo tempo.
    As cadeiras vermelhas forradas com plstico cheio de furos.
    Cho de linleo barato.
     o Ritchie.
    Tento imaginar a cara dele sentado ali, ouvindo. Me lembro da vspera de Natal e de suas palavras. "No t a fim de ir pra casa hoje." Vejo os olhos que se arrastaram 
na minha direo e vejo agora que qualquer coisa seria melhor do que ficar sentado sozinho nesta cozinha.
 sempre difcil imaginar o Ritchie fazendo uma cara de sofrimento por causa de seu jeito relaxado. S que naquela vspera de Natal peguei um rpido momento de 
tristeza nele, e agora eu volto no tempo.
    Tambm imagino as mos dele.
    Esto na mesa, dedos entrelaados, se mexendo levemente empurrando pra baixo. Esto meio plidas e frustradas. No tm o que fazer.
    A luz sufoca o Ritchie.
    Ele passa quase uma hora l sentado, e o rdio parece desaparecer gradativamente mais do qualquer outra coisa. Quando olho pra janela, ele est com a cabea 
na mesa, dormindo. O rdio l tambm, perto dele. Dou o fora. No consigo. Sei que  pra eu entrar l, mas no parece certo fazer isso hoje.
    Vou pra casa sem olhar pra trs.
    Nas duas noites seguintes a gente joga cartas. Uma vez na casa do Marv e outra na minha. Aqui em casa. Porteiro vem e se ajeita embaixo da mesa. Fao carinho 
nele com os ps e observo o Ritchie o tempo todo.
    Na noite anterior, quando eu estava l do lado de fora de sua casa, aconteceu a mesma coisa. Ele acordou, entrou na cozinha e ficou escutando rdio.
    A tatuagem do Hendrix olha pra mim enquanto o Ritchie joga a dama de espadas e me ferra.
     Muito obrigado  digo pra ele.
     Foi mal, Ed.
    A vida do cara se resume a passar as noites sozinho, acordar s dez e meia da manh, ir pro pub por volta do meio-dia, atravessar a rua e aparecer na casa de 
apostas por volta de uma hora. Fora isso, pegar o cheque do seguro-desemprego, jogar umas partidas de carteado, e  isso.
    O povo est na maior gargalhada porque a Audrey est contando a histria de uma amiga que foi procurar trabalho na cidade. Ela passou em uma dessas agncias 
de emprego, que costumam dar um despertador de presente quando a pessoa encontra um servio. Quando ela conseguiu a vaga, ela foi l no mesmo dia pra agradecer ao 
pessoal que a contratou e acabou deixando o despertador no balco do escritrio central.
    O relgio ficou l na caixa.
    Fazendo o tique-taque.
 E o pessoal se recusa a tocar nele  Audrey explica.  Fica todo mundo achando que  uma bomba  ela joga uma carta.  Chamam o gerente da empresa, que praticamente 
se caga todo, porque ele t dando uns pegas na secretria e acaba achando que a mulher descobriu e resolveu se vingar. Audrey d uma pausa, pra ver se estamos prestando 
ateno.
 Bom, evacuaram o prdio inteiro, chamaram esquadro antibombas, polcia, a porra toda. O esquadro chega e abre a caixa quando o alarme dispara  Audrey balana 
a cabea.  Ela foi despedida antes de comear.
    Quando termina a histria fico s de olho no Ritchie.
    Quero trazer a ateno pra ele.
    Quero deixar o cara sem graa, arrast-lo de onde est e coloc-lo na cozinha de sua casa  uma da manha. Se de alguma forma conseguir fazer isso,  provvel 
que eu possa ver uma verso mais longa de como ele fica e como se sente. E s uma questo de fazer o lance no momento certo.
    E o momento chega meia hora mais tarde quando ele sugere que a gente v jogar em sua casa.
     Oito horas t bom?  ele pergunta.
    Depois que todo mundo concorda e est quase se despedindo, eu digo:
 P, da voc aproveita e me mostra que estao de rdio voc tem por l  eu me foro a ser frio e calculista.  O programa da madrugada deve ser excelente.
    Ele olha pra mim.
     Do que voc t falando, Ed?
 Nada  respondo e deixo por isso mesmo, pois acabo de ver mais uma vez a cara que ele fez, e sei o que quer dizer. Sei exatamente a cara que ele faz e o que ele 
sente quando fica l na mesa da cozinha, paralisado sob a luz.
    Entro na escurido de seus olhos e o encontro em algum canto bem longe, passando por um labirinto de avenidas annimas e vazias. Ele caminha sozinho. As ruas 
vm e passam por ele, mas Ritchie nunca muda o passo nem o humor.
 T me esperando  ele diz, quando me acomodo perto dele, l no fundo. Tenho que perguntar:
     O que t te esperando, Ritchie?
    A princpio, ele s continua andando. S quando olho prs nossos ps  que me dou conta de que na verdade no estamos indo a lugar nenhum.
 o mundo que se move  as ruas, o ar e os pedaos escuros de um cu interno.
    Eu e o Ritchie estamos parados.
    "T l fora", imagino o Ritchie dizendo. "Em algum lugar". Ele agora caminha com mais firmeza. "Ele t querendo que eu v at ele. Quer que eu pegue."
    Agora tudo pra.
    Vejo bem claro nos olhos do Ritchie.
    Dentro deles, onde estamos parados, eu pergunto:
     O que t te esperando, Ritchie?
    Mas eu sei.
    Sem dvida nenhuma, eu sei. S espero que ele consiga achar.
    Quando a galera toda se vai, tomo mais um cafezinho com Porteiro. Depois de mais ou menos meia hora, algum bate na porta.
    E o Ritchie, penso.
    Porteiro mexe com a cabea sinalizando que concorda enquanto eu vou l atender.
     Oi, Ritchie! Esqueceu alguma coisa?
     No.
    Eu o deixo entrar e a gente se senta na cozinha.
     Quer um cafezinho?
     No.
     Um ch?
     No.
     Uma cervejinha?
     No.
     Cara,  difcil te agradar, hein!
    Ele responde ao comentrio ficando calado, mas no demora muito pra olhar pra mim. Ele ento pergunta bem srio:
     Voc anda me seguindo?
    Olho bem pra ele e respondo:
     Cara, eu sigo todo mundo.
    Ele coloca a mo no bolso.
     Voc  tarado, cara?
    Que engraado  a Sophie me fez esta mesma pergunta.
    Eu encolho os ombros.
     No mais do que qualquer outra pessoa, acho eu.
     Ae, d pra parar com esse negcio?
     No.
    Ele faz uma cara feia.
     Por que no?
     No posso.
    Ele olha pra mim como se eu estivesse de sacanagem. Seus olhos pretos dizem: "Ser que d pra esclarecer essa palhaada, Ed?", ento eu esclareo.
    Vou at o quarto e pego as cartas na gaveta e volto pra mesa da cozinha. Jogo-as na frente de meu amigo e digo:
 Lembra quando eu recebi aquela primeira carta pelo correio em setembro? Eu lhe disse que tinha jogado fora, mas eu menti  as palavras saem pela minha boca rapidamente. 
Olho bem pra ele.  E agora voc t em uma das cartas, Ritchie. Voc  uma das mensagens.
 Tem certeza?  ele tenta mostrar que pode ser um engano, mas no dou ouvidos. S fao que no com a cabea e sinto o suor se acumulando embaixo dos braos.
      voc  digo.
     Mas por qu?
    o Ritchie tenta me peitar, contrariado, mas eu no deixo que isso atrapalhe. No posso deix-lo fugir pra aquele lugar de escurido dentro de si, onde seu orgulho 
est espalhado pelo cho em algum quarto escondido. No fim eu converso completamente isento de emoo.
    Da eu digo;
     Ritchie, voc  uma desgraa pra si mesmo.
    Ele olha pra mim como se eu tivesse acabado de atirar em seu cachorro ou dito que sua me tinha morrido.
    Ele se senta na cozinha toda noite, e, independentemente do que as vozes digam no rdio, as palavras so sempre as mesmas. So as palavras que acabei de dizer, 
e ns dois sabemos disso.
    Ritchie fica olhando pra mesa.
    Olho por cima de seus ombros.
    Ns dois refletimos sobre o que acaba de ser dito. Ele fica ali sentado feito uma leso.
    E passamos um tempo assim, at que chega um certo cheiro  Porteiro entra.
 Voc  um amigo bacana, Ed  Ritchie finalmente diz, e ento sua expresso volta ao normal, tranqila como sempre. Ele luta pra se manter assim.  E voc  ele 
diz pro Porteiro  fede que nem o esgoto.
    Ele se levanta e vai embora.
    As palavras se repetem ao meu redor  medida que ele d partida na moto e sai sem destino pela rua escura e petrificada.
    C pegou um pouco pesado, Ed, diz Porteiro. E ns dois ficamos ali parados em silncio.

Na noite seguinte, j estou eu l de novo, do lado de fora da casa do Ritchie. Alguma coisa me diz que no d pra pegar leve com ele.
    Seu vulto fica visvel na cozinha, s que desta vez ele vem at a porta da frente com o rdio numa das mos e uma garrafa na outra. Seus ps caem, e sua voz 
me chama.
     Ei, Ed.
    Eu saio da moita. Ele diz:
     Vamos l pro rio.

Seguimos o rio que cruza a cidade e nos sentamos l, depois de andar desde a casa do Ritchie. Cada hora um pega a garrafa. O rdio fica l falando baixinho.
 Sabe, Ed  Ritchie diz depois de um tempo , eu achava que eu tivesse aquela Sndrome da Fadiga Crnica...  ele pra, como se tivesse esquecido o que ia dizer.
     E dai?  pergunto.
     O qu?
     Fadiga Crnica...
 Ah, sim. Bem, eu pensei que eu sofresse desse lance, mas da percebi que, na verdade, no passo de um grande preguioso: um dos maiores no planeta.
    Acho o comentrio engraado.
     Cara, voc no  o nico.
 Mas a maioria das pessoas trabalha, Ed. At o Marv trabalha. At voc, cara!
     Como assim, at eu?
 Ah... voc no  o cara mais motivado que eu conheo... Eu admito.
 Voc tem toda razo  tomo um gole.  Se quer saber, nem acho que esse lance de dirigir um txi seja um emprego de verdade.
 Se no  um emprego, ento  o qu? Penso um pouco antes de responder.
     Uma desculpa.
    Ritchie no diz nada porque sabe que eu tenho razo. A gente continua bebendo enquanto o rio vai correndo.

J estamos aqui h uma hora.
    Ritchie se levanta e entra no rio. A gua sobe at seus joelhos. Ele diz:
 Nossas vidas so isso, Ed  ele agora est com essa histria de que as coisas passam correndo pela gente.  T com 20 anos na cara e...  a tattoo de Hendrix-Pryor 
pisca pra mim sob o luar.  Olha s pra mim: no tem nada que eu queira fazer.
 inegvel como a verdade pode ser brutal s vezes. S d pra admir-la.
    Geralmente passamos a vida acreditando em ns mesmos. "Eu t bem", dizemos, "T tudo bem". Mas s vezes a verdade pega no p e no tem santo que a faa desgrudar. 
E a que percebemos que s vezes ela nem chega a ser uma resposta, mas sim uma pergunta. Mesmo agora, estou aqui pensando at que ponto minha vida  convincente.
    Eu me levanto e vou pra perto do Ritchie no rio.
    Ficamos os dois ali, com gua at os joelhos, e a verdade acaba de arriar nossas calas.
    O rio continua a correr.
 Ed?  Ritchie diz mais tarde. Ainda estamos dentro da gua.  S tem uma coisa que eu quero.
     O que , Ritchie?
    Sua resposta  simples:
     Querer.

  6        DEUS ABENOE O
  ?        HOMEM BARBUDO, A BOCA
          DESDENTADA  E  A  POBREZA



  Ritchie se afasta do pub e da casa de apostas no dia seguinte, e comea a procurar trabalho. Eu tambm pensei muito no que foi dito ontem  noite l no rio.
    Passo a vida levando as pessoas pra tudo quanto  canto da cidade, ouvindo gente me dizendo aonde ir e o que fazer. Observo as pessoas. Falo com elas. O tempo 
est bom hoje. O tempo est sempre alguma coisa.
    Estou me queixando?
    Reclamando?
    No.
    Foi isso que escolhi fazer.
    Mas  isso que voc quer?, pergunto.
    Por alguns quilmetros, minto pra mim mesmo, dizendo sim,  isso que eu quero. Tento me convencer que  exatamente isso que eu quero da vida, mas sei que no 
. Sei que dirigir txi e morar numa casa alugada no so a resposta final de minha vida. No pode ser.
    Tenho a sensao de que acabei de me sentar em algum ponto e disse: "Certo, este  Ed Kennedy".
    Sinto como se de alguma forma eu tivesse me apresentado.
    A mim mesmo.
    E aqui estou eu.

 Pera, este  o caminho certo? meu passageiro gorducho de terno
pergunta l de trs.
    Olho pelo retrovisor e digo:
     No sei.
    Os dias seguintes so tranqilos. Jogamos umas partidas numa noite e percebo que preciso comear a ver o lance com o Marv. Ele  o prximo, j que as coisas 
com o Ritchie esto em andamento.
    Eu o observo de canto de olho, pensando Que diabos fao com o Marv? Ele trabalha. Tem grana. E bem verdade que tem o pior carro da histria da Humanidade, mas 
parece bem satisfeito, pois, se no estivesse, ele no pensaria duas vezes antes de usar aquela grana pra comprar um novo.
    O que ser que o Marv pode querer?
    Do que ser que ele precisa?

Com todas as outras mensagens, esperei que pintasse a soluo.
    Com o Marv no sei, no. Tenho um pressentimento diferente com ele. Parece que o negcio sempre esteve por perto e eu nunca percebi. Devo ver a parada todo dia, 
mas existe uma grande diferena entre ver e encontrar.
    De alguma forma, Marv est precisando de mim.
    No sei o que fazer.

Esta indeciso continua por mais 24 horas. A vspera do Ano Novo j veio e j foi. Os fogos j varreram os cus da cidade. Bbados escrotos decoraram meu txi, uma 
felicidade ruidosa que s pode acabar nos lenis encharcados de bafo de cerveja e do peso do amanh.
    Foi todo mundo pra casa do Ritchie desta vez, e fiz de tudo pra chegar perto da meia-noite. Os pais dele estavam dando uma festa. Cumprimentei o Marv, o Ritchie 
e o Simon. Dei um beijo no rosto da Audrey e perguntei como ela conseguiu tirar uma folguinha  noite. Pelo visto foi pura sorte.
    Depois disso, voltei pro trabalho e, ento, pra casa de madrugada, pra companhia do Porteiro.  onde estou agora. Bebemos juntos pra comemorar, e eu digo:
     Esta  pra voc, Sr. Porteiro. Que viva mais um ano.
    Ele fica ali, deitado, com a cabea virada pra porta, bebendo.
 esquisito eu estar to srio e pensativo na vspera de Ano Novo. Acho que este ano no estou muito no clima de comemorao. Parte disso se deve ao fato de eu estar 
pensando no meu velho, que no est mais aqui pra este tipo de celebrao. Natal. Ano Novo. Sei muito bem que ele nunca estava sbrio o bastante pra marcar presena, 
mas ainda assim fico meio pra baixo.
    Tiro as toalhas do banheiro e tambm o pano de prato imundo da cozinha. Era uma das esquisitices ou supersties de meu pai. Nunca deixe nada no varal quando 
o sol nascer no Ano Novo. Que bosta de herana, eu sei, mas  melhor do que nada.
    Outro motivo pra este meu humor de Deus-me-livre  o Marv, e tambm porque no sei o que fazer.
    Repasso tudo mentalmente: o que ele disse nos ltimos tempos e o que ele fez.
    Penso no Jogo de Vero, e a pura patetice de seu carro. E no fato de ele preferir dar um beijo em Porteiro a desembolsar uma graninha pro jogo do Natal na casa 
dele.
    Quarenta mil no banco, mas sempre tirando o dele da reta quando o assunto  dinheiro.
    Sempre, penso, e a pergunta me bate algumas noites mais tarde, enquanto assisto a um filme antigo:
    O que ser que o Marv pretende fazer com 40 mil dlares?
Isso!
Entendi.
A grana.
O que o Marv precisa fazer com a grana?
    Esta  a mensagem.
    Lembro do que Daryl e Keith disseram sobre o Ritchie. Disseram que eu devia saber, pois era um de meus melhores amigos. Isso praticamente me leva a achar que 
eu tambm devia saber o que o Marv precisa fazer com a grana. Talvez esteja bem na minha cara, penso, mas nada  imediatamente aparente, e entendo que com o Marv 
o que sei sobre ele  o que devo usar pra extrair dele a mensagem.
    Posso desconhecer a mensagem, mas conheo o Marv e as opes que posso usar pra desvendar este mistrio.
    Sento com Porteiro na varanda e vejo o sol se pr. Penso em trs tticas pro Marv.

Ttica nmero um: discutir com ele.
    Esta  mole, mole:  s falar da droga do carro e perguntar por que ele se recusa a comprar um novo.
    O perigo aqui  de o Marv ficar to puto a ponto de sair da sala e me deixar no escuro, sem descobrir porra nenhuma. Seria um desastre.
    A vantagem dessa opo , em primeiro lugar, ser divertida e, fora isso, poder fazer ele comprar um carro novo.

Ttica nmero dois: deixar o cara to bbado que ele acabe desembuchando a mensagem sem nem pensar.
    Perigos: pra forar o Marv a se embriagar, devo ficar bbado tambm. Isso vai me deixar sem condies de compreender, que dir de me lembrar do que tenho que 
fazer.
    Vantagens: no ser necessrio forar a barra pra ele cuspir a mensagem. Eu s ficaria esperando que ele abrisse a boca. Admito que  muito pouco provvel, mas 
talvez valha a pena tentar.

Ttica nmero trs: perguntar na lata.
 a opo mais perigosa porque pode deixar o Marv totalmente puto, de cara feia (como sabemos muito bem que ele pode ficar), sem querer me dizer nada. Se o Marv 
ficar bolado com minha sbita preocupao com ele (convenhamos: eu geralmente ajo como se estivesse cagando e andando pra ele), todas as outras esperanas e oportunidades 
iriam por gua abaixo.
    As vantagens so:  honesto, direto e consideravelmente simples. Ou d certo ou no d, s depende muito mais de agir no momento certo do que de qualquer outra 
coisa.

Qual dessas tticas devo tentar primeiro?
    Ta uma pergunta difcil, e s vou encontrar a resposta certa depois de ter esquentado muito a cabea pensando.
    Acontece o impensvel.
    Pinta um quarto caminho bem na minha frente.
    Onde?
    No supermercado.
    Quando?
    Quinta-feira  noite.
    Como?
    Assim:

Entro l e compro uma porrada de bagulho, o suficiente pra durar uma quinzena, e saio fazendo o maior esforo com as sacolas. Elas j esto at cortando minhas mo 
quando saio pela porta, da eu as coloco no cho pra me reorganizar.
    Um velho sem-teto me confronta silenciosamente com sua barba, sua boca desdentada e sua pobreza.
    Sua expresso sangra.
    Ele pede uns trocados timidamente. Fala com humildade nos lbios.
    Depois que pede, imediatamente abaixa os olhos de vergonha. Ele me tocou e nem sabe, at que me v procurando a carteira na jaqueta.
    Nesse exato momento, quando busco a grana com os dedos, a resposta me vem  cabea. Cai direto nos meus ps e olha pra cima.
     claro!
    A voz interna aumenta e d a resposta em um pensamento instantneo e perfeito. Chego at a falar, pra acreditar. Pra no esquecer.
     Oi?  o homem pergunta, ainda com sua voz baixinha e humilde.
 Pea dinheiro a ele  repito, mas desta vez eu falo mais alto. No consigo me controlar.
    Desacostumado com isso, o velho diz:
 Me perdoe, seu moo  e faz uma cara triste.  Me perdoe por te pedir um trocado.
    J tirei uma nota de cinco dlares do bolso e ento dou pra ele. Ele a segura como se o momento fosse at uma passagem bblica. Deve ser muito raro ele receber 
notas.
 Deus te abenoe  ele parece muito, muito surpreso com o dinheiro quando me abaixo pra pegar as sacolas.
 No  respondo.  Deus abenoe o senhor  e vou pra casa. As sacolas machucam minhas mos, mas eu nem ligo.

  7        O MARV SECRETO
  ?



  Ele trabalha. Bebe. Joga cartas. Passa o ano inteiro esperando o Jogo de Vero.
     assim.
    A vida do Marv.

Bem, isso sem contar com os 40 mil.

Vou at a casa da Milla na tera-feira, pra ver como ela est. Eu nunca me canso de ser o Jimmy, embora O Morro dos Ventos Uivantes j esteja enchendo o saco. O 
problema  que Heathcliff  um tremendo imbecil amargo e Catherine me deixa muito frustrado. S que o meu mais puro dio  reservado pra Joseph, o empregado completamente 
cretino e infeliz. Alm de todos os seus sermes e queixas,  difcil entender uma palavra do que ele diz.
    A melhor coisa sobre a histria  a Milla. Pra mim,  ela que est em cada pgina. Quando penso no livro, penso nela. Penso em seus olhinhos velhos e midos 
olhando pra mim e prestando ateno enquanto leio. Adoro fechar o livro e ver a velhinha descansando em sua poltrona. Acho que ela  minha mensagem preferida.
    S que tambm tem a Sophie, o padre O'Reilly e a famlia Tatupu. At mesmo os irmos Rose.
    Est bem, est bem.
    Incluir os Rose nessa  at sacanagem.

Ultimamente tenho andado pra caramba com Porteiro, e aproveito a ocasio pra me lembrar de todas as mensagens at agora. De certa forma, sinto como se estivesse 
trapaceando. Este tipo de recordao  pra rolar no final. e ainda no acabei. Ainda faltam duas mensagens. Dois de meus melhores amigos.
    Talvez por isso, eu tenho me lembrado das mensagens anteriores.
    Tenho medo do que possa rolar com o Marv e com a Audrey.
    E comigo.
    Os minutos vo passando e eu vou me cobrando: No posso deixar os caras na mo!
    Estou no maior cagao.
    J pensou? Chegar at aqui depois de tudo que passei e vacilar justamente com aqueles que conheo h tanto tempo e de que mais gosto...
    E vou passando por todas as mensagens de novo, da Rua Edgar at o Ritchie.
    Cagao total.
    As mensagens me encorajam.

 E a, j achou algum servio?  pergunto ao Ritchie quando a galera se encontra na minha casa no domingo  noite. Ele faz que no com a cabea.
     Nada ainda, brother.
    Marv se espanta e fica todo histrico:
     Como  que ? Voc? Procurando servio?
 Qual  o problema, Marv?  Audrey pergunta. Ritchie no diz nada e d pra sacar que ele ficou um pouco chateado. At o Marv. Ele tenta parar com a risadinha e 
segurar a onda.
    Ele d uma pigarreada.
     Foi mal, Ritchie.
    Ritchie esconde mais um pouquinho a chateao e age como de costume, com seu jeito descolado de sempre:
     T tranqilo  ele diz.
    Na minha, dou graas a Deus que o Marv o tenha provocado um pouco. Agora mesmo  que ele no desiste de procurar servio, s pra ver a cara que o Marv vai fazer 
quando ele for contratado em algum lugar. Vai ser um prazer esfregar isso na cara do Marv.
     Eu dou as cartas  diz Audrey.

O jogo termina l pelas onze. Ritchie j se mandou e Marv oferece uma carona  Audrey l na varanda. Por motivos bvios, ela recusa.
     Por que no?  Marv questiona.
 Vai ser mais rpido ir andando, Marv  Audrey tenta argumentar com ele.
 E vamos combinar, n, Marv? Tem mais mosquitos l dentro do que aqui fora
     ela aponta pra beleza de mquina estacionada na rua.
     P, ae, valeu  ele comea a se queixar.
 Marv, voc t lembrado do que aconteceu da ltima vez que voc me deu uma carona, umas semanas atrs?
    Muito contrariado, ele se lembra.
    Mesmo assim, Audrey faz questo de lembrar.
 Acabamos tendo que empurr-lo at sua casa  e ela ento tem uma idia.  Voc precisa colocar uma bicicleta no banco de trs.
     Pra qu?
    O negcio est ficando interessante.
    Chega a ser divertido.
 Ah, qual , Marv? Vou deixar voc pensar nisso no caminho de casa, ainda mais se o carro parar.
    Ela d um adeusinho e se vai pela rua.
     Tchau, Audrey  digo baixinho. E ela j se foi.

Quando o Marv entra no carro, eu j espero pelo inevitvel, e acaba acontecendo.
    O motor pra umas sete ou oito vezes; atravesso o jardim, abro a porta do passageiro e entro.
    Marv olha pra mim.
     O que voc t fazendo, Ed?
    Tranqilamente. Com toda a seriedade. Eu digo:
     T precisando da sua ajuda, Marv.

Ele tenta dar partida de novo. Nada.
 Que tipo de ajuda?  ele pergunta e tenta de novo.  T precisando consertar alguma coisa?
     No, Marv.
     Quer que eu d cabo do Porteiro pra voc?
     Cabo?
     E, sabe, tipo... acabe com a raa dele pra voc.
     Que  isso, cara? Virou Al Capone agora, ?
    Marv admira seu prprio humor e ainda insiste ali na ignio, o que me deixa extremamente irritado.
 Marv, d pra parar um pouco a e levar um papo srio por um minutinho? Poderia me dar a honra?
    Ele vai tentar de novo, mas ento eu arranco a chave da ignio.
 Marv  sussurro quase gritando.  Preciso da tua ajuda. T precisando de grana.
    As coisas se acalmam e d pra ouvir nossa respirao. Fazemos um minuto de silncio.
    Esta  a morte da relao trivial que eu mantinha com o Marv. Parece mesmo que alguma coisa morreu.

No demora muito pro Marv se interessar. E assim que ele reage quando se fala em dinheiro. Ele me olha todo tenso, tentando entender. No parece muito amigvel, 
no.
     T precisando de quanto, Ed?
    E eu vazo dali.
    Abro a porta do carro.
    Bato com toda a fora.
    Me abaixo e aponto o dedo pro meu amigo ao volante.
 Cara, eu j devia saber! Voc  o filho-da-puta mais mo-de-vaca que eu conheo, Marv...  aponto pra ele com a maior agressividade possvel.  No acredito numa 
coisa dessas!
    Silncio.
    Rua e silncio.
    Eu me viro e me encosto no carro enquanto o Marv sai e d a volta pra chegar junto.
     Ed?
 Sinto muito, cara  t indo bem, penso. Fao um sinal negativo com a cabea.
     Sente porra nenhuma.
     Marv, eu s pensei... Ele me corta.
     Ed, eu no tenho...  as palavras dele se dissipam.
     S pensei que voc pudesse...
     Ed, eu no tenho a grana. Ta uma notcia que me abala.
 Por que no, Marv?  dou um passo pra frente e o encaro.  Por que diabos no tem?
     Eu usei a grana.
    A voz dele est em outro lugar. No est saindo de sua boca. Parece que est vindo de algum lugar perto dele. Vago.
     Usou no que, Marv? Estou ficando agitado.
 No comprei nada, no  sua voz est voltando.  a voz dele de novo.  Eu investi num fundo e no posso usar por alguns anos pelo menos. Eu invisto e ganho nos 
juros  ele est bem srio agora. Pensativo.  No posso sacar nada.
     Nadinha?
     No.
     Nem mesmo numa emergncia?
     Acho que no.
    Aumento a voz de novo. Minha agresso parece deixar a rua pelada.
     Porra, por que voc fez isso, moleque? Marv desaba.
    Ele desaba dando a volta no carro bem depressa e entrando de novo. Se segurando. Marv chora baixinho.
    Parece at que suas mos esto se derramando no volante. As lgrimas tomam conta de sua cara. Elas do uma parada e saem cortando tudo em direo ao seu pescoo. 
Eu dou a volta.
     Marv?
    Espero.
     O que t pegando, Marv?
    Ele vira a cabea e me lana um olhar confuso.
     Entra a  ele diz.  Quero te mostrar uma parada.
    Na quarta tentativa, o Ford pega e Marv me leva pela cidade, pra l da Rua Edgar. As lgrimas jorram pela sua cara. Menos relutantes agora. Parecem bbadas. 
Paramos num casebre de sarrafo e Marv sai do carro. Eu vou atrs.
     Lembra disso?  ele pergunta.
    Eu me lembro.
     Suzanne Boyd  respondo.
    As palavras vo saindo devagar da boca do Marv. Sua cara fica meio sombria, coberta, mas ainda consigo ver os contornos, as formas.
 Quando a famlia dela saiu da cidade  ele continua , sumiu do mapa por um motivo...
 Ai, meu Deus  tento dizer, mas as palavras so aspiradas. No conseguem sair de dentro de mim.
    Marv fala uma ltima vez.
    Quando ele se mexe, uma luz da rua o golpeia e as palavras acabam jorrando feito sangue. Ele diz:
     O beb j t com mais ou menos dois anos e meio.
    Voltamos pro carro e sentamos em silncio por um bom tempo, e Marv comea a tremer sem controle. Geralmente, por fazer servio externo, Marv vive bronzeado, 
s que agora est branco feito papel.
    Agora tudo faz sentido.
    Consigo ver.
    Como palavras sendo digitadas na cara dele.
    Gravadas.
    Preto no branco.
     isso mesmo, tudo faz sentido.
    O carro pattico.
    O cuidado excessivo e a odiosa vigilncia com a grana.
    At mesmo a disposio argumentativa, pra usar uma frase do estilo de O Morro dos Ventos Uivantes. Marv est sofrendo, completamente s, e usa todas essas coisas 
pra varrer a culpa do estmago, todos os dias.
 Quero dar alguma coisa pra criana, entende? Quando ela estiver mais velha.
     Ela? Ento  uma menina?
     Cara, nem isso eu sei.
    Marv tira um pedao velho de papel da carteira. Quando ele desdobra o papel, percebo que o endereo foi escrito ali com muita fora, e ainda reforado vrias 
vezes pra nunca apagar.
    "Rua Cabramatta, 17, Auburn."
 Alguns amigos dela...  Marv diz inexpressivamente.  Quando a famlia desapareceu, procurei os amigos dela e implorei pra que me dissessem pra onde ela havia 
ido. Cara, que mico. Chorei na frente da casa da Sarah Bishop, pelo amor de Deus!  as palavras agora ecoam de sua boca, que parece parada. Quase dormente.  Ah, 
Suzanne... Minha doce Suzanne  ele solta uma risada sarcstica.  O pai dela era muito severo, aquele filho-da-puta... Mas ela conseguia dar umas escapadas algumas 
noites por semana, uma hora antes do amanhecer, e a gente ia at um campo velho onde um homem tinha um milharal  ele quase sorri agora.  Toda semana a gente pegava 
um cobertor, ia pra l e mandava ver mais de uma noite... Ela era to inteligente, Ed  ele olha diretamente pra mim, pois, j que vai me contar algo, quer fazer 
a coisa direito.  O gosto dela era muito bom, cara  o sorriso fica meio preso.  s vezes a gente arriscava e ficava at o sol nascer...
     Que histria bonita, Marv.
    Eu disse essa ltima frase com a cara virada pro pra-brisa  no d pra acreditar que estou levando esse tipo de papo com o Marv. Geralmente a gente discute 
pra mostrar nossa amizade.
 O cu laranja  Marv continua , a grama molhada... e eu sempre me lembro do calor dela. Dentro dela e na sua pele...
    Eu consigo imaginar bem, mas o Marv destri tudo instantaneamente, com um suspiro selvagem.
 Ento um belo dia encontrei a casa vazia. Fui l pro milharal, mas s encontrei os milhos.
    A garota engravidou.
    Nada estranho de acontecer aqui por estas bandas, mas obviamente nada que os Boyd consigam aceitar na boa.
    A famlia saiu da cidade.
    Nunca ningum disse nada nem sentiu falta dos Boyd. As pessoas esto sempre vindo e partindo. Quando conseguem fazer uma grana, saltam fora, se mudam pra um 
lugar melhor. Quando se do mal, se mudam pra um outro lugar to ruim quanto este, pra tentar a sorte em outras bandas.
    Marv diz depois:
 Acho que o pai dela ficou com vergonha de ter uma filha de 16 anos sendo enganada por um cara como eu. Acho que ele tinha razo de ser severo...
    Nesse ponto, no tenho a menor idia do que dizer.
 Eles saram da cidade, sem dizer praticamente nada  ele continua, e agora, quando me olha, sinto seus olhos na minha cara.  E j vivo com isso h trs anos.
    J vai acabar, penso, mas no tenho certeza. Parece mais uma esperana no escuro, ou desespero.
    Ele est mais calmo agora, mas se senta todo duro. Passa uma hora. Espero. E pergunto:
     Voc j foi at esse endereo a?
    Ele se enrijece mais ainda.
 No. J tentei, mas no consigo  e ento ele continua a contar a histria.  Mais ou menos uma semana depois daquele dia l na casa dos Bishop, Sarah me procurou 
l no trabalho. Ela me deu o bilhete e disse: "Prometi que no ia contar a ningum, muito menos a voc, s que no acho certo. Mas toma cuidado, Marv. O pai da Suzie 
disse que vai te matar se voc se aproximar um centmetro dela", e foi embora  a cara do Marv fica inexpressiva.  Tava chovendo naquele dia, eu me lembro. Tava 
caindo aquela garoa fininha.
     Sarah  aquela gatinha alta e morena?
 Isso mesmo. Depois do que ela disse, fui ate a cidade algumas vezes. Uma vez eu cheguei a ir com dez mil no bolso, pra ajudar.  s o que eu quero, Ed.
     Eu acredito, cara.
    Ele ento passa a mo no rosto e diz:
     Eu sei. Valeu, cara.
     P, quer dizer ento que voc nunca viu a criana?
 No. Nunca tive coragem nem de entrar na rua, sou um imbecil  ele comea a repetir , imbecil, imbecil  e gentilmente, firmemente, fecha o punho e soca o volante. 
Acho at que ele vai explodir a qualquer momento, mas o Marv no consegue encontrar fora pra qualquer expresso emotiva. Ele j passou dessa. H trs anos, desde 
que aquela garota foi embora, ele manteve uma fachada impecvel. Agora a tinta comea a descascar de seu rosto, deixando sua verdade no volante.
    Todo trmulo, ele diz:
 E este o meu estado s trs da manh, Ed. Todo dia. Vejo aquela garota  aquela garota pobrezinha e espetacular. s vezes vou at aquele milharal e caio de joelhos. 
Ouo meu corao batendo, mas eu no quero. Odeio as batidas do meu corao. So muito altas naquele campo. Elas caem. Direto de mim. Mas ento voltam, igualzinho 
como eram.

Eu ouo.
    Eu imagino.

As pernas dele se curvando.
    Suas calas se arrastando na terra.
    Ajoelhado l, com os joelhos ralados e com o corao na boca.
    O corao cai no cho perto dele, duro, e...
    Bate. Bate.
    Bate.
    Ele se recusa a morrer ou se esfriar, sempre voltando pro corpo do Marv. S que uma noite, com certeza, ele vai acabar sucumbindo.

 Cinqenta mil  Marv diz.  Vou parar quando chegar aos 50. No incio eram dez, depois passou prs 20, mas no consegui parar.
     No conseguiu parar de agir pela dor na conscincia.
   isso mesmo  ele faz algumas tentativas de dar partida e no fim a gente zarpa fora.  Mas no  a grana que vai me dar um jeito  ele pra no meio do caminho. 
Os freios queimam, e o rosto do Marv se ascende.  Quero tocar naquela criana...
     Voc tem que tocar nela mesmo.
     Tem muitas formas de conseguir isso.
     Mas s uma.
    Marv concorda, fazendo que sim com a cabea.

Quando ele me deixa em casa, a noite esfriou.
 Ei, Marv  digo logo depois que salto do carro. Ele olha pra mim.
     Eu vou com voc.
    Ele fecha os olhos.
    Faz que vai falar, mas no consegue. Melhor deixar assim por dizer.

  8        OLHO NO OLHO
  ?


  Amanh  o dia.
    Depois de entrar, vou pra sala e sento l, totalmente exausto, no sof. Quase cinco minutos depois, Marv me liga. Nem diz al e vai logo dizendo:
     Vamos amanh.
     Tipo umas seis horas?
     Eu passo pra te pegar.
     No. Vamos com o txi.
 Boa idia. Se eu levar uma surra,  melhor poder contar com um carro que d logo partida.

Chega a hora e samos s seis, chegando a Auburn perto das sete. Pegamos um trnsito pesado.
 Espero que a criana ainda esteja acordada  penso em voz alta.
    Marv no responde.

Ao parar o carro na Cabramatta, nmero 17, percebo logo de cara que os Boyd vieram morar num buraco bem parecido com a espelunca onde moravam antes. Estamos do outro 
lado da rua, num estilo tpico de mensageiro.
    Marv olha pro relgio.
     Vou entrar s sete e cinco. Sete e cinco vem e nada.
     T bem. Sete e dez.
     Tudo bem, Marv.

s 7:46, Marv sai do carro e d uma parada.
 Boa sorte  desejo. Caraa, d pra ouvir o corao dele batendo de dentro do carro. Nem sei como o corao no est espancando o cara at a morte.
    Ele fica l parado. Por trs minutos.
    Atravessa a rua. Duas tentativas.
    O jardim  diferente. Primeira tentativa  uma surpresa.
    Quatorze tentativas de bater na porta. Quando finalmente ouo o cara batendo na madeira, parece at contuses.
    Algum atende a porta, e o Marv l, de cala jeans, camisa bacana, botas. Falam alguma coisa, mas no d pra ouvir nada,  claro. Estou preso na memria das 
batidas do corao do Marv e da batida na porta.
    Ele entra e agora d pra ouvir o meu corao. Esta pode ser a maior espera de toda a minha vida, penso. S que estou enganado.
    Uns 30 segundos depois, Marv sai batido pela porta. Numa porrada s. O cara vem tropeando todo at o jardim. Henry Boyd, o pai de Suzanne, est dando uma coa 
que o Marv no vai esquecer to cedo. Um pouco de sangue escorre do Marv caindo na grama. Saio do txi.
    S pra voc ter uma idia, Henry Boyd no  um cara grande, mas  forto.
    E baixo, mas pesado.
    E o que no lhe falta  gs. Ele  uma verso em miniatura daquela mensagem l na Rua Edgar. S que tem um detalhe. Ele est sbrio e eu, desarmado.
    Quando estou atravessando a rua, o Marv est todo esparramado no jardim feito uma lagartixa.
    Ele  chutado,
    Com palavras.
     metralhado.
    Pelo dedo indicador de Henry Boyd, esticado em sua direo.
     Agora v se d o fora daqui!
    O baixinho, osso duro de roer, est de p ali sobre o Marv, e agora comea a esfregar as mos.
 Senhor  ouo o Marv suplicar. Apenas seus lbios se mexem. Nada mais Ele fala para o cu.  Tenho quase 50 mil...
    S que Henry Boyd no est nem a. Ele se aproxima pra ficar bem por cima do Marv.
    Tem uma criana chorando. Os vizinhos esto se juntando na rua. Saram todos pra assistir ao espetculo. Henry vira e manda todo mundo recolher-se  sua insignificncia 
turca. S estou repetindo aqui o que ele disse. As palavras dele, no as minhas.
 E voc!  ele castiga o Marv com sua voz de novo.  Nunca mais, nunca mais na sua vida volte aqui, t ouvindo?
    Chego e me agacho perto do Marv. Seu lbio superior est todo inchado e cheio de sangue. Ele no est l muito consciente.
     E quem diabos  voc?!
    Fodeu, penso, muito nervoso, acho que ele t falando comigo. Respondo rapidamente. Com respeito:
     S estou pegando meu amigo aqui de seu gramado.
     Boa idia.
    Agora vejo a Suzanne. Est segurando a mo de uma criancinha na porta. Uma menina. D vontade de gritar pro Marv: Vocs tm uma filhinha! Mas tenho uma idia 
melhor.
    Mexo a cabea cumprimentando a Suzanne.
     Suzie, entre!
    Ela responde ao meu cumprimento.
     Agora!
    A menina chora de novo.
    Ela se vai, e eu ajudo o Marv a se levantar. Tem uma gota de sangue em sua camisa.
    Henry Boyd est chorando de dio agora. Suas lgrimas perfuram seus olhos.
     Esse filho-da-puta trouxe vergonha pra minha famlia.
 Sua filha fez o mesmo  nem acredito nas palavras que estou ouvindo de minha prpria boca.
 Acho melhor vocs darem o fora, garoto, ou os dois voltaro pra casa feito irmos gmeos.
    Que timo.
 a que pergunto ao Marv se ele consegue se levantar. Ele consegue, e eu me aproximo de Henry Boyd. No sei se ele est muito acostumado com isso. Ele  baixo, 
mas, quanto mais a gente se aproxima dele, mais poderoso fica. Nesse ponto, ele est perplexo.
    Olho pra ele respeitosamente.
 Que criancinha linda que vocs tm l dentro  digo. Minha voz sai firme, sem tremer, isto  uma surpresa pra mim e me encoraja a continuar.  No  mesmo linda, 
senhor?
    Ele luta. Sei qual  o dilema em sua cabea. Ele est louco pra me estrangular, mas sente o cheiro da confiana estranha que veste tudo que eu digo. Ele ento 
acaba respondendo. Ele tem costeletas. Elas se mexem de leve antes de ele falar.
     Com certeza  uma lindeza.
    Agora aponto pro Marv, enquanto estou ali de p, o mais reto possvel, na frente do Sr. Boyd. Os braos dele balanam. So curtos e musculosos. Eu ento digo:
 Ele pode ter trazido vergonha pro senhor, e eu sei que vocs se mudaram por causa disso  mais uma vez, olho pra figura levemente ensangentada que  o Marv  
Mas o que ele acabou de fazer foi encarar o senhor: isso  respeito. Mais decncia e orgulho do que isso, impossvel  Marv treme e engole um pouco do sangue.  
Ele sabia que isso ia acontecer. Mas aqui t ele  agora olho bem nos olhos dele.  O senhor conseguiria fazer o mesmo que ele fez? Teria encarado o senhor?
    O homem fala baixo agora.
 Por favor  ele pede. Sinto uma tristeza muito grande por este homem. Ele tem sofrido.  V embora.
    Eu no vou.
    Fico ali mais uns minutos, dizendo: Pense bem nisso.
    No carro, percebo que estou s.
    Estou s porque um jovem com a boca ensangentada deu uns passos a mais. Andou pra frente, em direo  casa, e quem est na varanda  a garota com quem ele 
se encontrava no milharal e fazia amor at amanhecer.
    Esto se encarando. Olho no olho.


  9        OS BALANOS DO
  ?        PARQUINHO


  Passa uma semana.
    No txi daquela noite, voltando da Rua Cabramatta, Auburn, Marv ficou l parado, sangrando no meu banco de passageiro. Ele tocou na boca, o lbio abriu, e o 
sangue jorrou. Quando manchou o assento, dei uma bronca nele,  claro.
    Ele respondeu assim:

 Obrigado, Ed.

Acho que o cara ficou feliz por ainda ser tratado da mesma forma de sempre  embora nunca mais fssemos amigos como ramos antes. Agora temos isso gravado em nossas 
memrias.
    Enquanto estou saindo da TAXI LIVRE certa manh, Marge me pra. Ela vem correndo, fazendo sinal pra eu reduzir. Depois que paro e abaixo a janela, ela respira 
fundo e diz:
 Que bom que consegui te pegar. Ontem  noite ligaram pedindo servio pra voc, Ed. Pareceu pessoal  hoje percebi que a Marge tem uma porrada de rugas. De alguma 
forma, elas s aumentam sua simpatia.  Eu no quis transmitir nada pelo rdio mais tarde...
     Onde ?
 Era uma mulher, Ed, ou uma garota, e ela pediu que fosse voc, especificamente. s doze horas hoje.
    Eu sinto e sei.
     Rua Cabramatta? Auburn?
    Marge faz que sim com a cabea. Eu agradeo, e ela diz;
     De nada, lindo!
    E a primeira vontade que me d  ligar pro Marv e contar pra ele. Fico na minha. O cliente vem sempre em primeiro lugar. Eu sou profissional, est achando o 
qu? No. Em vez disso, dou uma passada pelo lugar onde ele est trabalhando atualmente, numa nova subdiviso l perto da Estrada da Glria.

Ao meio-dia, paro o carro na frente da casa de Suzanne Boyd. Ela sai de imediato com a filha e uma cadeirinha especial pra carro.
    Paramos por um instante.
    Suzanne tem um cabelo comprido, parece mel, e olhos da cor de caf, s que mais escuros do que os meus. Caf sem leite. Ela  bem magrinha. A filha tem a mesma 
cor de cabelo, mas ainda est bem curtinho. Ele cacheia ao redor da orelhinha, e ela sorri pra mim.
 Esse  o Ed Kennedy  a me diz pra ela.  Diz oi pra ele, linda.
     Oi, Ed Kennedy  a menininha diz. Eu me agacho.
     Qual  o seu nome?
    Ela tem os olhos do Marv.
     Melinda Boyd  a menina tem um sorriso lindo.
     Ela  uma graa  digo pra Suzanne.
     Obrigada.
    Ela abre a porta de trs e ajeita Melinda na cadeirinha. E quando me dou conta de que a Suzanne  me. Fico observando enquanto ela verifica se a menina est 
segura no assento. Ela continua linda como sempre.

Suzanne trabalha meio expediente. Odeia o pai. Ela se odeia por nunca lutar. Ela se arrepende de tudo.
 Mas eu amo a Melinda  diz.  Ela  a nica coisa linda no meio desta feira toda  Suzanne se senta ao lado da filha e olha pra mim pelo retrovisor.  Ela faz 
com que eu tenha certo valor, entende?
    Dou partida e sigo em frente.

Enquanto Melinda Boyd dorme, s se ouve o som do motor, mas, quando ela acorda, brinca, conversa e dana com as mos.
 Voc me odeia, Ed?  Suzanne pergunta quando a gente se aproxima do subrbio. Isso me faz lembrar da Audrey me perguntando a mesma coisa.
    S olho pelo retrovisor e digo:
     Por que eu deveria te odiar?
     Por causa do que fiz com o Marv.
    As palavras que me vm  cabea so bem sucintas. Talvez eu as tenha ensaiado inconscientemente:
 Voc era uma menina, Suzie. Marv era um garoto... E seu pai agiu como pai... De certa forma, tenho pena dele. O cara t supermagoado.
     , mas o que eu fiz com o Marv  imperdovel.
 Voc t aqui neste txi, no t?  olho de novo pra ela l atrs.
    Depois de pensar um pouco, Suzanne Boyd olha bem pra mim e diz, balanando a cabea:
 Sabe, Ed... voc foi a primeira pessoa que falou com meu pai desse jeito.
     E o Marv foi o primeiro a enfrentar o velho.
    Ela faz que sim com a cabea.

Digo que posso lev-la at o lugar onde o Marv est trabalhando, mas ela me pede pra parar num parquinho ali perto.
     Bem pensado  respondo, e a deixo esperando.

No canteiro de obras, o Marv est l em cima, cheio de pregos na boca, martelando. Aproveito que ele deu uma parada e grito:
     Acho melhor vir comigo, Marv.
    Ele v a inteno na minha cara, pausa, cospe os pregos, tira o cinto de ferramentas e vem se encontrar comigo. No carro, acho que ele est mais nervoso do que 
na outra noite.
    Quando chegamos no parquinho, samos do carro.
 Elas esto esperando  digo, mas acho que ele no escuta. Eu me sento na capota do meu txi e o Marv prossegue andando meio hesitante.
    A grama est seca e amarela, toda maltratada.  um parquinho velho. Um dos bons, com um escorrega de ferro bem grande, balanos com correntes e uma gangorra 
bem forte  direitinho como  pra ser. Nada de plstico em nenhum canto.
    Um ventinho suave mexe na grama.
    Quando o Marv se vira pra olhar pra mim, vejo o medo em seus olhos. Ele vai andando devagar at o brinquedo, onde Suzanne Boyd o aguarda. Melinda se senta em 
um dos balanos.
    Marv parece to grande.
    Seu andar, suas mos e sua preocupao.
    No ouo nada, mas d pra ver que eles esto levando um papo, e a mo enorme do Marv aperta a mozinha da filha. Est na cara que ele quer abraar a garotinha, 
mas ele se controla.
    Melinda pula de volta pro balano e, depois de olhar pra Suzanne pedindo permisso, Marv comea, com toda a delicadeza, a empurrar a filhinha no ar.
    Aps uns minutos, Suzanne sai de fininho e vem parar ao meu lado.
     Ele leva jeito com ela  ela diz suavemente.
 Leva mesmo  eu sorrio pelo meu amigo. Agora ouvimos a vozinha fina de Melinda:
     Mais alto, Marvin Harris! Mais alto, por favor!
    Ele vai aumentando a intensidade. Ele toca as costas da filha com as duas mos e a lana aos cus, toda sorridente.
    Quando ela se enche da brincadeira, Marv pra de balanar. A menina desce e agarra a mo dele, e traz o papai pra perto da gente. At mesmo de longe, d pra 
ver claramente que o Marv est com lgrimas no rosto.
    O sorriso do Marv e as lgrimas enormes em seu rosto esto entre as coisas mais lindas que j vi.

  10        AUDREY, PRIMEIRA PARTE:
  ?        TRS NOITES DE ESPERA



  Depois da aventura no parquinho, no consigo dormir naquela noite.
    A cada instante vejo o Marv empurrando aquela menininha no ar ou me lembro dele vindo em nossa direo, segurando na mozinha dela.
    Perto da meia-noite, ouo a voz do Marv na porta. Quando abro, ele est l parado, aparentando exatamente como est se sentindo.
 D um chega  ele diz e, quando saio, meu amigo Marvin Har-ris me abraa. O abrao  to apertado que d at pra sentir o cheiro dele, e o sabor da alegria que 
ele est transpirando.

Ento  isso. Tarefa cumprida com o Ritchie e com o Marv. Entreguei essas mensagens da melhor maneira possvel.
    Agora s falta mais uma.
    Audrey.
    No quero perder tempo. J percorri uma estrada bem longa desde o assalto. Dei conta de 11 mensagens, e essa  a ltima. A mais importante de todas.
    Na noite seguinte vou direto pra casa da Audrey e fico de butuca. Por um tempo, acho at que o Daryl vai dar as caras com o Keith mais uma vez, mas no aparecem, 
no. Eu sei o que estou fazendo, e sempre que isso acontece os caras me deixam em paz, na minha.
    No fico exatamente na frente da casa da Audrey, mas em um parquinho um pouco mais adiante. E um parquinho novo. Tudo pequeno e de plstico. A grama est aparada, 
toda maneirinha.
    A casa dela fica em um desses complexos com mais ou menos umas nove casas. Parece que esto todas grampeadas, grudadas umas nas outras. Os carros ficam estacionados 
em filas na frente.
Dou uma passada por l trs noites seguidas. O Simon sempre aparece, mas nunca me v acampando no parquinho. O cara est ocupado, pensando na Audrey e no programa 
que vo fazer. Mesmo de longe, aqui do parque, d pra ver seu desejo quando chega de carro.
    Depois que ele entra, eu me aproximo, at as caixas de correio, e dou uma olhada.
    Eles comem.
    Transam.
    Bebem.
    Transam de novo.

O som sai por baixo da porta enquanto estou l parado, lembrando o papo que levei com o Simon no Natal, quando ele me apanhou na Milla.
    Eu sei o que tenho que dar pra Audrey.
    Audrey no ama ningum.
    Ela se recusa a amar.
    Mas ela me ama.
    Ela me ama e vai chegar um momento em que ela vai ter que ceder. Ela precisa encarar. Admitir por completo. S por uma vez.

Passo as trs noites ali, at amanhecer. Simon sai antes do sol se firmar. Ele deve estar na lista dos taxistas pra fazer corrida na cidade de manh.
    Na terceira noite, eu penso.
    Amanh.
     isso.
    Vou fazer a parada amanh.

  J        MARV CHEGA S SUAS
  ?        CONCLUSES



  Um pouco antes de eu sair pra casa da Audrey na noite seguinte, o Marv aparece na porta da minha casa de novo, desta vez com uma pergunta.
    Eu saio e ele se recusa a me acompanhar.
    Da varanda, ele diz:
 Voc ainda t precisando daquela grana, Ed?  ele me olha, todo preocupado.  Desculpa a, cara. Eu esqueci dessa parada.
     Fica frio, brother. Acho que no vou mais precisar, no.
    Estou com um toca-fitas velho, caindo aos pedaos, embaixo do brao, com uma fita dentro.
    Quando comeo a andar, Marv me faz virar, aumentando o tom da voz.
    Ele olha pra mim, todo concentrado, e diz:
     Voc tava mesmo precisando da grana?
    Eu me aproximo dele.
     No, Marv  balano a cabea.  No tava, no.
 Ento por que...  ele desce as escadas pra me encarar melhor.
     Ento por que voc disse...
 Eu guardei aquela carta de baralho que recebi pelo correio, Marv  se o Ritchie mereceu a verdade, o Marv tambm merece. Explico tudo pra ele.  Marv, j passei 
por tudo quanto foi naipe: ouros, paus, espadas e ainda falta copas.
      onde eu...
     , Marv. Voc tava na carta de copas.
    Calado.
    Perplexo.
    Marv fica parado no meu jardim, sem a menor idia do que dizer, mas parece feliz.
    Quando j estou bem longe, ele grita:
     A Audrey  a ltima?
    Eu me viro e olho pra ele, andando pra trs.
     Boa sorte, Ed!
    Desta vez eu sorrio e aceno.

  Q        AUDREY, SEGUNDA
  ?        PARTE: S TRS MINUTOS



  Tudo acontece como de costume, s que hoje o rdio que eu trouxe transpira perto de mim enquanto a lua aparece, vai caindo e some quando a manh finalmente se 
aproxima. Por um instante eu me pergunto por que simplesmente no programei o despertador pra vir de madrugada, mas sei que tenho que fazer o negcio certo. Tive 
que sofrer  noite pra fazer tudo direitinho.
    Minhas pernas se esticam, mas a noite se estica mais ainda. A primeira luz me assusta.
    Estou quase indo dormir no parquinho quando escuto a porta bater e o carro do Simon dar partida. Ele sai da vila sem muito barulho, dirigindo meio tonto. Um 
minuto se passa, mas eu percebo que chegou a hora. Parece perfeito mesmo.
    O rdio. A luz.
    E, agora, meus passos em direo  porta da Audrey.
    Bato.
    Ningum atende.
    De novo, aperto o punho, mas, quando estou prestes a bater na porta mais uma vez, um estalo vem do corredor, e a voz cansada da Audrey sai atravs das frestas.
     Esqueceu alguma...  a voz dela se projeta.
     Sou eu  digo.
     Ed?
     .
     O que voc t...
    Minha camisa parece at concreto. Estou usando jeans de madeira, meias de lixa e sapatos de bigorna.
     T aqui por voc  digo bem baixinho.
    Audrey, a menina, a mulher, est usando uma camisola cor-de-rosa.
    Ela abre a porta e pra ali, descala, espantando o sono dos olhos com os punhos. Ela me lembra aquela menininha, Angelina.
    Pego em sua mo bem devagar e a trago pra fora. O peso j saiu de mim e agora somos s ns dois. Coloco o toca-fitas no jardim cheio de cascas, me abaixo e aperto 
o play.
    A princpio, um rudo de esttica paira no ar. Ento comea a msica e ouvimos o desespero lento, quieto e doce de uma cano que no vou dizer qual . Imagine 
a cano mais bonita, mais suave e mais forte que voc conhece, e vai ter uma idia. Respiramos o som, e nossos olhos se encontram.
    Chego mais perto e pego suas mos.
     Ed, o que...
     Shh.
    Eu a envolvo agora, passando os braos pelos seus quadris e ela me abraa tambm.
    Coloca a mo em volta do meu pescoo e descansa a cabea no meu ombro. Sinto o cheiro de sexo nela, e minha nica esperana  de que ela sinta o cheiro do amor 
em mim.
    A msica abaixa.
    A voz aumenta.
    Mais uma vez,  a msica de copas, a msica dos coraes  s que bem melhor desta vez  e a gente dana; a respirao da Audrey se acomoda no meu pescoo.
 Mmmm...  ela geme de leve, e danamos no caminho. Agarradinhos. Chega uma hora em que eu solto e a giro devagar. Quando ela retorna, d um beijinho no meu pescoo.
    D vontade de dizer: "Eu te amo", mas no  preciso.
    O cu flui com fogo, e eu dano com a Audrey. Mesmo depois que a msica acaba, a gente continua um pouquinho mais; acho que a gente danou por uns trs minutos.
    Trs minutos pra dizer que eu a amo.
    Trs minutos pra ela admitir que me ama tambm.
    Ela me diz quando nos soltamos um do outro, mas nenhuma palavra de amor sai de sua boca. Ela s meio que pisca o olho pra mim e diz:
     Quem diria, Ed Kennedy, hein?
    Dou um sorriso.
    Ela aponta pra mim e diz:
     Mas  s voc, no ?
   concordo. Olho os ps descalos da Audrey, seus tornozelos, suas canelas, e vou subindo at seu rosto. Tiro uma foto mental. Seus olhos cansados, cabelo bagunado 
cor de palha. O sorriso arranhando de leve seus lbios. As orelhinhas pequenas e seu narizinho fino. E os ltimos vestgios de amor, estranhamente ainda ali...
    Ela se permite me amar por trs minutos.
    Ser que trs minutos podem durar pra sempre?, eu me pergunto, mas j sabendo a resposta.
    Provavelmente no, respondo. Mas talvez durem tempo suficiente.

  K        O FIM
  ?



  Pego o toca-fitas e ficamos ali parados por mais uns instantes. Ela no me convida pra entrar, nem eu peo.
    O que era pra ser feito, foi feito; eu me viro e digo:
 Ento  isso. At logo, Audrey. Talvez a gente se veja no prximo jogo. Talvez antes.
 Vamos nos ver logo  ela garante, e com o toca-fitas embaixo do brao comeo minha caminhada de volta pra casa.

Entreguei 12 mensagens.
    Quatro ases completinhos.
    Esse  o melhor dia da minha vida.
    Estou vivo, penso. Eu venci. Sinto a liberdade pela primeira vez em meses, e um ar de alegria e contentamento me acompanha em todo o caminho. E at continua 
comigo quando entro em casa, beijo Porteiro e fao um cafezinho pra gente.
    Quando j bebemos quase tudo, a sensao muda completamente.
    No sei por que, mas a alegria some de uma hora pra outra quando Porteiro olha pra mim. Ouvimos um trinco se abrir e se fechar l fora e uma pessoa correr.

Saio pela porta bem devagar, vou at as escadas da frente e deso pro jardim.
    Minha caixa de correios est l. Levemente torta. Parece culpada.
    Meu corao dispara.

Sigo em frente e me arrepio todo quando abro a caixa.
    Ah no, penso. No, no. No!
    Minhas mos chegam at a caixa e meus dedos agarram um ltimo envelope. Vejo meu nome escrito e, dentro, j d pra ver.
    Tem uma ltima carta.
    Um ltimo endereo.
    Fecho os olhos e caio de joelhos no jardim.
    Meus pensamentos se estremecem.

Uma ltima carta.

Sem pensar, vou abrindo o envelope devagar, e, quando vejo o endereo, todos os pensamentos so cortados e abandonados. Est escrito:

Rua Shipping, nmero 26

Este endereo  meu.
A ltima mensagem  pra mim.

   PARTE      CINCO



          O CURINGA




   J        A RISADA




  A rua est vazia e silenciosa.
    O curinga ri pra mim.
    O nico som presente  o da risada silenciosa do palhao nas minhas mos. Ele chega a rugir.

A grama est coberta de suor e fico ali sozinho com o curinga entre os dedos. Esse tempo todo eles me vigiaram, mas eu nunca me senti to vulnervel ou julgado como 
agora.
    L dentro, penso desesperado. O que est aguardando l dentro?
 Entre l  digo, e vou andando pela grama suada, E claro que no quero entrar, mas no me resta outra escolha. Se tiver algum l dentro, no vou poder fazer nada. 
Meus ps midos marcam a varanda de cimento.
    Vou direto pra cozinha.
     Tem algum a?  grito.

    Mas.

    No tem ningum.

    Na.

    Minha cozinha.

    Na verdade, no tem ningum na casa, s mesmo Porteiro, o curinga e eu. Quase vou olhar embaixo da cama, mesmo sabendo que no combinaria com o estilo do que 
vem acontecendo. Os caras estariam tomando do meu caf, mijando no meu banheiro, tomando um banho ou coisa parecida. No tem nada nem ningum na minha casa. O silncio 
toma conta do ambiente at que Porteiro boceja e lambe os lbios.

Horas se passam at que tenho que ir trabalhar.
     Vai pra onde?
     Martin Place, por favor.

Cada passageiro que pego, fico entorpecido, e pela primeira vez rodo o dia inteiro sem falar com ningum. No falo sobre o tempo. No falo sobre quem ganhou no final 
de semana, sobre como esto as ruas, nem sobre nenhuma besteira que preencha o vazio dentro do txi,
    Este  o primeiro dia.
    O segundo  a mesma coisa.
    No terceiro dia, alguma coisa acontece.

Estou voltando pra casa e, quando chego num cruzamento, quase bato numa Kombi, que est tentando sair. Em vez de prestar ateno na Kombi, eu olho pra direita. O 
veculo d uma parada brusca, os freios gritam aos meus ps, e eu consigo parar a alguns centmetros da placa da Kombi.
    O curinga estava no banco do passageiro.
    Neste instante, ele sai voando.
    Vai parar no cho do carro.
    E solta uma gargalhada.

   J     AS SEMANAS




  Voc j alongou as pernas ou tocou nos dedos dos ps e tentou pra cacete? E esta a sensao que os dias e as semanas esto causando agora, enquanto eu trabalho 
e espero o curinga se revelar.
    O que vai acontecer na minha casa, na Rua Shipping, nmero 26?
    Quem vai chegar?

No dia 7 de fevereiro, algum bate na porta, e eu meio que corro, meio que paro enquanto estou indo atender. Ser que  agora?
     a Audrey.

Ela entra e diz:
 Voc anda quieto ultimamente, Ed. O Marv diz que t tentando te ligar, mas no te encontra em casa.
     T trabalhando pra caramba.
     O que mais?
     Esperando.
    Ela se senta no sof e pergunta:
     Esperando o qu?
    Sem a menor pressa, eu me levanto e vou at a gaveta no quarto e pego as quatro cartas. Quando volto pra sala, repasso todas elas:
 Ouros, misso cumprida  eu solto a carta e a vejo voar at o cho.  Paus, misso cumprida  mais uma vez, a carta vai parar no carpete.  Espadas e copas, as 
duas cumpridas.
 E agora?  Audrey v que eu estou plido e abatido. Tiro ento o curinga do bolso.
 E agora isso  explico. E imploro. Quase choro quando continuo.  Me diz uma coisa, Audrey; por favor, me diz que  voc. Diga que  voc que vem mandando estas 
cartas. Diga que voc s queria que eu ajudasse as pessoas e...
     E o que, Ed?
    Fecho os olhos.
     Melhorasse um pouco como pessoa, fazendo eu me sentir til.
    As palavras caem no cho, onde esto as cartas, e Audrey sorri. Ela sorri, e eu fico s esperando que ela admita.
     Diga, Audrey! Diga...
    Ela responde.
    Ela diz a verdade.
    As palavras fluem quase que inconscientemente de sua boca.
 No, Ed  diz lentamente.  No fui eu  ela balana a cabea e olha pra mim.  Desculpa, Ed. Desculpa mesmo. Antes fosse eu, mas...
    Ela no termina a frase.

   J        O FIM NO  O FIM




  Finalmente, chega a hora.
    Outra batida chacoalha minha porta, e eu sei que  agora.  tarde, a mo  bem firme, e eu calo os sapatos antes de atender.
    Respire fundo, Ed.
    Eu respiro.
 Fique aqui  digo pro Porteiro quando a gente se esbarra no corredor, mas ele me segue at a porta.
     Ed Kennedy?
     um careca com um bigode enorme.
     Sim  respondo.
    Ele se aproxima e diz:
     Eu tenho uma coisa pra voc, posso entrar?
    Ele  bem-educado e simptico, e decido que, se quer entrar, melhor deix-lo entrar. Ando pro lado, abrindo caminho pra ele passar.  um sujeito alto, de meia-idade, 
com uma fala educada e uma voz firme.
     Aceita um caf?  ofereo, mas ele recusa.
     No, obrigado.
 a primeira vez que vejo a maleta em sua mo. Ele se senta e abre a maleta, onde traz um almoo embrulhado, uma ma e um envelope.
     Aceita um sanduche?  ele oferece.
     No, obrigado.
 Garoto esperto. O sanduche que minha esposa prepara  um horror... Eu no tive estmago pra comer hoje.
    Ele vai direto ao ponto, me passando o envelope.
     Obrigado  falo todo ansioso.
     Voc vai abrir?
     Quem te mandou aqui?
    Olho bem firme pra ele, e o homem fica surpreso por um instante.
     Abra.
     Quem te mandou?
    S que no consigo mais me controlar. Meus dedos vo se enfiando no envelope e ento dou de cara com a caligrafia j conhecida.

        Caro Ed,
        O fim est prximo.
        Acho melhor voc se dirigir ao cemitrio.

 Ao cemitrio?  pergunto, e sei que amanh faz exatamente um ano que meu pai morreu.
    Meu pai.
     Meu pai  digo pro homem.  Foi ele, cara?
     No sei do que voc t falando.
     Por que no?  eu quase agarro o sujeito.
     Eu...
     O qu?
     Recebi ordens de vir aqui.
     Ordens de quem?
    Mas o cara s abaixa a cabea. Fala as palavras com muita firmeza.
     No sei. No sei quem ele ...
 Meu pai tava por trs disso? Ele deixou tudo isso organizado antes de morrer? Ele...
    Ouo o que minha me me disse no ano passado.
    "Voc  igualzinho a ele."
    Ser que meu pai deixou instrues para algum organizar isso? Eu me lembro de t-lo visto andando pelas ruas  noite enquanto eu dirigia o txi. Ele andava 
pra se livrar do efeito do lcool. De vez em quando eu lhe dava uma carona enquanto ele voltava do pub, indo pra casa...
      por isso que ele sabia do endereo  digo em voz alta.
     O qu?
 Nada  respondo, e no digo mais nada, pois j estou saindo. Estou correndo pela rua, direto pro cemitrio. Est fazendo uma daquelas noites bem escuras, preto-azuladas. 
As nuvens pesadas feito concreto pairam no cu, formando um teto em camadas.
    Vou me aproximando do cemitrio e me viro pra rea onde se encontra o tmulo do meu pai. Tem uns seguranas parados l perto. So mesmo seguranas?

No.

So Daryl e Keith.
    Dou uma parada, e eles me observam. Daryl fala.
     Meus parabns, Ed. Recupero o flego.
     Meu pai?
 Voc  igual a ele  Keith me explica.  E, como ele, era provvel que morresse da mesma forma: um quarto do que voc poderia ter sido...
 Ento ele enviou vocs pra fazer isso? Deixou tudo organizado antes de morrer?
    Daryl responde, se aproximando.
 Sabe, Ed, voc sempre foi um zero  esquerda, igualzinho ao seu velho. Sem querer ofender.
     Tudo bem.
 E fomos contratados pra te testar... pra ver se voc consegue evitar esta vida  ele aponta pro tmulo.
    Keith se aproxima e diz:
     O nico problema  que no foi seu pai quem nos enviou.

Leva um tempo pra eu digerir isso.
    No  a Audrey. No  meu pai.
    De repente, comeo a me sentir como se surgissem milhares de perguntas na minha frente, como se fosse uma porrada de gente saindo de um estdio de futebol ou 
de um show de rock: empurrando, dando cotoveladas, puxando, dando tropeadas. Algumas conseguem sair. Outras ficam sentadas esperando pintar uma oportunidade de 
se levantarem.
 Ento o que vocs esto fazendo aqui? Como sabiam que eu estaria exatamente aqui neste exato momento?
     O chefe nos mandou  Daryl responde.
 Ele nos disse que voc estaria aqui  Keith fala de novo. Esto trabalhando bem hoje.  Ento ns viemos  ele sorri pra mim, quase que com pena.  Ele ainda no 
errou nenhuma.
    Tento pensar, pra ver se entendo essa parada toda.
 Bem  comeo, mas parece que no tenho mais nenhuma palavra pra dar continuidade  frase. Ento acho algo.  Quem  o chefe de vocs?
    Daryl balana a cabea de um lado para o outro.
 No sabemos, Ed. S cumprimos ordens  ele comea a concluir as coisas.
 Mas  isso mesmo, Ed. Voc foi enviado aqui hoje pra se lembrar de que voc no quer morrer como seu pai. T entendendo?
    Fao que sim com a cabea.
 E agora temos uma ltima coisinha pra te dizer, e ento vamos desaparecer de sua vida pra sempre.
    Eu me preparo pra ouvir com toda ateno.
     O que ?
    Eles j comeam a se afastar, indo embora.
      que voc vai ter ainda que esperar mais um pouco, falou?
    Fico l parado.
    O que mais posso fazer alm de ficar l parado?
    Vejo Daryl e Keith sumirem tranqilamente pela noite. Eles se foram, e eu jamais os verei novamente.
 Obrigado  digo, mas no d pra eles me ouvirem. Que pena que eles nunca vo ouvir o agradecimento.

Depois de alguns dias, percebo que no tem mais nada que eu possa fazer alm de esperar. J estou quase desistindo quando, numa madrugada, estou voltando do trabalho. 
Um cara novo faz sinal. Ele usa uma cala jeans, uma jaqueta e um bon.
    Ele entra e se senta atrs.
    Como sempre.
    Pergunto onde ele vai ficar.
    Como sempre.
    Ento ele responde.
     Rua Shipping, nmero 26.
    Essa  nova.

As palavras me paralisam e eu quase paro o carro.
 Siga em frente, Ed  s que ele no levanta a cabea.  Como eu disse: Rua Shipping, nmero 26.
    Sigo em frente.
    Ficamos calados o tempo todo, at chegarmos no subrbio. Estou dirigindo com cuidado, com os olhos nervosos e o corao quase na boca.
    Viro na minha rua e paro na minha casa.
    Finalmente, a pessoa atrs tira o bon e levanta a cabea pra que eu o veja pela primeira vez, no retrovisor.
      voc  eu grito.
     Sim.
    Estou muito mais do que chocado ou surpreso. Mal consigo pensar ou reagir, pois no banco de trs do meu txi est o assaltante azarado do comeo desta histria. 
O bigodinho ruivo ainda est l e ele continua feio como sempre.
 Os seis meses acabaram  ele explica. Desta vez, parece simptico.
     Mas...
 No faa perguntas  ele interrompe.  S dirija. Me leve pra Rua Edgar, nmero 45.
    Eu obedeo.
     T lembrado deste lugar?
    Eu lembro.
 Agora vamos pra Avenida Harrison, nmero 13  e ento o assaltante azarado me leva pra cada um dos lugares, um a um. Passamos pela Milla, Sophie, pelo padre e 
Angie Carusso, e pelos irmos Rose.
 T lembrado?  ele me pergunta cada vez que passamos por um deles.
     T, sim  respondo.
     Bom. Agora vamos pra Estrada da Glria.
     Rua Fantoche, e pra casa da tua me.
     Rua Redoma.
     E voc sabe quais so as ltimas trs.
    Dirigimos pelas ruas da cidade enquanto o sol vai esquentando. Vamos at a casa do Ritchie, passamos pelo parquinho com a grama maltratada e pela casa da Audrey. 
Em cada lugar, vou me lembrando de tudo enquanto dirijo. s vezes d vontade de parar e ficar l.
    Ficaria pra sempre.
    Com o Ritchie no rio.
    Com o Marv nos balanos.
    E danando com a Audrey no fogo silencioso da manh.
 Pra onde vamos agora?  pergunto quando voltamos pra minha casa.

 Saia  ele manda, e agora no d pra evitar.
    Digo:
     Foi voc, no foi? Voc assaltou o banco sabendo que...
     D pra calar a boca, Ed?
    Paramos ao lado do txi embaixo do sol da manh.
    Metodicamente, ele tira alguma coisa do bolso da jaqueta. E um espelhinho.

 T lembrado do que eu te falei no meu julgamento, Ed?
 T lembrado, sim  e, por algum motivo, sinto um calor nos olhos.
     Diga a o que foi.
 Voc disse que, toda vez que eu me olhasse no espelho, deveria lembrar que tava olhando para um homem morto.
     Isso mesmo.
    O ladro azarado vem e pra na minha frente. D um sorrisinho e levanta o espelho pra mim. Eu olho pra mim mesmo. Ele diz:
     Voc t olhando pra um homem morto agora?

Numa enxurrada dentro de mim, vejo todos aqueles lugares e pessoas de novo. Abrao a criana na varanda de sua casa e me passo por Jimmy para uma velhinha maravilhosa. 
Vejo uma garota correndo com os mais lindos ps ensangentados do mundo.
    Acho graa da empolgao estampada na cara de um homem religioso. Vejo os lbios de Angie Carusso cheios de sorvete e sinto a lealdade dos irmos Rose. Vejo 
a escurido de uma famlia ascender o poder e a glria, permito que minha me liberte a verdade, o amor e a decepo de sua vida, e me sento no cinema de um homem 
solitrio.
    Olhando pro espelho, estou parado num rio com meu amigo. Vejo o Marvin Harris empurrando a filha pro alto num balano, e dano com amor e com a Audrey por trs 
minutos sem parar...

 E a?  ele pergunta de novo,  Voc ainda t olhando para um homem morto?
    Desta vez, eu respondo.
     No.
    E o criminoso fala:
     Bem, ento valeu a pena...
    Ele foi pra cadeia por causa dessas pessoas.
    Ele foi pra cadeia por minha causa, e, agora, ele se vai com umas palavrinhas finais.
     Adeus, Ed. Acho melhor voc entrar. E ele vai embora.
    Assim como Daryl e Keith, nunca mais vou ver este cara.

   J         A PASTA




  Com o mximo de calma possvel, entro em casa. A porta da frente estava aberta.
    No meu sof, est um cara novo, tranqilo e contente, acariciando Porteiro.
     Quem ...
     Oi, Ed.  bom conhecer voc finalmente.
     Voc ...
    Ele faz que sim com a cabea.
     Voc mandou...
    Ele faz que sim de novo.
    Quando ele se levanta, diz:
     Cheguei nesta cidade um ano atrs, Ed.
    O cabelo dele  bem curto, castanho, ele  baixinho e est com uma camisa, cala jeans preta e tnis azul. A cada minuto que passa, ele vai parecendo mais com 
um garoto do que com um homem, embora sua voz no seja de menino.
 E, foi mais ou menos h um ano, e eu vi seu pai enterrado. Vi voc e seus carteados, seu cachorro e sua me. Toda vez eu dava uma passada aqui, ficava olhando, 
o mesmo que voc fez nesses endereos...  ele se vira por um instante, quase envergonhado.  Eu matei seu pai, Ed. Organizei o assalto fajuto pra quando voc fosse 
l. Mandei aquele homem brutalizar a esposa. Mandei Daryl e Keith fazer todas aquelas coisas com voc, e seu amigo que te levou at as pedras...  ele olha pra baixo 
e ento levanta a cabea.  Fiz isso tudo com voc. Transformei voc num taxista pra l de incompetente e o forcei a fazer todas aquelas coisas que voc achava que 
no conseguiria  agora ficamos ali parados, olhando um pro outro. Esperando mais palavras.  E por qu?  ele pra, mas no se mexe pra trs.  Eu fiz isso porque 
voc  o verdadeiro smbolo e modelo da banalidade, Ed  ele me olha todo srio.  E se um cara como voc consegue fazer o que voc fez por toda essa gente, talvez 
todo mundo consiga. Talvez todos possam superar seus prprios limites de capacidade  ele agora se empolga. Fica emotivo. Isso  tudo.  Talvez at eu consiga...

Ele volta pro sof.
    Tenho de novo a sensao de que a cidade  minha volta  fictcia, inventada. Ser que isso est acontecendo?
    Est sim, e o cara est bem ali, passando a mo no cabelo.
    Calmamente, ele se levanta e olha pro sof. Tem uma pasta amarela, meio desbotada, sobre a almofada.
 Est tudo a  ele diz.  Tudo. Tudo que escrevi pra voc. Todas as idias que tive. Cada pessoa que voc ajudou, machucou ou encontrou por acaso.
     Mas...  as palavras parecem no querer sair.  Como?
 At isto  ele responde  est a dentro: esta discusso.
    E fico ali, chocado, impressionado, passado.
    Depois de um tempo, acabo conseguindo voltar a falar.
     Eu sou real?
    Ele nem pensa. No precisa.
     Olhe na pasta. No final. T vendo?
    Nuns garranchos bem grandes no lado em branco do porta-copo, est escrita. Sua resposta est escrita ali de caneta preta: "E claro que voc  real  como qualquer 
pensamento ou qualquer histria.  real quando voc participa."
 Melhor eu ir nessa. Voc provavelmente t querendo analisar o contedo da pasta e ver se tem consistncia. T tudo a.
    Por um momento, eu me desespero. E a sensao que a pessoa tem, parecendo que est caindo, quando tem certeza de que perdeu o controle do carro, ou cometeu um 
erro que no tem como reparar.
 O que fao agora?  pergunto desesperado.  Diga! O que fao agora?
    Ele continua calmo e tranqilo.
    Olha bem pra mim e diz:
 Continue vivendo, Ed... S as pginas  que param por aqui.

Ele fica por mais uns dez minutos, talvez, provavelmente por causa do trauma que me abateu. Permaneo de p, tentando pensar e me recuperar do que acabou de rolar.
 Acho melhor eu ir embora  ele diz novamente, desta vez com mais firmeza.
    Com dificuldade, eu o acompanho at a porta.
    A gente se despede na varanda, e ele volta pra rua.
    Eu me dou conta de que ainda no sei como ele se chama, mas com certeza no vai demorar muito pra eu descobrir.

Tenho certeza de que o safado escreveu sobre isso. Tudinho.
    Enquanto caminha pela rua, ele tira um caderninho do bolso e escreve alguma coisa.
    Isso me faz pensar que talvez eu mesmo devesse escrever sobre tudo isso. Afinal, fui eu quem fez todo o trabalho.
    Eu comearia pelo assalto ao banco.
    Mais ou menos assim: "O assaltante  um man."
    S que, muito provavelmente, ele j me ganhou nessa.
    No ser o meu nome na capa de todas essas palavras, mas sim o dele.
     ele quem vai levar o trofu.
    Ou ovo podre, se o trabalho sair uma droga.
    Mas lembre que fui eu  no ele  quem deu vida a estas pginas. Fui eu quem...
    Ah, pra de se queixar, Ed, uma voz interna me diz.
     uma voz familiar.

Passo o dia pensando numa porrada de coisas, por mais que eu tente no pensar. Dou uma olhada na pasta e encontro tudo como ele disse. Todas as idias esto escritas 
e as pessoas esto esboadas. Uns trechos malfeitos esto rabiscados em pedaos de papel, todos grampeados. Incios e finais se misturam.
    As horas vo passando.
    Os dias se seguem.
    No saio de casa nem atendo o telefone. Mal consigo comer. Porteiro fica ali comigo, enquanto os minutos vo passando.
    Por um bom tempo, eu me pergunto o que estou esperando, mas entendo que  exatamente como ele disse.
    Acho que  pra vida inteira, alm destas pginas.

   J        A MENSAGEM




  Uma tarde, ouo o que parece ser a ltima batida na minha porta:  a Audrey, parada ali na minha varanda rachada.
    Ela d uma olhadinha rpida com os olhos frouxos e pergunta se pode entrar.
    No corredor, ela fecha e se encosta na porta e pergunta:
     Posso ficar, Ed?
 Claro que voc pode passar a noite  mas ela balana a cabea, e seus olhos frouxos finalmente caem. Audrey se aproxima de mim.
     No  s esta noite. Pra sempre.
    A gente afunda no cho do corredor, e Audrey me beija. Seus lbios se juntam aos meus e sinto o sabor de seu hlito; eu o engulo e quero mais. Sua respirao 
penetra em mim e despeja correntes e mais correntes de sua beleza. Seguro seu cabelo amarelo. Passo a mo em seu pescoo macio, e ela continua a me beijar.  isso 
que ela quer.
    Quando terminamos, Porteiro se aproxima e se acomoda ao meu lado.
 Oi, Porteiro  Audrey diz, e, mais uma vez, seus olhos brilham. Ela est radiante.
    Porteiro olha pra gente. Ele  o sbio. Ele e a sabedoria.
    J estava mais do que na hora, gente!, ele diz.

Ficamos no corredor por quase uma hora, e eu conto tudo pra Audrey. Ela escuta atentamente enquanto acaricia Porteiro, e ela acredita em mim. Percebo que Audrey 
sempre acreditou.
    Estou prestes a relaxar completamente quando uma pergunta final surge de novo.
     A pasta  digo.
    Eu me levanto e corro ate a sala. De joelhos, dou uma olhada na pasta, incessantemente. Eu me sento e vou passando as pginas. Vou passando e remexendo, analisando 
os papis soltos.
     O que voc t fazendo?  Audrey pergunta.
    Ela veio pra sala e agora est de p atrs de mim.
    Eu me viro e olho pra ela.
 T procurando isto aqui  respondo. Balano a mo pra ns dois.  T procurando por ns dois juntos.
    E Audrey se agacha. Ela se ajoelha comigo e segura na minha mo, pra me fazer largar os papis.
 Acho que no t a  diz suavemente.  Eu acho, Ed...  ela agora segura meu rosto com as mos. A luz laranja do final de tarde est direto nela.  Acho que isso 
s diz respeito a gente.

J anoiteceu, ns trs  Audrey, eu e Porteiro  tomamos um cafezinho na varanda. Ele sorri pra mim quando termina e cai no seu sono tranqilo de sempre, perto da 
porta. A cafena no faz mais efeito nele.
    Os dedos da Audrey se seguram aos meus, a luz permanece acesa um pouco mais, e ouo de novo as palavras que ouvi hoje de manh.
    "Se um cara como voc consegue fazer o que voc fez, talvez todo mundo consiga. Talvez todos possam superar seus prprios limites de capacidade."

E  a que a ficha cai.
    Em um belo, doce e cruel momento de clareza, eu sorrio, olho pra uma rachadura no cimento e digo pra Audrey e pro Porteiro adormecido. Digo o que estou lhe dizendo:
    Eu no sou o mensageiro.

Eu sou a mensagem.



Fim
Digitalizao, reviso e formatao:
dayse duarte






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